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poesia para a vida

o brilho dos olhos... vai embora como cachorro desprezado se a gente não cuida de manter as paixões -------- de repente um dia você acorda e o mundo começa a existir mas aí já é tarde e só te resta aposentar o corpo morre antes guri, pra não ver que perdeu a vida ou trate de viver agora que o sonho já está logo ali quando você virar a esquina, ele acenará -------- a alegria se inscreve por si mesma portanto, procurá-la, é passatempo das fraquezas é ela quem vem de encontro não se acha na gaveta, nem na mala, nem num canto quem espalhou que a dúvida é benefício é porque cedeu a mão ao medo e esqueceu que a alegria não duvida medo de ir exatamente onde se deve ir - e exato não é preciso mesmo que esse onde deixe de ser depois aquele onde de agora - que é somente um onde do instante, para se tornar o que já foi e não é mais há coisas que não podem prolongar-se pois não há prolongamento possível àquilo para o qual já é ne...

Mauá

tenho em mim uma cicatriz da Maromba com que me presenteou o Escorrega acima da flor de lótus residirá eterna como a tatuagem a alegria de repente ganha forma no meu corpo porque aquele lugar também é meu corpo e meu corpo é a pedra e o rio Preto meu sangue correu por ele, já deve ter chegado ao mar faz tempo meu sangue e o mar são agora um assim também meu corpo, toda Mauá, o rio, as pedras, a mata, os entes, as estrelas somos todos um único corpo modos da substância tão bela quanto mais indiferente consigo concebê-la e a flor residirá a expelir a cicatriz para sempre enquanto meu corpo resistir a entrega final e meu sangue estará lá, no rio, no mar, na chuva que cairá após os dias quentes de sol para voltar à terra e fazê-la mãe de uma árvore frutífera

oops

já acordo em sobressaltos meus múltiplos fluxos não deixam barato vapor reagir pra quê? melhor é ir de mãos dadas parar de forma alguma ligar a TV jamais usá-la como móvel para suportar flores e um gnomo palavras, projetos starta tudo ao mesmo tempo a vida escorre como aventura perigosa que dá fome e faz neblina e quando tudo se aquieta medito e alongo o corpo desejoso paro sem parar paro sem estagnar o olhar paro para não ouvir as vozes rabugentas e os pensamentos secretos do âncora do jornal pego a vassoura e o enxoto como bicho que não se quer músicas, só as que desejo aquelas músicas! sons? do vento, das vozes amigas, do pensamento que persiste calor? dos corpos, do sol e da arte o das luzes artificiais que fique para os cegos água pra todos os lados para lavar com os meus santos os alheios velas para criar penumbra, incensos para remeter mato, muito mato, e chuva fina no telhado bora correr na rua? pintar o hidrante e fazer...

novos fragmentos

há poetas que só falam do povo outros que só falam de si mesmos os que falam do povo argumentam que a verdade do artista está em ser a voz do povo os que falam de si mesmos argumentam que a verdade está em ouvir a voz interior mas desconfio que cada um de nós é o universo inteiro e todas as verdades e que falar do povo é sempre falar de si mesmo --- deixei abertas todas as janelas que importa a poeira? me importa o vento poeira faz parte do vento

raro

raro, não se decomponha em dor escape pela criação sua força reside no suor e na palavra em um amor imenso que talvez nem consiga ver amor-território lembre-se do território fuja, mas retorne diferente grande, esbelto, esguio, prazeroso porque só há prazer em você saliva, corpo inteiro, sentidos, há mais do que te fizeram crer há o que você já sabe vá, corra dance respire alongue o mundo é seu todo seu e o amor é fácil nisso que esboça naquilo que permite até mesmo no que ainda não sabe está no corpo é um calor sentido é um desejo inevitável é vida,   vida que pulsa nas veias no nervo, nos cabelos, nas pernas que encontro no peito carregado de pulsações vida que cresce e quer tomar forma vida que grita e quer nada além do que ela mesma em você

palavras e coisas

algumas palavras não mais compõem meu vocabulário não sou literata, sou poeta e poeta não precisa da linguagem-objeto as palavras me são as coisas voltei no tempo para me transformar em mago se me prendem, definho meu coraçãozinho livre sofre e se esvai a força não antes, claro, de rir muito alto e produzir afetos que lhe parecerão insuportáveis se me obrigo, morro mas me dê sal, ervas, um tambor e chocolate e faço o universo cate comigo conchas no fundo do mar e me entrego me conte desejos e projetos e derreto toda afinal, sou poeta porque digo que sou assim como apenas simone e sartre poderiam dizer que eram um casal quero cada vez mais os elementos e o sentido da vida que vá para o inferno já achei o meu a astrologia me é tão séria quanto sua ciência amo a música e as imagens com a mesma intensidade e minha religião é feita de terra, sangue e maresia no meu panteão, cristo é irmão de dionísio e pouco me importa o que você pensa que ...

eu, o que é e se desfaz

a vida é uma brincadeira, definitivamente e, de fato, é só isso que posso encontrar de definitivo no mais, tudo o que tomamos como necessário necessita de tanto peso e solenidade que me faz bocejar não é possível aos presentes ouvir um professor que exale poesia em aula de administração muito menos ao moço de sapatos marrom que mesmo no elevador parece correr pelas ruas da cidade carrega uma pasta preta, sei bem o que tem lá dentro dor, dúvida, um coração aflito e um macho ressentido mais cedo presenciei apatias vi aqueles que lêem fernando como bula de remédio incapazes de rir do pão de queijo que cai aos seus pés como se fosse a cabeça de um cogumelo rolando repreenderam o riso desinibido que o poeta compartilharia conosco ao ler suas próprias palavras mas quem sou, ora pois, para sair por aí dizendo tudo isso? eu que nasci sob o mesmo signo, mas cujos heterônimos não me tenho claros? de qualquer forma, que interessa! eu, aquilo que sente, pode ...