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um novo poema egocêntrico

não sei mais o que sou e gosto dói mas gosto e tem gosto eu medito e tenho plantas pra cuidar eu escrevo falo tudo é exagerado até o meu silêncio, quando vem é exagero eu sou ansiedade de querer pra ontem e acalmo o anseio com chá de capim limão a cada dia sou imperfeição não cumpro promessas e não posso dizer que não porque pode ser que sim tive uma banda chamada móbile tenho um projeto chamado móbile tenho uma música chamada móbile destino imperfeito de ser levada pelo vento eu sou espiral no tempo

O amor com cheiro de asfalto

apesar do sangue que escorre de suas veias a poesia vence em suas vielas de onde vemos ascender arranha-céus harmoniosos com o passado belo na sua tela-realidade cidade favela que constrói arquitetura prazer que não se cansa de ser cela aberta do corpo de verão e na linha do olhar sempre ele, o mar impondo-se a bater na pedra de onde surgem as imprecisas montanhas por onde o sol se põe alucinado e nos faz chorar pela beleza alegria mesmo nos cantos sujos do seu belo centro encanto arcos que nos protegem da sombria flor do desespero e nos une em carnaval vencida estou por esse amor bandido que até quando tudo parece perdido Rio de Janeiro você me diz que é possível

nosso amor

o nosso amor foi um lampejo de luz no meio dos tempos longos, cinzas e pesados em que vive o mundo ele foi correnteza ensandecida de desejo que começou sem o tempo da espera nós fomos pressa e enlouquecemos o delírio dos amantes o nosso amor delirou foi errante subiu alto e explodiu e hoje quem sabe o que nos aguarda nas horas incertas das madrugadas... o nosso amor foi brisa de verão e ventania invernal até que, tornado, levou a casa, o cachorro e a calmaria ele cumpriu aquele desígnio do universo de ser eterno no presente e eternamente no presente fomos e agora somos cada um, as nossas próprias madrugadas solitárias com o mundo a nossa volta nosso amor, como todo amor um dia, sofreu a doce e dolorosa desventura do fim que sempre abre os olhos inquietos dos deuses para dias hesitantes por vir e esperamos a calma cada qual na sua estrada sabendo que tudo que começa, termina e que, para terminar, antes precisa c...

ninho

minha casa está aberta para o mundo mas não deveria sempre ser assim!? porque a casa está na terra, mas tem portas e janelas minha casa tem memória e saudade uma parede vermelha uma  parede amarela tanta gente e tantos lugares minha casa tem presente e um futuro esplendoroso tem apenas eu nesta hora mas estão todos aqui amigos, amores, família filmes, discos e livros tudo aquilo que ou nos amarra ou nos liberta prefiro abrir as gaiolas pássaros só os que vem de fora minha casa tem cerveja e gengibre na geladeira chá de hortelã e pé de alecrim tem suco de caju e de uva vinho que não se dispensa tapete colorido e insanidade boa agora minha janela leva meus sonhos por aí tem bandeira de oração presente de coração a minha casa tem sofá pra meditar bicicleta dobrada na sala pertinho da porta pronta pra sair tem xilogravura livro de arte guarda-chuva Mondrian tem fotos incenso, Buda, artesanato ...

poesia de domingo

domingo é o dia do possível quando a semana se renova e a gente deve regá-la é dia de calma, de flor, de livro tudo é mais fácil num domingo e nos de sol... ainda mais possível domingo foi dia de luz de almoço entre amigos abraço apertado saudade expressada sem medo um domingo enfim com Caymmi e abará histórias pra contar e rir muitos discos pra encantar jogos que inventamos culinária lúdica feita com amor domingo, olha só rima com lindo gostosura esse viver assim sem fim sem tempo sem nada que impeça a alegria um domingo ao fim de lua essa amiga dos poetas que brilha no mar e nina o coração um domingo se vai mas outros virão rima simples assim

da música que ouço agora

esse comunicar das músicas estranha telepatia eu aqui, você aí e de resto o mundo todo vivendo e girando sem fim um dia vai explodir? dor pra todo lado corações despedaçados neblina o que você quer de mim? ou melhor seria o que eu quero de você? mas as cores ainda existem e são muitas as árvores continuam crescendo (quando não são cortadas) os coelhos procriam os botos trepam por prazer e as libélulas não cessam de voar no ártico dizem que o efeito estufa derrete os icebergs mas ainda há gelo de sobra... e lá do outro lado do mundo algum mestre espera o seu discípulo o tempo não pára a vida corre feito um trem disparatado é poesia pra todo lado no mar então, nem se fala aqueles barcos todos, se pudessem falar... e vinho pra celebrar é preciso celebrar até mesmo a dor é preciso celebrar a espera a derrota o não saber tudo é luz nesse mundo incerto e certo é que a vida é feita de encontros que feliz é esba...

Rarefeito

Hoje eu me descobri Aquela que paira na superfície Que busca a satisfação imediata E finge ser a rainha da paciência Mentirosa A terapia mais cruel e efetiva É a solidão deliberada Masoquismo em se descobrir o que é Estou sufocada Como o mergulhador que resolve descer ainda mais Pra se afastar o máximo que pode da terra E aí lhe resta uma escolha Será mesmo escolha? Ou ele se vai Ou sobe e encara Encara que não gosta da sua própria narrativa E que não é esta que gostaria de contar Por isso talvez ele se afaste... Encara que essa narrativa foi mais construída por outros Que por ele mesmo E que a maior parte da sua vida lhe passou alheia Mas então ele tem um deja vu E se recorda dos momentos em que a vida, essa mesma, Lhe deu a chance de ser o seu próprio desejo Aqueles decisivos instantes Assim, ele tem a certeza Certeza de que é inconstância e movimento Quando tudo o mais é raiz e permanência E não sabe ainda construir o próprio...