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outono

um poema que nasce na madrugada de vento forte e chuva desejada, trazendo o outono é calor – ou frio – que sobe pela espinha da noite de tempo longo, inteiramente... minha? tempo sem fim, do que insiste em ser verdade do filme, do vinho e de mais nada talvez, da vaidade desejos, palavras, silêncio após Beethoven, calma após a estrada o outono... sempre revelando a minha fala mas um outono de abandono e amor por uma rima que não pode ser falada

Saga da autoreferência

broto como flor de cacto hoje nasço de um mandacaru planta forte carregada de espinhos eu floresço sonhos concretude plena sorte de ser quem sou mas foi preciso muito foi preciso que esse espinho cravasse no meu peito a tua seiva e derramasse nela um ideal fugaz de vida para que eu pudesse construir minha fortaleza devaneio... mas meu muro não é muralha e tem tantas portas quanto luzes acesas passei por muitas estradas naquela juventude já perdida vi tantos se perderem para nunca mais voltarem eu definhei meu corpo novo em copos e garrafas vi o êxtase tomar os seres aquela alegria que se tornaria mágoa e vi uma dessas alegrias se tornando pó até desaparecer morta deixando frutos mas levando sua juventude embora magra, sofrida e quão cheio de doçura ele era... mas teve que partir carregado pelas pedras e então, eu ouvi um não que jamais esqueci nunca um não me fez tão feliz e me libertou para que eu me descobrisse liberta já faz tanto ...

O amor em tempos de metamorfose

que solidão maior pode haver que a do sentimento imponderável cujas palavras tentam dizer e se atrapalham cujo olhar talvez diga mas não tenha tanto tempo cujo sorriso e suor revelam mas cujo silêncio é necessário que solidão maior a de um sentimento que é, ao mesmo tempo, desejo de pele e um respeito que o preze admiração, cuidado, distância tesão, desmedida do afeto, errância capaz do mais profundo entendimento e até do esquecimento – para renovar-se à luz do qual eu seria capaz de loucuras desvairadas como me deixar solta ao vento para ser carregada por tais mãos que me arrepiam e os olhos que me saltam com brio solidão do corpo na madrugada, assustado acordado por sonhos sucessivos em noites alternadas por mãos, janelas, quartos no escuro que revela as vozes que escuto não sei de onde as visões que chegam sem bater na porta saltando em minha aorta a respiração pesada da certeza de algo que me revela mais do que a estrada passada um sentimento ...

A sedução da letra

a palavra me seduz a todo instante e insiste no torpor da madrugada errante corpo inflamado de amor sigo obedecendo seu chamado a palavra me alivia os gritos dos sonhos sucessivos e meus gestos de entrega, alados o aperto do peito de lascívia o desejo de um dia, a calmaria... a palavra comunica meu afeto e minha angústia e com ferro e simpatia vai tecendo, como linha, o bordado do meu dia a dia quisera tão somente a música... mas é a palavra que dita minha física minha palavra é beira e caminho linha e linho e, ríspida, tece a correnteza da mais incerta das certezas quisera tão somente o silêncio da grande beleza... mas a palavra é minha vida e é nela que faço a minha lida

Entre medianeras e amores líquidos, é carnaval!

É noite de domingo. Um domingo de carnaval e Oscar. Resolvi escrever sobre relacionamentos. Nada a ver? Tudo a ver! É um bom tema para o carnaval. E também para o cinema. De fato, este é um bom tema para um texto a qualquer hora. Garante leitores e boas tiradas! Mas, diria uma amiga ligada nos 220 volts: nada a ver é escrever no carnaval... Brincadeiras a parte, a vontade de escrever esse texto surgiu quando eu estava assistindo ao filme Medianeras, há algumas horas atrás. E, claro, juntou-se à importância que tem essa palavrinha na vida de todo mundo, inclusive na minha, e que sempre tira o sono da galera: relacionamentos! Desde que o filme foi lançado no cinema eu quis assisti-lo. Mas as oportunidades não apareceram. Até hoje, quando liguei minha smartv,  acessei o tal do Netflix e lá estava o filme entre as sugestões. E veio muito bem a calhar. Permita-me um prelúdio : na sexta-feira, decidida a não querer ver carnaval na minha frente, eu arrumei uma mala e parti ...

o inevitável

passou, o passado e radicaliza sua falta de sentido nesta hora passou o passado anunciou sua demora e partiu uma hora passa uma hora se transforma em filme que deixa marca mas que não é mais que marca porque se não gera esforço para lembrar as cenas elas sequer são lembradas o acontecido ficou lá no tempo em que foi presente e o presente é tão somente o presente um dia fica tão distante que deixa de existir no tempo e se torna uma curiosidade afetiva somos espectadores da nossa própria vida o que importa é o que está sendo passou o passado e o que vem a partir de agora é a excitante novidade o novo que nem sei e aquele que já brota fruto de semente plantada sem querer no rastro de uma gaivota

Como se

é como se sobrasse em mim uma fresta e ela pudesse reter, no ar, o não dito há que se sentir o ar que embriaga os pulmões! é como se faltasse em mim alguma coisa ainda... e o vazio não fosse mais que uma intenção alguns dias de solidão e tudo ganha novo colorido meio mês e nada faz sentido e meu tato procura, cheio, as peças perdidas no passado recente que, por si próprias, semearam meu jardim aquelas folhas que entraram pela janela, ao vento, procuram por aquele cheiro pelas portas que se abriram e as luzes que descortinaram túneis fez-se brusca a passagem é que enovelei tanto... é que tudo, naquele agora, que nem foi há tanto, foi verdade alguns dias de solidão e nem mesmo a saudade o que se passa? cabelo a procurar a tempestade... a desejar o dia que chegará e que, sequer, sei o que será perder toda a luz não se pode não se pode, lançada tão de cara a tanta falta de sentido perder o dia em que todo ele existiu, inteiro, nas mãos que toc...