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Isto não é uma poesia

não sabia quase nada hoje sei menos ainda não sei o que se passa e sou mais feliz assim de tudo o que conquistei ficou aquilo pelo que não batalhei mas pelo que me apaixonei eu, a egoísta a adúltera infiel a workaholic que poderia esperar da vida o pior e ganhou o melhor eu, a agradecida a embevecida o amor em forma de carne a doação em sangue e suor a lealdade os deuses sabem o que fazem e, então, eis que sou o que sempre fui eu, a desgarrada no meio de uma chuvarada fazendo poesia e poesia não serve pra nada!

Atonal

sei lá que tipo de matéria eu quereria ser agora sei que assim, compactada como um corpo humano, não dou conta nesta hora queria era estar decomposta talvez em poeira estelar em células mortas infinitamente dividida em minúsculos grãos de areia ao vento que se espalhariam e não restaria nada que pudesse dizer: veja, aquilo tem identidade nenhum sólido nenhum corpo nenhum sentido exposto nada que conte história sem passado sem futuro só o presente sobreposto nele mesmo sem desejo mas com devir sem afeto mas com instinto sem amor apenas existindo arrastada pelas tempestades sem controle destituída de toda saudade desmembrada das cláusulas que um dia o meu corpo assinou descentrada e só diluída na partitura da dor

De volta pra casa

Como se revisitasse sólida A doçura do meu afeto Aquela estrela amanhecida Me tomou inteira nos teus olhos O mundo curtia ao longe A tua senda envaidecida de saudade Teu inexato signo da morte Verdade que tomada ao vento Foge ao meu caminho Que tão íntimo ao teu, agora, Se dobra na curva extática do infinito Como se faltasse um nome Uma palavra têxtil me tomou de assalto E o campo numeroso do meu corpo mago Fez chover sorrisos como meteoros tortos Eis que o nome é o que menos importa Pois se abriram as portas mais esplendorosas Que temperadas me tomam feito o mar E carregam meu sangue no teu paladar Como se transbordasse a fome Nasceu inteira uma lavoura enorme Dentro da qual se dança o campo Imantado de uma música-criança E brotam lírios, uvas, azeitonas E árvores pedindo seiva bruta No horizonte endoidecido de desejo Em que insetos despejam seus segredos Na roda placentária movida de cheiro Amanheci o ser amado no meu beijo Anoiteci minha palavra nas e...

Metalinguagem

Meu paradeiro hoje Um espelho Narcisismo da exaustão Não ouse querer encontrar O meu ego na multidão Estou só Como só os exaustos Sabem sê-lo Com o corpo mais arrasado Que a natureza concebeu Que não suporta a luz, o caos Fadiga de coliseu Incapaz de tolerar o traço mal feito E a palavra mal dita Para seu governo torto Faço poesia com a matéria vida Num banco de metrô No ensaio de uma orquestra Quando já não dá mais Pra suportar o próprio sentido E nem mesmo toda festa Meu sentido é tão somente sentir E sei muito bem O que faz este corpo cansado Sorrir Um espelho aberto um dia Na clausura do tempo linear Mostrou-me Sem tempo A cura que é amar Mas dormir Para um insone É tão belo Quanto o olhar Daquele homem. Faço poesia Com qualquer coisa Em dias assim Quando a dor no corpo Frita os músculos E elimina o doce cheiro do jasmim Pra não perder O mistério do coração Pra não morrer De obrigação

Pra que serve a poesia

se não servir a poesia para nada prefiro não ouvi-la não sou adepta do vazio da palavra que, aqui, uma vez dita, - a física garante - produz nota na cítara do outro lado do planeta que me sirva, a poesia! como me serve um prato de carne suculenta ou prefiro esquecê-la para quê poesia se não me lembra, ela, da vida latejante que existe para além do cansaço deve servir sim! para lembrar o absurdo risível que nada é tão absurdo que não possa ser possível

Humano, demasiado humano...

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Hoje, voltando para a casa, me peguei metafísica. Pensava na vida, como quem olha pra muito longe. E eu realmente olhava. Pela janela do metrô. De onde não se vê nada, a não ser dentro de si mesmo – um lugar longe... Por alguns instantes, fiquei tentando encaixar as peças de um nebuloso quebra-cabeças ao qual o meu desejo está profundamente vinculado. E esqueci que eu estava num vagão de metrô. Minha estação é a última e, às quase dez da noite, são poucos os que ficam para descer. Depois que o trem parou na penúltima estação, ficamos três naquele vagão. E, então, eu me vi de novo no mundo exterior. Lembrei haver um corpo que interage e que estava presente em um determinado lugar quando os meus dois companheiros de vagão me chamaram a atenção. Um homem e uma mulher, jovens como eu, caminhando ali pelos seus trinta e poucos anos. Sozinhos os dois, como eu estava. Ela chorava, com uma melancolia tão grande no rosto que chegou a partir meu coração. Olhava também para dentro, pois chorava...

Aos nossos contadores de história que se foram...

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Ariano Suassuna, que nos deixou hoje, disse certa vez: "o homem nasceu para a imortalidade. A morte foi um acidente de percurso". Em poucos dias, a morte chegou para três grandes pensadores e escritores brasileiros: João Ubaldo Ribeiro, Rubem Alves e o próprio Suassuna. Tive a sorte de conhecer dois deles: João Ubaldo e Suassuna. E me deixar inspirar, como ser humano e como escritora. Talvez, seja mesmo a imortalidade que guie um criador a produzir sua obra. E não se trata de ego, mas de uma missão dada pelo universo. Desde o seu início, há alguns trilhões de anos, todo o universo conta a sua história e a mantém eterna. Meteoros carregam bactérias capazes de sobreviver por muito tempo, mais tempo do que nossa capacidade humana é capaz de imaginar. Cada semente conta a história da planta que lhe deu origem e da próxima que ela originará. Nós, seres humanos, contamos nossa história e nossas histórias de inúmeras maneiras: pela palavra, pela tecnologia, as ciências, as imagens,...