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Imoral e física

Sou fagulha de sol Na direção do improvável Tudo o que imagino Realizo E minha aura radiante paiol Veste túnicas de cetim sanguíneo Há que se considerar que, Afoita, Jamais manseio E que, carregada de arpejos, Não me entrego a qualquer fato Hoje, avalio ontem Repenso Estratégia me faz O tempo me ensinou a ser selvagem E a catarse dos momentos A manter foco em arte Sou arma de forte na entrada no mar E pirata que toma os navios da realeza Não concebo Moral Que a alma não aprove E me debruço à falta dela Porque me sirvo Desejo Há quem se alimente de restos E se contente com palavras belas Ou sou diversidade Aquarela Ou me recuso a ser esteta Prefiro a imoralidade da traição À sensação castrati de viver obrigada De que adianta alcançar as notas Sem que o corpo conheça A dança apaixonada Há quem pense em agudos E, só depois, em graves Eu deslizo por toda a grade Sou fagulha de nada Que sabe ser tudo Não me culpo a arrogância De me sent...

Carta a quem interessar

Não me importam as tuas narrativas Mas o que dizem as entrelinhas As fotos que publicas Os poemas que recordas As músicas que gostas Não me dizem nada Não sou fã das aparências Procuro o que escapa no teu gesto A significância do que mostras E o desejo por trás de tuas apostas Não me interessam A voz bandida ou de anjo Se tu te achas do bem Ou se te achas do mal Eu me divirto com adjetivos São apenas possibilidades da linguagem Julgamentos morais não me atraem Pois o que realmente te faz Fica guardado no teu plano mais secreto Se tu gostas de mim ou não De nada me interessa Tua opinião é só mais uma entre sete bilhões Quero saber o que isso me diz sobre ti E o que te faria largar o teu ego O que expressas numa mesa de bar Interessa à sociologia e ao teu analista (Como o que expresso, ao meu) A mim interessa o que existe Quando estás só e em silêncio Quando toda a luz já se apagou E toda a cultura dorme Quando mostrar-se já não é necessário E os medos e a...

Oração

Que a poesia me livre  Das suas prisões E das minhas e das de todos nós E me permita, ela, Sempre a liberdade Ainda que subjugada Sob a bandeira da necessidade Ou a sentimentos presos Em gargantas ilhadas E que minhas verdadeiras intenções Não sejam reveladas  A quem não merece conhecê-las E meus desejos mais secretos Sejam apenas meus e daqueles que escolho Que o tesão se faça todo dia Nas brechas dos momentos burocráticos E através deles E a ironia sorria para os que mentem a si mesmos E fingem ser o que não é De tal forma que se tornam caricaturas ao espelho E que venham sonhos e nos libertem, todos E sejam eles os meus guias Nessa estrada de vidas que se querem poucas Que minha face mais verdadeira Seja dada aos momentos de fato sinceros E as máscaras certas sejam usadas Nas horas em que só cabe sobrevivermos Que eu não tenha medo E ele também não  E ela também não E nem eles, nem nós,  Nem irmãos ou inimigos E sejamos todos capaze...

O primeiro dia

Todo dia é sempre O primeiro dia Do resto de nossas vidas Dia de dizer palavras duras Que já não podiam não ser ditas E ouvi-las, algumas De descobrir que o amor se fortalece Mesmo quando a gente esquece - Quando se deve esquecer - E nos dias cinzentos dos afastamentos Que carregam a esperança Dos novos e futuros felizes momentos Todo dia é dia de saber Que existe amor no sim Mas também no não E que não e sim São como luz e escuridão Todo dia é dia de jogar coisas fora Aquelas cartas de anos atrás Que estavam empilhadas em pastas Por sua vez empilhadas em armários Por sua vez empilhados – pesados – Num excesso de memória Dia de descobrir que elas Não servem mais a nada Que não à história E é só no coração o seu lugar Para que guardar tanto objeto Em um mundo já repleto? E porque represar energia Quando deve o novo chegar? Se o se que passou só existe Como lembrança e aprendizado - às vezes como o inventado - E nem existe ainda o que virá Sejam...

Astrolábio

Partiu mais um barco Levou pro sem rumo da vida Os barris de rum vazios Quinquilharias que já não Faziam sentido Roupas velhas, Papagaios mortos E todas as cartas de um baú Já carcomido Onde a craca dos mariscos Longe d’água Começou a dar mau cheiro Partiu mais um barco E, em mim, Partiu-se ao meio Mas eu, pirata que sou, Roubei outro para mim! Meu sonho Nunca é um barco abandonado Pois é fiel ao destino De não ficar ancorado No mínimo, Somos uma família de exilados Meus sonhos, o sol, os peixes E os pássaros Conversando todas as manhãs Sob um convés alado E o que dizer do espelho? Quando olho pro mar E me reconheço Sei que antes De amar qualquer coisa Devo sempre Amar meu próprio zelo No mais, Entre uma solidão e outra Encho os barris E convoco a artilharia Agora, ando apenas Com artilharia pesada E não há mais desejo em mim Que passe fome Pois a arma Mais forte que encontrei Foi dar ao barco...

Liberdade

Perder o que nunca foi seu Não é perder Nascemos sem nada Morreremos igual E sozinhos E isto é liberdade Uma vida humana Só sabe ela mesma O resto é sensação E memória do outro Então, para que preocupar-se Com frivolidades? E porque ter medo? Estamos aqui para ser! E o que restará de nós Ainda será do mundo (Mas nunca nosso) E o mundo fará reverências A quem o deixar regalos Só construímos verdadeiramente algo Quando não nos apegamos Ao que estamos construindo Mas o deixamos pertencer à vida Sujeito, assim, às intempéries do tempo Para ser inteiro É preciso entregar Pois deixar um rastro, Filhos, livros, Música, a ciência, Tudo isso é legado apenas Quando não se trata de vaidade Não temos nada Entendendo isso Podemos tudo Ao fim de cada rumo Chega um novo Súbito vem a primavera E o que mais importa Que a liberdade de ter tudo sem ter nada? De florescer sabendo que mais tarde O inverno levará as cores... De pisar como bicho no ciúme, n...

Trinta e cinco

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Blackbird... You were only waiting for this moment to arise Era tarde e chovia Como de praxe na revolução do meu sol. Para criar arco-íris, é fato! Pois não aceito nada menos que isso: cores! Meu coração de filha do quase inverno Inflou de alegria! Fechei os olhos para sentir O fino da chuva no meu rosto - Eu estava sentada no sofá do quintal, Observava as bandeiras do Nepal, Que me presentearam um dia, Penduradas, voltadas para o vento, Carregadas de prece - Pensei: Sidarta iluminou-se aos trinta e cinco! Trinta e cinco... E tanto ainda por viver! Ainda virão novos sonhos no planeta E novas florestas serão devastadas Virão fatos, guerras, dores, Janelas novas, novos ares, Cachorro correndo no jardim, outras músicas, outras paisagens Virá o dinheiro! – Ao menos acredito nisso... (E se eu não acreditar, ninguém, por mim, o fará) E virão os filhos! E os livros repletos das pequenas verdades Sim! Virão as crianças um dia E as novas poesias E o amor, finalmen...