15.5.07

Auto da poesia autoral

Sou poeta da autoreferência
Interior de mim
Eu, concreta e neblina
Que carrega a casa nas costas

Não preciso de mais nada
Meu quintal é o mundo inteiro
Poeta que não escreve ou diz para ser poeta
Poeta que se gradua no cotidiano
Na hora da alvorada, do amor, da refeição
Na hora do nada

Sou poeta de mim e de tudo
Porque em mim tudo se renova
E no tudo eu me relavo
Poeta de dores profundas
Das lembranças mal quistas
Mas de grandes alegrias
Das doces memórias
E do presente em movimento

Sou poeta das águas
Aquilo que me refaz
Celeste manifestação corporal da Terra
Onde encontro o prazer da intensidade

Por fim, sou poeta da infinita curiosidade
E de um desejo sem fim de mim mesma
...Desencontrada

Planando nos céus sob abismos do mundo todo
Sempre em busca de novas madrugadas

Diverso essencial do verso de mim

Ode


Ode ao mar que me faz silêncio
Ao sol que me faz desejo
Ao mistério que me faz criança
De todas as coisas do mundo
Carrego um pouco
E de todas as estrelas,
virtualidade da matéria,
carrego a longa permanência da luz
E do caminhar à beira de breves ondas
sentido em meus pés desenraizados
a áspera areia branca
Sei... sincero é o mais longínquo dos astros
E errôneos os que caminham ritmados
no tempo da maquinaria do mundo-gente
Observo-os de longe
da beira-mar onde estou,
formigas cujas odes são ao controle
E eu, nesse mesmo mar que encontro aos pés...
Incontrolável
É o mar que lança sua força em mim
De tal modo que meu respeito a sua infinitude se dilui
e sou em uníssono com ele
Porque ouço uma voz que sempre me chama
Como vozes ouvidas antes por meus ancestrais
E ouço ainda um sinal
Que me guia pelo cheiro da maresia
E chego ao farol
Ode ao farol
Que ilumina a extensão da mais profunda beleza
De lá contemplo tudo o que possa haver
Pela manhã o nascer do sol
Vida pulsante
Força de navegante
Do espaço-tempo de luz e trevas
Brilho da magnitude
Ilumino em conjunção
Sinto o calor me tomar para si
E algo me diz que também eu
sou estrela no infinito
Que também em mim
giram planetas em órbita
E que também por mim
o mundo gira e se faz permanente movimento
E eu sinto esse calor
a luz a que fogem meus olhos vermelhos de lua
Lânguidos e suaves
Porque também eu sou a aniquilação
E, assim, maré que vai e vem
e move o universo
E quando tudo se cala
Também a morte pode reivindicar a vida
E vive-se na morte
Da mesma forma que se vive morto
O dilema nunca é um dualismo
É dor
E a dor é força
A dor das águas é o grito do mundo que,
com força, arrasta para o profundo horizonte
O mar sabe das dores
Ele recebe almas
Sente e molda o mundo
A minha dor sente e molda minha vida
E faz girar moinhos que
transformam ventos em caminhos
E sempre pra longe eu vou
Como barco de pescador
Canoa de desejos
Peixe que não se distingue da água
Água que remexe, expulsa e corrói
E como vento e longitude, eu sigo,
capitã de grandes navios piratas
Porque ser pirata
É ser marinheiro de alma
Navegante por paixão
Afirmativo poder das ondas
É ser vento que traz
Ora raios luminosos
Ora cinzas tempestades
É ser um com o mar
Ode aos piratas
Mais peixes que marinheiros
Ode ao mar
Meu segundo de eternidade
Mas Terra do que a terra