22.7.11

me agarro aos pés da arte

(The Painter Surprised by a Naked Admirer, Lucian Freud)

Eu adoro todas as coisas
E o meu coração é um albergue aberto toda a noite
Tenho pela vida um interesse ávido
Que busca compreendê-la sentindo-a muito
Amo tudo, animo tudo, empresto humanidade a tudo
Aos homens e às pedras, às almas e às máquinas
Para aumentar com isso a minha personalidade
Pertenço a tudo para pertencer cada vez mais a mim próprio
E a minha ambição era trazer o universo ao colo
Como uma criança a quem a ama beija.
(Álvaro de Campos, o engenheiro sensacionista lá pelos idos de 1914)

a empresa visionária do amor...

And so it was I entered the broken world 
To trace the visionary company of love, its voice 
An instant in the wind (I know not whither hurled) 
But not for long to hold each desperate choice. 

(em The Broken Tower, Hart Crane)


E foi assim que eu entrei no mundo destruído
Para traçar a empresa visionária do amor, sua voz
Um instante no vento (não sei até onde arremessado)  
Mas não por muito tempo para realizar cada escolha desesperada.
(livre tradução)

mar sem fim

compartilho com Norah Jones da sensação:


Out across the endless sea
I would die in ecstasy


16.7.11

ressonâncias



Existe um deserto em cada um de nós
Cada vez mais eu o desejo

Na busca de entender o que não entendo?
Para ouvir o que nunca escuto?

Sei pouco ou nada do que faz com que eu me mova assim
Tão avidamente em direção a esse espaço cheio de vazio

Ainda não sei

Perco tempos preciosos com tal capricho
E sou aquela voz que cala após ouvir a própria voz ressoar

De alguma forma reverencio esse deserto
Que se amplia nas águas, pedras, areia,
Nos espinhos e seres que rastejam ou tem guelras

Mas o deserto do corpo, esse é o mais intenso

Porque só se tem o próprio corpo
E ele é o nosso grande deserto

Quero me iluminar e deslizar por ele
Talvez por isso, por querer
Devo parar de desejar?

Mas, para quê?
Para encontrar a tão esperada calma diante do mundo?

Os dias continuam passando
O mundo ansiosamente me aguarda e pede reação

E não há calma possível diante do mundo
Só uma grande ansiedade e uma vontade de voar

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Triste a tristeza dos homens
Pensamento sem corpo
Corpo sem pensamento
Atletas classe média correndo na praia
Mas que praia? Eles não olham para o mar...
Trabalhadores atravessando as ruas
Há uma enorme lua cheia no céu
Alguém viu?
Comem com pressa seus defuntos
Lutam sem ternura
Empurram-se nos ônibus
Buzinam como bonecos
Correm nas ruas com seus tanques como competidores
E não são? Estes homens e mulheres tão donos de si quando dirigem máquinas
Não importa se com falo ou sem, se promíscuos ou castos
Todos são tão patriarcais
Rostos que se reiteram e reiteram no vazio
Buscando sentido
Quando sentido é só conforto para nossas fracas concepções de mundo

A esses, que reduzem o prazer à piadinha zorra total
Há tanto mais, há tanto a se viver
Medo? O que temos a perder é só a vida...
Não entendo o medo de perder a vida
desses
que não vivem
Os que vivem, só se preocupam em viver
Basta estar vivo para morrer
Não é o que dizem?

Antes perder um braço
A perder a possibilidade de conhecer todas as montanhas do mundo
E ir para o alto, buscar o infinito da sensação de liberdade

Lançar-se no deserto
Sair do conforto
Negar assim a paixão pelo poder
Permitir ferir o general que todos cultivamos

Que morram todos os generais!
E vivam os destemidos, os artistas e amantes
Utopia de minha parte?
Que assim seja! Amém...