17.12.14

há tantas auroras que ainda não brilharam

acordei tarde
procurando poesia
havia um cheiro ali ao lado
sei lá que lado
talvez todos
que fica a espreita
rondando minhas certezas
acordei tarde
porque é tanto o cansaço
e o amor tem sido uma cidade grande
com parque, arranha céu, cachorro, sinal de trânsito
verde, vermelho, cuidado
siga atento no amarelo
acordei e desejava poesia
para o café da manhã do quase meio dia
- há o silêncio do meio dia
estranhamente o meu apartamento silencia -
o sol ardia
ainda arde
há calor e talvez nem seja tão tarde
e, quem sabe,
mesmo assim, parecendo tarde
seja, na verdade,
cedo...

14.11.14

Isto não é uma poesia

não sabia quase nada
hoje sei menos ainda
não sei o que se passa
e sou mais feliz assim
de tudo o que conquistei
ficou aquilo pelo que não batalhei

mas pelo que me apaixonei

eu, a egoísta
a adúltera infiel
a workaholic
que poderia esperar da vida o pior
e ganhou o melhor

eu, a agradecida
a embevecida
o amor em forma de carne
a doação em sangue e suor

a lealdade

os deuses sabem o que fazem

e, então,
eis que sou o que sempre fui
eu, a desgarrada
no meio de uma chuvarada
fazendo poesia

e poesia não serve pra nada!

21.10.14

atonal

sei lá que tipo de matéria eu quereria ser agora
sei que assim, compactada como um corpo humano,
não dou conta nesta hora

queria era estar decomposta
talvez em poeira estelar
em células mortas
infinitamente dividida
em minúsculos grãos de areia ao vento
que se espalhariam e não restaria nada
que pudesse dizer: veja, aquilo tem identidade

nenhum sólido
nenhum corpo
nenhum sentido exposto
nada que conte história

sem passado
sem futuro
só o presente sobreposto nele mesmo
sem desejo
mas com devir
sem afeto
mas com instinto
sem amor
apenas existindo

arrastada pelas tempestades
sem controle
destituída de toda saudade
desmembrada das cláusulas
que um dia o meu corpo assinou

descentrada
e só

diluída na partitura da dor

15.9.14

As Cartas de Sara - teaser

As Cartas de Sara é o nome do romance que estou escrevendo. Segue um teaser do texto...


“... e então lhe ocorreu que pudesse não ter lhe causado tanta vertigem a sensação de quando viu aqueles olhos pela primeira vez. Sara não era de se entregar tão fácil. Sua vaidade freava seu impulso de peixe diante da vara. Era ela quem pescava. Mas acordou de súbito naquela madrugada, desejosa de que tudo tivera sido apenas um sonho mal resolvido, e que aquele cheiro de musgo das paredes da antiga igreja fosse tão somente fruto de sua imaginação. Mas ela acordou. E seu corpo lembrou que não. Apenas recordava aqueles olhos e eles lhe remetiam à dor de seus avós em fuga da guerra e à carta escondida no porão do apartamento em Viena. Era um olhar de dor e também um olhar de horizonte. Continha o universo. E talvez ela pudesse cair na tentação de que teria visto, dentro daqueles olhos, toda a sua vida. Mas isto era proibido, a priori, pela escolha de um ofício injusto com o corpo. Logo ela, que era tão corpo quando tocava uma fuga. E que apesar de sua insistente racionalidade, buscava pelo sangue em cada nota de suas composições. O velho amigo Mozart ressoava mais uma vez em seus ouvidos, lembrando, inclusive, que ela devia mais honras a mestres mais antigos que ele, e àquele, dono da música das esferas. Ele, com seu riso de escárnio e a estranha conjunção de divindade e boemia, parecia querer dizer que tudo haveria de fazer sentido para ela, uma vez que o seu réquiem ainda não estava composto. Ele mesmo não o havia finalizado. Morrera antes, pobre e frágil. Repleto da fragilidade de todos os criadores: a febre. Por que ela haveria de querer, ali, em sua cidade, chegar ao fim do que nem mesmo sabia onde começava? Sentia-se tão jovem... Mas ele, aos 35, já tinha até morrido. Foi como um cometa. E ela não era nem uma pedrinha para começar a desejar status de meteorito. Todavia, retornava um provável começo, ainda que começasse no meio. Quando aquele encontro despertou o melhor e o pior dela mesma... Sara oscilava, assim, entre a música e a palavra. Mas não tinha o dom da última. Era verborrágica e enchia os ouvidos de seu novo amigo com excesso. Voltava para a casa, improvisada na pequena pousada no alto da cidade, e sentia-se a própria materialização do supérfluo. Ela podia ouvir de longe a sua reza. Ele sim era amante da palavra. Um poeta. Mas limitado pela instituição e a castidade. Que poesia sobrevive sem sexo, ela pensava. Que amor sobrevive sem corpo, se o corpo é um templo e toda a sua estrada é um caminho luminoso. Nestas horas, meditava a necessidade real das cantigas de amor romântico. Queria extirpar a família. Tinha ciúmes da hóstia na boca de cada beata e se odiava por isso. Vivia naquele limite ímpar do ser humano quando encontra a sua casa. Marca o território, como bicho. Lembrava, nesses momentos tão demasiadamente humanos, que a carne vem antes da cultura. Ela, uma nietzschiana. Que confundiu tanto liberdade com egoísmo e parecia não entender absolutamente nada de filosofia. E lembrava as palavras feministas de sua mãe, uma filósofa de corpo antes que da academia, e sentia um arrepio como se fosse traidora. Mas ela sabia, lá no fundo, que haveria de descobrir que era maior que isto. Que talvez sua avó cigana lhe dissesse, quando teve uma filha bastarda no Alentejo. Sara confundia-se na madrugava. Em todas as suas referências. O pai, doce, a mãe, libertária, a irmã, cabalística. O violino, a fome, a poesia, a guerra. O apartamento de Viena lhe voltava sempre à memória como a face fria e tenebrosa da vida. Queria esquecer a dor das vidas que não puderam ser. E mal sabia ela o que ainda estava por vir. O que lhe esperava quando foi àquela cidade medieval apenas para cumprimentar o seu amigo imaginário e visitar sua primeira morada. Não sabia ela o que a série de acontecimentos num vinhedo em Portugal viria a afetar tudo o que acreditava. Ela ainda tinha muito o que viver até chegar a Veneza e voltar para o Rio, e poder comer comida árabe com o seu pai, um judeu, naquele restaurantezinho do Largo do Machado. Queria apenas dormir, mas o coração pedia um café e o suor, apesar do frio, era tenso o suficiente para lhe ocorrer sair pela madrugada e bater à porta de carvalho da catedral. Enlouquecia. E era nestas horas que preferia ouvir o padre italiano ao invasivo Confutatis. Mas ela era vivida, apesar de tão jovem. E podia remexer sua caixa de segredos que encontraria uma saída. Ela tinha bagagem depois de ter sido negada com sua sinfonia e violentamente separada de sua casa. Sara não sabia de todo, mas sabia ser mais do que parecia. Lembro-me de contar em uma das cartas que nesta hora decidiu ficar parada em frente ao espelho para contemplar o quanto a sua máscara talvez estivesse tão colada ao rosto que já não sabia quem era. E se recordou quando solou a Meditação de Thais diante de uma plateia de mais de mil pessoas e parece sequer ter se importado com o que dizia. Levou alguns anos para entender que a beleza do corpo acaba. E o que fica, é só aquilo que a gente constrói.”

17.8.14

De volta pra casa

Como se revisitasse sólida
A doçura do meu afeto
Aquela estrela amanhecida
Me tomou inteira nos teus olhos
O mundo curtia ao longe
A tua senda envaidecida de saudade
Teu inexato signo da morte
Verdade que tomada ao vento
Foge ao meu caminho
Que tão íntimo ao teu, agora,
Se dobra na curva extática do infinito

Como se faltasse um nome
Uma palavra têxtil me tomou de assalto
E o campo numeroso do meu corpo mago
Fez chover sorrisos como meteoros tortos
Eis que o nome é o que menos importa
Pois se abriram as portas mais esplendorosas
Que temperadas me tomam feito o mar
E carregam meu sangue no teu paladar

Como se transbordasse a fome
Nasceu inteira uma lavoura enorme
Dentro da qual se dança o campo
Imantado de uma música-criança
E brotam lírios, uvas, azeitonas
E árvores pedindo seiva bruta
No horizonte endoidecido de desejo
Em que insetos despejam seus segredos
Na roda placentária movida de cheiro

Amanheci o ser amado no meu beijo
Anoiteci minha palavra nas estrelas
Enlouqueci minha saudade de futuro
No colo de um deus apaixonado
Que de tanto não saber como amar tanto
Criou um planeta

Com água, planta, elefante,
Cerca branca, pedras coloridas,
Cabelos ao vento
E gente a respirar com o sol no rosto
A chuva fina pra lavoura não secar
O vento nos poros pra não enferrujar
O passado passando
O futuro como casa em construção
Tijolo por tijolo para garantir sustentação

E o presente como firmamento
Por onde correr de bicicleta
Com as pernas cheias de vontade
E dançar a música que se queira
Deslizando como bicho na paisagem

Como se o mundo estivesse nascendo agora
Eis que tudo é novidade!

E a sua máquina
Luminosa que só ela
Fez da nebulosa carregada
Um doce céu na minha quimera

E como se agora fosse mesmo só ela
E a minha face cansada
Tivesse me feito nascer asas

Eis que me sinto, como nunca,
Como se tivesse, então,
Chegado em casa.

5.8.14

Metalinguagem

Meu paradeiro hoje
Um espelho
Narcisismo da exaustão
Não ouse querer encontrar
O meu ego na multidão
Estou só
Como só os exaustos
Sabem sê-lo
Com o corpo mais arrasado
Que a natureza concebeu
Que não suporta a luz, o caos
Fadiga de coliseu
Incapaz de tolerar o traço mal feito
E a palavra mal dita

Para seu governo torto
Faço poesia com a matéria vida
Num banco de metrô
No ensaio de uma orquestra
Quando já não dá mais
Pra suportar o próprio sentido
E nem mesmo toda festa

Meu sentido é tão somente sentir
E sei muito bem
O que faz este corpo cansado
Sorrir

Um espelho aberto um dia
Na clausura do tempo linear
Mostrou-me
Sem tempo
A cura que é amar

Mas dormir
Para um insone
É tão belo
Quanto o olhar
Daquele homem...

Faço poesia
Com qualquer coisa
Em dias assim
Quando a dor no corpo
Frita os músculos
E elimina o doce cheiro do jasmim

Pra não perder
O mistério do coração

Pra não morrer
De obrigação...

30.7.14

pra que serve a poesia

se não servir a poesia
para nada
prefiro não ouvi-la
não sou adepta do vazio
da palavra
que, aqui, uma vez dita,
- a física garante -
produz nota na cítara
do outro lado do planeta

que me sirva, a poesia!
como me serve um prato
de carne suculenta
ou prefiro esquecê-la

para quê poesia
se não me lembra, ela,
da vida latejante
que existe para além
do cansaço

deve servir sim!
para lembrar
o absurdo risível

que nada é tão absurdo
que não possa ser possível

28.7.14

Humano demasiado humano

Hoje, voltando para a casa, me peguei metafísica. Pensava na vida, como quem olha pra muito longe. E eu realmente olhava. Pela janela do metrô. De onde não se vê nada, a não ser dentro de si mesmo – um lugar longe... Por alguns instantes, fiquei tentando encaixar as peças de um nebuloso quebra-cabeça ao qual o meu desejo está profundamente vinculado. E esqueci que eu estava num vagão de metrô. Minha estação é a última e, às quase dez da noite, são poucos os que ficam para descer. Depois que o trem parou na penúltima estação, ficamos três naquele vagão. E, então, eu me vi de novo no mundo exterior. Lembrei haver um corpo que interage e que estava presente em um determinado lugar: quando os meus dois companheiros de vagão me chamaram a atenção. Um homem e uma mulher, jovens como eu, caminhando ali pelos seus trinta e poucos anos. Sozinhos os dois, como eu estava. Ela chorava, com uma melancolia tão grande no rosto que chegou a partir meu coração. Olhava também para dentro, pois chorava aquele choro que pergunta... Ele fixava seu olhar num ponto fixo no banco da frente, imóvel, como quem quisesse também encaixar peças de um complexo tabuleiro onde a vida corre e não nos dá a chance de pararmos o tempo e decidirmos o que fazer. A gente simplesmente tem que decidir enquanto a ampulheta está virada e no meio de tudo o mais que não somos capazes de controlar - quase tudo. Por uns instantes, ele me olhou e eu retribuí, e ele balançou a cabeça como quem diz: é, estamos todos no mesmo barco...

Pois percebi que éramos três seres humanos que não se conhecem, mas estavam ligados naquele mesmo momento pela perplexidade que é viver – e, talvez, por um sentimento comum, aquele que existe na pergunta: mas o que foi que aconteceu mesmo? O silêncio, o choro, a introspecção, são formas que encontramos de tentar dar conta do inexplicável. Eu buscava ouvir a minha intuição, pois ela anda cada vez mais acertando o alvo direitinho. Eles, talvez. Mas estávamos, os três, impactados por isso que parece ser uma mistura de destino com livre arbítrio absolutamente misterioso: a vida. Meu cérebro tentava juntar tudo que compôs o dia, desde um sonho que me acordou assustada às 5 da manhã a curiosas conjunções; as mensagens surpreendentemente afetuosas que recebi e, por outro lado, uma bem hostil, que me lembrou que não tenho sangue de barata – e me fez perguntar porque, às vezes, somos tão reativos, como se tivéssemos que reagir sempre a tudo... –; além dos silêncios, das fugas – as reais e, não, as musicais –, dos novos afetos e daqueles que insistem e apenas crescem e vão ganhando novos contornos. E tudo que me põe pra baixo e tudo que me põe pra cima. E me senti aliviada. Aliviada em perceber como, assim como disse o meu desconhecido amigo do metrô através do seu olhar, estamos todos no mesmo barco. 

Na vida, ninguém ganha nada, ninguém é nada, ninguém sabe de nada, mas podemos ser tudo, justamente por isso, ou seja, quando reconhecemos isso. Somos todos frágeis, entregues na mão do destino, à mercê da roda da fortuna. Mas também somos todos fortes, donos da própria escolha, conscientes de nosso valor, magos e dançarinos. Pena que o medo nos domina, ao invés de nos servir apenas para a preservação. Ele aprisiona e impede que muita vida seja vivida. E, assim, a gente não aceita bem a fortuna nem usa bem a chance de escolha. Por isso, penso cada vez mais como um grande amigo que, com sua sabedoria, diz que é preciso menos medo e mais cuidado. Penso também que é preciso mais loucura. Risco. Arriscar chegar perto do que nos assusta. Sempre achei que é aí que reside a maior libertação: quando a vida nos coloca dependurados de cabeça para baixo, perto do abismo. No Tarô de Marselha, uma das mais intrigantes e completas representações da jornada humana, depois do enforcado vem a carta da morte. Porque depois que a vida sacode seu ego e te coloca de cabeça pra baixo, morre um monte de coisas que não serviam mais. Mas, para isso, não se pode lutar contra o destino de ser posto de cabeça para baixo. É uma escolha sábia aceitar, trazendo a tona o louco que ronda a nossa psique o tempo inteiro (a carta zero do tarô) – a tal ponto que se começa a dançar com o destino doloroso. Então, vem a morte para, finalmente, depois dela, vermos revelar-se diante de nossos olhos um caminho mais leve, mais fácil, mais nosso – iluminado até a dança final. Acho que, no fundo, todo ser humano tem os mesmos profundos desejos de viver com menos peso e mais amor. Isso nos conecta. Só que a gente leva tempo para descobrir que antes de encontrarmos leveza e amor em qualquer coisa fora da gente, eles existem dentro de nós... Alguns se perdem por isso, por não saberem como lidar com o fato de que é dentro da gente que tudo existe primeiro. E a nossa sociedade os condena por isso. Mas nosso louco está sempre pronto a nos ajudar a nos tornar sãos. E, na verdade, acho que era sobre isso o meu sonho. Na verdade, acho que é sobre isso que talvez pensasse o homem ou por isso chorava a mulher. Quando a vida mostra a cara, a gente só queria era um pouco de alívio... Mas percebemos que ele não vem de um dia pro outro. É preciso uma longa jornada - que começa em uma franca conversa consigo mesmo diante do espelho mais cristalino em que possamos nos ver, que revela tudo, o que se quer e o que não se quer. Uma longa jornada... já que insistimos em criar tantos muros, lanças e espadas...







23.7.14

Aos nossos contadores de história que se foram...

Ariano Suassuna, que nos deixou hoje, disse certa vez: "o homem nasceu para a imortalidade. A morte foi um acidente de percurso". Em poucos dias, a morte chegou para três grandes pensadores e escritores brasileiros: João Ubaldo Ribeiro, Rubem Alves e o próprio Suassuna. Tive a sorte de conhecer dois deles: João Ubaldo e Suassuna. E me deixar inspirar, como ser humano e como escritora. Talvez, seja mesmo a imortalidade que guie um criador a produzir sua obra. E não se trata de ego, mas de uma missão dada pelo universo. Desde o seu início, há alguns trilhões de anos, todo o universo conta a sua história e a mantém eterna. Meteoros carregam bactérias capazes de sobreviver por muito tempo, mais tempo do que nossa capacidade humana é capaz de imaginar. Cada semente conta a história da planta que lhe deu origem e da próxima que ela originará. Nós, seres humanos, contamos nossa história e nossas histórias de inúmeras maneiras: pela palavra, pela tecnologia, as ciências, as imagens, a música. Pelo amor que perpetua a espécie. Se tem algo que une tudo que existe no universo, além do fato de sermos todos poeiras de estrela, é o fato de que tudo o que existe é capaz de, a sua maneira, contar uma história, a história do cosmo, da vida e do planeta, e se manter imortal. Por isso, considero o ofício de narrador um dos mais bonitos. Ele nos torna eternos. Ele faz a vida humana se espalhar pelo tempo infinito do universo. Um brinde aos nossos grandes narradores!

Uma alegria:


cheiro de rosa

um cheiro de rosa invade a minha sala

se é incenso vindo de fora
se é paixão que insiste no peito
que importa...

fato é que um cheiro de rosa
bate à minha porta

e devaneio

abro a garrafa de vinho
escrevo mais um soneto

enlouqueço
e cedo à tentação
de deixar escorrer pelo meu corpo
um cheiro persistente

que insiste em ser presente

mas canso
e me entorpeço

desabo
em direção a fonte
do espasmo

e me deixo
exausta

à mercê da tua estrada
à guisa das tuas madrugadas
sonhando contigo
a me acordar em noites calmas
delirando o abismo
de desejar estar sempre em tua jornada

estando

vivendo contigo
a construir
realidades novas

o que estamos fazendo
senão traçando, juntos,
uma estrada sinuosa?

um cheiro de rosa invade a minha sala
e sei que daí, a partir destes dias,
pensas que não sabes mais o que sentir

e eu...

eu não sei

apenas canto
tua maravilhosa presença

ensimesmando
com tanta
persistência...

15.7.14

o amor tranquilo

então, era isso...
de uma simplicidade estonteante!

então, era assim que, o tempo todo,
ele estava programado para chegar?

silencioso e sem querer

no frio de uma madrugada de inverno
depois da calma de um dia de sol
que renovou a fé nos dias que virão

então, era só isso?
e eu não precisava ter sofrido tanto?

mas, desconfio:
o sofrimento é que nos traz
o sentido da leveza
e sua grandeza

então, o tempo todo,
ele esteve comigo!

porque nunca não haveria de estar
eu apenas não o via
mas, desde sempre,
ele esteve respirando
em meu ouvido

então, era só isso...
simples, fácil, óbvio
e, por isso, belo

como o sol descendo no horizonte
ao som do bolero de Ravel

1.7.14

o substantivo vida

se perguntassem a um poeta o que é a vida
carbono seria estrela

vida é aquilo que existe quando a gente ama!
e sente dor de estômago...

é o cheiro que enjoa
e a luz que dificulta abrir os olhos

é quando bate a saudade
e nasce alegria de ouvir a voz querida

é carinho desejado
e acontecido
vértebra cintilando
o investido

vida é dor
dor nas vísceras

é quando os músculos se contraem
as lágrimas caem
o peito se apavora

vida tem gosto de vinho, azeite e amora
e é a lida que começa cedo para fazer o pão

é o moinho girando
a água cantando na pedra
o som da máquina do mundo
o cabelo ao vento
um poço bem fundo

tem cheiro de delírio
gosto de ser amado
tato de mar salgado
visão de deserto longo

vida é o estilhaço
das cordas renascidas
e o sopro que anuncia o susto

da morte

às vezes,
a vida parece uma falta de sorte...
e é um grande espanto

no entanto,
é a notícia dela,
da sua chegada,
a notícia da certeza
de que sentir-se vivo
é, antes de tudo,
sentir-se estrela!

30.6.14

Para as noites pequenas


Ah, se eu pudesse...
Fazer passar o tempo
E me deixar esquecer o vento
Se eu soubesse que sofrimento
Traz alívio ao final
Que dor rima mesmo com amor
E que a alegria de algo que nasce
É tão somente essa alegria doida e mais nada

Se eu soubesse antes que certas fomes não passam...

Ah, se eu soubesse...

11.6.14

poema sinfônico


uma sinfonia deve conter o mundo
e, em cada mundo, a paixão!

amanhecia a vida

anunciaram, as madeiras,
notas transversais

tomaram o meu corpo
e eu me rendi ao suor do sopro

fosso-oboé do meu desejo
clarineta fálica do meu sexo
meu nexo é levar a vida na flauta
e, em se tratando de paixão,
meu fagote sussurra coisas
impronunciáveis

metalizando a fala
minha verdade rara é tomada de torpor
trompas, trompetes, tubas, trombones
quando o mundo se refaz, são eles que anunciam

e, logo depois,
na percussão do universo,
anuncia-se o verbo!
um tímpano é capaz de produzir um mundo novo
e a infinidade de tudo o que percute
torna a existência mais certa e menos rude

e, entram elas, as teclas,
martelando a minha espinha dorsal
e arrepiando versos que,
piano, poderiam fazer nascer carnaval
para então, cravo, ressurgir, na quarta-feira,
o sagrado em uma harmonia inteira

a ecoar, também profano,
o choro de um magnífico coro

para chegarmos às cordas!
onde a realidade se estica
a multiplicar o possível
e o impossível do vivido

contrabaixos,
estes mensageiros do profundo,
ressoam graves desde o fundo do oceano
e revelam minha insanidade necessária

violoncelos,
mestres do encanto e do experimento,
vêm nos ensinar o caminho do meio
meu corpo, deles tomado,
delicia a eterna hora do recreio

violas,
as pontes...
sem as quais a passagem seria dolorosa
minha alma, cansada,
dança com elas a valsa enluarada

e, então, os violinos,
tão carregados de memória

eu viveria na melodia dos versos que produzem

e, ao me encontrar de frente para o mistério,
no quase segredo que revelam,
eu morreria, para recriar minha fala,
nas mãos de um spalla

e, então, no ouvido do maestro,
renovando o sexo dos deuses,
reconstruir-se-ia o mundo

e, por teus gestos,

como poema sinfônico

semeando luz
em todo e qualquer universo!

um maestro deve ser Deus
e cada um de nós, maestros de si mesmos
a reger as sinfonias dos nossos desterros

cada sinfonia deve conter o mundo

quantas sejam

nove, dez,
quarenta

são elas, os cantos da terra
e a vida que se reinventa

em São Paulo, agosto de 2013. Revisto em junho de 2014.

10.6.14

Um último tango no Rio de Janeiro?


da noite pesarosa
de um tango insuportável
renascerá Piazzolla
descalço e sem pudores
para acertar os passos
que se alinham tortos
num tempo descompassado

virá predizendo 
o fim de uma jornada

- na noite pesarosa, carioca e amarga -

há tangos improváveis que acabam sendo dançados
mas o descompasso não pode ser perpetuado

é como dor de escarro
que dói no peito conjugado de promessas
as farpas miseráveis dos afetos absurdos

-  é preciso devolver a harmonia da cidade -

em Paris, morreriam os amantes
envoltos em lágrimas e um bandoneón
afogados às margens do Sena

- com uma garrafa do melhor vinho à mão -

no Rio de Janeiro
a chuva se confunde às lágrimas
dos que são lançados no deserto

- escondendo o céu claro -

e um último tango deve ser dançado
cansado está
de existir
descompassado


8.6.14

Quem tem boca vai a Roma e muda tudo!


Mudar é uma das poucas constantes da vida. Sidarta Gautama dizia que a impermanência é a verdade da existência e isto se tornou o cerne do budismo. Na Grécia, Heráclito afirmou algo parecido. Eu nunca tive dúvidas. Desde os quatro anos de idade vivi mudando de cidade, por conta do trabalho do meu pai. Era um ir e vir danado. Por conta disso, estudei em nove escolas. Desde que saí da casa dos meus pais, há 10 anos, já morei em cinco apartamentos diferentes. É um apartamento a cada dois anos. Empregos foram vários. Projetos, inúmeros. Desejos, nem se fala. Parece que estava escrito nas estrelas que o meu karma seria conviver com a impermanência: nasci sob o signo de gêmeos. E estou às vésperas do meu aniversário de 34 anos vivendo uma das mudanças mais substanciais pelas quais já passei. Dizem que a cada sete anos todas as nossas células estão renovadas e somos um corpo diferente do que éramos há sete anos atrás. Na astrologia, o número sete também tem importância. Os astrólogos afirmam que a cada sete anos grandes mudanças acontecem no plano astral, logo, em todas as esferas da nossa vida. Assim, as maiores mudanças aconteceriam aos 7, 14, 21, 28, 35, 42 e assim por diante. Se assim for, pelo visto ainda tenho um ano de transformações até consolidar uma vida completamente nova. E parece que é isso mesmo que está acontecendo. Ou, talvez seja esta a explicação que eu consiga para lidar com tanta novidade.

A astrologia também diz que aos 28 anos começamos a passar pelo retorno de Saturno, um dos eventos de maior poder transformador. Pois, assim que fiz 28, eu ganhei uma bolsa para fazer um curso na Espanha que eu achei que jamais ganharia. E fiz uma viagem que mudou para sempre a minha vida. Aos 28 também, passei num concurso e comecei a trabalhar em uma instituição que me trouxe uma vida completamente nova e, como não poderia deixar de ser, grandes novidades e mudanças. Muito embora eu me estresse constantemente com a instituição, tenho que ser justa. Devo a UFRJ boa parte das grandes alegrias dos meus últimos anos e a semente de duas grandes mudanças: a que se deu quando eu entrei e a que começou a se revelar no ano passado. Foi também aos 28 que me separei de um casamento. Depois de tudo isso, vivi uma vida nova, diferente da que eu tive dos 21 aos 28. Não é que é mesmo danada essa tal de astrologia!? Agora, parece que a vida vem me preparando para uma nova virada. A virada que, considerando a perspectiva da astrologia novamente, deve dar origem a uma vida nova a partir dos 35. Mas os momentos de virada não são nada fáceis. Eu sempre fico reflexiva perto do aniversário. E, diante de tanta novidade, tenho me sentido até incapaz de verbalizar e bastante cansada. Esse texto é uma tentativa, porque eu preciso fazer isso, transformar em palavras o que eu vivo. Mas duvido que ele consiga expressar a intensidade do que estou vivendo. Porque não se trata de mudança de cidade, emprego ou namorado. São mudanças na forma de ver e sentir o mundo. São novos sonhos, desejos e pensamentos que me constituem hoje, diferentes dos que eu tinha há um ano atrás, por exemplo. E que fazem com que as questões "cidade", "emprego" e "namorado" sejam vistas por mim hoje sob perspectivas novas - ou renovadas, porque algumas coisas voltam em períodos de mudança, como questões ainda para serem resolvidas, porém, sob novas óticas. Mudanças desse tipo costumam então sobrepor passado e futuro de maneira ímpar, bem como conjugar grandes dificuldades com grandes alegrias. E isso traz uma série de coisas com as quais temos que lidar e que geram uma ansiedade absurda.

Para mim, existem duas coisas que tornam os períodos de mudanças mais cansativos do que poderiam ser. Uma delas é ter que conviver com situações que já não cabem mais no nosso dia a dia, mas que ainda não puderam ser completamente extintas desse dia a dia. É como estar num limbo entre o que foi e o que virá. É viver compondo o que fomos com o que passamos a ser de maneira ainda mais intensa que em momentos de calmaria, onde as coisas estão ajustadas e permanecem por um bom tempo até que uma nova onda de mudanças apareça. A outra é mais difícil e delicada: ter que lidar com as pessoas da nossa "vida anterior" que não conseguem entender - ou não querem entender - nossas mudanças e insistem em nos ver como o que já não somos mais. Até porque, em momentos assim a gente nem consegue direito revelar muito bem o que estamos sendo. E fica complicado para o outro nos entender. Essa pra mim é a parte mais dura. Porque toda mudança substancial necessariamente afasta pessoas e aproxima outras. É o movimento natural da vida. E como, em nossa maioria, somos pessoas apegadas, imagina a confusão que isso gera. Nesse período de grandes transformações que estou vivendo, descobri coisas bem interessantes sobre mim, coisas que eu jamais imaginei que pensaria ou faria. Ao mesmo tempo, comecei a ver facetas de pessoas muito próximas que eu também desconhecia. Mudanças nos fazem ver as coisas por outros ângulos de maneira bem literal. Nessas horas a gente descobre quem realmente nos vê como uma pessoa singular e única - e nos apoia nas mudanças - e quem só nos queria por perto de uma determinada maneira. É doloroso, mas é assim que é. Não dá pra lamentar isso. Eu nunca tive muitos problemas em aceitar as mudanças. Mesmo as mais dolorosas. Sempre brinquei que sou budista sem ser. Não que eu não sofra. Imagina. Mas aceito. Sou uma budista nietzschiana. Pratico o amor fati. Mas, também nunca vivi situações que considero extremas. Não sei se eu continuarei a sentir o mundo dessa maneira se algum dia eu for colocada diante de uma dessas situações que me assustam. Mas, como uma das constâncias da vida é a inconstância, pode ser mesmo que eu mude. Até agora essa foi minha permanência. Porque afinal, algo tem que permanecer. Na verdade, mais do que ser impermanência, a vida me parece o jogo entre uma e outra: a permanência e seu contrário. Yin e Yang. Roda da fortuna. Há coisas que ficam e sempre retornam. Talvez elas sejam o que nos constitui. Mas identidade é um conceito perigoso, daqueles fáceis de nos apegarmos. Porque há coisas que sempre são novas e, se estamos apegados a certas imagens de nós mesmos, temos dificuldade em aceitar o novo que nasce dentro da gente. De toda forma, em momentos de metamorfose, não é só o novo que aparece; há coisas que reaparecem. Em todos os casos, é um momento delicado. Mas maravilhoso, porque faz a gente sentir aquelas borboletas no estômago que nos fazem perceber o quanto estamos vivos! 

Antes de começar a escrever esse texto, me peguei nostálgica olhando minhas fotos no mural em cima da mesa do computador, e uma delas fixou o meu olhar por um bom tempo. Era eu, aos 28 anos, na Piazza Navona, em Roma, olhando "para o nada". Passei alguns minutos viajando naquela foto e percebi o quanto ela me dizia de algo que nem sei, mas sinto. Roma é uma das minhas cidades preferidas. E olha que mal passei por lá. Mas sempre foi uma cidade que fez parte do meu imaginário, seja nos livros de história ou nos filmes de Fellini. Quando eu estava na Espanha, não via a hora de poder pegar as malas e conhecer Roma. E me apaixonei, sem nem precisar de muito. Roma é uma das mais antigas cidades do mundo e uma das que mais passou por transformações. Estar lá é ver todas as Romas em uma: a do império, a da Igreja, a de Fellini, a de Mussolini, a Roma capital contemporânea e caótica, da noite, das grifes e das bolsas Prada falsificadas. Uma colagem aleatória e cheia de sentido. Como toda cidade, como todo ser humano. Uma semana em Roma não foi suficiente para saciar meu desejo de vivê-la. De todas as cidades que conheci, Roma foi aquela que, tendo sido presente por tanto tempo no meu imaginário, passou a estar ainda mais depois que a visitei. Talvez eu me identifique com esse ar de coisa em constante transformação que senti ao estar lá. E ao me pegar vidrada numa foto de seis anos atrás, senti uma coisa estranha no peito - ou no estômago. Aquele frio na barriga - as borboletas - de futuro, como quem já vê o que está por vir, mas sabe que só chegando lá é que saberá o que é este futuro. Sabendo que, ao chegar, um novo horizonte passará a fazer parte da vida. Eu não estava olhando para o nada, mas para algo ainda por vir que, de toda forma, já estava lá também. Na física após Einstein o conceito de tempo foi completamente resignificado. Passado, presente e futuro são uma coisa só. Basta olhar para uma estrela. A luz que vemos hoje é uma estrela que já morreu. Na foto, que pode ser vista abaixo, e no meu olhar, estão passado, presente e futuro sobrepostos, e ela agora parece resumir pra mim o que hoje sou. Não sei explicar muito bem, trata-se de intuição. Eu falei que esse texto não ia conseguir dar conta... Ainda sobre a foto, acho curioso que eu esteja na frente de Netuno, esse deus símbolo da inconstância, que cavalga as ondas em cavalos brancos com o poder de manter o mar calmo ou de criar tempestades. Sinto que, assim como Roma, eu nunca perdi a capacidade de me renovar e de me reerguer por cima ou junto das ruínas - coisas que períodos de transformação trazem! Mudar é sempre o resultado de uma situação onde coisas se arruínam, entram em decadência. O novo só pode fazer parte da nossa vida quando damos um belo tchau para o velho ou quando a vida assim se encarrega de fazer. E, ainda que algumas ruínas permaneçam visíveis - porque sempre existirão as que queremos que fiquem - é inevitável que novos prédios sejam construídos. A beleza está nessa composição maravilhosa entre o que foi, o que somos e o que seremos. Fellini tinha razão. A vida é uma loucura, alternando apogeu e decadência, mas é doce que só ela. Netuno deve saber sobre isso. Vou perguntá-lo. Cavalgarei com ele em direção ao que não sei.



3.5.14

A solidão necessária...


Às vezes, o que mais precisamos é da solidão. Para escutarmos melhor o que fala dentro da gente, diminuindo a quantidade excessiva de ruídos. E isto deve ser feito. O espaço da nossa solidão e do nosso silêncio deve ser sagrado. Penso assim... Minha vida corre rápido. Sempre foi deste jeito. Cada semana é uma correria danada e o movimento é a única constante. Encontro sempre muitas pessoas, troco ideias com várias outras, vou sempre a muitos lugares diferentes, tanto quanto os mesmos de toda semana. Muitos desejos vão, outros vem, enquanto alguns permanecem. Por conta deste movimento todo, há momentos em que a cabeça e o coração parecem querer entrar em colapso. O corpo pede um pouco mais de alma... Quando isso acontece, tudo o que procuro é ficar absolutamente sozinha. De preferência, em um lugar alto ou amplo, ouvindo músicas que me lembram quem eu sou. Olhando para o céu ou para o mar, calada, contemplando como o mundo é grande e como a vida é incrível, até mesmo quando dói e porque finita! Acredito que para saber o que realmente nos toca, o que é verdadeiro e o que tem valor, é preciso estar só. Só assim, me parece, podemos viver com mais plenitude para os nossos amores, paixões e para o que nos constitui. Certos de nós mesmos, ainda que certos de sermos caos...

24.4.14

A Estrada da Saudade


A minha Petrópolis e a Petrópolis de sempre

Petrópolis, cidade da serra fluminense conhecida como Cidade Imperial, é uma daquelas cidades brasileiras que costumam encantar pessoas em busca de uma experiência de Brasil mais europeia. Frio, neblina, pinheiros, casarões imponentes, catedral de arquitetura gótica, histórias de monarcas, jardins bem ornamentados, uma coroa incrustada de pedras preciosas, exposta para nos lembrar da riqueza dos soberanos e de sua posição privilegiada na sociedade. Cidade onde se pode alugar carruagens para conhecer seu centro histórico e visitar um local que foi um importante cassino e hotel que hospedou figuras como Getúlio Vargas e Walt Disney, o Quitandinha. Pitoresco! A Avenida Koeler, que começa na praça da liberdade e vai até a catedral, é uma das belezas de Petrópolis. De cada lado da avenida, vemos belíssimas mansões e, no Hotel Solar do Império, se pode tomar um típico café da manhã colonial, ainda que não se esteja hospedado, no Restaurante Imperatriz Leopoldina, um casarão tombado pelo Iphan com pinturas feitas à mão pela francesa Dominique Jardy; um salão que mais lembra os salões de baile das cortes do século XVIII. É só chegar e pagar. Sempre achei a expressão colonial curiosa para adjetivar um café da manhã... Nesta bela avenida, na esquina à direita de quem vem da praça em direção à Catedral São Pedro, tem uma casa que parece um castelinho que sempre foi um dos meus sonhos de consumo por lá. A Avenida Ipiranga, logo ali perto, também abriga casarões e a famosa Casa da Ipiranga, mais conhecida como casa dos sete erros ou casa mal assombrada, um lugar lindíssimo que hoje é um centro de artes e tem um restaurante concorrido. E, na Rua da Imperatriz, encontra-se o Museu Imperial, que guarda boa parte da memória do Brasil antes da República e tem um simpático café que eu adoro, especialmente quando está frio. Perto de tudo isso também, encontramos o Palácio Cristal, a Casa de Santos Dumont, alguns (poucos) bons restaurantes, a fábrica da Bohemia, a Prefeitura, a Casa da Princesa Isabel, a Casa do Barão de Mauá, o Theatro Municipal Dom Pedro e a Rua 16 de março, que tem uma filial apertada da deliciosa Casa do Alemão, point do croquete e de bombas calóricas. Tudo isto poderia tornar Petrópolis uma cidade incrível, certo!? Mas não é bem assim que funciona...

Petrópolis é também uma cidade musical. O Instituto dos Meninos Cantores de Petrópolis, os Canarinhos, tem fama internacional e por ele já passaram grandes nomes da nossa música de concerto. O maestro Marco Aurélio é velho conhecido da minha família. Em Petrópolis é assim, todo mundo se conhece. E esta cidade é também a terra do grande maestro e compositor Guerra-Peixe - cujo centenário está sendo comemorado este ano - e, hoje, é a cidade onde vive o maestro Ernani Aguiar já há um bom tempo, ele que é criador do Coro Municipal da cidade. Guerra-Peixe tem uma obra chamada Petrópolis da Minha Infância, escrita para orquestra de câmara, que estreou sob a regência de Ernani na década de 80, quando eu ainda era uma criança... Mas, embora os dois maestros tenham musicado/regido a cidade, sempre souberam muito bem que Petrópolis é um caso complicado de se entender... Num dia de tempestade no Rio de Janeiro, eu estava “presa” na Escola de Música da UFRJ e conversava com Ernani. Ele especulava como, com aquela chuva toda, iria subir a serra, tentando chamar um táxi, e eu lhe falava de minha infância em Petrópolis e de quando saí e fui morar em outras cidades. Foi quando ele me disse: "sair de Petrópolis foi a melhor coisa que te aconteceu"...

Petrópolis é uma cidade musical, mas não têm grandes orquestras - possui uma Filarmônica no Instituto dos Canarinhos. É também uma cidade com grande vocação cultural em geral, pelo menos aparentemente, mas não tem bons cinemas, não tem cias de dança, não tem uma cena expressiva de teatro, não tem casas de shows, nem grandes nem pequenas, não têm projetos de arte e cultura em nenhuma de suas favelas - hoje, muitas. Tem um grande museu, um dos mais interessantes do país, eu acho, mas, como todo museu hoje, é pouco ou quase nada frequentado pela população local. Sua programação cultural anual se resume ao Festival de Inverno, que acontece em junho, e à Festa do Colono Alemão, a Bauernfest. O Festival é realizado pela Dell´Arte, do Rio de Janeiro, e não pela cidade. Não sei o quanto contribui social e economicamente para a cidade ou mesmo para o turismo, já que se realiza numa época que normalmente já recebe muitos turistas. Culturalmente é um ótimo Festival, embora já tenha tido tempos melhores, e acredito que ao menos uma parte da população participe. No entanto, ainda assim, a cidade não consegue entrar no ritmo dele. Em determinados dias da semana, basta escurecer que, mesmo no centro histórico, Petrópolis se torna uma cidade fantasma. Depois do último concerto, não há o que fazer. Já a Festa do Colono é uma festa da cidade, e sobre ela não tenho o que dizer, pois não vou há anos. Este ano já decidi que vou. Sei que o patrocínio é da cervejaria Bohemia e, dizem os mais tradicionalistas, que ela já deixou de ser uma festa das tradições alemães... Meu avô foi químico da Bohemia. No casamento dele com a minha avó no final dos anos 40, não faltou barril de chopp. Ele me dizia que já naquela época a fórmula da Bohemia era bem brasileira. Ou seja, haja arroz e milho na composição...

Mas não dá mesmo para esperar muito de Petrópolis, por mais linda que seja e por mais afeto que se tenha. A cidade vive a mesma realidade de muitas cidades brasileiras e fluminenses, onde o ser humano vem em segundo lugar e os cargos em primeiro. Nem mesmo o comércio local de malhas e lãs, que sempre foi forte por lá, anda bem das pernas. Várias lojas na Rua Teresa vêm fechando por conta da alta de preços dos aluguéis, enquanto os shoppings se espalham com lojas que se encontram em qualquer lugar, os locais de cultura e lazer fecham ou estão sucateados, as praças são abandonadas. Não sei como anda o Parque Crèmerie. Faz tempo que não vou lá. Fui muito na minha infância andar de pedalinho e brincar com os porquinhos da índia... Até mesmo o centro histórico, que normalmente é privilegiado em cidades históricas em detrimento de todo o resto, está abandonado. As ruas estão cheias de buracos, o mato cobre a vista do rio que atravessa a Koeler, muitas casas parecem casas fantasmas. E se você já teve a experiência de pegar uma chuva forte nesta cidade, sabe o quanto é tenso. Tudo alaga e fica difícil distinguir o que é rua e o que é canal. Problema típico de cidades que crescem desordenadamente. Problema típico do mundo contemporâneo... Além disso, a qualquer hora do dia hoje é possível viver em Petrópolis uma típica experiência de grande cidade: o engarrafamento. Portanto, não se engane. A experiência europeia de Petrópolis fica reduzida ao frio de algumas épocas do ano, à história de uma família real cuja genealogia liga nobres de Portugal, França e Áustria e à comida da Casa do Alemão e do Pavelka. No mais, você não vai encontrar nada diferente de qualquer cidade brasileira. Ah sim, você vai encontrar lá um racismo bem europeu... E quando você estiver no trânsito com todo mundo buzinando, pode até encontrar algumas semelhanças com Roma.

Pois esta cidade é também a minha cidade. Nasci em Petrópolis, vivi minha infância lá e até hoje mantenho contato permanente com este lugar, visitando a minha avó por parte de mãe e a família do meu pai. Estive agora no feriado de Páscoa para passar três dias na casa da minha avó. E fui com ela e minha mãe conferir a programação cultural de Páscoa, criada pela Prefeitura. Uma tristeza... Inexpressiva e sem nenhum impacto positivo para a cidade. Resumida a algumas barraquinhas genéricas no Palácio Cristal, que ainda resolveram chamar de Feira do Chocolate, o que menos havia. A barraca que parecia mais legal, com um cardápio de doces alemães, não tinha 1/3 do que prometia. Tudo era mal acabado, o público era pequeno. Fui até a organização perguntar qual seria o show da noite e só souberam me dizer o nome do grupo. Não sabiam do que se tratava... Já era tarde, estava tudo fechado na cidade. Voltamos para a casa para comer torta de bacalhau e aproveitei para ver as fotos da família, desde a época do Seu Chico Vieira, meu tataravô português que era dono de meia Cascatinha, segundo distrito de Petrópolis, onde eu cresci. O distrito mais dentro da cidade que já vi. E passei parte da noite ouvindo mais histórias da minha avó e vendo as dezenas de fotografias. 

Assim que cheguei à Petrópolis desta vez quis ir, com meu pai e minha mãe, à Estrada da Saudade. Este é o nome de uma rua da cidade onde moramos na minha infância. Sempre achei o nome da rua muito poético, e nossa casa ficava no alto e tinha vista para um céu enorme e grandes montanhas. Quis ir lá relembrar como era. Quando moramos em cima da casa dos meus avós, também havia vista para uma montanha. E acho que essas montanhas de Petrópolis, mais a introspecção que só os lugares frios nos proporcionam, foram o que me tornaram poeta. Além disso, morar num lugar chamado Estrada da Saudade é de uma beleza melancólica. Um pouco, poesia portuguesa... Depois, eu resolvi andar por Cascatinha e visitar os lugares onde brinquei e onde parte da história da minha família se deu, tanto do lado materno (pelos Vieira e os Rocha) quanto pelo lado paterno (pelos Pereira). Fui à igreja onde meus tios Lilian e Marco se casaram e eu fui dama de honra, que fica numa pracinha com um coreto, perto da antiga Estação de Trem Cascatinha, que faz parte da Estrada Real. De lá se vê a chaminé da fábrica de tecido, onde boa parte da minha família trabalhou. Passei pelo Bogari Clube, que hoje está desativado, mas onde vivi meus carnavais na infância, onde meus pais se conheceram, meus tios se conheceram, meus avós se conheceram. Ali, havia a Cia de Teatro em que meus avós atuaram e onde se apaixonaram. Foi no Bogari também que aconteceu a festa de casamento deles, dos meus pais e dos meus tios todos. E foi também em Cascatinha que eu soube, pela primeira vez, o que era ter interesse por um garoto, e nosso beijo aconteceu num carnaval no Bogari. Nossa vida acontecia entre o Bogari e a casa dos meus avós, a uns quinze passos do Clube. A casa de Ceny e Hernani sempre foi um ponto de referência no bairro. Todo mundo conhecia os dois. Minha avó foi mãe do ano (no Bogari), minha mãe foi Nice Girl (no Bogari) e toda a minha família era sempre premiada (no Bogari) por suas fantasias no tradicional, mas já extinto, Baile dos Fantasmas, um desfile de blocos bizarros com temas de terror que acontecia uma semana antes do carnaval. Eram famosas as festas (de Natal, Carnaval, Páscoa, aniversários) na casa dos Vieira e Rocha. A casa onde vivi já não era a antiga casa da família construída por seu Chico Vieira, mas outra que meu avô construiu após derrubar a velha. Porém, guardava todas as histórias: do armazém do seu Chico ao lado da casa, que importava de Portugal tudo do bom e do melhor (vinho, azeite, bacalhau); dos seus dez filhos, cada um com uma história mais pitoresca que a outra; dos muitos velórios na casa e os gambás que andavam no telhado; do dia em que a família perdeu boa parte do dinheiro que tinha e teve que vender as maçanetas de cristal. E a história que ninguém acredita quando conto, mas é verdade: meu bisavô um dia saiu para comprar cigarro e sumiu. E é dele que carrego o sobrenome Rocha... Às vezes tenho vontade de colocar o Vieira, mas só de pensar a trabalheira que isso daria, eu desisto. Ele largou minha bisavó, a bela Julieta, grávida do meu avô. Só depois de muitos anos é que souberam tudo o que aconteceu, porque ele, ao saber que minha bisavó estava morrendo (dizem as más línguas, que de amor) voltou a Petrópolis. Mas meu tataravô e meu avô não quiseram recebê-lo. Ele ficou na casa de amigos e contou que se arrependia e que havia partido porque achava que o meu avô não era filho dele. Disse que morria de ciúmes da minha bisavó e não sabia conviver com aquilo. Depois, teve certeza que o filho era dele e que tudo não passava de um ciúme doentio. Covarde! Eu olho para a foto dele e repito essa palavra... Ou, vai ver era apenas um homem frágil, fruto de uma geração machista demais. Sei que depois ele quis conhecer o filho, mas meu avô não quis. A família soube que ele tinha ido para o EUA. Felizmente, depois minha bisavó encontrou um homem que a amava e fez tudo por ela e o seu filho, o meu avô. Mas, ela nunca esqueceu Horácio Rocha... E morreu jovem, aos 35 anos, do coração. Na minha família, há uma tradição de morrer do coração. Desde a mãe do meu tataravô Chico Viera. É uma linhagem. Acho trágico e ao mesmo tempo poético: “morreu do coração!” Acho que estou fadada a morrer do coração, com duplo sentido. Além dos infartos, é uma família repleta de histórias de grandes e confusos amores. Pelo menos eu cresci ouvindo essas histórias, e não, contos de fadas, e acho que desde cedo aprendi que amor é mesmo conflito e que assim é muito mais emocionante que histórias de príncipes encantados...

Minha avó, quando casou com meu avô, foi morar nesta casa, com essa gente toda: muitas tias, o padrasto do meu avô, um primo esquizofrênico de quem ela cuidou até a morte dele e uma prima também com distúrbios psíquicos, de quem ela também cuidou a vida inteira. Quando os dois morreram, ela teve câncer... Minha avó é uma mulher incrível. Foi atriz quando isto era motivo para sofrer preconceito brabo. Passou por dois cânceres, cuidou de três filhos, abortou naturalmente outros, foi enfermeira, cuidou dos netos, dos primos do meu avô, do meu avô. E nunca deixou de pensar nela. Enfrentava o gênio leonino do meu avô sem medo, fazia o que queria. Viveu com um homem difícil por 63 anos e o amou profundamente, sem confundir amor com esquecimento de si mesma, como muita gente faz. Hoje, minha avó vive em um dos apartamentos de cima da antiga casa dela, que está alugada. Isto, desde que meu avô faleceu. Eu não ia lá há anos, pois enquanto ele e ela estiveram doentes, ficaram em Juiz de Fora, perto da minha tia (outra cidade importante na história da família, onde nasceu a minha mãe). Quando eu cheguei lá desta vez, foi um impacto. A casa alugada me deu um nó no coração. Foi ali que cresci, que vi minhas irmãs nascerem, que inventei brincadeiras com os meus primos, que vivi minha primeira paixonite... ou seja, foi ali que vivi minhas primeiras experiências de vida. E foi ali também que vivi minhas primeiras experiências de morte – a de uma amiguinha da escola, aos 6 anos de idade, de maneira trágica, e a do meu bisavô malandro, jogador do América, seu Arnô. Chorei um pouquinho, olhei o jardim que quase não existe mais e abracei a minha avó. Ela, quando voltou a morar ali, disse que passou o dia chorando. E ali, eu tive certeza do quanto minha avó e meu avô são referências para mim. Foi com eles que aprendi a amar a arte e aprendi primeiro a valorizar a sinceridade e a honestidade, o que depois os meus pais reforçaram; foi vendo a relação deles que hoje acredito no amor; e foi pela energia dos dois que aprendi a acreditar que tudo é possível, basta se mexer e fazer a vida acontecer. Meu avô era inquieto e fazia tudo. Acordava cedo e trabalhava o dia inteiro. Só dormia quando parava em frente à TV. Um sábio... Mesmo quando se tratava de jogo do Vasco, time para o qual torcia. Minha avó, de quem eu herdei a torcida pelo Fluminense (ela é a maior tricolor que já conheci, depois é que vem a minha mãe) é, como ela mesma diz, uma espevitada. Não para, nem nunca parou. Mesmo quando fazia quimioterapia. Eu digo que meu avô morreu de tristeza, e não das complicações decorrentes dos problemas do coração (olha ele aí de novo). Quando ele ficou dependente das pessoas e não mais podia fazer tudo o que sempre fez, ele entristeceu, e sabemos que isso acelerou sua morte. De uma forma ou de outra, morreu do coração... Um dia, minha mãe foi visitá-lo no hospital e ele reclamou que era tudo muito chato lá, que não havia nem uma cervejinha. Figura! No velório, quando abracei minha avó, ela me disse que havia perdido um pedacinho dela. Triste. Mas ela sacudiu a poeira e foi viver a vida, aos quase 80 anos. Hoje, faz questão de morar sozinha (e, por isso, a gente torra a paciência dela para manter o celular sempre ligado do lado da cama), porque ela é como eu, ou eu sou como ela: precisa do seu canto. Está reformando a casa inteira e vem pensando em viajar! Minha família tem uma característica pela qual agradeço: uma enorme capacidade de não se entregar e sempre recomeçar. Meu pai também é assim. Disse que já recomeçou a vida cinco vezes. Quando eu nasci, ele estava desempregado. E depois, saiu dessa condição para um cargo no banco onde só cresceu, até chegar à inspetoria e a gente viver se mudando de cidade, uma das experiências que me constitui. 

Pois esta é a minha Petrópolis. Repleta de histórias de uma família que fala sem parar, que ama sem medir, que vive a vida com tudo o que ela oferece e é capaz de se reconstruir de ruínas, quantas vezes forem necessárias. A Petrópolis que me fez poeta e escritora, pois numa família dessa e numa cidade como essa, tendo morando na Estrada da Saudade, eu posso dizer que fui condenada a ser sentimental, como o protagonista do filme A Grande Beleza...

Por isso, me entristece ir lá e ver o marasmo da cidade e a apatia do petropolitano médio. Petrópolis é uma cidade que não sai do lugar e, pior que isso, parece hoje andar para trás. Para mim, isto se explica, em parte, pelo provincianismo do petropolitano, porém, associado a um comodismo do brasileiro que diz sempre “ah, tá bom assim...” A gente aprendeu a acreditar, no Brasil, que funcionamos desta forma. Acho que esta é a frase que mais escuto por lá... Mas isto nunca foi motivo para as coisas mudarem. Falta, como bem sabemos, um governo com visão e menos corrupto (porque dizer nada corrupto no Brasil é ingenuidade). Mas isso, no país todo. O que, talvez, falte mesmo à cidade, seja quem queira enfrentar tudo isso. Na área da cultura, ninguém fica. Não tem o que fazer por lá. A não ser que se tenha disposição para mover montanhas diariamente. Como todo mundo acaba saindo de lá para estudar, quando a gente vê o mundo não quer mais voltar. Uma pena... Fazer um Festival de Inverno é legal, mas isso não muda uma cidade. Não da forma como ele acontece, pois conheço casos de festivais altamente impactantes. Foi o que estudei na Espanha no curso de Economia da Cultura. Quando eu estava na faculdade, meu trabalho de política cultural foi para Petrópolis. Estudei a cidade de cabo a rabo e as suas potencialidades, inclusive a tecnológica – para quem não sabe, lá tem um pólo de tecnologia que às vezes é chamado de Silicon Valley brasileiro, o Petrópolis Tecnópolis. Desde aquela época tenho vontade de fazer mil coisas pela cidade e, se eu tivesse dinheiro pra valer, já teria ao menos comprado a fábrica de tecidos abandonada no centro da cidade e transformado em um super espaço cultural. Mas sempre que penso na realidade cultural brasileira e de Petrópolis, eu me desanimo. Não porque eu tenha aceitado o comodismo, mas porque saí de lá há tanto tempo - pois era impossível ficar -, que isto significaria abandonar o que venho construindo... Petrópolis faz isso com a gente. Nos expulsa da cidade. Talvez, um dia, quem sabe, quando eu já tiver rodado o mundo e feito tudo o que quero fazer, eu tenha mais energia e sabedoria para fazer alguma coisa por lá. Por enquanto, isso não é possível. Porque Petrópolis ainda é uma sociedade de corte... 

Aliás, o Brasil é um país onde a sociedade de corte nunca deixou de existir. Nossa democracia é terrível, como a própria família real reconhece, ao defender, em seu site (que eu descobri outro dia) uma monarquia parlamentarista. Dá Google aí na Casa Imperial do Brasil... Mas eles esqueceram que a monarquia permanece, com a diferença de que se tornou rizomática, e não mais é privilégio de uma família. Está em toda a estrutura de governo, nas universidades, dentro de casa e nas empresas. Essa gente deixou o seu legado por aqui... No Brasil, temos o tempo todo que confrontar a corte e sua lógica, que o tempo inteiro força a desenrolar tapetes vermelhos para os soberanos e não para de os enriquecer (vide os salários dos nossos deputados). Somos uma república sub-democrática de corte... Quem sabe, um dia também, isso acabe, e Petrópolis, e todo o Brasil, possam ser um lugar de gente fina e elegante por toda a parte, sem que se precise ter sobrenome e genealogia nobre para isso; e sincera, sempre. Utopias de quem morou na Estrada da Saudade...

 Casarão na Avenida Koeler

 Casas típicas de Cascatinha

 Igreja de Cascatinha e chaminé da Fábrica de Tecidos

 Coreto da pracinha da igreja

 O atestado de que a estação faz parte da Estrada Real

 Antiga estação de trem de Cascatinha

 O famoso Bogari Clube das muitas histórias dos Rocha, Vieira e Pereira...

 A casa onde cresci, já alugada, quase sem plantas, com uma escada nova e estranhamente pintada de azul...

 Minha bisavó Julieta, a que morreu de amor...

 Foto clássica na ponte com vista para a catedral. Tios, avós, mãe e pai na década de 70

 Meu avô, lindo e estiloso nos anos 40

 A velha casa da trupe do seu Chico Vieira

 O tal que foi comprar cigarro e sumiu... meu bisavô Horácio Rocha

 Minha avó na casa antiga com o meu tio

"seu" Chico Vieira Cristo, o patriarca dos Vieira da Ilha Terceira de Açores

18.4.14

eu e a palavra

poucas coisas hoje me fazem tão feliz quanto escrever. gosto de acordar, correr ou praticar yoga, tomar meu café e sentar para escrever. eu passaria o dia escrevendo. foi percebendo isto no ano passado que resolvi, finalmente, investir na escrita como carreira. sei que não é nada fácil. para viver de escrever é preciso vender muitos livros, coisa bem difícil hoje em dia. mas existem caminhos para isso, e já comecei a trilhá-los, pois há que se caminhar, já que o caminho se faz assim. estou concorrendo a um prêmio de literatura em língua portuguesa na categoria poesia, com o meu livro "poemas em carta e outras poesias" e a uma bolsa do ministério da cultura para escrever o meu romance, o primeiro volume da trilogia "as cartas de sara" que, na verdade, já comecei a escrever. adoraria, daqui há um tempo, poder inverter a lógica do meu dia a dia hoje. atualmente, vivo da produção na área musical, que adoro também, mas produção é algo que consome. e tenho que ter muito jogo de cintura para equilibrar uma atividade altamente extrovertida, que me põe em contato com muitas pessoas e questões o dia inteiro, com a atividade de introspecção que é a escrita, e da qual preciso muito. não vivo só de uma ou só de outra. mas daqui há um tempo gostaria que meu sustento viesse da palavra, e eu pudesse, então, escolher, mais ainda do que já faço, que produções realizar. sonho? é... sonho bastante possível, atrás do qual eu já estou correndo... na escrita eu exorcizo os meus demônios e realizo uma das minhas mais profundas necessidades: a de expressão; além da vontade de viver várias vidas. escrever um romance, por exemplo, que é o desafio que me dei agora, é poder viver várias vidas, é poder falar sobre a vida, o amor, o mistério, a filosofia, de maneira mais livre, poética, ensaística. sempre fui uma ensaísta. minha dissertação de mestrado e minha monografia de graduação são dois grandes ensaios filosóficos sobre cultura... sem a escrita, essa necessidade de expressão que tenho se coloca de qualquer jeito, e pode virar uma perda de tempo de palavras soltas nas redes sociais. mas a escrita não foi uma escolha na vida. ela é quem me escolheu. às vezes, tenho a impressão da palavra estar no ar e de repente cair em mim: me sinto um meio, apenas, para que a palavra exerça sua força e tudo o que ela é capaz de dizer. já disse aqui no blog em um outro texto, uma frase que me guia, dita pelo meu grande amigo leonardo guelman, pensador e escritor de mão cheia: uma palavra vale mais do que mil imagens! eu fotografo a vida com a palavra. e a palavra diz mais do que qualquer fotografia.

16.4.14

infinito

tenho um amigo que diz que somos a consciência do universo, e que esta é a religião dele. ele é fascinado por física e astronomia, e sempre temos papos deliciosos sobre filosofia e cosmos... sempre tive dentro de mim esta certeza, mas nunca havia conseguido verbalizá-la com tamanha clareza como ele, um virginiano, fez. adotei para mim sua máxima! cada ser humano é o universo pensando sobre ele mesmo. e a criação é uma das maneiras com a qual podemos ter esta certeza. fiz um poeminha sobre isto:

infinito
dedicado à Gustavo Castro

cada um de nós
é, inteiro, o universo
pensando sobre si mesmo

a criação não é conexão
porque o que somos já é

ela é a certeza do infinito 
que começa e termina
em nosso próprio pé

15.4.14

chuva, um violão e uma taça de canção

a vida?
ah, sei lá
algo absolutamente fascinante
e, às vezes, o que mais importa
é tão pequeno...
que de tão pequeno é grande

uma taça de vinho
pão com azeite
a música de Santaolalla
uma conversa que basta
e mais nada

uma conexão que são mil delas
as pétalas amarelas do girassol

a chuva na montanha
o cheiro de lasanha

um beijo...
e tudo que duas bocas
repletas de paixão
desejam

14.4.14

menino-música

dicionário:
como verbalizar
o não verbalizável

silêncio na soleira da porta
notas que reverberam
nos muros de pedra
os tempos todos
dos homens

criando luz sonora
nas construções antigas
do corpo cultural
e pondo abaixo
aquela cidadela que seria nada
não fosse a tua música

atravessando
fazendo a seu modo o cotidiano
um deus

irradiando
semente nascente de embriaguez
que ilumina, de cegar,
a insensatez do soberano

rindo
como prostituta de santo

acreditando
como só aqueles que tem fé

verbalizando!
como antes não era possível

porque coragem
esse menino endiabrado
de divindade

porque menino deus
de riso escancarado
porque humano louco
e mago

porque profeta
porque alquimista

verbalizando
o não verbalizável


Mozart - Réquiem




7.4.14

improvável domingo


acordei um tanto extensa
e o cheiro de café
invadia meus sentidos

fazia silêncio, o céu estava azul
ventava um vento gelado
e eu podia ouvir, ao longe,
os pássaros

e me lembrei do rio,
do açude, das galinhas
da montanha que não cansava
de ser alma em forma de pedra

acordei e ouvi meu riso de criança,
de quando eu corria sem tempo
na sala grande da avó
fazendo festa

e me lembrei a primeira vez
que vi a morte...

acordei e vi algo
que ainda não havia visto

era domingo
e tudo foi novidade
como a grande novidade um dia
da menina de olhos curiosos

aprendi, desde cedo,
a conviver com o improvável
e, assim, acreditar
no inacreditável

4.4.14

notas ingênuas para o cotidiano


às vezes, é tão somente
o vento de quando o metrô chega na estação...

eu, já cansada (passa das dez),
tentando conter a ilusão da rua do passeio

o edifício odeon se torna um refúgio
para um coração estupefato por tantas palavras e desejos
e projetos que não cabem mais na agenda
e todas as certezas que não tenho

a música ainda chega
para inflar mais este corpo
necessitado daquilo que não precisa
desta força prolixa das letras

não fosse a poesia, eu sufocaria...
mas, se não fosse a música,
esse maravilhoso vazio do verbo,
eu já haveria de ter partido desta para o incerto

nem sei de mais nada
é tarde e estou cansada
os olhos ardem de tantas mensagens
que não cessam de me querer

chego a cogitar que posso atender
algumas delas
afinal, o amor líquido
parece tão mais fácil...

é que tudo anda cultural demais, um tanto...
racional demais

mas eu só desejaria correr na direção certa...
e sem resquícios de um leão covarde

só que a paixão confunde
e, diante do cansaço, delira

e sentir demais o mundo
a ponto de deixar transbordar
não somente o amor, mas as planilhas
e os problemas todos da família
é uma dor que dói
onde nenhuma palavra alcança

mas, às vezes, é tão somente
o vento de quando o metrô chega na estação...

e balança os cabelos,
faz ruído nos meus pelos
e eu fecho os olhos e penso:
ser gente
é ser qualquer coisa
e mais nada

antes de embarcar,
cansada...

3.4.14

enigma da esfinge


se não fosse a poesia, seria eu quem sufocaria...

--

rasgo em pedaços a vida rasa
que quer me sufocar no dia a dia
da tua existência em máscaras
da maquiagem bem feita
e da foto perfeita de perfil
bem vi tua perfeição a passear
e roubar tuas sandálias style
comigo, a poesia invade
meu horário de trabalho!
é deusa... e vadia que só ela
me lembra, afinal,
o que é que vale a pena
me depena
para que eu vomite palavras sinceras
e esqueça, para sempre, na mesa do bar
a triste máscara da beleza sem alma
e da cinza eterna alegria falsa
- quanta gente it que nos cerca... -
não tenho que fazer mesura em tua festa, meu bem...
sou poeta!
enquanto a tua trupe repete os prontos versos
tão midiaticamente perfumados
eu crio o universo!

la vie en rose


era danada essa tal de Hilda,
que roubou meus versos numa ode
descontínua e remota para flauta e oboé
de Ariana para Dionísio:
decreto, com ela, o reino do impossível!
e, junto a Piaf, no jardim da boemia, o reino do incorreto:
somente a beleza, um bom vinho e o sexo!
decreto, diante de seus versos, o reino da sorte:
munida de um cigarro para espantar o medo da morte...
e, assim, decreto hoje também, o reino do improvável
e do trompete rasgado das love songs de Miles.
feliz, ao decretar o reino do cansaço
de todo academicismo reacionário!
e o que digo é, obviamente, óbvio
e nem um pouco novo:
é preciso decretar o reino do corpo!

31.3.14

silêncio


dei-me o desafio do silêncio!

a partir de agora, tenho comigo
uma nova forma de respirar as horas.

mas não para negar a palavra.
sou justa!
ou negaria meu corpo...

mas para deixar que,
a partir de hoje,
e por tempo indeterminado,
fale mais o sentimento.

para que ele não se dilua
na voracidade do verbo
e a política se faça nos meus gestos.

dei-me o desafio do silêncio
para construir uma obra.
e para que a palavra possa
calmamente lapidada,
e, com o tempo, condizente,
encontrar, enfim,
a sua forma mais reluzente!

30.3.14

o poeta é um inventor


escrever é criar o que ainda não existe

quando algo se torna verbo
ganha status de concreto

e o poeta!?
o poeta é um inventor:
exagera!

prosa de um querer

sempre depois que te vejo é como se ficasse um cheio. fica cheio de vida o meu coração e tento transformar também em cheio o vazio que fica quando vou ou quando vais. e o vazio desaparece e fica um cheio tanto que transborda de vida semeando dentro de mim. extasiante. como podes ser tão bonito assim? tua beleza vem de longe, de um mundo subterrâneo que é ao mesmo tempo céu, lá onde nasceu a vida, daquele tempo sem tempo onde as estrelas espalharam poeira e era mesmo a música que mantinha em permanência e caos o universo. uma música das esferas a dar origem ao verbo. às vezes, depois de te ver e te sentir, quando só, eu choro, minutos seguidos, até que paro, sorrio e vou dormir. mas não choro um choro de tristeza. é o choro da falta das palavras. é o choro da primeira mulher que existiu sobre o planeta. às vezes rio. pois só o choro ou só o riso, destes momentos de ficar só após teus gestos e com teu cheiro impregnado em mim pelos abraços e o toque dessas mãos que criam versos, são capazes de dizer. fica algo no estômago, no fígado, no sexo. e pareço não produzir mais que amor ao invés de bile ou toda secreção. choro porque não sei o que fazer com tanta vida que em mim revira, querendo sair por minha vagina enlouquecida de paixão. ou rio, selvagem. e te sorvo, com os meus ossos e o meu sangue acompanhando a tua arte. depois disso, fica é o coração perdido de tão encontrado. e não posso nada mais fazer a não ser correr em sua direção, como criança ensolarada. e fico tateando a procura dos apoios para o tanto que deslocas. e decido por, tão somente, escancarar a verdade. rememorando que conheço teu íntimo e sei que ele sabe como me querer. eu morreria no fundo do teu olhar profundo, para viver ainda mais depois. e faria para ti as oferendas que pedem teu sorriso e teu cheiro ancestral. de um jeito de quem te ama em tuas entranhas. e nos tempos breves que temos para sermos e estarmos. tempos certos. mesmo aquele que bate a porta do espanto: como te olhar nas horas calculadas do trabalho? saberemos. sem temor. e talvez se tornem, minhas palavras, mais cimento que reticências desejando o que ainda não é. e por tudo isto eu retribuo as tuas provocações. das palavras ditas sem pensar, no calor do sentimento. do carinho e do suor que, mesmo em terrenos gélidos e frios, revelam esse íntimo pedregoso e enluarado onde eu me perco para encontrar o cerne da divindade da existência. minhas palavras são meu corpo escorrendo pelo teu e se despedaçando em múltiplos sóis no mundo que existe no entre-nós. nem meu, nem seu, mas nosso. feito de barro, medo, coragem, solidão, das mais belas e dolorosas poesias e da sonoridade nova que contrapõe a profundidade da música dos antigos com a leveza do deslumbramento de uma nova estrela. tu vais e eu fico. renovada. tu vens e é como se eu olhasse no olho de deus, com a certeza de que deus é aquilo que não conseguimos explicar e o que faz a vida se regozijar. tu vens e eu me alegro de dar de cara com o mistério, que faz do meu querer um acelerador de partículas e uma abelha rainha. dá origem a vida e se lança no ar como uma virgem linha .

26.3.14

brevidade

a vida é de uma tal brevidade
que quase parece calculada
para que, apenas pela intensidade,
possamos sorver suas colheradas

23.3.14

o amor do lobo e do cordeiro


um lobo sempre reconhece outro lobo

pelo faro, pelo olho no olho

um lobo sabe que encontrou um outro lobo
quando sente no outro – como um calafrio –
a carne e os ossos de um grande desafio

o da própria existência

quando vê nele a mesma solidão – necessária –
e a liberdade rara de saber que a vida transcorre
em ciclos de início e de morte
que nutrem o amor infinito
que carregam em sua sorte

mas um lobo enfraquecido,
levado para longe de seu alimento,
pode enganar-se por inteiro
e ver um lobo quando encontra um cordeiro

um cordeiro também
sempre reconhece outro cordeiro
nasceram para o rebanho
e do rebanho jamais sairão
regozijam-se nele
e, felizes, mantêm fechados e nada atentos
seus pequenos olhos remelentos

todo cordeiro tem vocação para ditador
não suporta como os lobos se fortalecem de sua própria dor
nem sua calma solidão na estepe
nem como correm juntos como se corressem livres

e abafam com sorrisos falsos
toda a inveja dos olhos abertos das matilhas

mas crianças podem ser facilmente presas de cordeiros
quando enfraquecidas

um cordeiro parece saber muito bem
como enganar um lobo esfomeado de primeira
- parecendo também um lobo -
pois cordeiros são excelentes mentirosos
tanto mentem a si mesmos

e, por isso, é que podemos ver por aí
tantos lobos em peles de cordeiros

esfomeados, alimentam-se da comida alheia
e acabam por acreditar que também
nasceram cordeiros e estão presos em teias

ensinou-nos, a história,
que todo lobo é mau
e, de tanto ser ferido por cordeiros invejosos,
podem vir, os lobos, a acreditar
em tais degredos jocosos

mas lá no seu íntimo,
bem lá onde cordeiro nenhum chega,
sempre há o uivo derradeiro

um dia, mesmo alimentado por cordeiro,
o lobo sente o chamado da lua
e, para ela, uiva em reencontro a sua morada

um lobo sempre reconhece outro lobo
mesmo quando em pele de cordeiro

é assim que, movido por amor,
pacientemente,
desenreda cada fio da falsa pele
no outro e, em si mesmo, sobreposta
e, de olhos bem abertos,
sem medo das mandíbulas que se lhe apresentarão
desnuda o corpo de quatro patas
e põe-se a correr na estepe
a celebrar a madrugada
da qual o cordeiro, cheio de medo,
e por não ver a beleza do grande segredo,
prefere se manter distante,
dançando no estábulo, quadrado,
a dança regrada que lhe foi ensinada

é por isso que lobos e cordeiros
jamais podem ser amantes verdadeiros
mesmo quando o cordeiro assim insiste
e faz de tudo para que o lobo acredite

quando o lobo consegue alimentar-se
e, novamente, faz-se forte,
sua natureza torna insuportável
viver a vida sem encarar de frente a morte

só a morte dá origem ao amor
e só pode haver amor quando se encara o horror

é preciso a cada lobo,
matar em si, o cordeiro que camufla o necessário tremor

22.3.14

Gosto de Manjericão


Inicio, hoje, a série de publicações dos meus contos neste blog. Este é de 2007 e está publicado em meu primeiro livro, Novelo. Em 2011, revi o conto retornando a sua maior inspiração: Nietzsche. Espero que curtam!

Qual pode ser a nossa doutrina? – Que ninguém dá ao ser humano suas características, nem Deus, nem a sociedade, nem seus pais e ancestrais, nem ele próprio (...). Ninguém é responsável pelo fato de existir, por ser assim ou assado, por se achar nessas circunstâncias, nesse ambiente. A fatalidade do seu ser não pode ser destrinchada da fatalidade de tudo o que foi e será. Ele não é conseqüência de uma intenção, uma vontade, uma finalidade próprias, com ele não se faz a tentativa de alcançar um “ideal de ser humano” ou “um ideal de felicidade” ou um “ideal de moralidade” – é absurdo querer empurrar o seu ser para uma finalidade qualquer. Nós é que inventamos o conceito de "finalidade”: na realidade, não se encontra finalidade... Cada um é necessário, é um pedaço de destino, pertence ao todo, está no todo – não há nada que possa julgar, medir, comparar, condenar nosso ser, pois isto significaria julgar, medir, comparar, condenar o todo... Mas não existe nada fora do todo! – O fato de que ninguém mais é feito responsável, de que o modo do ser não pode ser remontado a uma causa prima, de que o mundo não é uma unidade nem como sensorium nem como “espírito”, apenas isto é a grande libertação – somente com isso é novamente estabelecida a inocência do vir-a-ser... O conceito de Deus foi, até agora, a maior objeção à existência... Nós negamos Deus, nós negamos a responsabilidade em Deus: apenas assim, redimimos o mundo.

Aforismo 8 - “Os quatro grandes erros” – O crepúsculo dos ídolos – Nietzsche

Chove na tarde do enterro. Eu não posso suportar tamanha dor que presenciam meus olhos diante dela. Suas mãos seguram o guarda chuva com fragilidade. Seu olhar está distante. Eu de longe a observo, e minha vontade é cair em um choro compulsivo. A chuva aperta. Todos começam a se mover, mas ela se mantém intacta com seu olhar apático e uma languidez de quem vivera uma promessa de amor que se desfez em um segundo. Eu sofro pela morte, mas sofro mais ao vê-la sem a força de vida que me encantou desde o primeiro instante. Aqueles olhos, aquelas mãos, aquele jeito de caminhar pelo jardim, aquele cheiro de alfazema berrante. Agora eu já não posso ouvir a sua voz doce e incisiva nem mesmo contemplar o seu sorriso ao pôr do sol.

Não compreendo. Mal consigo olhar à minha volta. Tão jovem e mal vivi o amor que pensei ter recebido como o maior presente da minha vida. Ele agora não existe mais. Vivo uma angústia do futuro. Estou sozinha. Não há cheiro, não há pele em que possa encostar e me sentir feliz. Quero dormir até o último respiro de vida.

Estamos voltando para a casa. Cuido para que nada possa incomodá-la ainda mais. Abro a porta do carro, subo na frente as escadas para abrir a porta da sala e conduzi-la ao seu quarto. Sei que neste momento a sua única vontade é esquecer de tudo. Não posso demonstrar a ela meus sentimentos mais profundos de afeição. Ela jamais entenderia. Fita-me como quem dá ordens. É essa a sua função. Dar ordens para que eu mantenha a casa também em ordem. Como me dói o peito querer pegar na sua mão e beijá-la com toda a lascívia que meu desejo supõe. Que estremecimento! Que sopro de vida que não pode nascer! Quero tê-la para mim. Agora que é livre... Deus perdoe tamanha obsessão.

Acreditava que, ao chegar, me jogaria na cama com a sensação de perda irreparável, como as formigas que perdem seu formigueiro com a chuva. Ao invés disso, sentei-me na poltrona em frente à janela de onde vejo o jardim florido. Nem sempre flores são alegria. Elas carregam uma morbidez do que se move sem se mover. Sinto cheiro de vazio. Um olfato de passado distante. Mas ao mesmo tempo um cheiro de futuro. Uma promessa. De nada. Simplesmente uma promessa, pois há que se viver. Observo atentamente a janela. Ela revela os segredos desta casa. Lamento que os segredos estejam morrendo. Morreu o homem. A mulher que agora sobrevive não tem seios nem útero. Só um corpo cinza. Mas esses pensamentos me cansam demais. Vagueio. Vejo que lá no fundo do jardim, quase a perder de vista, meu empregado tão fiel cuida com esmero das flores que eu gostaria amar. Agradeço por sua dedicação. Sorrio levemente. Atentamente percebo que seu corpo e sua disposição não parecem refletir a idade que tem. Embora muito mais jovem, me sinto mais velha. Alegro-me, então, com a força dos que têm força. Com a virilidade dos homens sem muitas palavras que se jogam com voracidade às mulheres tão cheias de fome que suas saias abafam todo pecado. E mais uma vez, caio no vazio do que poderia ter sido e não foi.

Já é tarde. Aquela hora em que se escuta apenas o barulho dos grilos. Gosto, nesta hora, de ficar na penumbra da cozinha, apreciando o vinho que sempre me permitiram por acreditarem na sensibilidade humana incondicional. Lembro da tarde de hoje quando ela me olhava através da janela do quarto. Sim, eu percebi. Mas sei de seus olhares de gratidão ao meu cuidadoso trabalho. Só chegamos até este ponto. O ponto fraco, que se resguarda, que não sente, que só se trata por palavras de gentileza e respeito. Mas meu coração diz que, ao mesmo tempo, é um ponto forte, que antecede o momento de um êxtase tão profundo que mal posso esperar. O simples ouvir da voz, o simples observar o movimento das mãos indicando onde deve ser limpo. Tudo é recheio para meus sonhos. O ponto forte...

Não consigo dormir. Preciso de água e um pouco de calor. Vou até a cozinha e o encontro sentado à mesa, envolto em pensamentos. Sinto uma felicidade calma. Sei que posso contar com sua amizade e fidelidade. Sento-me ao seu lado e percebo sua disposição para mim. Conto-lhe minhas angústias. Busco respostas na sua simplicidade. Alegro-me, embora triste, com a sua paciência em me ouvir e tentar me consolar. Como ele tem respostas... São tão simples e carregam uma enorme complexidade que só poderiam ter vindo de alguém que vive na música do mundo. Ele segura minha mão tão docemente... Vou para a cama e durmo silenciosamente.

Que todo o meu sofrimento possa ser recompensado. Ela veio até mim e me confiou seus medos. Como tive que me conter ao vê-la chorar. Ao pegar sua mão sem que ela pudesse perceber minhas intenções. Não chegou a hora ainda. Não sei se um dia chegará. Receio o aumento do som das carruagens na estrada, que indicam a chegada de notícias. Receio, como quem receia abrir uma carta, o futuro dos meus sentimentos que ardem feito febre.

Pela manhã gosto de cheiro de café. E percebi que, mesmo em momentos de tristeza, como agora, esse cheiro traz a mim o sabor da vida. Benditas sejam as frutas. Como sempre, ele prepara o café com toda a sua sensibilidade para com a natureza. E me oferece com pão e bolo de laranja feitos com mãos calejadas de sentimentos pela farinha, a água e o alimentar. Cozinha como nenhuma mulher poderia fazer. Minha mãe sempre dizia que existem muitos segredos na cozinha que pertencem às mulheres, mas que alguns poucos são reservados aos homens, e esses nunca poderemos descobrir, por mais profundo conheçamos os donos das mãos que produzem o alimento. Como com vontade. Sinto-me bem ao seu lado.

Percebo quando come o pão feito por minhas mãos. É como se me beijasse. Tenho me perdido a todo instante em pensamentos por ela. Agora está tomando o café. Como ela gosta. E se delicia vagarosamente para não perder nenhuma sutileza. Mesmo com o marido morto essa mulher tem paladar. Desconfio que pensas em algo que não a morte.

É tão estranho como há muito não tomava um café com um gosto tão visceral, como o cheiro de terra molhada. Uma sensação esplendorosa. Quanta vida pode haver num pequeno gesto, que seja o de segurar a xícara e beber de uma boa bebida fresca. Tenho pensado nas pequenas coisas desde que me levantei com ares de futuro. Observei, assim, que uma borboleta, embora haja tantas flores no jardim, pousou nas margaridas da minha janela. E sucessivamente ouvi com atenção os meus passos, senti a água do chuveiro na minha pele e respirei profundamente o cheiro do perfume tomar conta do ambiente. O dia anterior havia sido cinza e de enorme tristeza para mim, no entanto eu acordei como se minha vida estivesse agora a começar. Embora ainda triste, estou vendo o mundo com olhos de criança.

Que perfume! Toda a casa se alegra quando ela passa exalando madeira com limão. Os móveis brilham mais, os tapetes energizam suas cores e as plantas dançam sensualmente. E que tolo eu sou que desde ontem não consigo me concentrar no meu trabalho. Justamente no que me aproxima dela. Tenho muito a fazer agora. A casa é grande e preciso limpar todos os cômodos antes que cheguem seus parentes; tia, pai e irmãs, para o fim de semana. Eles não puderam vir para o enterro. Levariam dias para chegar até este lugar perdido no mundo. Perdido mas incrivelmente belo. Agradeço a vida por poder partilhar de tal espaço privilegiado, abundante em tudo o que gera de sua terra e, principalmente, em beleza.

Passei o dia a desenhar, pois o ato de criar contornos no papel me conecta ao que poucas vezes consigo me conectar. Eu e a varanda somente, tentando aguardar com paciência o andar dos ponteiros. Tenho estado ansiosa. Minha família chega no sábado, hoje ainda é segunda. Quero abraçá-los, mesmo que poucas vezes eles tenham tomado a iniciativa do abraço. Mas agora só os tenho. Minha esperança de liberdade se foi. Volto assim a ser filha, sobrinha e irmã, não mais esposa. E penso que talvez estas poderiam não ser definitivamente as únicas possibilidades de uma mulher. Há que ser mais que filha, sobrinha, irmã e esposa. Mas não sei exatamente o que é este algo mais. Preparo-me para o jantar.

Cozinhei uma massa como nunca. Dosei com exatidão os temperos para que ela os sinta um por um, assim como os seus efeitos. Dei um toque especial ao manjericão. Esta noite não poupei esforços para fazê-la sentir-se especial. Preparei a mesa com os antigos castiçais de sua mãe e velas vermelhas. Peguei na adega o mais saboroso vinho, aquele que seu marido estava, há um bom tempo, guardando para um momento especial. Senti que era um momento especial. Ela havia passado o dia todo desenhando na varanda com uma expressão tão serena que imaginei estar bem disposta à vida, apesar da morte ter rondado a casa nos últimos meses. Nunca podemos subestimar nossa saúde. Ele me disse um dia. Mas se esqueceu, ele mesmo, de se ouvir. Eu, na minha mais calada ignorância, ouvi palavra por palavra atentamente, com o cuidado de guardá-las bem. Agora, então, estou fazendo não só um agrado a minha saúde como a saúde dela. Assim espero.

Da escada já posso sentir o cheiro do manjericão. Ele sabe o quanto este tempero dos deuses me agrada. Quando chego na sala encontro a mesa arrumada para um dia de festa. Não compreendo muito bem o por quê. Talvez queira me fazer sentir melhor. Mas sei que gosto. As sombras formadas pelas chamas das velas me trazem recordações da infância. Sorrio e me dirijo à mesa. Ele puxa a cadeira. Eu sento e algo se transforma dentro de mim.

Quanto de profunda beleza pode caber em uma só pessoa? A cada dia a vejo mais bela. A cada dia desejo não mais ocupar o quarto dos fundos. E me perco todos os dias em pensamentos libidinosos. O que faria sua família a mim se soubessem do meu desespero? Preciso agir antes que seja tarde. Antes que o sol se ponha. Antes que a esperança deixe de fazer sentido. Antes que a dor sufoque minha respiração. Meu corpo clama pela vida em chamas.

Que sabor! Eu penso silenciosamente. Sinto meu corpo inteiro recebendo cada gota desse sabor. É uma sensação de calor. Mas não o calor dos verões sob o sol, um calor de vida nascendo. E desperto para algo que, mesmo antes, em minha suposta felicidade, eu não conhecia. Tenho medo do que sinto. E penso se não poderia ter sido proposital por parte dele. Meu Deus! Espero não estar sendo injusta. Espero realmente...

Às vezes penso sobre o que poderia acontecer se eu me declarasse. Qual seria sua reação. E temo um afastamento maior. Sua criação foi das mais tradicionais. Onde se ensina que uma vez peixe, para sempre se será peixe, e uma vez pescador, para sempre pescador. Mas minha loucura não me permite pensar em tais inutilezas educacionais. Mas é exatamente nesse ponto que aumenta meu temor.

Procuro esquecer esse calor estranho puxando conversa sobre o seu trabalho. Pergunto-lhe o que o anima e o que o entristece. Não sei muito bem se ele gosta deste assunto, mas é minha solução para abafar latências. Aliás, só agora me dou conta de que há muito convivemos, mas pouco nos conhecemos. Triste situação. O quanto perdemos ao nos separarmos por aquilo que fazemos. Deveríamos simplesmente nos unir pelo fato de sermos todos humanos. Mas desconfio da utopia do meu pensamento e volto à conversa. Percebo uma disposição em responder o que pergunto e em aprofundar a conversa. Ele me conta sua infância e sua educação informal, no campo, através dos pais, irmãos e dos vizinhos, vivida com alegria tamanha de menino que cresce com os pés descalços. Jamais me esquecerei de uma frase: viver é alegrar-se.

Sinto prazer nesta conversa que iniciou. Conto-lhe minha vida e creio que ela gosta de ouvir. Não que eu tenha uma vida de aventuras, mas, ao menos, verdadeira quanto aos meus sentimentos e instintos. É por isso que sofro agora. E penso nisso a todo instante me sentindo um mártir, como se eu pudesse ter esta pretensão. Embora eu não acredite em mártires...

Ouço sua história com profunda alegria, mas já com sono. Parece que começamos a nos conhecer. Ontem lhe confiei meus temores, hoje ele me conta seus caminhos percorridos. É mesmo necessário que façamos isto, afinal, seremos companheiros a partir de então. Pelo menos até que eu decida se realmente fico nesta casa, tão vazia. Despeço-me pedindo-lhe desculpas, mas tenho sono. E durmo profundamente.

Ela se foi mais uma vez. Minha vida parece ter se tornado um eterno esperar o seu retorno. Que aflição quase incontrolável. Busco relaxar observando a lua da janela depois de um gole de uma bebida bem forte. Quantas cores eu desejo colocar na sua vida, compartilhar com ela.

De manhã caminhei pelo jardim observando atentamente as diferenças entre as flores e suas relações de amor com os insetos. Ponho em prática um pouco dos meus conhecimentos de botânica há tempos guardados na gaveta. Um tentar esquivar-se do sonho desta noite. Tenho medo dos meus sentimentos. 

Mais uma vez me pego a observá-la. Uma angústia desta espera não pode mais me deixar em paz. Sei que ela quer se aproximar. Não sei como. Mas sinto. E acredito naquilo que sinto.

Depois de algumas noites sem dormir, envolta em sonhos que jamais imaginei sonhar, quero um gole de veneno. Tenho medo da luz do sol. E dos desejos. Malditos são os desejos que nos tomam a liberdade consciente de escolha. Decido pela indiferença.

Passo as noites em claro. Ando de um lado para o outro impaciente. Sua indiferença me trai profundamente. Seu olhar não mais encontra o meu. Sei de seu desesperador desejo de se jogar em meus braços. De outra forma ela continuaria vindo a mim.

Conto as horas para que todos cheguem e me levem daqui. Não posso mais suportar o cheiro da sua pele. O meu estremecer em sua presença que sufoco como a um filho que não se quer. Suicídio. Mato minha fonte de vida. Por não acreditar que a vida pode ter leveza. Por não ter a coragem de me entregar a uma explosão tamanha de luzes.

Choro em desespero. Grito por Deus. Não creio que me ouça. Vejo as plantas que eu cuidava murcharem. As flores não atraem mais os pássaros. As crianças que corriam atravessando os portões deixaram sua alegria no verão. Um inverno se faz dentro de mim. Daqueles muito frios, quando não se pode sair de casa. Passo o dia sentado na mesa da sala que ela não mais ocupa, pois passa seus dias a fugir da dor. Maldita dor que eu tanto quero. Grito por Deus mas não creio que ele ouça.

Não posso sentir. Não posso ouvir. Não posso respirar. Meu quarto é minha casa. Minha apatia, segurança. Meu olhar se perde na lua que eu tanto amava. Medo... o senhor da santidade. Onde se perderam meus demônios? Quando os deixei partir?

A casa aumenta a cada dia. E, assim, torna-se mais fria. Não a vejo há muitas horas. Nem ao menos ouço seu pulso. Parece estar morta. Por um momento passo a odiá-la. Ódio da sua estupidez. Ódio da sua beleza. Ódio da sua existência. Em cima da mesa está o vidro de manjericão. Ódio do manjericão. Atiro o vidro na parede.

Como se tocasse um alarme acordo com um barulho vindo lá de baixo. Algo se quebra. Meu corpo não quer obedecer meu desejo. Se vida é corpo pode ser que eu esteja morta. Quero descer.

Quero subir. Quebrá-la como ao vidro. Possuí-la para destruir toda a boa educação formal, toda família e toda religião. Quero quebrá-la para quebrar junto o gelo que insistimos em nos tornar diante do outro. Reparo atentamente os degraus da escada. Ouço um grito. Subo com pressa e num impulso de lagarto arrombo a porta. Ela está nua.

Vejo o seu olhar de fome ao me encontrar. Não tenho pensamentos. Deixo que meu corpo fale. O falar do corpo é o que realmente diz. Corpo é vida.

Nos unimos para sempre como animais que somos. Luz e sombra, claro e escuro, masculino e feminino. Não existem mais. Tudo se funde. Tudo agora é um novo e radiante sol. Uma explosão apaixonada de calor. Era ela a minha fome, minha comida e meu estômago. Era ela o meu querer ser Deus. Agora ouço a voz de Deus. Dentro de mim. Como demônio.

Eu perco meus sentidos aos poucos. Vejo-me caminhando em direção a um prazer tão grande que não sabia estar reservado a mim. Reencontro os meus demônios perdidos. Os anjos decaídos que riem dentro de mim. E rio. Alto, muito alto, como nunca havia rido antes. Uma gargalhada de liberdade. Um sopro de luz radiante. Um brinde alucinado à vida que renasce.

Vem o êxtase. 
Ela morre em meus braços. Grito de dor. Outra dor. Só dores me consumiram nos últimos dias. Ela morre. Rindo. Mas morre. Não se pode viver. Viver mata. Mas eu não tenho medo. Vejo novas cores. Viver mata, mas ressuscita...