8.11.08

beleza pura

Todos os dias se trabalha
Todos os dias se bebe a cervejinha
Pra esquecer que, todos os dias, não se vive
E as golas das camisas vão assim denunciando o teatro
Muito alinhadas, combinam com as olheiras,
Muito bem delineadas
Porque fracasso é algo que não se pode assumir
É preciso muita maquiagem
As pastas, de tão cheias, quase falam dos fardos que transportam
E as bolsas nos parecem organismos envenenados
Carregando todo tipo de pílulas e aparelhos da felicidade
Enquanto isso a inflação é notícia, a crise se alastra,
As mulheres escovam os cabelos
Mas que mal há nisso? Afinal, somos seres sociáveis,
Precisamos nos preocupar com nossa imagem
E a crise é apenas contingencial
Os cintos vão bem...
Apertando os ventres cultivados com uma indiferença fascinante
Os saltos, esses sim, sabem com é viver
Sustentando essas verdades de bonecas barbies
E, assim, apodrece vida todo dia no estômago do sedentário
Aquele pra quem tanto faz como tanto fez
Conhece?
Vidas que ele não quer saber que mata
Porque, afinal, o que é o outro senão uma ficção!?
Onde vive a beleza então?
Não é na sua camisa Lacoste, arrisco afirmar
Também não é no perfume
Que encobre o cheiro que você não quer sentir
Nem no cabelo escovado,
Na perna falsamente feliz sobre uma agulha
Nos livros do especialista Cury?
No segredo das 100 pessoas mais feliz do mundo?
No desenvolvimento sustentável?
Ok, olhe para o lado:
Vê aquele menino que dorme no chão da calçada?
Vê a garrafa pet boiando na baía habitada?
Vê no espelho uma imagem desfocada, incerta?
Um rosto desconhecido?
Prazer, a beleza é uma peça rara.
Procura-se um colecionador!

27.9.08




navegam sempre em cada corpo
um barco que se resigna e outro que reluz e solta as velas no vento
tenho navegado em busca desses ventos... onde estão?
mareando a cada dia, entre o nascer e o pôr do sol
é por isso que quando a vida se apequena eu corro para o mar
porque tem um mar dentro de cada um de nós
e fico estirada na pedra por instantes em que só há o agora
e tudo ganha um novo colorido e toma novos rumos
é também por isso que não me canso de reverenciar essa força nebulosa

o mar é mais que a água que desforma o planeta e encanta marinheiros
é onde tudo deságua e de onde tudo vem
porque tudo um dia chega no mar
e se não chega, é ele quem vai de encontro
o mar não é tão somente a morada de seres reluzentes
e de uma alucinante profusão de cores
e, mais abaixo, do silêncio ancestral
é também uma condição
ser mar é ser uma força que não se resigna
sabendo o momento de causar tempestades e se acalmar
é terra, e entra nela por todos os lados
a fecunda e a transforma em verde
é a mãe de todos os rios e a grande solidão do poeta
não tem início nem fim
abaixo de tudo há o seu reinado
é a condição única possível para que a vida aflore

agachada na pedra me deixo receber a maresia
e ouvir a voz dessa saudade por onde tantas vidas se perderam e se encontraram
e ainda hão de passar, e nascer, pois tudo nasceu no mar
consigo sentir aquele primeiro pulso e a reação da água
gargalhar de alegria, e chorar
e eu a dormir na pedra só para sentir por mais tempo
“essa imensidão imensa do mar imenso”

o mar não tem fim porque a vida também não
a vida que mexe, vai, vem, se cala e, de repente, estoura
sempre de repente, as surpresas das tempestades...
essa vida sem fim permanece pra sempre como gota desse mar infinito
assim como poeira do universo que também está no mar
elo da terra com o céu

eu, em toda a minha finitude, não posso mais vê-lo
pois sufoca essa indiferença toda do mar
assim, quando cesso de com ele conversar
todo o universo abre-se para mim como quando
abriu-se naquele dia em que o primeiro suspiro se fez sobre estas terras
tão iluminadas de se deitar no mar
e então me torno grande, mesmo diante de todas as montanhas

o mar me diz para atravessá-las e unir-se a elas
como onda arremessada na rocha

é assim que parto para mais um dia,
do qual o fim é sempre um recomeço e uma luta
e de longe eu canto as saudades do passado e do futuro...
todos os dias

11.8.08

Em tempos de eleição, vamos falar de política

É chegada a hora de mais uma vez irmos às urnas votar. Mais um dos deveres do cidadão, esse personagem tão sem direitos... Andando pela rua esses dias ouvi uma daquelas musiquinhas de candidatos e naquele momento ela me incomodou profundamente. Discordo que os incomodados que se mudem... para mim os incomodados devem mostrar porque se incomodam, e há muitas formas pra isso. Nós, brasileiros, e nossos ditos populares... sempre tão passivos e conformistas...


O sistema democrático é falho em sua utopia, e não sei como até hoje, depois de séculos, ainda se acredita que um dia a democracia realmente vai existir. Ela será sempre representativa e, assim, jamais coletiva. Eu vos digo: ela já existe e é exatamente como a estamos vivendo. Cada povo, país ou coletividade a configura de acordo com seus anseios. Não há palavra por si só, coisa por só, como entidades; apenas os usos que fazemos das palavras e das coisas criam os seus sentidos.


Esse tipo de política personalista me desagrada completamente. Personalista por se concentrar na persona, no "fulano de tal" que irá resolver todos os nossos problemas. Por que será que ainda mantemos nossos ouvidos atentos para as musiquinhas? Por que será que nenhum candidato ousa falar abertamente de tabus como a miséria, o racismo, entre outros, trazendo as questões para o debate como questões políticas, insistindo em nos mostrar números e dar sorrisinhos? Não venha me dizer que a culpa é do sistema. Se há uma política que funciona de tal maneira no país é porque ela foi construída e é perpetuada dessa maneira no dia a dia. Não há diferença entre povo e política. Há uma mentalidade ainda escravocrata.

Política para mim é algo que se faz no dia a dia. O que acontece nos âmbitos municipais, estaduais e federais é tb política, mas sem a propriedade de ser A política. Especialmente porque acredito em política como um processo cotidiano de configuração do mundo, onde subjetividades são produzidas o tempo inteiro por coletividades as mais múltiplas, por singularidades agenciando, desejando, se atravessando.

Se pensarmos na historia da humanidade e em todos os devires possíveis, não nos prenderemos mais em nosso sistema social. Quem é que se pergunta por que não pode ser diferente? Mas eu digo diferente mesmo... Por que é necessário mantermos a ordem social como está? Por que o Faustão diz em cadeia nacional que eu não posso votar nulo? Por que a legislação de direito autoral diz que eu não posso disponibilizar a minha música de graça para qualquer um alterar? Que liberdade é essa que desrespeita a vontade, o desejo e até mesmo o coletivo? Digo o coletivo e reitero. Nenhuma instituição é feita para o coletivo, apenas para ela mesma. Só se justifica nela. Pense bem. Se houver alguma ponta de dúvida por vc nesta afirmação, por gentileza, me convença. do contrário. Apenas o coletivo como força [independente do seu tamanho e sua abrangência] é feito para o coletivo. Só assim não há a representação. Mesmo nos ditos mecanismos democráticos, como fóruns, conselhos e blau, sempre há o mecanismo de representação [o decreto, a carta, o escolhido etc]. Gerencia coletiva é gerencia coletiva; líderes vem e vão espontaneamente por contexto... E, haja dificuldade e medo de lidar com o desconhecido, o novo...

Resistir não é apenas ir para rua, votar consciente [essa é boa...], fazer greve, jornalzinho e o escambau. É ir além. Resistir é bater o pé pelo seu modo de vida. É não ter medo do mundo que vc vive. É criar a sua realidade independente de padrões massificados. Pois tão massificado quanto os biscoitos que comemos e as novelas que assistimos é o fato de sermos cidadãos. Me desculpem os gregos, mas eu sou muito mais que um cidadão... o cidadão é regulado e prisioneiro de normas; o não-cidadão, o não-classificável, a singularidade que somos, é uma estrela sempre pronta a brilhar e amar. O quanto de "revolucionários" não são reacionários, conservadores, facistas em seu dia a dia? Ih, número grande... A revolução jamais é uma revolução apenas no âmbito macro... Mude um tiquinho de seu cotidiano e verá as coisas sob novos prismas... Pense, pois isso já é agir. Relativize: sua comida, sua roupa, sua forma de lidar com o amor, com seus amigos, com o seu corpo. Questione. E não tenha medo de ser o bobo. Sempre haverá um monte de gente com pedras para jogar nos outros. Sempre vai haver as acusações de traidor, incoerente [como se viver tivesse alguma coerência; a vida não é nada precisa...], ou vão achar que se fala demais e não se faz nada. Mas quem disse que temos que fazer aquilo que esperam que a gente faça? Qual o nosso medo de dizer não? O medo de afirmar?


Ouso tb distribuir aqui o meu panfleto. E fica o convite para o calor de uma boa prosa, mesmo que seja virtual.

Para reflexão, um pouquinho do mestre Foucault:

Libere a ação política de toda forma de paranóia unitária e totalizante. Faça crescer a ação, o pensamento e os desejos por proliferação, justaposição e disjunção, antes que por submissão e hierarquização piramidal. Libere-se das velhas categorias do negativo [a lei, o limite, a castração, a falta, a lacuna] que o pensamento ocidental por tanto tempo manteve sagrado enquanto forma de poder e modo de acesso à realidade. Prefira o que é positivo e múltiplo, a diferença à uniformidade, os agenciamentos móveis aos sistemas, considere que o que é produtivo não é sedentário, mas nômade. Não imagine que precise ser triste para ser militante, mesmo se a coisa que combatemos é abominável. É o elo do desejo à realidade [e não sua fuga nas formas de representação] que possui uma força revolucionária. Não utilize o pensamento para dar a uma prática política um valor de verdade; nem a ação política para desacreditar um pensamento, como se ele não fosse senão pura especulação. Utilize a prática política como um intensificador do pensamento, e a análise como um multiplicador das formas e dos domínios de intervenção da ação política. Não exija da política que ela restabeleça os "direitos" dos indivíduos, tais como a filosofia os definiu. O indivíduo é o produto do poder. O que é preciso é "desindividualizar" pela multiplicação e pelo deslocamento, pelo agenciamento de combinações diferentes. O grupo não deve ser o elo orgânico que une indivíduos hierarquizados, mas um constante gerador de desindividualização. [Michel Foucault. Uma introdução a vida não-facista]

19.6.08

Alice desesperada

Antes que a dor se esqueça,
quero chegar ao topo da montanha...
É preciso correr para não sair do lugar!

Antes que a vontade adormeça
a possibilidade da toca...

Beba-me!
Coma-me!
...Imagine fazer mesura
quando se está despencando no ar...

Antes que o espelho se transforme em porta
Antes que o fumo da lagarta se acabe
e mil chapeleiros me sirvam mil chás
Antes que se embaralhem as cartas

Antes do nascer dos porcos e do cantar das morsas
Antes que o ovo me reconheça...
Ah, antes ainda que o sorriso do gato desapareça
Antes que se cortem as cabeças!

Beba-me!
Coma-me!
...Imagine fazer mesura
quando se está despencando no ar...

Ah, é o amor!
É o amor que faz o mundo girar!

gêmeo de quê?

hoje é meu aniversário [19/06] e agora estou sozinha em casa, em frente ao computador, ouvindo metallica e nightwish... a vida é estranha. há muito tempo eu não ouvia metal e agora deu vontade. 28 anos! dizem q a cada 7 anos mudamos todas as nossas células. sou uma nova pessoa hoje. e essa afirmação é tão óbvia que é ridículo dizer... mas já falei. 28 é um número perfeito na matemática. não sei se na vida, pq tenho a impressão q nada na vida é perfeito. aliás, o que é isso? tenho levado alguns sustos e hoje está tudo uma bagunça na minha cabeça. por isso eu preferi ficar sozinha nesse dia a fazer festa. não estou nem um pouco em clima de auto-comemoração. e tb não sei muito bem o que escrever. na verdade eu estava achando que tinha mil coisas pra dizer aqui mas agora to vendo q não. espero q ninguém perca tempo com essa divagação boba. ando pouco criativa, isso é um tanto doloroso. tenho alguns livros esperando para serem terminados, músicas por fazer, sonhos se esvaindo... uma neblina cobre um pouco o horizonte e meu barco tá meio sem rumo. mas tem uma correnteza. embora eu não goste muito de ser levada pela maré não. gosto é de nadar contra ela e criar redemoinhos. só que exatamente agora não sei. e encerro aqui com essa típica frase de geminiano... e eu odeio o que é típico... e como diz uma aluna minha: "pode crê"

7.4.08

Breves férias

Amigos, esta blogueira que vos fala ficará temporariamente em hibernação. Processos introspectivos clamam pela minha prensença... além de muito trabalho e definições. A gente se vê em breve!

4.4.08

Complete a frase!!!

Vamos brincar de lego coletivo. Já que somos mesmo atravessados por tudo e todos, me ajudem a me definir neste momento. Complete a frase com o que vc acha que preciso. Depois que eu tiver alguns palpites vou publicar pra gente rir um pouco, com comentários meus. Estou ansiosa...rs

No meio de tantos pensamentos sacudindo o meu mundo só preciso agora é de...

eu, um rizoma

"Não me perguntem quem sou, e não me digam para continuar o mesmo"
Michel Foucault, em A Arqueologia do Saber

bem, quis colocar essa frase aqui porque ela diz muito bem o momento que estou vivendo. a cada dia que passa busco me livrar cada vez mais da infeliz prisão que é a idéia de identidade e me entender mais como fluxo

sou múltipla demais a ponto de querer me definir a partir de uma ou algumas identidades. todos são. identidades são categorias de uso biopolítico. esse ter que se definir é tão estimulado no nosso cotidiano que pessoas se matam por conta disso ou se apegam a existências medíocres, pelo fato de não conseguirem lidar com desejos e idéias múltiplas, as vezes conflitantes; nações empreendem guerras, grupos se mantém em seus facismos e povos e culturas são massacrados

Nietzsche já nos falou da morte de Deus, Foucault da morte do homem, mas a identidade ainda permanece como um trunfo pra se defender qq causa

eu prefiro a diferença...

28.3.08

um livro pra não esquecer

dica de livro da semana:

O Relatório Lugano, de Susan George, Ed. Boitempo

uma "ficção" nada fictícia. para entender biopolítica e biopoder sem muitas delongas.

segundo Laymert Garcia dos Santos:
"desentranhando a lógica do extermínio das políticas e das práticas neoliberais contemporâneas, susan george demonstra que não se pode ao mesmo tempo promover o capitalismo no século XXI e tolerar a reprodução de bilhões de seres humanos supérfluos para o sistema".

segundo a orelha do livro:
"o relatório lugano não é exatamente um romance. também não lhe cai bem a denominação de ensaio. talvez a melhor classificação para este livro seja a de que ele é um libelo contra a hipocrisia".

Susan George é doutora em política pela École de des Hautes Estudes en Sciense Sociales (Paris) e dirigente da Attac (Associação pela Taxação das Transações Financeiras em apoio aos Cidadãos)

sempre o mar...


tão grande quanto o mar é a vida de quem ama a vida e por ela se arrisca... mora um mar dentro de cada um de nós...

27.3.08

biopolíticas e micropolíticas

Nesses últimos dias discuti com meus alunos a idéia de biopolítica como a lógica do estado, de que forma aquilo que Guattari chama de produção de subjetividade capitalística atualiza a biopolítica hoje, e como micropolíticas podem ser práticas efetivas de nos colocarmos como criadores e protagonistas, invertendo a lógica de que o macro (Estado, leis, corporações etc) é a voz que define as necessidades e, assim, ações de intervenção, sejam elas no âmbito social, educacional, da saúde, dos julgamentos etc. Cada turma reagiu de uma forma e enriqueceu a discussão. Porém nenhuma passou sem reagir, o que foi ótimo, pois a aula fica mais intensa e interessante para os dois lados. Muitos questionamentos surgiram na minha cabeça, inclusive de um aluno que questionou até que ponto o meu vegetarianismo não foi capturado por essa subjetividade dominante e se coloca reproduzindo velhas hierarquias e vícios que estão enraizados na nossa sociedade. Algo a se pensar. Ele tem razão ao afirmar que essa captura é possível; a própria categoria “vegetariano” é definida no âmbito das instituições, em relação com elas, inserindo-se como mais um nicho de mercado e muitas vezes não como uma postura ético-estética diante do mundo. E é assim com todas as categorias que são definidas por essa biopolítica para enquadrar os que se encontram fora do ideal de normalidade com o qual ela opera: feministas, gays, negros, criminosos, loucos etc etc etc. Uma reflexão boa seria pensarmos até que ponto os movimentos de afirmação ou defesa dessas categorias não estão reproduzindo lógicas hierárquicas, exclusões e segregações? De que forma operarmos com essas categorias para afirmar outros modos de vida possíveis que não o da subjetividade dominante sem nos deixar levar pela estigmatização, sem nos fecharmos cada vez mais nos guetos identitários que servem muito bem como massa de manobra, como rebanhos reprodutores de certos discursos? A reflexão que tenho feito tb com eles é: não há como trabalharmos com cultura sem considerar quais as implicações políticas (no sentido amplo de política) que a idéia de que cultura que trazemos com a gente tem. Sem considerarmos todos os discursos facistas (tanto de estados facistas quanto os pequenos facismos que vivenciamos muitas vezes no cotidiano, com a família, o amigo, as relações amorosas) que se utilizam da idéia de identidade. Onde estão as brechas para que os diferentes modos de vida possam emergir sem que o estado ou as leis delimitem seu campo de atuação? O que é essa idéia de representação que sustenta o Estado e as instituições? O que é o direito, a polícia, a mídia regulando a nossa vida? De que forma abrir espaços para que a discussão sobre o funcionamento e até sobre a necessidade ou não dessas instituições apareçam? Como e onde abrir espaços para a discussão da auto-gestão, do protagonismo, da possibilidade de uma vida mais criativa e reflexiva, especialmente nos países pobres, onde mal se tem o que comer? Tem um exemplo bem legal que gosto de falar que é o de um grupo de permacultura urbana que trabalha em Santa Teresa que recuperou com a comunidade uma área degradada de uma favela e a transformou em uma horta ecológica comunitária, resolvendo ao mesmo tempo problemas como fome, doenças, degradação ambiental, falta de perspectiva e geração de renda. Tudo isso sem passar pela estrutura Estado-Mercado de Trabalho, não buscando promover uma inclusão, mas criando-se um espaço de atuação. Outras questões que permanecem em mim: como transcender os dogmatismos e pré-conceitos que dificultam nossa capacidade crítica e tb de entendimento do outro? Quais as lutas possíveis para além da luta de classe marxista? As lutas são muitas, a de classe é apenas uma delas. Existem as lutas internas, de subjetividades, com os mercados, com a fome, com os desejos do corpo, com as diferenças... como diz Guattari, os proletários hoje são os marginalizados, excluídos, imigrantes. O contexto é complexo, ao mesmo tempo em que se diluem fronteiras outras nascem. Então, voltando a questão lá de cima, não sou vegetariana, produtora, professora, cantora, aspirante a isso ou aquilo. Sou um corpo que deseja, que é atravessado por discursos o tempo todo, que está buscando a sua forma de atuação ético-estética no mundo que, aí sim, passa pelo vegetarianismo, pela arte, pela reflexão da minha atuação como professora e produtora cultural, pelo questionamento do impacto do meu consumo, pelo yoga, pela minha relação com o meio ambiente e o outro. Sou tudo isso e mais aquilo que não consigo listar, pq o tempo todo estamos sendo atravessados por tudo. Assim, não sou alguém que pode ser engavetado e etiquetado. Não sou cidadã, consumidora, eleitora, algo passível de se tornar estatística. Sou uma pessoa, com tudo aquilo que é próprio de ser gente. E vc?

Alguns trechos de alguns pensadores-interventores...

Negri (em Exílio)

“A biopolítica é essa perspectiva dentro da qual os aspectos político-administrativos se juntam às dimensões democráticas, para que o governo das cidades e das nações possa ser apreendido de maneira unitária, reunindo ao mesmo tempo os desenvolvimentos naturais da vida e de sua reprodução, e as estruturas administrativas que a disciplinam (a educação, a assistência, a saúde, os transportes etc). […] uma vez admitida essa definição, é preciso, contudo, ir um pouco mais longe e perguntar-se o que significa biopolítica quando se entra no pós-moderno, ou seja, nessa fase do desenvolvimento capitalista em que triunfa a subordinação real da sociedade como um todo ao capital. […] o biopolítico mudou de cara: torna-se biopolítico produtivo. Isso significa que a relação entre os conjuntos demográficos ativos (a educação, a assistência, a saúde, os transportes etc) e as estruturas administrativas que os percorrem é a expressão direta de uma potência produtiva. […] o conjunto das forças produtivas, dos indivíduos e dos grupos se torna produtivo à medida que os sujeitos sociais se vão reapropriando do conjunto. Nesse âmbito, a produção social é completamente articulada através da produção de subjetividade”.

Guattari (em As três ecologias)

“Convém deixar que se desenvolvam as culturas particulares inventando-se, ao mesmo tempo, outros contatos de cidadania. Convém fazer com que a singularidade, a exceção, a raridade funcionem junto com uma ordem estatal o menos pesada possível. (...) Tal problemática, no fim das contas, é a da produção de existência humana em novos contextos históricos”.

Foucault (Em Defesa da Sociedade)

“A biopolítica lida com a população e a população como problema político, como problema a um só tempo científico e político, como problema biológico e como problema de poder. (...) Não se trata por conseguinte, em absoluto, de considerar o indivíduo no nível do detalhe mas, pelo contrário, mediante mecanismos globais, de agir de tal maneira que se obtenham estados globais de equilíbrio, de regularidade; em resumo, de levar em conta a vida, os processos biológicos do homem-espécie e assegurar-lhes não uma disciplina, mas uma regulamentação”.

Colóquios Cultura, Trabalho e Natureza na Globalização

6.3.08

divagação da semana

Hoje na natação comecei a treinar apnéia para mergulho!!!! Em breve vou comprar meu equipamento. As vezes eu tenho vontade de ir para o mar e ficar pra sempre naquela imensidão azul... Aliás, já viram esse filme? Lindo! do Luc Beson. Enfim, só um momento de divagação. Eu agora estou dando a luz a uma organização que, eu espero, será inovadora (algo que deve me consumir aí um tempão e muito suor, quem sabe até alguns conflitos), dou aula, canto, escrevo... tem casa pra cuidar, contas pra pagar, mil coisas pra fazer. Mas acho que no fundo eu estou apenas preparando o terreno pra sair por aí um dia com meu barco "salvando as baleias". Lá dentro uma vozinha diz que o mundo é a minha casa... Mas eu sei que antes tenho que construir as bases pra isso, ganhar um dinheirinho, porque eu não quero simplesmente sair por aí como turista ou sem noção (já passei dessa); eu quero construir coisas, pesquisar povos, culturas, lançar livros, acabar com o pró-carne, com a Monsanto e quem sabe tb despoluir a baía de guanabara, salvar a Amazônia e os pandas... coisas pequenas...rs. Na verdade, eu acho que já estou fazendo. Não sei muito bem se existe isso de construir agora e colher depois. É simultaneo. Uma outra voz tem dito dentro de mim: você nasceu para coisas grandes. E a Vanessa pequena tem medo. To tentando fazer com que a Vanessa grande coloque a pequena pra hibernar. Todos deviam fazer isso consigo mesmo. Temos que salvar os fortes dos fracos, dizia Nietzsche. Reflitam bem essa frase sem pré-conceitos... Quem são os fortes e quem são os fracos?

um poema para a vida!!!

Poesia ingênua

Basta apenas um sorriso
E meu mundo se abre em flor
Basta um som rasgado
Uma voz apaixonada
Basta um suor de desejo
E um fôlego sem fim
Uma luminosidade cara
Uma insanidade rara

Bastam os acordes
E as harmonias de um dia de sol
As chuvas de verão
Os sonhos de calor
Os filmes que eu não vi
Os beijos que virão

E bastam os abraços
Os corpos que se encontram
Os olhares que aprofundam
As forças que juntas se consomem

E então um grito ecoa no ar
E me diz que na vida
Embora existam as saudades
Tudo tem fim na alegria

Que nos jardins de rosas
Todas as dores se transformam
Em luzes que se espalham pelo céu

Que lá fora há um sol gritando por nós
E um planeta que não se cansa de amar
E uma vida que nasce
Intensamente a todo instante

Como a cada instante nascem e morrem
Astros por todo o universo

Como a cada instante damos a luz
A tudo aquilo que fazemos
E a tudo o que o desejo
Conduz e transforma em concretude

Mafuá Produções

vc já pensou que pode ficar mais simples conseguir realizar seu projeto cultural?

aguarde a versão 2008 da Mafuá Produções: www.mafua.com.br

Adoro fazer mistério!!!! ;)

e já que o assunto é produção

Produção do filme 'Chatô' terá de devolver R$ 36,5 mi
Sáb, 23 Fev, 09h09
O ator Guilherme Fontes e sua sócia na produtora Guilherme Fontes Filme,Yolanda Coeli, terão de devolver mais de R$ 36,5 milhões aos cofres públicos, por determinação da Controladoria-Geral da União (CGU). Em 1995, eles captaram recursos para produzir o filme "Chatô, O Rei do Brasil", mas a obra até hoje não foi concluída. O parecer da CGU deverá ser enviado nos próximos dias ao Ministério da Cultura, que em seguida o encaminhará ao Tribunal de Contas da União. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo

CGU vê quebra de contrato em 'Chatô, o Rei do Brasil'

Para a CGU, a empresa de Guilherme Fontes deve devolver mais de R$ 36 milhões à União.
Esse valor foi atualizado em relação aos R$ 8,6 milhões recebidos em 1995 pelo filme.
Tiago Pariz Do G1, em Brasília
A Controladoria-Geral da União (CGU) concluiu nesta sexta-feira (22) que a produtora do ator Guilherme Fontes deve restituir aos cofres públicos R$ 36,6 milhões, valor atualizado do montante captado para a realização do filme “Chatô, o Rei do Brasil”. A CGU alega que houve quebra de contrato porque a produção nunca foi concluída.

“O parecer da CGU sobre a tomada de contas especial deverá ser enviado nos próximos dias ao Ministério da Cultura para conhecimento do ministro Gilberto Gil, que em seguida o encaminhará ao Tribunal de Contas da União (TCU). O motivo de se decidir pela devolução dos recursos foi o não cumprimento do objeto do contrato”, informou a Controladoria em nota divulgada à imprensa.
Se o TCU acatar a decisão da Controladoria, será emitido um título de cobrança com o valor atualizado do recebido pela produtora em 1995, que agora seria de R$ 36,6 milhões. Caso os donos da produtora se recusem a pagar o devido à União, a cobrança passará a ser feita na Justiça através da Advocacia-Geral da União.

A assessoria de imprensa da CGU informou que o Ministério Público também pode utilizar este parecer para iniciar um processo jurídico antes mesmo da conclusão da análise do TCU.
A reportagem tentou entrar em contato com o ator Guilherme Fontes mas não conseguiu.
Chatô
A produtora Guilherme Fontes Filme captou R$ 8,6 milhões em 1995 para rodar "Chatô". O financiamento foi garantido através da Lei de Incentivo à Cultura e da Lei do Audiovisual.

Em 2002, a produtora solicitou um novo prazo para a conclusão do filme, até 2005, mas o pedido foi negado pelo governo.
Retirado de:

produção cultural

Olá! Alunos lá da Faculdade (pra quem não sabe sou professora substituta de planejamento cultural no curso de produção cultural da UFF) pediram para eu escrever um texto para os calouros e para o manual que eles fizeram sobre o curso. Bem legal isso. Estão voltando as boas iniciativas alunescas lá na procult. Fizemos um debate de ex-alunos essa semana e foi bem legal relembrar um monte de coisas. Reproduzo o texto abaixo. Não sei o que acho dele. As vezes gosto, as vezes não.

Acredito que o ofício de produtor cultural é um dos mais abrangentes, porém um dos mais fascinantes e, ao mesmo tempo, mais perigosos que existem, porque podemos ser criadores e mediadores de desejos e políticas.

Assim, cabe a nós, que nos intitulamos produtores, trilhar os caminhos onde queremos atuar. Aqui vale uma reflexão: até que ponto é um produtor cultural aquele que colabora, hoje, na manutenção de instituições e padrões culturais da megamáquina de produção de subjetividade capitalística, para usar uma expressão muito bem vinda de Guattari. Aliás, esse mesmo pensador chegou a afirmar que cultura seria um conceito reacionário, uma vez que é o motor dessa produção de subjetividade.

Falando assim parece até que não temos alternativas. Trabalhamos com cultura ou, pelo menos, com produções simbólicas, semióticas. E aí? Nos serve ainda Guattari e sua idéia das micropolíticas e revoluções moleculares. Sejamos, então, produtores e mediadores de singularidades em contextos micropolíticos que existam baseados não em regras ou leis das máquinas estatais, empresariais ou qualquer outra megamáquina reguladora, mas que se baseiem em desejos e trabalhem com as multiplicidades e as singularidades (e não dicotomias como as de classe ou de bom e mau); que sejam máquinas de singularização, ou contra-máquinas.

Para beber mais desses pensadores autônomos e errantes, que atuemos nas brechas deleuzianas que se abrem no rizoma da existência, para alterar sempre o fluxo do rizoma, ou que sejamos os mediadores daqueles saberes sujeitados (como nos diz Foucault) em séculos de uma história de opressão e supressão desses saberes, tradicionais ou, simplesmente, não enquadráveis.

Quem sabe assim possamos reinventar a política, a empresa e, por quê não, nossa relação com o mundo e com o outro, para que ela seja mais sustentável e rica em cores, cheiros, cantos, danças e do sentimento de amor à vida.

Ser produtor cultural não é ser o técnico que entende tudo de Lei Rouanet. É, antes de tudo, assumir uma postura frente ao mundo, entendendo que nada está dado e sim, que a realidade é um caldeirão de possibilidades de modos de existir a ser talhada, moldada e desmoldada. Eu poderia aqui enumerar as várias qualidades técnicas que um produtor deve ter, assim como sua postura no trabalho e as possíveis áreas em que ele pode atuar, mas não iria acrescentar em nada, pois há quem faça isso melhor que eu. Prefiro uma reflexão, algo tão pormenorizado hoje em dia.

Acredito, desta forma, que a faculdade pode até instigar essa sensibilidade no pretendente a produtor, mas se não estivermos abertos a ela seremos apenas um técnico. Graduado ou não, o produtor cultural que preza seu ofício é aquele que sente o mundo e quer realizar, criar, fazer a diferença. Entrei na faculdade com esse pensamento, deixei de acreditar nele por um tempo. Mas só mesmo a experiência nos traz certezas. O caminho que trilho hoje me devolveu a certeza nele. Certeza essa que pode um dia ir por água abaixo, pois a vida não é nada precisa. Mas vamos viver o presente trabalhando para que sejamos os poetas do amanhã: arautos, músicos, cantores do amanhã[1]. Que possamos preparar uma canção que faça acordar os homens[2]. E deixar que os desejos, os símbolos, as semióticas com os quais trabalhamos construam os caminhos, as pontes e nossa sustentabilidade como produtores. Esse é o horizonte pra onde navega meu barco...



[1] Walt Whitman. Poetas do amanhã. Em Folhas de relva.

[2] Carlos Drummond de Andrade. Canção amiga. Em Antologia poética.

27.2.08

Escrevendo...

Olá! Uma notícia: estou escrevendo dois livros. Um de contos: Mar sonoro. O outro é um ensaio sobre cultura e ecologia. Pretendo publicar tudo aqui no blog. Me cobrem se demorar demais porque eu costumo começar livros loucamente, e eles ficam anos guardados no computador. Pensei até em colocar os contos aqui e sugerir os finais. Algo como "continue o conto". Que tal? Tempos de web 2.0 e copyleft...

25.2.08

Gravação - Mobile


Olá!!!! Finalmente o mobile está em estúdio gravando sua demo. Olha eu aí gravando uma das músicas... Entrem no blog da banda para conferir mais fotos - www.musicamobile.blogspot.com. As músicas estarão prontas em abril e entrarão no myspace. Aviso.

Oscar

Ok, vamos falar de Oscar. A noite do careca foi ontem. Acho que foi o primeiro Oscar da minha vida que eu gostei... Os prêmios foram justíssimos. "No country for old men", que eu indiquei aqui no blog quando assisti, levou o prêmio de melhor filme! Além de direção e roteiro para os irmãos Coen e ator coadjuvante para o Javier Barden, a mais nova bola da vez em Hollywood... O cara é bom, desde Mar Adentro... Tudo muito merecido para esse filme. Cinema com C maiúsculo!

Mas, mais merecido ainda achei o prêmio para o Daniel Day Lewis. Quem me conhece sabe que sou fã do Johnny Depp, mas concorrer com o charmoso e ultratalentoso britânico é covardia. Day Lewis é um daqueles atores que me fazem querer voltar a atuar... O prospector de petróleo Plainview, de "There will be blood" é simplesmente uma pessoa que existe. Está lá na casa dele agora...rs. Não é o ator. É realidade. O Wilker disse ontem que ele incorpora o personagem. Pra mim é mais que isso. É algo mais artaudiano... Daniel Day Lewis é uma pessoa, Daniel Plainview é outra (comparem as fotos acima). Em momento algum vi o ator no filme, e sim aquele senhor enlouquecido pela riqueza negra que vem das profundezas. Esses são os grandes atores... O Brasil está perdendo muitos atores assim, que envelhecem e morrem. Os novos precisam aprender muuuuuuuito ainda, de técnica tb, mas de desprendimento de si e de humanidade. Onde eles estão por aqui? Onde está o ator escondido no Selton Melo? Em Lavoura ele chegou perto, mas ainda tinha cara de Selton Melo... Onde estão os Rubens Correas atuais?

Bom, continuando sobre o Oscar, ainda não assisti "Piaf". Mas aquela francesa parece mesmo ter merecido o prêmio de atriz. Vou assistir. E a Cate Blanchet estava linda grávida... E ela foi o Bob Dylan...uau! Quero ver isso. Será que ela é uma atriz não atriz tb, que nem o moço aí em cima? Acho que sim, mas preciso ver mais filmes com ela.

Fui...

5.2.08

Dica de livro

pra fechar o dia, um livro, q por acaso é o que eu estou lendo agora: O Povo Brasileiro, de Darcy Ribeiro! Pra quem quiser ficar mais por dentro da nossa história, tão mal contada por aí. O livro ajuda a refletir sobre a colonização, o povo, a nação, e até mesmo a pertinência destas categorias e práticas; nos coloca de frente para um povo-novo: miscigenado, perdido, nem lá nem cá, mas que pode ser tudo! Alguém quer um pedaço? ;)

Dica de filme


agora um filme: indicado ao Oscar (melhor filme, direção, ator coadjuvante etc etc etc), "Onde os fracos não tem vez" (No country for old men) é a pedida. Dirigido pelos irmãos Coen (de Fargo e O homem que não estava lá), traz a bola da vez Javier Barden no papel do vilão psicótico. É fantástico! Seco, sem trilha sonora, acaso puro. Muito bom pra esses dias de chuva.

Dica de música - cantoras

pra quem se interessa por vozes femininas e quer ouvir algo diferente, aí vão as dicas de hoje:

* Laura Marling - inglesinha de 18 anos (!), toca um belo violão dedilhado e tem um vozeirão de cantora folk. Procurem no you tube.

* Nicole Atkins & The Sea - a cantora e compositora acaba de lançar o disco Neptune City, que é maravilhoso. tem um quê de Roy Orbison, Velvet Underground e um clima bizarro a la Tim Burton...

bon voyage!!!

eu voltei...

olá amigos!!! estou de volta e dessa vez pretendo não tirar férias premium... além de novos poemas e textos meus, pretendo postar dicas de músicas, filmes, livros etc sempre que houver algo interessante a ser indicado ou desindicado! ;). espero que gostem, comentem, divirtam-se e reflitam. x... enjoy it!