21.1.13

do porto do adeus


(com a ajuda dos poetas)

vai marujo,
saia do fundo do meu oceano

ficarei do cais a te avistar
seguir teu rumo

pra te perder de vista no horizonte

vai marujo,
pula fora do meu barco
depois de tanto que te deixei aqui
ancorado

você, marujo,
é tão calado...

vai marujo,
dispara o seu mistério
noutro lado

naquele mar desconhecido

e encontre as suas ilhas alagadas

agora, aqui no porto do adeus,
é que o meu ano começa

transformei em cinzas
todas as mensagens
que te mandei engarrafadas

e inicio a construção de um novo barco
para esquecer aquele da noite derradeira

onde permaneci à deriva

deixarei livre o convés à bombordo
para quem quiser subir de qualquer lado
a partir deste dia de chuva
em que a longitude se torna necessária
quando a água lava toda a dor que ficou
da tua indiferença de homem do mar
tua negação corsária
que só não é mais profunda
que o vazio do universo ao luar
no meio do oceano

já estou no estaleiro, de pronto
construindo cada pedaço
do barco que me levará
para novos encontros

sabendo que me enganei tanto
ao achar que cada próxima mensagem
seria a última que te lançaria mar afora

mas agora sim,
chegou a hora!
porque o ano
finalmente virou

por necessidade
de sobrevivência
nesse espelho do céu,
o mundo recomeçou

vai marujo
que vou deixar pra lá o seu mar grego
e voltarei pro meu mar português

porque "o esforço é grande e o homem é pequeno",
"a alma é divina e a obra é imperfeita"

sempre imperfeita

"e ao imenso e possível oceano
ensinam estas quinas, que aqui vês,
que o mar com fim será grego ou romano:
o mar sem fim é português

e a cruz ao alto diz que o que me há na alma
e faz a febre em mim de navegar
só encontrará de Deus na eterna calma
o porto sempre por achar"

meu porto agora
é o porto do adeus
mas o porto da demora
em querer ser tudo
que deixei na tua espera

a longa espera no cais
que me estranha a alma liberta

é que nunca fui de estar no cais a esperar,
viúva de marujos que se lançam no mar

retomo, então, meu quepe.
sempre fui navegante!
marinheira eu sou, exata,
desde sempre navegante pirata

viver não é preciso!
por isso navego

então vai marujo,
já virei o leme na direção contrária

"quem quer passar além do Bojador
tem que passar além da dor"

já deixei de te dar as coordenadas
que eu talvez tenha passado erradas

parto em busca das terras mais bonitas desse mundo
"esse sítio frágil, onde tudo nos quebra e emudece"

pois "sou o único 'homem' a bordo do meu navio"
e assim sempre será

no meu rumo!

"a minha pátria é onde o vento passa,
a 'minha amada' é onde os roseirais dão flor,
o meu desejo é o rastro que ficou das aves,
e nunca acordo deste sonho e nunca durmo"

vai marujo...

desfiz os nós
pra não me sufocar
na tua silenciosa beleza

melhor que seja, ela,
como um doce sonho que eu tive um dia
e, de repente, ao acordar
percebi que estava mesmo era a sonhar

mas é melhor o vivido que o sonhado!
e registro, a bordo, no diário:
hoje é um dia de alegria
porque é sempre uma festa
içar as velas
e novamente
sair ao mar

vai marujo
vai
pra não voltar
porque se voltasse
eu sei, eu voltaria ao cais
pra te esperar

12.1.13

aos músicos


na intenção de reduzir
a importância das palavras
quem sabe, quase nada mais
um dia, utilizá-las

ainda recorro a elas

que me prendem em celas vazias

mas de que adiantaria...

eu que fujo das regras
é por isso que faço poesia
na fé de encontrar
a brecha onde a palavra
diz mais do que diria

dizê-las,
cada vez mais,
só mesmo de forma poética
poupar a forma pouco estética
de dizer tudo desesperadamente
porque pouco dizem,
as palavras, e mentem
diz mais o silêncio que se instaura
quando o absurdo e o maravilhoso
ganham, no espaço-tempo, aura

mas e a música?
aquela que sai das
almas extasiadas que dedilham cordas,
as arranham como o abrir de olhos
do primeiro instante...

destes que submetem seus corpos
a peles afinadas, agudos indecentes,
seus dedos a teclas de infinito
e àqueles graves instantes do mundo em seu início

seus corações ao dissonante caminho de dizer
sem precisar, a elas, recorrer...

dirá?
dirá a música aquilo que a palavra
se esforça pra reconhecer?

serão, vocês,
almas aladas do universo,
os mensageiros mais perto de deus?
um deus-baco-angélico-imanente?
vocês que conseguem soprar o divino?
comunicá-lo através de um violino?

mas eu ainda recorro a elas,
as palavras,

mas certa de que é a música
que me arrebata
porque é também só ela
que redireciona as palavras

as amplia no canto
as poetiza de uma forma
que nenhuma outra poderia fazer
que dizer fica difícil sem música
quando amo

porque é ela que me lança,
através destes corpos que anunciam,
insaciáveis e amorosos,
o que há além do compreensível
visível do cotidiano

justificativa


necessito pouco para viver
mas este pouco pode ser fatal

música, mar, verde, abraço, sol

e paixão!
porque é preciso enlouquecer
para se manter são

7.1.13

carta de desistência


pareceu existir,
neste tempo,
desde aquele dia,
              - noite!,
uma mitologia

histórias fantásticas
são sempre inventadas!
                    já ouvia...
sempre soube
que não há
palavra revelada

a alimentei,
esta mitologia,
por muitos dias

(e somente eu)

com lua, barco
e poesia

tracei as rotas!
há um mapa
de nossas passagens

isto há!
de resto,
permanecerá ela,
sempre ela, que corrói
o tempo...

a dúvida

mas quem sabe
se ele não é mesmo
toda aquela alegria?

quem sabe é real
tudo o que talvez
tenha eu inventado sobre
aquele marujo à deriva?

quem sabe
aquele beijo-labirinto
não tenha sido
um sinal de que a vida
nos leva mesmo
é para o desconhecido...

e eu, que poderia dizer a ele:
me perdi sem fio nos teus labirintos,
ainda busco a saída

talvez eu não queira sair
porque amo todos os mitos

ou talvez tenha mesmo
me perdido tanto
que sair requer
esforço e abandono

esquecimento

de toda forma,
tem um cheiro pelas vias
desse labirinto

inesquecível

e o corpo não esquece
assim tão de repente,
aquilo que o leva a perder-se

ele apenas

            desiste

poesia solar


prece de verão

verão é essa festa!

eu peço que seja,
deuses que iluminam
a terra!

que nesse verão
meu sol brilhe
com a intensidade
certa

e que venham os anjos
nus, de corpos dourados
a surfar nas minhas ondas
perfeitas
com calma

a calma que o verão merece

que venham leves
sorridentes
a me entregar presentes

flores com cheiro entorpecente
incensos a lembrar florestas
gozo de estar vivo
e poder ver
que o mundo
aí está, tão belo,
que tudo pode ser

festa!
novamente!
e que tenha água!

água em abundância
para refrescar todos
os corações ardentes

que o verão seja
nossa fonte
de descoberta
do amor

recente

---

ah, esses garotos dourados
de dorsos molhados
essas peles queimadas de sol
carregando seus instrumentos
de prazer marítimo nas mãos
essa juventude que exalam
até entre os de mais vida na praia
essa alegria de meninos
que se lançam sem medo às ondas
e arriscam suas peles curtidas
sob tábuas de parafinas
feitas para deslizarem plenos de si

como me encantam
esses meninos do Rio
e produzem em mim
uma veraneia emoção

esses garotos-peixes
quando se lançam ao mar
e passam ao meu lado me encarando
me despertam aquela tensão

carregam em suas pranchas
o meu coração

da necessidade

um poema já passado, de um mês passado

necessito
a solidão
completa
do teu corpo

o veludo
que é tua voz
quando falas
sobre a vida

necessito
tua respiração
profunda
quando dorme

e tua pele jovem
encostada no meu
sexo

necessito teu suor
cansado, de verão
tua exuberância
de menino
e tua força
de homem feito

necessito
é simples
do teu espírito
aventureiro

dessa alegria
sem fim
que é tua
existência

necessito-a

em mim

intensa