29.9.13

música nova

se eu fizesse uma música agora
teria, ela, cheiro de futuro
e uma única saudade

a que ainda está por vir...

se eu fizesse uma música agora
seria calma, alta e misteriosa
e voaria sobre os Alpes

seria música nova
incabível no passado
solitária e silenciosa

e não haveria qualquer nota

como se o corpo reconhecesse
apenas pulso nesse instante

se eu fizesse uma música agora...

ela não seria minha,
do que ainda reconheço

mas de quem não sei quem sou

e criaria a própria música
como se fosse a música primeira
que criou os homens

se eu fizesse uma música agora
eu sequer saberia que era minha

ela teria cheiro de começo

e me revelaria
o estranhamento que hoje sou

se eu fizesse uma música agora
seria a própria música cósmica
a voz de Deus a ecoar sobre o vazio

e não apenas seria música nova
que nasceria rasgando, indisfarçável

ela seria, antes,
nesse momento doloroso e mágico,
intocável...

27.9.13

através do espelho

maldito espelho
o outro
maldita palavra alheia
que me revela
e rasga minha veia
saturada de passado

a metamorfose não é bela

pode-se morrer nela
e se perder, para sempre,

lagarta no casulo...

é doloroso fazer nascer um corpo novo
quando já se está tão conformado no existente

no entanto,
há êxtase em perceber onde se conforma
e já, deforma

maldito espelho que é o outro
maravilhoso
que me revela onde falho
tanto quanto onde encaixo

bendito espelho

cristalino

como música barroca
eleva o espírito
e me lança no abismo

maldito espelho
que revela minha fraqueza

bendito seja!

24.9.13

ativa espera

a palavra
me salva

me amarra
a palavra

aperta

o amor
desperta

busco a palavra certa
como busco o amor liberto

e é na sua agudeza
que me embebedo de beleza

como se casco de árvore eu fosse
e escorresse feito seiva doce

e derretesse, amálgama do objeto
e explodisse, expansão do incerto

a palavra pouca
o amor que é verbo

amor que se tem certo
mas parece não ter cumprido ainda
sua caminhada no deserto

ando tateando a procura do verso mais profundo...

e me desloco de encontro, em desejo

quem sabe esteja ele a minha frente
e ainda não vejo

pois sinto uma brisa...
mas não sei ao certo o que ela diz sobre a vida

sei que traz auroras
e me responde certas inquietudes do agora

e, assim, tateando,
talvez encontrem, minhas mãos,
em suave conflito, a textura do infinito

e a palavra certa!
tanto quanto o amor que liberta...

como música exata, ou poesia,
que esperaria o tempo que fosse pra nascer

e nasceria

5.9.13

quando se tem amor

dois poemas de um mesmo dia...

poema alado
na noite de um nascente setembro

lanço flores
para ressaltar a beleza
das rotas dos encontros
e expressar a delicadeza necessária
em tempos cansados do planeta

lanço-as para dar leveza
a pesos desnecessários

a vida é foda
mas é fácil

e me pisca o olho de um deus
na cumplicidade de uma certeza:
o que vem do coração
jamais pode estar errado

o que se faz com amor
é sempre um poema alado

---

na tarde de um nascente setembro

Um trabalho, seco
Sem vida, falho
Faltam-lhe afetos
Falta-lhe apreço raro
Um trabalho, escasso
De vida, de fome
Dos que lhe tratam
Perda de tempo?
Tempo mal gasto

Foi-se agosto
Levando o gosto do aprendizado
E deixando um amargo

E aguarda, o coração, a primavera

A luz de setembro há de brilhar
E retomar sorrisos ternos
Abraços fartos
Leveza do corpo
No único dos trabalhos
Que vale o suor e o osso

Ou se tem amor
Ou se está morto

3.9.13

poemas paulistanos

sequência de poemas escritos em um fim de semana em São Paulo

poema de aeroporto
sexta, aeroporto Santos Dumont

então, fez-se luz!
e, logo depois, verbo!
e Deus criou o homem e a mulher.
e criou o paraíso, onde plantou sonhos, música e delírio.
e fez-se o tempo.
e homem e mulher passaram a ter razão para viver o paraíso ao máximo!
mas o homem inventou o trabalho...
Deus, refletindo o por quê daquele ato,
até achou que alguns trabalhos valiam a pena...
em tempo, não pensou duas vezes:
para ajudar homem e mulher, sendo camarada e gente fina,
eis que Deus criou, então, a cafeína!

poema sinfônico
madrugada de sexta para sábado, após concerto da Osesp na Sala São Paulo

“uma sinfonia deve conter o mundo”
e em cada mundo, a paixão

era cedo

anunciaram, as madeiras,
notas transversais
tomaram o meu corpo
e eu me rendi ao suor do sopro

fosso-oboé do meu desejo
clarineta fálica do meu sexo
meu nexo é levar a vida na flauta
e, em se tratando de paixão,
meu fagote sussurra coisas impronunciáveis

metalizando a fala
minha verdade rara é tomada de torpor
trompas, trompetes, tubas, trombones
quando o mundo se refaz, são eles que anunciam

e, logo depois,
na percussão do universo,
anuncia-se o verbo
um tímpano é capaz de produzir um mundo novo
e a infinidade de tudo o que percute
faz a existência mais certa e menos rude

e então, as cordas...
onde a realidade se estica
para multiplicar o possível
e o impossível do infinito

contrabaixos,
esses mensageiros do profundo
ressoam graves desde o fundo do oceano
e revelam minha insanidade necessária

violoncelos,
mestres da doçura e do experimento
vêm nos ensinar o caminho do meio
meu corpo, deles tomado,
delicia a eterna hora do recreio

violas,
as pontes...
sem elas, a passagem seria dolorosa
minha alma, cansada,
dança com elas a valsa enluarada

e chegamos aos violinos,
tão carregados de história...
eu viveria na melodia dos versos que produzem

e ao me encontrar, de frente pro mistério,
no quase segredo que revelam,
eu morreria, para recriar minha fala,
nas mãos de um spalla

e, então, no ouvido do maestro
renovando o sexo dos deuses
reconstruir-se-ia o mundo
por teus gestos

como poema sinfônico

semeando luz
em todo e qualquer universo

um maestro deve ser deus
cada um de nós, maestros de si mesmo
a reger as sinfonias de nossos desterros

e cada sinfonia deve conter o mundo

sejam quantas forem

nove, dez,
quarenta...

são elas, os cantos da terra
e a vida que se reinventa

espanto
sábado, após visita ao Museu da Língua Portuguesa e uma pequena surpresa

espanto...
o que mais agora, pode,
anunciar meu canto?

fosse a vida mais exata
e seria calma,
mas chata...

espanto...
palavra que ficou da tarde
de tantas palavras

palavra que ficou, precisa,
pela rede social, revelada

palavra que me deixa
sem palavras
querendo, apenas, escutá-las

e ouço o poeta
sussurrar no meu ouvido:

“penetra surdamente no reino das palavras.
lá estão os poemas que esperam ser escritos.”

---

o mundo,
esse ovo curioso e fecundo
a vida,
essa coisa doida varrida

---

no instante seguinte em que lanço a palavra,
dela já me desapego

não a nego

mas ela sai como escarro ou beijo
e assim, lançada no mundo,
de mim, torna-se apenas lampejo

a palavra só tem peso
se a quisermos desejo

a delicadeza do abandono
madrugada de domingo para segunda...

recado está dado
meu samba está leve

te deixo de lado

recado está dado
economizo as palavras

te abandono de mim
para renovar o nosso apreço
e deixar, assim,
surgir um novo começo

recado está dado
mesmo que eu não saiba o que ele diz

aceito o silêncio
com alma de aprendiz