22.7.13

o pêndulo e o poço

quando inflama um corpo
e a mente reclama, insolente,
divergente...

pra um lado o corpo,
pro outro lado a mente,

o mundo pede calma

mas o que se faz com o que não se alma
e com aquilo que se alma até demais?

quando inflama um corpo, inflama!
e nada mais

a mente tenta anuviar
nubla a memória
dispersa a história

libera palavras que tentam racionalizar

mas quando inflama um corpo, inflama!
e não há como disfarçar

a mente briga com o corpo
e relativiza o tempo
esse que corre,
oferece, tira e devolve...
sem chance pra lamento

tola mente!
porque a memória tem cheiro...

voz, carne, osso
sonhos, desejos

e desespero

e vira e mexe
a memória vira carne de novo
e a memória tem beijo

assim, inflama o corpo
e ri na cara da mente
mas, insolente, lhe olha a mente
e ri do corpo que se alma

mas se mente é a ideia do corpo
mente a mente para o próprio corpo?

apenas sei que inflama, o corpo...
em abraços longos que liberam fagulhas
revelando o que não foi dito
e todo o dito que foi tanto
e que teceu inúmeros fios de futuro

tecem, então, mais um fio, esses abraços...
com os quais se quereria fundir os corpos novamente

a mente...
que pode ela fazer diante do que se sente?

esses fios, só o tempo vai dizendo
como devem ser tecidos...

fios que são como aquela vontade louca
de água no deserto
que une a água e o corpo
como se fossem um só porto

espontânea imanência da vontade
à procura do seu poço

e você sabe que precisa caminhar
para encontrar um oásis

e espera ainda que a chuva caia em tempo,
antes que a sede se transforme
em pesado sofrimento

por isso
cabe ao corpo,
diante do tempo,
colocar-se sempre em frente

na doce alegria do movimento

leve, ainda que sedento

pois, além de equilibrar,
faz, o movimento, um dia,
aquilo que se buscava,
encontrar

ainda que se encontre
uma água totalmente diferente

o que é mais provável
quando perseveramos a procura de um poço

assim, cai o pêndulo,
e fica a água a, finalmente,
alimentar mente e corpo

16.7.13

Pitta

Eu me consumo

Não me importo em morrer

Minha chama é daquelas que renascem
Ave mitológica

Procuro sempre por aquilo que me inflame
Nasci sob a configuração da combustão

15.7.13

O tempo...

O tempo é uma das questões que mais me me tomam tempo nessa vida, como questão prática e simultaneamente filosófica. E a relação com o tempo, é sempre uma relação conflituosa para mim (mas que relação não é conflito, me pergunto... conflito é bom!). Tudo o que faço, ou melhor, tudo o que escolhi para me dedicar (ou que me escolheu) faço com intensidade, e fico sempre com aquela sensação de que me falta tempo, porque, teoricamente, eu precisaria de mais tempo para fazer mais e melhor (neurose minha). Mas essa é uma sensação de quase todo mundo hoje, pois vivemos bombardeados por informações, ofertas e convites. Achar que vamos dar conta de tudo é um erro para o sistema nervoso, e para a consolidação do que deve ser feito. Pois o que não nos falta é tempo. Talvez falte é concentração, foco naquilo que escolhemos como prioritário na vida. No entanto, embora tempo não seja desculpa quando queremos alguma coisa de verdade, não há tempo a perder. Porque a vida passa rapidinho... O ruim é quando sequer sabemos o que queremos, o que desejamos. Aí é assunto pra outro texto. Nesse aqui, vamos supor que já sabemos, ao menos um pouquinho...

Saber que o tempo está passando é uma sensação que às vezes me angustia. É por isso que acredito que manter-se em movimento é extremamente importante e, mais que isso, no movimento do desejo. O quanto deixamos de nos dedicar àquilo que realmente importa pra gente na vida? Essa pergunta deveria ser básica no nosso dia a dia. Acredito que uma sociedade neurótica e violenta é fruto das inúmeras repressões do nosso desejo. Nada novo na psicologia, ok. Mas só para enfatizar que falo de um desejo de ser o que se é, que é o que se quer. De assumir o que é sincero dentro da gente. É assim que nascem os grandes artistas, cientistas e outros istas. Quando a gente faz o que ama, ou algo que passamos a amar porque nos conduz ao que acreditamos, e porque o que a gente ama nos organiza, nos constitui e dá sentido a nossa vida, a gente vive melhor e a vida em sociedade parece fluir melhor. Ao menos, é nisso que acredito. Claro que há uma série de questões sociais aí, mas é por isso que acredito nas políticas (coletivas e individuais) da multiplicidade – papo para outro texto também. E para isso não há tempo a perder, e há tempo para nos dedicarmos. Certo!? Hoje entrei no site da Armazém Cia de Teatro, e ao clicar para ler sobre o espetáculo A Marca da Água, eis que me deparo com a seguinte frase no início do texto de Paulo de Moraes, nesse meu momento em que tanto tenho pensado sobre o tempo: “não há tempo a perder”; e que termina lindamente com a frase “não podemos ter medo de morrer afogados”. Como isso soa familiar pra mim, uma pessoa de mergulhos...

Este mês, me peguei ainda mais interessada pelas questões do tempo, pois tenho tido vários insights sobre a minha vida, como se estivesse vivendo um daqueles momentos em que a gente começa a pensar em se dar alta da terapia. Eu realmente tenho resolvido muita coisa internamente, e atribuo isso a toda a série de movimentos de rupturas que comecei no ano passado, mas, especialmente, aos movimentos de reconstrução que iniciei neste ano. É como na história. Depois da queda, o recomeço. Depois das trevas, a luz. Trevas são necessárias, não nos enganemos achando que a luz deva ser eterna. Mesmo porque sequer sabemos se alguma coisa pode ser eterna, a não ser enquanto dure. Eterno é tanto tempo, que não faz sentido nos preocuparmos em descobrirmos se ele existe. É perda de tempo...

Trevas são necessárias... Tristeza, dor. Tudo isso, além de inevitável, é necessário pra gente dar valor ao que temos e, para mim, principalmente, ao que podemos realizar ainda. Porque na vida tudo está sempre por vir, e tudo o que quisermos pode ser possível. É questão de probabilidade. Se é provável, é possível. Por isso, depois de ter vivido mais uma das minhas trevas na vida, eu comecei a ver a luz de novo (no fim do túnel ela sempre existe, é só sair andando pra frente). E nesse movimento, percebi como eu havia deixado de lado uma série de coisas que me constituíam, me organizavam, me faziam olhar no espelho e dizer: sim, é você Vanessa! Certo, era preciso passar por isso. Sempre é. Mesmo que não seja. E se a gente aceita o tempo do crescimento de cada planta, a colheita é incrível! 

Eu agora estou num momento de replantar minhas plantas favoritas, coisa que o tempo fez por mim. E, de uma vez por todas (expressão dramática para enfatizar), colher aquilo que nasci pra fazer, entendendo que a pessoa é para o que nasce... Mesmo que nada esteja escrito nas estrelas, eu sei que nasci para algumas coisas (eu defini assim por desejo e por paixão). As principais delas consigo descrever da seguinte forma nesse momento: 1. investigar os mistérios do corpo, e suas possibilidades e potencialidades; 2. ajudar pessoas a concretizarem ideias/projetos/sonhos dos quais compartilho, e construir belas ações conjuntas; 3. investigar os mistérios da vida e, em suma, compartilhar a vida. 

Dentre as muitas formas de realizar tudo isso, eu fui escolhida por algumas. Uma delas, a que está mais evidente para os outros e que me ocupa bastante tempo, é a produção cultural. Acho que ela dá conta dos pontos 2 e 3 lindamente, e até hoje continuo nessa porque posso realizar, com pessoas incríveis, coisas incríveis, e estar em contato profundo com o ser humano. Isso me faz feliz, e também me situa nas relações de trabalho. Penso que quando não está bom produzir, é porque estou produzindo a coisa errada e devo mudar o rumo das coisas. Felizmente, tenho sido uma produtora de sorte, ou, que sabe procurar o que produzir... Definitivamente, sou uma produtora que precisa estar envolvida em todo o processo da produção. Desde a criação, entenda-se. Se assim também não for, eu vou buscando a forma de ser, ainda que isso implique em mudar de local de trabalho, abrir uma nova empresa, ir pra fora do país, essas coisas... Ainda bem que no campo da produção podemos sempre estar em movimento. Eu morreria se tivesse que bater ponto em um escritório todo dia fazendo um trabalho mecânico. Sorte? Acaso? Destino? Inteligência? Política? Tudo junto? Sei lá...

Já no campo 1, foi com o yoga e o canto (como pilar de uma performance artística) que mais me realizei. Mas, por um bom tempo, eu os deixei de lado. E essa foi uma das principais questões que me lançaram na reflexão sobre o tempo neste ano. Por que os deixei de lado... Medo da potência? Já tentei de tudo (risos): teatro, piano, bodyboard, natação, corrida, mergulho de apneia. Tudo isso está em mim ainda, e algumas dessas atividades ainda são interesses, mas, de alguma forma, hoje elas se sintetizam no yoga, pela linhagem do tantra, e no canto (as atividades que escolhi para me aprofundar e que são sagradas na minha vida), e vão fazendo parte da construção das minhas performances artísticas, para as quais retornarei em breve. Pensar o retorno ao que me alegra e ao que faço com prazer é uma questão e tanta sobre o tempo na vida... E a elas vão se somando novas, e outras repaginadas. No momento estudo dança também (apenas como um plus na condição de performer, e não para ser bailarina) e, mesmo tendo passado um bom tempo numa relação complicada com a corrida (que já tentei várias vezes emplacar), eis que, por força das circunstâncias, eu a redescobri, embora ainda prefira a bicicleta... Mas preciso liberar adrenalina intensamente (vício de quem faz isso há anos), e correr é algo que posso fazer perto de casa. Andar de bicicleta na Tijuca não é nada divertido... Mas foi preciso resignificar essa atividade. Então, redescobri a corrida como meditação, ou seja, como yoga também. Coisas que só o tempo faz...

Especificamente no campo 3, acho que viajar e escrever é o que mais me faz, embora cantar, quando é para o outro, também seja uma forma de compartilhar a vida. Mas escrever é, sem sombra de dúvida, uma das minhas formas primeiras de investigação da vida (no ato da escrita, para mim, fica claro como razão e emoção se confundem e se misturam) e de compartilhamento (porque eu gosto de ser lida). Não tenho esse papo de que escrevo só pra mim. Escritor que escreve só para si não publica. Já viajar é uma das mais deliciosas formas de se estar em movimento. Gosto, e muito! Além disso, compartilhar é também o motivo de eu gostar tanto de estar com as pessoas em relações profundas, mesmo sendo uma geminiana com Vênus em Gêmeos, o que me faz ser mal interpretada sempre (mais risos). Mas eu tenho um mapa denso em seu conjunto, e gosto mesmo é das relações que se aprofundam. Sou daquelas pessoas que prefere dar festa em casa a sair pra uma festa qualquer. Entende?

Mas porque eu falei tudo isso? Bem, porque também escrevo pra mim (risos de novo). E em um momento da minha vida em que autoconhecimento é prioridade, falar de mim tem sido inevitável nos meus textos. Mas também pra me ajudar a contextualizar a questão do tempo, e relacionar o ser com o fazer. É pensando em tudo isso, que sei que não há tempo a perder para realizar o que preciso realizar. E o que preciso realizar deve ser trabalhado com precisão, como navegar, já que a vida, não é nada precisa. Assim a gente equilibra e faz bonito!

E você, sabe o que te constitui, o que te organiza, o que te faz você? Dizem que não é o que a gente faz que nos torna nós mesmos, mas o que sentimos, ou somos. Eu não tenho esse talento de separar as coisas. Para mim, o que somos é o resultado do que praticamos. E o nosso caminho prático é também o nosso caminho espiritual. Por isso, é bom observarmos o que falamos, e se o que falamos é o que fazemos (na relação com o que temos de mais verdadeiro). Seja o que for, que seja o que tiver que ser. Mas que seja mesmo! Que tenhamos sempre a coragem de viver o que acreditamos. Para isso, deve haver tempo, e não há tempo a perder. Chronos e Kairós...

7.7.13

I Ching - um poema para tempos ruidosos

recolher-se, em si...
aquietar-se...

é tempo de lapidar os diamantes...
na sala escura, dos homens, distante...

para uma luz brilhar
sem ferir os olhos
é necessário um trabalho árduo

sensível, cauteloso
por vezes, solitário...

nada sabemos do que somos
enquanto tudo proclamamos como sábios...

no poço fundo, caem nossas verdades...

para o florescimento
é preciso devoção!

para o renascimento,
a observação...

retirar-se
momentaneamente
para reorganizar-se

é tempo de balanço!
para que seja triunfal
a descida da montanha...

move-se o universo em favor
quando uma estrela se enche de luz
internamente

virá, no exato momento,
do fundo do poço,
do abismo da alma-corpo,
aquela que mata a sede

por isso, o agora
é o tempo da reforma,
da obra de revestir-se
para a transformação íntima...

e não se pode utilizar um poço
enquanto ele está sendo revestido

este trabalho, no entanto, não é em vão
graças a ele, a água permanece límpida...

5.7.13

Está chegando...

Apresentação do livro que está no forno! 

A intimidade revelada pela poesia
Uma carta ao leitor

Rio de Janeiro, inverno de 2013

Querido leitor,

Antes que comece a ler as minhas cartas, vou te contar uma breve história. Não faz muito tempo desde que eu percebi que boa parte do universo da minha produção poética era composto por poemas-cartas, ou cartas-poemas, como assim o fez, certa vez, Manuel Bandeira, e como fizeram, e fazem, muitos poetas, nomeiem desta forma ou não. Mas, desde então, percebi que não importa o nome que tenham; importam sua motivação e seu propósito. São poemas dedicados, escritos sob uma única inspiração: o arrebatamento ou encantamento causado pelo outro. E com um único desejo: o de que este outro saiba disto e, se possível, dê um retorno. Nem sempre as cartas realizam esse desejo, é verdade. Kafka, por exemplo, sequer conseguiu entregar a longa carta que escreveu ao seu pai, quanto mais ousaria esperar por resposta... Uma vez entregue a carta, não significa que a teremos, a reposta. Em alguns casos, sabemos que ela jamais será possível, o que torna ainda mais fascinante este universo, pois revela a entrega daquele que escreve. Independente da resposta, importa escrever e entregar a carta; revelar, pela palavra, o que se passa intimamente.

Assim, seja para um amor, uma paixão, uma irmã, os pais, um casamento, a avó, um amigo, um artista, ou vários deles, os poemas aqui expostos revelam grande intimidade: foram escritos em momentos de profundo encantamento, ou de grande desespero, como uma forma de dar conta, com a palavra, de tudo o que o corpo viveu, ou quereria viver, na relação com o outro, e de traduzir-lhe isto, ou de revelar-lhe como ele foi, por mim, compreendido e, em mim, marcado.

Lembro-me que quando percebi que eu reunia muitos poemas-cartas, outras duas coisas aconteceram junto a esse momento, bastante curiosas pela relação que estabelecem com os poemas e comigo. Primeiro, eu descobri a origem do meu nome.

Vanessa é um nome que até o século XVIII não existia. Ele foi criado pelo escritor irlandês Jonathan Swift, aquele de As Viagens de Gulliver, em um poema dedicado, no ano de 1713, após uma fatídica carta. Pois vejam só! Imaginem a minha cara quando descobri isso, ao buscar a origem do meu nome de forma tão despretensiosa... Como se não bastasse ter sido criado por um escritor, ainda havia sido criado em um poema dedicado... Mas a história não é lá muito feliz. Parece que Vanessa se apaixonou por ele, mas ele não correspondeu. Há também versões que dizem que eles foram amantes, que é, obviamente, a minha versão preferida. Nos dois casos, o final é o mesmo: Vanessa, ao descobrir que Swift nutria um grande afeto por uma mulher chamada Stella desde muito tempo, e que Stella havia se mudado para perto de Swift, envia uma carta a ela falando de um romance entre os dois. Jonathan Swift, quando soube da carta de Vanessa a Stella, decidiu nunca mais ver Vanessa, e escreveu-lhe um poema de despedida, Cadenus e Vanessa, onde os nomes dos dois aparecem ocultados em codinomes. O nome Vanessa foi criado a partir do nome verdadeiro da mulher, Esther Vanhomrigh. E assim, entra para a história da humanidade. Tenho um amigo que sempre diz que o nome é uma missão. Faz tão pouco tempo que descobri a origem do meu nome que ainda não consegui encontrar qual a missão de quem o carrega. Será que é superar pés na bunda? Brincadeiras à parte, o nome Vanessa vem do nome Esther, que significa estrela, e nomeia uma espécie de borboletas, o que dá excelentes pistas. Mas, de toda forma, talvez minha missão primordial como Vanessa seja escrever cartas...

Logo depois, conheci um poema de Mana Bernardes que pareceu traduzir exatamente o que estes meus poemas são para mim. Tomo a liberdade de transcrevê-lo aqui, embora sem o seu outro, o singular trabalho de caligrafia de Mana:

No papel
Não caberia
O que no corpo
Já não cabia
Na poesia caberia

A palavra poética é, para mim, esta forma de fazer caber o que não cabe mais no corpo. Uma das minhas formas mais próprias e apaixonadas de compor a realidade. Algumas vezes, a poesia dedicada é um presente em agradecimento à existência do outro: o meu retrato pessoal deste outro. Em outras, assume a forma de convite. Em alguns casos, a necessidade apenas de relatar e compartilhar minha visão do vivido, diferente de quando é a forma de viver o que não foi possível ter vivido, e desaguá-la na poesia entregue ao outro. Em todos os casos, é a intimidade revelada pela palavra.

Quando, então, surgiu a ideia de reunir estes poemas em um livro, ao mesmo tempo uma questão se colocou: como revelar toda essa intimidade? Como eu suportaria revelá-la? Inicialmente, houve um receio, como se tornar público estes poemas viesse a me fragilizar ou a expor demais aqueles para quem dediquei poemas. Meditei durante um tempo se valia a pena trabalhar, como proposta de um livro, e do projeto de intervenção artística que nasce a partir dele, esta minha intimidade. Afinal, algumas destas cartas são bem explícitas de um sentir; algumas que eu quereria que meu pai não lesse (risos), assim como declarou Alen Ginsberg ao contar que sentiu vergonha em publicar Howl só de imaginar que seu pai leria (embora eu ache que nada aqui se assemelhe a este fantástico poema libertário, pelo menos no tom erótico-político...). Mas o mesmo Ginsberg decidiu publicar, também, por isso, pois o poeta não pode simplesmente não publicar por medo ou vergonha. Santa, ou melhor, maldita inspiração! Outras cartas são lindamente tolas (ridículas cartas de amor), e revelam o meu coração, o meu corpo e o outro pelo meu olhar. O amor, aliás, é uma das grandes fontes de inspiração poética e destas cartas, e não há quem me convença que poemas de amor não digam mais nada na história da poesia e da literatura (pois eu ouvi isso de um famoso escritor que leu os meus poemas...). Dirão, e sempre, porque amor e vida são irmãos gêmeos.

Assim, depois de muito meditar, resolvi arriscar, trabalhando essa minha intimidade, que é também a do outro, sob o horizonte do cuidado. Alguns nomes puderam ser revelados, outros não, assim como nem todo poema dedicado entrou no livro (pois há aqueles que são apenas meus e do outro, e pertencem àquele universo particular das relações). Quis arriscar porque o material era rico para se construir intervenções, inclusive no corpo de novos outros, os leitores, percebendo também que não publicá-los é que talvez fosse a fragilidade. Compartilhar as intimidades nos aproxima. Como, então, manter guardadas estas cartas apenas para mim ou, em alguns casos, para os destinatários, quando boa parte delas expressa tão somente o que todos nós sentimos: prazer, encantamento, dor, alegria, tristeza... Como não compartilhar ainda mais a forma como a vida se revela em mim, se é justamente no ato de compartilhar que reside o que de mais rico a vida pode nos oferecer? Essa percepção foi determinante, inclusive a de que nada do que está aqui será surpreendente, porque o humano demasiado humano é nosso conhecido íntimo. Abrir o baú das minhas cartas nada mais é que essa vontade de compartilhar sentimentos, sensações, o mundo como eu sinto, o que, para mim, é a afirmação da potência da vida. Apaixonar-se, encantar-se, gritar de dor, chorar de saudade, declarar-se, tudo isso é prova de que estamos vivos! Revelar um pouco de como eu sinto tudo isso é, então, uma alegria! E nesse meu revelar, poderá, o leitor, até acompanhar algumas histórias, através de poemas que, juntos, produzem narrativas. E a vida é o material da arte; são, as duas, uma coisa só. Por isso, o livro publicado. Por isso, tudo o que pode ser criado com tal imensidão íntima revelada, para usar uma expressão cara a Gaston Bachelard; a imensidão que surge dentro da alma (também como corpo, em uma unidade) quando do contato profundo com o outro.

Por fim, publicar estes poemas é também uma forma de prestar uma homenagem a cada um dos destinatários destas cartas. Na maioria dos casos (exceto um ou outro em que o destinatário é um grupo genérico ou um ente qualquer), elas são direcionadas a pessoas que passaram pela minha vida ou ainda estão presentes. A elas o meu profundo agradecimento por terem permitido que eu entrasse em suas vidas e, em alguns casos, por se manterem pertinho de mim. Encontros produzem poesia! Na minha vida funciona assim.

Compõe este livro também, um pequeno conjunto que chamo de outras poesias, por falta de nome melhor, confesso, mas também para marcar a diferença: não são cartas, mas poemas que eu gostaria de publicar. Com eles, fecho o livro. E com isto, encerro este texto, antes que a minha mania de escrever demais transforme uma simples apresentação numa tese.

Que venham, então, novos outros, os mesmos renovados e novos poemas-cartas.

Com o desejo de que escrevam também os seus,

Vanessa Rocha

1.7.13

tantra

será, a minha poesia, a chama para queimar
o incenso do mundo

na realidade que construo com a palavra
transformar a pedra em ouro,
o vazio no som primordial
nuvem que atravesso num jato
deixando o meu rastro
como lençol de seda que estendo
para dormir o sono exato do planeta
e acordar inteira carregando, da vida,
no meu ventre, a tua saga

meu corpo é um templo!

encontre nele a tua tessitura, universo
pratique aqui, a tua união, onde pulsa o sexo e mora a divindade
sou folha branca de papel para que escrevas o teu verso