23.3.16

Imoral e física

















Sou fagulha de sol
Na direção do improvável
Tudo o que imagino
Realizo
E minha aura radiante paiol
Veste túnicas de cetim sanguíneo

Há que se considerar que,
Afoita,
Jamais manseio
E que, carregada de arpejos,
Não me entrego à qualquer fato
Hoje, avalio ontem
Repenso
Estratégia me faz
O tempo me ensinou a ser selvagem
E a catarse dos momentos
A manter foco em arte

Sou arma de forte na entrada no mar
E pirata que toma os navios da realeza
Não concebo
Moral
Que a alma não aprove
E me debruço à falta dela
Porque me sirvo
Desejo

Há quem se alimente de restos
E se contente com palavras belas
Ou sou diversidade
Aquarela
Ou me recuso a ser esteta

Prefiro a imoralidade da traição
À sensação castrati de viver obrigada
De que adianta alcançar as notas
Sem que o corpo conheça
A dança apaixonada

Há quem pense em agudos
E, só depois, em graves
Eu deslizo por toda a grade

Sou fagulha de nada
Que sabe ser tudo
Não me culpo a arrogância
De me sentir um Deus

Existem ditados
Que dão lições de sentido
Ouço apenas os que traem
Nosso cotidiano cinismo

Há quem se aprofunde nos rasos
Eu, encaro os abismos

13.3.16

Carta a quem interessar

Não me importam as tuas narrativas
Mas o que dizem as entrelinhas
As fotos que publicas
Os poemas que recordas
As músicas que gostas
Não me dizem nada
Não sou fã das aparências
Procuro o que escapa no teu gesto
A significância do que mostras
E o desejo por trás de tuas apostas
Não me interessam
A voz bandida ou de anjo
Se tu te achas do bem
Ou se te achas do mal
Eu me divirto com adjetivos
São apenas possibilidades da linguagem
Julgamentos morais não me atraem
Pois o que realmente te faz
Fica guardado no teu plano mais secreto
Se tu gostas de mim ou não
De nada me interessa
Tua opinião é só mais uma entre sete bilhões
Quero saber o que isso me diz sobre ti
E o que te faria largar o teu ego
O que expressas numa mesa de bar
Interessa à sociologia e ao teu analista
(Como o que expresso, ao meu)
A mim interessa o que existe
Quando estás só e em silêncio
Quando toda a luz já se apagou
E toda a cultura dorme
Quando mostrar-se já não é necessário
E os medos e as dores
Já não podem ser deixados de lado
Quando sofres, me interessa!
O que te alegras a alma sem alarde, me interessa!
O que desejas quando ninguém está por perto,
O que te moves e te feres no peito,
E te fazes todo dia manter-te no caminho...
Isso é o que me interessa de ti!

Oração

Que a poesia me livre 
Das suas prisões
E das minhas e das de todos nós
E me permita, ela,
Sempre a liberdade
Ainda que subjugada
Sob a bandeira da necessidade
Ou a sentimentos presos
Em gargantas ilhadas
E que minhas verdadeiras intenções
Não sejam reveladas 
A quem não merece conhecê-las
E meus desejos mais secretos
Sejam apenas meus e daqueles que escolho
Que o tesão se faça todo dia
Nas brechas dos momentos burocráticos
E através deles
E a ironia sorria para os que mentem a si mesmos
E fingem ser o que não é
De tal forma que se tornam caricaturas ao espelho
E que venham sonhos e nos libertem, todos
E sejam eles os meus guias
Nessa estrada de vidas que se querem poucas
Que minha face mais verdadeira
Seja dada aos momentos de fato sinceros
E as máscaras certas sejam usadas
Nas horas em que só cabe sobrevivermos
Que eu não tenha medo
E ele também não 
E ela também não
E nem eles, nem nós, 
Nem irmãos ou inimigos
E sejamos todos capazes
De ver que nada somos
Para além do nosso umbigo
Para que a poesia de ser nada
Se instaure nas raízes do coração selvagem
E faça brotar uma vida mais leve
Filha da mais profunda viagem