29.1.11

desconfio que é preciso brincar
e dançar

recorto minha vida, faço mosaicos
pinto de vermelho o que era branco
e algo me tenta a descolorir os verdes, azuis,
as cores de fruta, o inexistente

para deixá-los mostrar novas cores

não gostaria de ser mais do que uma abelha
e polinizar
vago é o meu espaço
uma rima pobre com teu nome
ele deixa brechas
pois, do contrário, não escaparia

me calo e me despeço
sou o meio
o que não quer ter nome

sou o que deseja tirar as palavras de quem
ao dizer, dirias nada

é preferível que não falem
é preferível que não vivam
a viver pela metade

melodia desastrosa essa que sai de mim
sou interferência
calo

divagação extemporânea 536

tem gente que escorrega
tem gente que entala

receita encontrada num papelote azul em fevereiro

amar o tempo
gostar das passagens
libertar-se nos finais

gosto quando acaba o carnaval!

tão perto

o horizonte nunca sai do lugar
para amá-lo é preciso não ser

escrevo

escrevo
como quem de repente acha graça e ri
como a onda que cresce com a mudança do vento
e a excitação do momento primeiro
mas, sobretudo, escrevo com a paixão pelas imensidões
o que é pequeno me adoece

como ostra, fixo no fundo
até que a correnteza me dê pistas para onde ir

e sempre vou, em direção àquilo que não posso medir

sou peixe, ave, veleiro
nado longas distâncias
vôo e deslizo

se há janelas, mantenho-as abertas
se há um pôr do sol, morro de amor
se há altura, deliro
se há o mar,
é lá que estou