23.12.11

a calma do mundo


uma praia
eu, você, o mar, todos nós
sol até se pôr
chuvinha fina no cair da noite
café, biscoito doce
rede para embalar os sonhos
sonhos para se tornarem reais
guitarras, pianos, enganos deixados de lado
cachorro dormindo, bem-te-vi no telhado
planta despertando com a água
água para diluir as dores
calma para as batalhas do mundo
lua, estrela, eternidade em um segundo
energia para as manhãs
suco de frutas, capim limão e pães
castanha para ter crocância
bicicleta para a consciência e a errância
amor em cada canto da casa
no jardim e no banheiro, flores
prancha na varanda desejando onda
menino na onda realizando a prancha
música para um fim de tarde
cigarras, incenso, vela de canela
cervejinha para brindar com amigos
yôga para brindar o corpo
sexo com suor e de verdade
chinelo pra descansar a ansiedade
hortelã, alecrim, manjericão
banana com mel, mel com limão
livros nas escadas abrindo caminhos
uma montanha vista da janela
bolo, vinho, azeite e cominho
tudo na despensa, revelações na adega
pic nic na grama com pai e mãe
irmãos de sangue e coração
vô e vó pra fazer cafuné
criança querendo saber o que é
lótus, fotos, vídeos
um tambor pra começar a dança
luz do próprio universo de dia
penumbra ao lado da cama
manta vermelha, vento lá fora
almofada, sono profundo
amor em cada canto do mundo
corações livres
filhos livres
amores livres
livres, os desejos
energias renovadas, recriadas, vividas
estradas
um barco
o céu
o infinito

e tudo é possível

---

BEM VINDO 2012!

6.12.11

o que houve?

saudade estranha do que não foi
da poesia que ficou suspensa
angústia das escolhas mal feitas
que permaneceram escolhas
e não foram alegrias

transbordamentos
o que se faz com eles?
o que se faz com a poesia
diante do concreto?

27.11.11

visão


Mora onde a santidade?
Essa que não tem rosto
De uma santa que brilha por cima
Dos templos tão outros dos antigos
Que já não sei para que existem
Santa?
Demônio?
Tanto faz
São a mesma coisa
O que nos faz tão diferentes?
O que nos faz tão iguais?
Porque o silêncio e a luz insistem em representar a divindade?
Eu poderia ser qualquer santo
Entidade, arquétipo
Que eu saiba não há graduação pra isso
Que eu saiba ainda não inventaram distintivo
Que marque a chegada do divino
Porque ele está em toda parte
Até no que chamam de pecado
Minha intuição cada vez falha menos
Nunca falhou
E quase não dei atenção
Porque de fato eu funciono como um alerta
E me surpreendo sempre porque acerto
Eu sei, sempre sei
A santa me falou
Me disse que ali era só eu mesma e nada mais
Ela foi o sinal
Mas quem no nosso mundo tão precário
Sabe ouvir o que não se escuta?
Eu?
Estou aprendendo.
Eu ouvi

eu sou o universo

ahahahaha
achei um poema muito "eu sou mais eu"



Não serei o que quer que você queira que eu seja
Não posso
Acredite que o que se passa aqui dentro
Não é o que você vê
Você que não me conhece bem
E acha cabível conceber um mundo para mim
Eu concebo o meu mundo
E cada vez mais
Nele só cabe o que manda o meu desejo
E você vai achar bonitinho o que eu escrevo
Profundo...
E nem vai perceber que é pra você que eu falo
Para todos vocês que constroem
Sobre mim teorias e verdades
Eu busco sensibilidade
Estou à cata das evidências do amor-mundo
É isso que me move
E se eu esboço uma única palavra que seja
Sobre isto, o que escuto é uma risada
Ok! Tudo bem...
Eu vou continuar fazendo o que quero
E você vai continuar acreditando
Que me conquistou para sua seita
Eu não universalizo
Eu sou o universo

8.11.11

em clima contracultural


sabemos que quando o que parece, não parece nada
é porque é tudo e deseja o tudo
mas é preciso cautela para o nada vir a ser tudo
do parecer ao barro
o ruído pode ser insuportável
ah, mas isso sim é que seria primavera
a floração do tudo a partir do nada
a agressão da beleza
a chocar os escarros dos burocratas
vida sempre como potência
não à cultura pequena das convenções
que importa ela, essa de quem só faz muros
lembremos da arte
arte é luz e sempre pode nos recordar
que o possível pode ser o que quisermos que ele seja
que é preciso dizer o que deve ser dito
e fazer o que é necessário que seja feito
ignorar? esqueça. ideia errada, sinto lhe dizer...
o que você ignora se torna um fantasma
o que você deseja se torna seu barco
e é preciso que deixemos de lado a poesia óbvia
e o estabelecido dia a dia copiado.
porque também é preciso que sejamos mais
e tudo aquilo que a vida pode ser em nós
potência é uma questão de coragem.

16.10.11

pop poesia


o pop nunca poupou ninguém
cansamos de decorar a máxima
a filosofia pop não poupou os ícones
a pop poesia é padrão do artista contemporâneo
a arte que vive na fronteira é a arte que queremos
o artista-acadêmico-errante, nem lá nem cá
desterritorialização da especialidade
performance do caos urbano
estar nas fronteiras
provocar a própria criação
não se pode ser artista sendo um
só o múltiplo pode configurar a arte
o pop é possibilidade
da recriação da criação
do abalo de todos os cânones
que sejam belos, que sejam sublimes, que sejam amados
mas que deixem de ser cânones
abalo sísmico do símio produzindo fogo
2001 chances de acontecer diferente
ruir ruir ruir ruídos de todo e qualquer juiz
voar pra onde se deve voar
para onde está apontado o devir
quem cisca é galinha
quem voa é águia
visão de latitude e longitude não-óbvia
produzir com o suor
deixar a poesia vir do fígado
fazer música com o mesmo torpor
de quando se vê o próprio sangue
ser vísceras e pensamento
ser um quando se é qualquer um
ser tempo, espaço, intuição
multiplicar a experiência
meditar, limpar a casa, escrever e fazer nada
da mesma maneira
são todas formas de ser e compreender o mundo
explicar o mundo sem medo de ter que desexplicá-lo
intoxicar-se de amor
de liberdade não, ela não existe
o que existe é a agonia, agonística, agnósticos em danças circulares
pop poesia
sem pretensão e cheia de intenção
colagem, recorte, deslize pelas linhas
martelo, flor, transporte
comunicação
a que falta
a que os cursos não dão conta
olho no olho, direção ao ouvir
ainda que se tenha problemas de escuta

enquanto formos medíocres
o pop será medíocre
e só

17.9.11

mais do mesmo

se fosse possível me descrever em algumas frases...
hoje eu diria

gosto mesmo é de ajudar quem se ama e quer viver
de apoiar os fortes para serem cada vez mais fortes
certas horas quero me plasmar no todo-gente
certas horas no todo-natureza
mar-montanha-floresta-bicho-sol
sinto que sou um só com o universo
que a transcendência está na imanência
certas horas só quero eu mesma
solitária, sem que ninguém saiba
ouvindo apenas minha voz na meditação
para fortalecer a força e poder me plasmar de fato
com o mundo que eu quero abraçar inteiro


uma música triste para libertar!
cause everybody hurts and everybody cries...
don´t throw your hands!


às vezes a ilha deserta é o refúgio mais certo
sol, mar, coqueiros, alguém pra amar
pra que mais?

----

Tropical the island breeze
All of nature wild and free
This is where I long to be
La isla bonita
And when the samba played
The sun would set so high
Ring through my ears and sting my eyes
Your Spanish lullaby

16.9.11

vontade

desejo é sempre a mesma coisa
um dia vai, um dia volta...
volta e volta
ouvia vovó dizer que vontade é uma coisa que dá e passa
não sabia o que vovó queria dizer
e então entendi que sim, passa
depois que a gente curte aquilo que desejou
se passa sozinha?
não, só dorme
vontade é coisa que dá
simples como laranja o ano inteiro


11.9.11

espera

é sempre muito bom pegar os cadernos depois de um tempo. passo a gostar do que escrevi.



de toda forma
o que desejo
é que ao abrir os olhos pela manhã
tenha somente passado um dia mesmo
e que eu possa ter a certeza de que há tanto o que viver ainda
e que lento, passa o tempo
de toda forma
é só isso

----

basta que se apague a luz
e perdemos um pouco daquela
confortável conexão com o fora
ficamos dentro
grande oceano de nós mesmos

difícil é respirar quando somos rarefeitos

----

saudade de tudo aquilo que não sei
e quero...

----

um, dois, seis
hoje eu quereria tantos outros quanto fossem possíveis
quereria ter a certeza de que se pode ir até a lua
e não envelhecer tão rápido
só flutuar e olhar para o planeta azul de longe
e tanto quanto fosse possível
eu quereria errar para ter segundas chances
elas são sempre um gozo sem fim
e subir bem lá no alto daquela montanha
na terça de carnaval
ver a cidade de longe
sentir como é grande o mundo
como é inevitável e inebriante o amor pelo mundo
eu quereria até morrer
pudesse renascer

22.7.11

me agarro aos pés da arte

(The Painter Surprised by a Naked Admirer, Lucian Freud)

Eu adoro todas as coisas
E o meu coração é um albergue aberto toda a noite
Tenho pela vida um interesse ávido
Que busca compreendê-la sentindo-a muito
Amo tudo, animo tudo, empresto humanidade a tudo
Aos homens e às pedras, às almas e às máquinas
Para aumentar com isso a minha personalidade
Pertenço a tudo para pertencer cada vez mais a mim próprio
E a minha ambição era trazer o universo ao colo
Como uma criança a quem a ama beija.
(Álvaro de Campos, o engenheiro sensacionista lá pelos idos de 1914)

a empresa visionária do amor...

And so it was I entered the broken world 
To trace the visionary company of love, its voice 
An instant in the wind (I know not whither hurled) 
But not for long to hold each desperate choice. 

(em The Broken Tower, Hart Crane)


E foi assim que eu entrei no mundo destruído
Para traçar a empresa visionária do amor, sua voz
Um instante no vento (não sei até onde arremessado)  
Mas não por muito tempo para realizar cada escolha desesperada.
(livre tradução)

mar sem fim

compartilho com Norah Jones da sensação:


Out across the endless sea
I would die in ecstasy


16.7.11

ressonâncias



Existe um deserto em cada um de nós
Cada vez mais eu o desejo

Na busca de entender o que não entendo?
Para ouvir o que nunca escuto?

Sei pouco ou nada do que faz com que eu me mova assim
Tão avidamente em direção a esse espaço cheio de vazio

Ainda não sei

Perco tempos preciosos com tal capricho
E sou aquela voz que cala após ouvir a própria voz ressoar

De alguma forma reverencio esse deserto
Que se amplia nas águas, pedras, areia,
Nos espinhos e seres que rastejam ou tem guelras

Mas o deserto do corpo, esse é o mais intenso

Porque só se tem o próprio corpo
E ele é o nosso grande deserto

Quero me iluminar e deslizar por ele
Talvez por isso, por querer
Devo parar de desejar?

Mas, para quê?
Para encontrar a tão esperada calma diante do mundo?

Os dias continuam passando
O mundo ansiosamente me aguarda e pede reação

E não há calma possível diante do mundo
Só uma grande ansiedade e uma vontade de voar

-------------

Triste a tristeza dos homens
Pensamento sem corpo
Corpo sem pensamento
Atletas classe média correndo na praia
Mas que praia? Eles não olham para o mar...
Trabalhadores atravessando as ruas
Há uma enorme lua cheia no céu
Alguém viu?
Comem com pressa seus defuntos
Lutam sem ternura
Empurram-se nos ônibus
Buzinam como bonecos
Correm nas ruas com seus tanques como competidores
E não são? Estes homens e mulheres tão donos de si quando dirigem máquinas
Não importa se com falo ou sem, se promíscuos ou castos
Todos são tão patriarcais
Rostos que se reiteram e reiteram no vazio
Buscando sentido
Quando sentido é só conforto para nossas fracas concepções de mundo

A esses, que reduzem o prazer à piadinha zorra total
Há tanto mais, há tanto a se viver
Medo? O que temos a perder é só a vida...
Não entendo o medo de perder a vida
desses
que não vivem
Os que vivem, só se preocupam em viver
Basta estar vivo para morrer
Não é o que dizem?

Antes perder um braço
A perder a possibilidade de conhecer todas as montanhas do mundo
E ir para o alto, buscar o infinito da sensação de liberdade

Lançar-se no deserto
Sair do conforto
Negar assim a paixão pelo poder
Permitir ferir o general que todos cultivamos

Que morram todos os generais!
E vivam os destemidos, os artistas e amantes
Utopia de minha parte?
Que assim seja! Amém... 

25.6.11

perdidos achados

poemas encontrados perdidos em um caderno. chegam aqui da forma como foram achados, sem lapidação, sem cuidado, frescos como quando vieram ao mundo.



A vida, que sempre me pareceu curta
De repente hoje me pareceu tanto...
Imaginar que chegarei aos 50, 60, 79 anos
São mais 20 ou 30
Mais 40 ou 50 anos?
Posso fazer o que eu quiser!
Quanto mais tenho que esperar?
Trabalhar? Para quê?
Queria estar sempre no topo do mundo,
no alto das montanhas
Os Andes, o Himalaia
E descer todos os mares
Experimentar todas as especiarias
Os sabores das frutas e das folhas
Os molhos, as ervas, os cremes
Beber todos os vinhos
Sentir o cheiro do incenso na Índia e no Nepal
Curtir o mar do meio do oceano
Ouvir a maravilha da gravidade dos sons dos sinos budistas
Correr por castelos, e me integrar nas primaveras doces dos rios todos
Para que tanta política e ciência
Se o que quero é sentir o mundo?
Se assim sou feliz,
Apenas sentindo...
Para que precisamos de política?
Mais precisaremos dela enquanto negarmos nossa liberdade e potência

--------

Cai uma tarde de outono qualquer
A brisa esfria e é possível ouvir o que não se ouvia antes
Junto daquele cheiro de mato quase queimado do pasto
E a sinfonia de grilos grilando para o céu que se aproxima, estrelado
Cai uma tarde de outono qualquer
E como se não bastasse ser uma tarde de outono
Ela ainda é tão bela que jamais haverá outra igual
A estrelar para mim um futuro que já é presente
Um contexto que já é pretexto
E refazer sentido a todo instante
No mundo que já não quer mais ser
Que só espera a hora de só ser o que se quer
Vida que não mais suporta, só ama, só deseja, só viaja

--------

sou uma espécie de Cristóvão Colombo contemporâneo
desbravadora e cega diante de todos os nãos
dê-me um barco e navego longe
como fizeram os homens de outrora
sem medo da morte
e assim faço jus a todas as mulheres
que nestes distantes tempos
não puderam se fazer capitães de saias
cientistas com um afeto profundo
desconsideradas pela história vermelha e barbuda
que delas têm medo

porque podemos ser mães de qualquer coisa
de grandes mundos, da anarquia
do amor e do cuidado

espero até fazer jus àquelas que hoje
desconsideram a si mesmas
reproduzindo os papéis que lhe foram dados
tristes que só elas

-----

um Almodóvar faz falta na vida
quando olhar para o lado cansa de tão cinza
nos olhos, nas roupas, no concreto e na falta de paixões
faz falta o vermelho, uma mistura de rosas com listras no tecido
um cabelo menos certo, uma roupa menos cáqui
e sexo de verdade
porque até mesmo o sexo pode se cinza, enlatado
como a falta de brilho de quem passa do meu lado,
desce do ônibus, reclama da vida e senta no sofá

3.6.11

poema-oceano

o mar sob meu teto
todo dia sinto o cheiro
janela aberta é condição

a onda sempre vai e volta
mas meu barco
faz porto de qualquer lugar
que se apaixone

fica, e deixa que vá e volte só a onda

mas se volta, depende
fato é que ele vai

o mar sob meu sonho...
meu barco já está no mundo
apenas eu que ainda não cheguei

poema-jardinagem



queria hoje uma chuva de flores
a cair sobre meu corpo
retirar-lhe o peso
e transformar-lhe em flor
eu o queria inteiro,
esse corpo cansado, sem chão
para oferecer-lhe cheiro de alfazema no pé,
cor de rosa, violeta, orquídea preta
senti-lo pétala a pétala
como se fosse gérbera vermelha

queria hoje ser um lírio aposentado,
um girassol abandonado,
a compartilhar com ervas daninhas
o gozo de brotar de qualquer jeito

ser um corpo leve e sair por aí como dama da noite
que não pede desculpas ao entrar sem bater
um frangipani enlouquecido!

corpo sem culpa,
eu brotaria dente de leão, flor que voa,
e voaria para sempre até que me esvaísse

quando então eu já seria uma lótus universal
conectando o espaço sem fim de todos os corpos
morando sob suas cabeças
os ajudando a brotar e voar

queria hoje só brotar e voar
e dormir como guirlanda floreada
posta na árvore do jardim

25.5.11

poesia para a vida

o brilho dos olhos...
vai embora como cachorro desprezado
se a gente não cuida de manter as paixões

--------

de repente um dia
você acorda e o mundo começa a existir

mas aí já é tarde
e só te resta aposentar o corpo

morre antes guri, pra não ver que perdeu a vida
ou trate de viver agora que o sonho já está logo ali
quando você virar a esquina, ele acenará

--------

a alegria se inscreve por si mesma
portanto, procurá-la, é passatempo das fraquezas
é ela quem vem de encontro
não se acha na gaveta, nem na mala, nem num canto

quem espalhou que a dúvida é benefício
é porque cedeu a mão ao medo
e esqueceu que a alegria não duvida

medo de ir exatamente onde se deve ir - e exato não é preciso
mesmo que esse onde deixe de ser depois
aquele onde de agora - que é somente um onde do instante,
para se tornar o que já foi e não é mais

há coisas que não podem prolongar-se
pois não há prolongamento possível
àquilo para o qual já é necessário empenhar esforço,
isso que não conhece a alegria

quando esticadas à força perdem a cor
murcham como flor esquecida no canteiro
e deixam o coração no mesmo ritmo confortável
daqueles que respiram e não sabem o que fazem

--------

a vida é feita pra durar
mas só dura se o que por ela passa, aceita passar
porque é preciso cuidado, ou o tempo empalha
a vida é o que existe no movimento
e nada mais que isso, penso agora...

-------

no teu corpo pleno, terra
eu dançaria a noite inteira
para sentir com mais afinco
o cheiro de orvalho e do mar
e depois da dança eu promoveria um banquete
para que todos os meus convidados,
feitos de elementos os mais distintos,
pudessem se deliciar com tudo que nasce de ti
e com aquilo que de nós emana
e se permite existir antes da cultura
porque é isso que é preciso
dançar a dança esquecida do corpo pleno
para imanencizarmos inteiros os cantões de nossa coisa-alma
essa coisa-corpo, coisa-mente, coisa lugar algum
coisa-amor, amor-semente, semente-força
para brotar o inominável que desliza pela pele

no teu corpo pleno, terra
eu seria capaz de ser eterna e sem memória
feliz como sabem ser as pedras

30.4.11

cicatriz

tenho em mim uma cicatriz da Maromba
com que me presenteou o Escorrega
acima da flor de lótus residirá eterna como a tatuagem

a alegria de repente ganha forma no meu corpo
porque aquele lugar também é meu corpo
e meu corpo é a pedra e o rio Preto

meu sangue correu por ele, já deve ter chegado ao mar faz tempo
meu sangue e o mar são agora um

assim também meu corpo, toda Mauá, o rio, as pedras,
a mata, os entes, as estrelas
somos todos um único corpo
modos da substância tão bela quanto mais indiferente consigo concebê-la

e a flor residirá a expelir a cicatriz para sempre
enquanto meu corpo resistir a entrega final

e meu sangue estará lá, no rio, no mar,
na chuva que cairá após os dias quentes de sol
para voltar à terra e fazê-la mãe de uma árvore frutífera

1.4.11

oops

já acordo em sobressaltos
meus múltiplos fluxos não deixam barato vapor
reagir pra quê?
melhor é ir de mãos dadas
parar de forma alguma
ligar a TV jamais
usá-la como móvel para suportar flores e um gnomo
palavras, projetos
starta tudo ao mesmo tempo
a vida escorre como aventura perigosa
que dá fome e faz neblina
e quando tudo se aquieta
medito e alongo o corpo desejoso
paro sem parar
paro sem estagnar o olhar
paro para não ouvir as vozes rabugentas
e os pensamentos secretos do âncora do jornal
pego a vassoura e o enxoto como bicho que não se quer
músicas, só as que desejo
aquelas músicas!
sons? do vento, das vozes amigas, do pensamento que persiste
calor? dos corpos, do sol e da arte
o das luzes artificiais que fique para os cegos
água pra todos os lados
para lavar com os meus santos os alheios
velas para criar penumbra, incensos para remeter
mato, muito mato, e chuva fina no telhado
bora correr na rua?
pintar o hidrante e fazer arte como processo
e deixar que o tempo a leve depois
e que outros desejos a transformem
saturem os que já não cabem
permitam a novidade do tempo
sejamos luz em movimento!
tomemos banho quando o banho vem...

novos fragmentos

há poetas que só falam do povo
outros que só falam de si mesmos
os que falam do povo argumentam
que a verdade do artista está em ser a voz do povo
os que falam de si mesmos argumentam
que a verdade está em ouvir a voz interior
mas desconfio que cada um de nós é o universo inteiro e todas as verdades
e que falar do povo é sempre falar de si mesmo

---

deixei abertas todas as janelas
que importa a poeira?
me importa o vento
poeira faz parte do vento

31.3.11

raro

raro,
não se decomponha em dor
escape pela criação
sua força reside no suor e na palavra
em um amor imenso que talvez nem consiga ver
amor-território
lembre-se do território
fuja, mas retorne
diferente
grande, esbelto, esguio, prazeroso
porque só há prazer em você
saliva, corpo inteiro, sentidos,
há mais do que te fizeram crer
há o que você já sabe
vá, corra
dance
respire
alongue
o mundo é seu
todo seu
e o amor é fácil nisso que esboça
naquilo que permite
até mesmo no que ainda não sabe
está no corpo
é um calor sentido
é um desejo inevitável
é vida,  vida que pulsa nas veias
no nervo, nos cabelos, nas pernas que encontro
no peito carregado de pulsações
vida que cresce e quer tomar forma
vida que grita e quer nada além do que ela mesma
em você

palavras e coisas

algumas palavras não mais compõem meu vocabulário
não sou literata, sou poeta
e poeta não precisa da linguagem-objeto
as palavras me são as coisas
voltei no tempo para me transformar em mago
se me prendem, definho
meu coraçãozinho livre sofre e se esvai a força
não antes, claro, de rir muito alto
e produzir afetos que lhe parecerão insuportáveis
se me obrigo, morro
mas me dê sal, ervas, um tambor e chocolate
e faço o universo
cate comigo conchas no fundo do mar
e me entrego
me conte desejos e projetos
e derreto toda
afinal, sou poeta porque digo que sou
assim como apenas simone e sartre poderiam dizer que eram um casal
quero cada vez mais os elementos
e o sentido da vida que vá para o inferno
já achei o meu
a astrologia me é tão séria quanto sua ciência
amo a música e as imagens com a mesma intensidade
e minha religião é feita de terra, sangue e maresia
no meu panteão, cristo é irmão de dionísio
e pouco me importa o que você pensa que sou, o espelho que faz de mim
eu te surpreenderia se me conhecesse
e por isso celebro a mim mesma
isso que se constrói e destrói a todo instante
pois há um prazer diferente em celebrar sozinho a vida
o que como na torrada é um pântano com cheiro de mar
o que bebo é história pura renovada no corpo
para criar tatuagens que com o tempo se vão no vento
e no espaço empreenderão a arquitetura do desejo

eu, o que é e se desfaz

a vida é uma brincadeira, definitivamente
e, de fato, é só isso que posso encontrar de definitivo
no mais, tudo o que tomamos como necessário
necessita de tanto peso e solenidade que me faz bocejar
não é possível aos presentes ouvir um professor
que exale poesia em aula de administração
muito menos ao moço de sapatos marrom
que mesmo no elevador parece correr pelas ruas da cidade
carrega uma pasta preta, sei bem o que tem lá dentro
dor, dúvida, um coração aflito e um macho ressentido
mais cedo presenciei apatias
vi aqueles que lêem fernando como bula de remédio
incapazes de rir do pão de queijo que cai aos seus pés
como se fosse a cabeça de um cogumelo rolando
repreenderam o riso desinibido que o poeta compartilharia conosco
ao ler suas próprias palavras
mas quem sou, ora pois, para sair por aí dizendo tudo isso?
eu que nasci sob o mesmo signo, mas cujos heterônimos não me tenho claros?
de qualquer forma, que interessa!
eu, aquilo que sente, pode dizer qualquer coisa
desde que sinta.
porque em breve receberei uma carta de clarice
eu, tão impessoal, toda alheia
que diz eu por falta de uma expressão mais certeira
toda afecção própria, deus num corpo-natureza
leão que quer ser bebê, filhote de leão raio da manhã
brindemos com vinho o surrealismo
e coloquemos de volta no jazz aquilo que tirou dele o mundo das roupas caras
que billie ecoe liberdade, e o camaleão venha nos salvar do tédio estético
para que possamos rir, que vocês possam rir
eu rio, muito, despropósito do corpo
eu (sic), que senti o cheiro do grão de café despedaçado nos dedos curiosos
eu que falei de desejo para quem ainda busca caminhos e inspiração
eu, dos verdadeiros amigos, amigo-amante, amigos-amigos, amigos-irmãos
com quem criar cidades e escolas livres, psicologias baratas, filhos, livros, músicas, viagens de barco, cias de teatro e cartas sobre o tudo e o nada
deixemos de lado as metáforas,
me disse uma voz encorpada que usava cachecol
e as obrigações que impedem a troca de experiências
façamos filosofia como sexo, música como filhos, empresas como delírios de um esquizofrênico que não adoeceu e é puro afeto
sejamos o sol!
o brilho na mais alta montanha, o amor que derruba a raiva
e ama sensualmente o "inimigo"
que não tem vergonha de sair na rua carregando um pacote de papel higiênico
e a luz do poste vai ser tão bela quanto o próprio sol iluminado
e a vida se mostrará como ela é: um constante cotidiano fantástico!

20.3.11

A saída para o mar

Eu sei, ainda que não a veja
Ela está sempre lá
Na direção da janela do meu quarto

A saída para o mar aberto que amplia esta baía

Onde uma fortaleza já perdeu o seu sentido
E não é nada mais agora que uma bela obra de arte
Como se tornam todas as obras de arte com o tempo
Puro vazio...
Sangue que ficou num lugar desconhecido

Mais bela quando o mar se agita
E em sua muralha as ondas quebram indiferentes

De lá de cima posso vê-la melhor
Conversam as obras artísticas
A de onde estou, utopia de arquiteto
E a que te abriga aí embaixo, no mar

O passado e o presente em conversa
Tecendo um futuro já tão próximo
Que posso sentir o seu cheiro

Ele entra sempre pela minha janela
O vento é sua carruagem

Naquelas noites calmas
Em que os ônibus dão trégua de fazer passagem
E não há adolescentes a gritar no pátio
Só a luz do museu encoberta por uma neblina clara
E a minha velha conhecida inquietação

Nem mesmo as paredes tão sufocantes
Desse apartamento podem me impedir senti-lo
Já impregnou meu corpo
Não há mais volta
É caminho certo
Tortuoso e coberto de perigos
Mas definitivamente certo

19.3.11

declaração de amor

não há nada mais belo e perigoso
que desejar ser o profeta de sua própria história

e eu, que recebi tal dedicatória no filme que me arrebatou,
se não me faltassem palavras agora,
já tão bem ditas no livro, como quem mede mas não pesa,
nem o poder da intensa criação sonora, arcaica e renovada,
aquela fome toda dos corpos da família,
e o súbito olhar de Ana, escapando à captura,
a dança de Shiva, se não faltasse agora...

seria eu a própria potência,
a estrela renascida,
barro de novos constructos,
rizoma de tudo o que respira

aquilo que te sobra, amigo
a força de afirmar a vida
dure o tempo que tiver que durar

desde que talhada no amor impessoal
ela, a vida, pois que é o contrário da morte, o amor
e o que dá a isso que chamamos vida a sua consistência

eu poderia sair por aí
simplesmente a colher as pitayas todas do universo
como criança coiote,
a ser também uma entidade,
o mago, a força, a mãe, o louco, o it

não fossem ainda forcas
não fosse ainda a algema do medo
já pequeno, mas que insiste um sorriso
não fosse a necessidade da estratégia

mas sei
não há tempo para meios termos
não há...
nem poderá haver mais
porque a gente pisca e o mundo se refaz inteiro

"só a justa medida do tempo
dá a justa natureza das coisas"

e se não há mais metafísica do que no chocolate
que faço eu a deixar escorrer o tempo
naquilo que nada vale?

o tempo, amigo
é só o que existe e o que não há
a contrariar Parmênides
a escamar Descartes
a produzir o gozo, o sonho, o delírio
sem os quais a vida é somente
um caminhar cinza, já se sabendo onde vai dar...

o tempo, amigo
é o amor ganhando forma
como se pudesse ele estar no ar
como música saída de qualquer coisa
índia, preta, luminosa
desejo que se inscreve no concreto

15.3.11

para o nosso deus

e a fragmentação reina absoluta... não conhecemos nosso corpo, nosso desejo, nossa potência. reina absoluta e impossibilita o amor encarcerando-o no mundo da fraqueza, da tradição inabalável, do peso das coisas e das palavras, das solenidades. mutila a plenitude do sexo. faz do trabalho cansaço e desejo de morte. transforma o poder do corpo numa apatia alegre e misteriosa. mata, aos poucos... sutilmente esmaga nossa força quando por ela somos carregados pelas mãos por shoppings centers cujas vitrines nos vendem aquilo que deveríamos ser: pedaços de gente agonizando por um Big Mac vestidas para matar a si próprias.

criemos novas éticas, práticas, religares! somos inteiros.compartilhemos nossas inteirezas!

‎"Nessa pedra fundarei a minha igreja particular, a igreja que frequentarei de pés descalços, peito desnudo, nu como vim ao mundo. Eu quero ser o profeta da minha própria história. Não aquele que alça os olhos para o alto e sim aquele que tomba o olhar com segurança para os frutos da terra. Só creio na minha própria ciência!" (grito da liberdade desejada de André, em Lavoura Arcaica, de Raduan Nassar)

3.3.11

liberdade

não há nada melhor que a sensação que fica após o fim de algo que já estava, definitivamente, próximo do fim.

29.1.11

desconfio que é preciso brincar
e dançar

recorto minha vida, faço mosaicos
pinto de vermelho o que era branco
e algo me tenta a descolorir os verdes, azuis,
as cores de fruta, o inexistente

para deixá-los mostrar novas cores

não gostaria de ser mais do que uma abelha
e polinizar
vago é o meu espaço
uma rima pobre com teu nome
ele deixa brechas
pois, do contrário, não escaparia

me calo e me despeço
sou o meio
o que não quer ter nome

sou o que deseja tirar as palavras de quem
ao dizer, dirias nada

é preferível que não falem
é preferível que não vivam
a viver pela metade

melodia desastrosa essa que sai de mim
sou interferência
calo

divagação extemporânea 536

tem gente que escorrega
tem gente que entala

receita encontrada num papelote azul em fevereiro

amar o tempo
gostar das passagens
libertar-se nos finais

gosto quando acaba o carnaval!

tão perto

o horizonte nunca sai do lugar
para amá-lo é preciso não ser

escrevo

escrevo
como quem de repente acha graça e ri
como a onda que cresce com a mudança do vento
e a excitação do momento primeiro
mas, sobretudo, escrevo com a paixão pelas imensidões
o que é pequeno me adoece

como ostra, fixo no fundo
até que a correnteza me dê pistas para onde ir

e sempre vou, em direção àquilo que não posso medir

sou peixe, ave, veleiro
nado longas distâncias
vôo e deslizo

se há janelas, mantenho-as abertas
se há um pôr do sol, morro de amor
se há altura, deliro
se há o mar,
é lá que estou