29.10.12

vanessa


venha vida!
venha com tudo!
mantenha-se no ritmo que está
e continue me trazendo
essas coisas todas
que havia reservado
para que só chegassem agora

passaram-se os anos

foram intensos
foram necessários
foram dolorosos

e então,
eis que é festa o meu coração

ainda tateando...
mas pulsa mais leve
anda de saia
que balança com o vento
se ele sofre?
mas é claro!
porém, hoje, ele ri
hoje, ele respira

então pode vir
que a porta está escancarada
e o que eu era já não mais reconheço
sou agora mais o que eu quero
cheguei em vários pontos
de outros estou perto

sou um desejo incontrolável de viver
porque hoje sei
que tenho a força necessária
para só ser

a borboleta
saiu do casulo
agora voa
e mais nada
sua missão
já estava cravada no nome
desde antes de nascer

essa, cujo nome
foi criado num poema de amor
e, vejam só,
por um escritor

25.10.12

mensagem na garrafa


o que pode,
um encontro de oceanos,
ser capaz de produzir?

nado num mar desconhecido

eu, atlântica
você, pacífico

como escrevi um dia
tomada por uma febre,
também ela, oceânica

pergunto
se será tsunami
sudoeste
ou calmaria

estarão os barcos
à deriva?

cada um de nós
imensidão
tanto ainda desconhecido
lá nas profundezas escuras

cada um de nós
amplidão

mas para alívio do corpo marítimo
o tempo do oceano é longo
e nos recorda que as marés
se renovam no dançar da lua

num piscar de olhos do planeta
de repente, tudo muda

o garoto do 415


reparei em você
calado
em pé num 415 lotado

era bonito
tinha rosto de menino
embora cansado

parecia não ser mais
tão menino assim

eu te olhava
você me viu
acho que gostava
da música que eu ouvia
quando sorriu
lendo meus lábios
ao me ver cantarolar

minhas tatuagens
chamavam seu olhar
e eu cantava despretensiosa
espiava da janela, a noite

eu poderia ter falado com você
e até agora
passado algumas horas
não sei porque não o fiz

nem você, me pergunto

eu não precisaria saber seu nome
você era lindo
você tinha barba
cabelo claro despenteado
e usava óculos

quanta imaginação
se passou dentro de mim, garoto
naquele trajeto longo

quem sabe não era você
quem viria me aliviar
a angústia de uma paixão doida
que me toma o dia

como se eu quisesse deixá-la...
essa paixão que tanto tem a minha estima
porque é pura vontade de viver

mas às vezes
a saudade é física
mesmo que tenham se passado
tão poucos dias

e como manter viva a alegria
sem deixar que tome o gozo
uma melancolia cinza
de querer o outro
na forma concreta do corpo?

quem sabe o seu mundo
não seria capaz de me arrancar do céu

você nem precisaria
dizer seu nome
nome é o que menos importa
nem quereria saber a sua idade
eu queria apenas o seu mundo
suas vaidades

mas não falei com você

desci antes
você seguiu em frente
quem sabe um dia a gente se esbarra
no ônibus ou na rua

eu não sabia de onde você vinha
nem pra onde ia

quem sabe não serei sua vizinha

quem sabe não era você
uma alegria furtiva
de um fim de dia
onde, por alguns instantes,
eu esqueceria
o que nem sei se é preciso esquecer
mas quem vai saber...

21.10.12

into the wild


such is the way of the world
such is the passage of time
too fast to fold

é por isso que minha poesia
fala somente ao que me toca
porque aquilo que me toca
faz a vida cumprir seu desígnio
de ser grande
simplesmente porque é
o que não se pode negar
aquilo para o qual
não é possível fechar os olhos

selvagem

assim, quando falo de mim
falo do mundo
não do ego

sou uma mulher que corre com os lobos
que vê a vida como um grande livro
e não se contenta em ler apenas
as primeiras páginas
que tem medo
mas deu a mão à coragem
que vai
porque ficar é morrer devagar

que se lança ao mar,
à montanha, ao amor,
ao novo e sua violência

porque amor é liberdade

e perto da natureza selvagem
é onde me sinto melhor
onde tem suor
corpo, terra,
água, vento,
música
silêncio

com tudo isso
faço da minha poesia
o maravilhoso do dia a dia
porque faço do dia a dia
o maravilhoso

quis ser cineasta
porque penso em imagens
descobri que faço imagens
melhor com as palavras

é com elas que conto do meu mundo
é por elas que passa o meu desejo
e minha palavra nada tem de estéril
ela é fértil
nada hermética
ela é festa com meu corpo
e meu corpo é festa

se escrevo
e publico
hoje posso ter uma certeza
a de que o medo
não merece minha atenção

o que sinto sou eu
e o que sinto não é mais que vida

agora, por exemplo,
chove
torrencialmente
quase não tenho luz
quase não escuto minha voz
meus dias foram intensos
e a chuva chega em boa hora
vem brindar a novidade que hoje sou

have no fear
for when I'm alone
I'll be better off than I was before

fragmentos de uma carta para ele


do seu olhar escandaloso

alivio um grito
do alto do meu ego destruído

respondo pela calma
em ondas de respiração profunda
(e é preciso ter postura)

por isso durmo
clamando por nada
por um espaço vazio de sentido
em uma existência apaixonada

acreditando no acaso
e também nas suas falhas
de tempo que se esgota
quando o acontecimento
se instaura

e não me farei de morta!
dança, solitário,
um Dionísio nascente na minha porta

porque não existe força que se atente
para essa ausência desmedida
e eu busco as palavras
por falta de algo mais certeiro agora
pra dizer o que eu não diria

ao menos não escondo
um sorriso errático
que busca pelo teu
encantado

sou estrela em combustão
te conto uma história
e deixo transparecer
que quero a aurora de dias mais leves

faço poesia
como quem faz o bolo pra o café
pra que o teu olhar subterrâneo
me desperte essa fome sem tamanho

no fundo desses olhos castanhos

pra que a arrogante palavra
não possa se instaurar
no meio de quereres tão libertos

você, ao meu lado,
um banco de metrô,
coração batendo e respiração
os olhos cansados
quando pega a minha mão
é roda girando nesse mundo inacabado

nada me escapa
de que teu querer estranho,
que não diz nada,
me ocupe a sede, a fome
e faça o corpo estremecer

um abraço poderia fazer
parar o tempo e a máquina
e a roda da fortuna
pela qual nos chocamos
encontrar o passo certo de girar
no embalo do encontro

e produzir som

uma música desconhecida
que a nada se referencia
que não se encaixa em melodias
pré-concebidas

vai saber...

quem sabe ela é tão desconhecida
que desconcerte esses nossos passos errantes
que vagueiam pela vida curiosos
querendo tudo e tantos lugares

solfejaríamos tanta dissonância
que a música jamais ousaria ser a mesma

porque ser livre
é condição de ser inteiro

e nesse te querer tanto,
acaso repentino,
nessa peça que a vida pregou
e que me acalma o espanto
lembro novamente dos seus olhos

de olhar escandaloso

pelos quais sou carregada
a um universo cujas palavras ressentem
porque são incapazes de dizer
tudo o que o corpo sente

nos teus olhos
a vida abre as portas pra intensidade
e a verdade é que
independente do que pode vir a ser tudo
seremos sempre almas inquietas
cujas formas se amoldam ao mundo
e que desejam todo o universo em combustão

todo o universo
profundo

---

de tanto te querer

de tanto desejar a lua
e castelos de areia
a obscena aura do deserto
me levou até você
numa carruagem torta
por um caminho longo

numa caravana nômade
com cheiro de especiaria

no sonho onde beijo sua face
como se beijasse o mundo
e tudo é um mágico
e iluminado segundo
que faz girar a Terra
e é capaz de cessar uma guerra

de tanto desejar o sol
uma aurora avermelhada
me leva sempre até você
onde quer que esteja
esse seu rosto claro
essa maneira certa de ser
uma encantada existência
que é vida potente
como grandes árvores
que não cansam de crescer
e carregam seu sorriso intenso
força errática, denso

de tanto desejar o mar
o azul ultramarino se fez anfitrião
e nos pores de sol diários
quando o róseo se apossa das montanhas
o desejo retorna
não descansa
é aço que derrete no fogo,
porque ama,
e um coração em eterna lembrança
da fome e da aventura

nunca esqueço
que amo nessa vida uma só coisa,
ela mesma

e de tanto te querer
quero tão mais a vida e os paladares...

... que a poesia de repente retornou festeira
fazendo carnaval o tempo todo
e me levando a buscar venturas perigosas
ainda mais sabores
ainda mais delírios
ainda mais seu beijo

e beijos sem fim pelo mundo
carnaval em peso

ainda mais
porque não pode ser de outra maneira
ainda mais
porque só pode ser o corpo
ainda mais porque é sincero
e, por isso, puro
ainda mais porque é pura vontade de existir inteira

de tanto desejar o mundo
no mundo eu dei a volta
e retornei ao ponto inicial de uma memória

muito se passou nas madrugadas desses tantos anos
muito existiu até que fez de ti um novo ponto

e de tanto te desejar um novo ponto,
eu sou alma imoral renascida num deserto branco

o coração vagueia a procurar sentidos tortos
porque sabe, não há sentido possível nessa teia

mas a busca vã não me tira essa alegria
do existente, do imaginado e do presente
ela é carruagem a trazer novas especiarias
caravela para me levar pra Índia
paraquedas para me lançar em queda livre

fundo

ser alma ensandecida
ser um corpo entregue, fecundo

de tanto te querer
hoje eu quero mais

a vida

na poesia de Hilda
na ópera que agora escuto
na montanha de gelo que encontrarei um dia
nessa tessitura
onde eu sou um barco que navega por paixão
e você um nó
de uma rede de afetos que me tomam

eu queria ser agora uma fotografia
para eternizar um sorriso meu que é só seu
porque de tanto te querer, moreno,
hoje eu quero tudo

----

o gato de Alice

eu te olhava
ali
sentado
na minha frente

(bebíamos)

eu te dizia
tudo

(chovia)

eu era clareza
eu era saudade
eu queria
você

eu era

vontade

mais uma vez
sua mão
pegava na minha

na praça
madrugada
eu quase dormia
no seu ombro
mais uma vez
o tempo

pairava no ar
desejo
nessa noite
de outubro

eu iria
eu teria ido
pra casa
não fosse o que me arrasta
pra você
eu iria
pra onde me levasse
e fui

não!?

eu vou
quando quiser

eu só queria
cada pedaço
seu
um pouco
mais

(e que foram meus)

cada pedaço
da sua fala
da sua existência de gato
que aparece e desaparece,
deixa um sorriso
e Alice fica a perguntar:
e agora, o que será?

mas que importa
a vida
é sempre uma surpresa

eu não te perguntei
você não respondeu

estou
leve
estou
sentindo
ao som de guitarras

e eu seria um rock'n'roll

por isto
farei disto
uma música pra você

pra esse sorriso
que fica
no ar...
até desparecer