3.11.10

no feriado...

Eu me desperto com a chuva
Tão simples e grande como o meu desejo
Um ré menor num violão reverberado pode ser tão mais que um dia inteiro...
Eu não vivo nas calçadas cheias, vivo nas montanhas
Pelo menos é assim que me vejo
Porque basta um vento pra me deslocar inteira
E algumas palavras de poeta pra me descansar angústias
E um som vindo de longe que de repente está dentro de mim
Porque quero viver nas entrelinhas, nos ritornelos todos do meu mundo
Se não sei como dizer, que posso fazer?
Que posso fazer, eu que não sei como dizer que amo?
Eu que às vezes não sei como abraçar, e quase sempre é só o que quero
Eu que fujo das comemorações
Eu que não sei ouvir as músicas que não quero ouvir
E desejo sempre o silêncio ou um som que conecta
Eu que não sei me conectar sem que seja do meu jeito um tanto calado
Posso eu querer do mundo o mundo, se nem sei como vivê-lo?
Se transbordam de mim estranhas nebulosas circulares
E orquídeas crescem pelos meus pés
Me enovelando toda de paixão pelo que não sei
E corro em direção ao sol como se fosse um bicho saindo da toca
E aquelas flores que se movem toda manhã e todo fim de tarde
Posso assim querer?
Posso assim ter o direito de sofrer por tudo isso e ainda assim querer sempre que tudo isso possa retornar a todo instante?
Desejo que o que não seja isso retorne também?
Quem sabe, porque me fazem ser o que sou
Um corpo que cai no vazio a toda hora e busca sempre o barulho do mar

poesia circular

1
...Porque pairava sobre os meus olhos como estrela reluzente.
Nua estava a vida quando a encarei
E me sorria bem de perto
Tombando aos montes como quem fere e quer vingança.
Porque calava, e isso nada tem de trivial,
Causava e descontornava o sonho
E sempre retornava
Ela, que viajava pelo tempo...

2
Eu disse que sim
Bem sem pensar o por quê
Sem saber do ar
Eu disse que era meu
Mas não era, e eu sabia
Porque nada pode sê-lo
Sempre soube que não se pode ter
Porque tudo é só do mundo, do infinito
E do próprio tudo, si mesmo
Mas, ainda assim...

novas pílulas pra dormir

O tempo mais longo...
é aquele em que precisamos suportar que passe

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Início da primavera
Comprei um girassol para comemorar
Ele morreu três dias depois...
Eu já deveria saber
Que não se pode prender num vaso a exuberância

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Pra onde vão todos com tanta pressa?
Será que há algum grande evento e eu não estou sabendo?


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Vivo uma nuvem!

Uma faca me dilacera por dentro, onde sou
É que, de repente, cansei de ser gente

Medusa



Eu estou fluindo
Sou líquida e fumaça
E a lua me assiste
Aplaudindo minha dança
Mole e lânguida de tartaruga magra

Existe um mundo rosa no céu
Quando giro meu pescoço e vejo a luz
E uma espuma tão branca
A que furam os pássaros
Que passam por elas, entre elas
Pássaros que nadam no céu
Abaixo nuvens quebrando na praia
E eu dançando

Retorcendo de saudade
Fluida intensidade

Com a necessidade de sólido
Mordo a montanha doce
E caio de boca na areia

Saio me esgueirando pelas pedras
E sinto rachar os pés
Sangrar o casco

Sinto mais ainda
Que sou aquilo que não entendo

Porque quero ser marisco
Mas sou medusa que flutua