22.1.14

como se...

é como se sobrasse em mim uma fresta
e ela pudesse reter, no ar, o não dito...

há que se sentir o ar que embriaga os pulmões!

é como se faltasse em mim
alguma coisa ainda...
e o vazio não fosse mais que uma intenção

alguns dias de solidão
e tudo ganha novo colorido

meio mês e nada faz sentido

e meu tato procura, cheio,
as peças perdidas no passado recente
que, por si próprias, semearam meu jardim

aquelas folhas que entraram pela janela, ao vento,
procuram por aquele cheiro

pelas portas que se abriram
e as luzes que descortinaram túneis

fez-se brusca a passagem

é que enovelei tanto...

é que tudo, naquele agora,
que nem foi há tanto,
foi verdade

alguns dias de solidão
e nem mesmo a saudade

o que se passa?

cabelo a procurar a tempestade...
a desejar o dia que chegará
e que, sequer, sei o que será

perder toda a luz...
não se pode

não se pode, lançada tão de cara
a tanta falta de sentido
perder o dia em que todo ele
existiu, inteiro, nas mãos que tocaram as minhas

e numa corrente iluminada
a vibrar a vida nova
que bateu na porta

ampliada
carregada de placenta

vida que destroça a aorta

mas, fez a vida, tão bonita,
a loucura de deixar nascer
aquilo que, quando nasce,
muda, para sempre,
a si mesma

e a porta, aberta,
convidou a aorta
para a festa

poema do sutil

não!
não falarei do óbvio
este é um poema do sutil

este é um poema da escuta
que vê além das palavras surdas
e lê nas entrelinhas

este é um poema
que sabe

um poema
da intuição

não...
não falarei do óbvio
pois nada em ti é óbvio
a medida que carregas
no corpo a marca pulsante
da crueldade da existência

tudo em ti é sentido
e nada em ti foi naufrágio

pelo contrário

por isso
este não é um poema bandido

ele sabe o que é
tão claramente
que já vê a flor
quando olha pra semente

a poção infinita

chore amiga,
chore

que a tua dor é a dor de todos nós!

chore toda essa dor
que corrói as tuas vísceras
e debulhe cada pedaço do sonho que se foi

chore!
pois se choras no agora
tão rápido se vai a dor
para mais rápido voltar o amor

é que o mundo é uma curva

um dia, o que procuras,
novamente te encontrará

chore e esgote as lágrimas
elas passarão, e você, passarinho

e construa, só, o seu próprio ninho

o amor se torna ainda maior
quando é de nós mesmos
que cuidamos primeiro

chore
e deixe que a tua dor
espalhe pelo mundo
como vale a pena o amor

pois tudo vale a pena, pequena
tua alma é tão grande!

e tuas lágrimas são férteis
carregadas da potência
do que não mais pode ser
porque será outra coisa um dia

mais certa...
quem sabe, mais inteira

o amor sempre retorna
com o seu cheiro de flor de laranjeira

um dia, como quem não quer nada,
você abrirá a porta
e lá estará...

o inesperado!

chore

e se fortaleça!

a força da nossa solidão
é mais forte que qualquer
certeza alheia

chore amiga!
e depois esqueça

o mundo é grande
e sempre caberá
no breve espaço do beijar

pois desde Tristão e Isolda
todo dia é a mesma coisa

em cada canto do planeta
um amor termina
e em todo ele, também,
novas almas compõem novas rimas

e renovam o amor!

chore
e depois dance...

como bailarina!

18.1.14

réquiem

jamais
houve
metamorfose
maior
que esta
nem silêncio
tão doloroso
desses
de nascer
o novo
revirando
o próprio
poço

jamais
a vida
gritou
tão alto
dentro
do meu
corpo

alto,
tanto,
que sou
incapaz
de escuta
e deixo
que se derrame
todo
o pranto

sinto
é rasgo
no estômago
e o coração
pulsando
em cada
veia
desfazendo
toda
e qualquer teia
transformando
em cacos
os laços
para renascê-los
borboletas

sinto
é que rasguei
agora
a placenta
e ando
testando
a carga
nos fios
da solidão
para saber
até onde
aguenta

sei que não mais
haverá drama
estou farta

jamais
houve
metamorfose
mais rara
nem silêncio
tão precioso
desses
de celebrar
o novo
refazendo
o próprio
poço