7.3.17

O UNIVERSO DAS COISAS NÃO PUBLICADAS

Sento-me diante dela
A quem costumamos nomear “vida”
E à rosa subsiste seu nome

Deixo de lado cetro e vaidade
Acomodo-me em seu sítio forte
Onde trono é tronco de árvore

Ela me solicita despir-me
Abandonar os livros e a razão
Para ouvir o que grita

Recolho os meus sentidos e os vazios
Meus demônios dizem
Que talvez não valha a pena

Uma nudez com pena da morte?
E a morte ri na minha cara
E diz que é vida ainda

Retiro, então, a pele
Marcada mesmo
É por traços invisíveis

E encaro os profundos olhos dela
Vida ou morte, tanto faz
São fêmeas

Ambas dão a luz
E são a mesma face cálida
Mirando as nossas fragilidades

Para extrair delas
O óleo essencial de nossas almas
Verdades

Busco em seus espelhos
Os porquês
Em vão, tolice

Disparo sangue pelos meus
Com o coração chovendo espinhos
Despedaçado

Ao lembrar a infância feliz
Com cheiro de mato
Totem de um tempo já perdido

O que importa é fluído
A vida é círculo
E de tudo resiste sempre uma flor

De cada vida na nossa, pólen
Flor até mesmo quando feia
Como o poeta confrontou à náusea

Espiral de muitas camadas
Tudo o que está fora dos compêndios
Incerta e exata

Universo paradoxal
Das coisas não publicadas
De tão singulares

A vida
Tão frágil
E ainda assim uma estrela iluminada

Pote de ouro
Círculo mágico
Lótus em comunhão com o infinito
Composta de notas raras

E bela, até mesmo no fim
E todo fim é também início
Óbvia conclusão
Pra um interstício

14.11.16

TEMA CLÁSSICO

Escorre meu coração
Através de um adagio
A chuva rememora
O frio da infância
Era um naufrágio de névoa
Cobrindo as montanhas
E cheiro de avó na cozinha
Preparando a refeição
Escorre e aperta
Respira e se eleva
Ao solo terroso
Ao que espera
De um desejo novo
Atravessa a partitura
E cria, o coração,
Literatura
A chuva insiste
Mas acalenta quentura
Da companhia
Dos poetas na estante
Estou repleta
Completa de mim mesma
O frio traz saudade
O calor que tenho dentro,
Liberdade
Escorre meu coração
Ora grave
Ora vivace

6.11.16

PAÍS TROPICAL

Moro num país tropical
Abençoado e maltratado
Há no parlamento
Asquerosos mal dotados
De intelecto e amor
Ladrões por toda parte
E boa parte da gente
Dá jeitinho em tudo
Pura arte?
Corrompem-se por bem pouco
E suas fraquezas esfaqueiam
As potências do outro

Dizem que todo mundo
Tem seu preço
Já me ofereçam tudo:
Cargo, dinheiro
No dia a dia
Tentam me comprar
Com vaidade, desejo
Mas eu prefiro as árvores

Moro num país tropical
E há nele um homem prepotente
Que se intitula presidente
E se eu quisesse continuar a rima
Diria que impotente
E por aí vai

Mas minha terra tem palmeiras
Onde canta o sabiá
E ela é um deleite para poetas
Pena que não se compreende mais nela
A força dos estetas, dos livros e das festas
Mancham de sangue os coretos
Rotulam jovens estudantes de baderneiros
Estrangulam as liberdades
Como estupram moças a cada esquina
E depois as culpam pela saia pequenina

Mas dizem que a história é cíclica
- Deveríamos respirar? -
E se isto nos desespera
Também nos alerta
Para lembrarmos que um dia tudo irá mudar
Mas é claro que não do seu sofá
Há que se levantar e criar!
Este é o lema
Busquemos palavras de ordem
Que sejam mais que emblemas
A forma cada um que busque a sua
Há inúmeras
E nenhuma é pequena
Pequena é a alma dos que nos acham supérfluos
A minha poesia, a sua arte, o nosso mistério

Patológicos do poder
E do rebanho
Grito alto a vossas mediocridades:
A vida bate! Mesmo que tentem matar a nossa arte.
“Subterraneamente, a vida bate”


Rio de Janeiro
Novembro/2016

19.8.16

PHOENIX, UM POEMA

Para Sergio Roberto de Oliveira


De tudo renascemos – Anunciou-se!
Do pó viemos ao pó retornaremos
Para dele, reerguermos sonhos – não muros,
No ciclo eterno de vida renovada

Teu corpo é de cada humano – Alvorada!
Tua dor quem sente é o mundo
Pelos fios da linguagem universal

Emoção-sal
De corpo água-forte

Respirar não é mais
Que impermanência e sorte

E, de repente, a morte
E o primeiro reviver
Simultâneos intervalos
Quando nasce a morte
Morre o passado
Ambos um só, sem hiato
E eis que ela, a vida,
Brilha no choro agudo
Da criança recém-nascida

Morre o jovem, nasce o pai!
Eis o que se consuma!

E celebra-se a bruma!

Segue-se a jornada
Em seu curso, amarrada,
A criança crescendo, o pulso, a estrada,
Dias e noites cumprindo o seu destino insano
E, então, de novo ela, dilacerando,
A morte na forma do fim do amor
Para renascer, em exato instante,
O novo amor que se torna errante
Qual relógio que passa de pai para filho
Mas em novo pulso, resignifica

Morre o marido, nasce o eterno amigo!
Eis o que se consuma!

E, então, inteiro homem!

Até que num pedido de socorro do corpo
Toda lógica perde o sentido
Tonalidade, rima, ritmo
Tudo é abismo
O que se consuma é paraíso?
O que pode um câncer?
Corpo mesmo que se dobra
E se retorce
Cada célula alimentando à si mesma
A morte
Tentando ela entender, a contraforte,
A nota distorcida,
A vibração de desejos que não mais
Compõem-se com os beijos
E definha, renega,
E, como se não bastasse tal sorte,
É renegado

Vela rasgada
De barco abandonado

Que chora
Chora rios
Hipérboles, sim, fazem sentido!

E de tal coisa abissal que é o abandono
Brota a morte de tudo ao redor
Estepe estranha da alma
Lama arremessada na calma
Cheiro de enxofre
Maremoto na noite
Intransponíveis montanhas
Era melhor que fosse mesmo lama
Infinito sem rumo do corpo nu
Era melhor que não fosses tu, mulher...
Poderia dizer

Poderia nunca mais querer viver

Mas amor...
Amor é para os fortes
É atravessar desertos sem garrafas d’água
E sobreviver!

A alma de quem ama
É suspiro em meio ao drama
Jamais adormece ou se apequena
Ou faz contas por obrigação
Silêncio em meio ao não
E festa quando tudo é trama

E a tristeza,
Ainda que o poeta diga não ter fim,
Consome-se em riste para renascer.
Verso triste este meu
Que chega a ti para dizer
Imperativo: sorria!
Que o que não tem mesmo fim
É a vida

Ainda que as células
Digam que sim

Mas tu crias!
Grades férreas
E doces de sonora poesia

Para nós a vida é eterna
Do tempo, terna senhora!

Eis o que se consuma!
E revem a aurora!

Pois, anima-te, amigo!
Veja que o horizonte faz abrigo
Uma luz de lua nasce sem sentido
Embriagada a fome nossa
Dos que criam livros

De palavras, notas
E receitas claroneadas

A natureza é sábia
E tudo ensina

Alumiando pós dias cinzas
Renasce alegria
Arrumação!

Eis o que se consuma!
Morre uma vida, nasce uma!

De tudo renascemos
Do pó viemos, ao pó retornaremos.

Anunciou-se – E fez-se som!


Vanessa Rocha
Rio de Janeiro, junho de 2016
Inspirado na história de Sergio e em sua música autobiográfica
Phoenix, para clarineta e orquestra sinfônica

14.6.16

Derradeiro

Ante o imponderável
Paro e sinto
Que mistérios ligam
Os meus sentidos
Ao infinito
Pensar alturas não é só para poetas
A vida tem asas e abismos
Pairando no tempo o espaço aberto
Rasga um coração
Derramamentos
Fosse meu corpo um cetro
Eu o traria agora para mim
Dono de si-realeza-interna
Cavalheiro de cor marfim

Ante o impossível
Paro e observo
O antes improvável
Torna-se certo
Que de noite seja dia
Porque não
Que o dia seja raro
O beijo desejado
Acontecido
O fosso das almas perdidas
Encontrado
Fosse minha mente uma jangada
Eu faria deste planeta um só mar
Inteiro sem fronteiras e sem leis
Cozido no amor com sabor de manacá

Ante o inconsciente
Paro e respiro
Que palavras se parecem
Com o que digo
Que as estrelas sejam olhos
Que os olhos sejam fome
Talhado na pedra o charque
Fervido na brasa o molho
Arado o solo-chão para o sexo
Fosse o meu mundo terroir
Eu distribuiria música com Dionísio
Beberíamos todos em sol maior
Aniquilados pela sorte do vinho

Ante o imponderável
Arde sempre o impossível
Inconsciente sensitivo

E ante tudo isso
Existe nada mais
Que os nossos frios e sismos

Abalos humanos desmedidos
Estejam preparados os nossos pelos

Tudo tem origem
Num ínfimo instante

Derradeiro

10.6.16

Um cisne em voo solo - carta para Stefania

Querida Stefania,

espero que esteja tudo bem por aí. Por aqui teremos que aprender a conviver com a sua partida. Porque a vida segue em todos nós. Em você também, porque acredito que tudo é uma coisa só, vivemos em espirais do tempo e do espaço. Neste momento, estamos apenas em dimensões diferentes da existência. Logo, teremos que aprender a conviver com a sua partida desta dimensão aqui. 

Queria te dizer muitas coisas bonitas, mas as palavras são limitadas. Podem ser muito belas, é verdade, e eu vivo buscando beleza através delas. E, junto a elas, explicações e narrativas para o que vivo. Como faço agora nesta carta para ti. Mas acredito que é para além das palavras que a beleza se manifesta mais plenamente. Por exemplo, na natureza, que você tanto amava. E na música, que você dançava. Na noite em que eu soube da sua partida, quando eu já estava sozinha, passei um tempo mergulhada nas palavras. Escrevi para mim, escrevi para o outro, racionalizei para tentar achar sentido. Então, já cansada, recorri a uma meditação para me conectar com a natureza dentro de nós. E, depois, fui à música, como sempre. Ouvi, em sua homenagem, o Réquiem de Mozart.

Ontem foi o dia mais triste. Muito embora você fosse sinônimo de alegria. Mas foi difícil evitar a tristeza. E sei que você vai entender. Quando recebi a notícia, fiquei em choque. Eu tenho uma casca bem dura, mas no fundo sou muito sensível. E fico em choque até o tempo me ajudar a processar as coisas. Talvez por isso você me achava uma referência, porque as nossas almas conversavam. E eu te digo: que honra! Você também foi para mim! Que honra ter trocado tanto contigo nesta vida. Após a notícia, eu desliguei o celular e sentei num banco sem saber por que sentava, mas a minha vontade era sair correndo daquele lugar meio escuro e meio frio em que eu estava e ir para um lugar iluminado como você. E foi o que eu fiz. Eu saí correndo. Desci seis andares de escadas, transtornada. E cheguei a um lugar claro, segurei o braço de uma pessoa querida e pedi um chá. E a vida colocou também, neste mesmo lugar claro, uma outra pessoa para me ajudar, tão sensível quanto você, tão artista quanto você, e que segurou a minha mão e me contou histórias que eu achava nem estar processando, tamanho o estado de choque em que eu estava, que nem um choro descente me vinha aos olhos. Mas que foram as palavras que eu deveria ter ouvido naquele momento para, quem sabe, reforçar a minha fé inabalável (espero que sempre inabalável) na beleza (e nos mistérios) da vida. Era alguém que estava ouvindo falar sobre você pela primeira vez, mas que eu soube que te entenderia. Talvez não estivesse mesmo ali por acaso. Tive sorte! Depois falei com os amigos que estavam por perto, todos artistas também como você, e liguei para a minha mãe e para o meu pai e, então, liguei para uma amiga que passou por dor semelhante há pouco tempo e que tem uma sensibilidade como a nossa, desse jeito de se sentir inadequado no mundo, em busca sempre de criar o mundo à sua maneira. Ela também te entenderia. E fui compreendendo o aparentemente incompreensível. Mas ontem... ontem eu chorei muito. Imagine o que foi falar com o seu irmão sobre isso!? Com a sua mãe... Sua mãe, hoje, quando nos despedimos do seu corpo, me disse para sempre me lembrar de você com amor. E eu disse a ela que não havia outra forma de pensar em você. Afinal, eu te conheci tão menina por conta do amor. E só o que vi em ti nesse tempo todo foi amor transbordando. Seu pai me falou que serei sempre da família e, com aquele jeito brincalhão, disse que para ele, eu e Pedro seremos sempre uma coisa só. E nós conseguimos rir alguns segundos com essa frase no meio da tristeza. Imagino a gente sentada com ele, Pedro e a sua mãe na mureta da Urca, bebendo um suco, e você rindo horrores disso. Eu e Pedro uma coisa só é uma imagem engraçada. Sua tia, seu tio, sua avó, seu avô, a Maria, estavam todos lá para me dizer que eu serei sempre da família e que você me amava muito. Eu também te amava muito. Ainda que estivéssemos nos vendo tão pouco ultimamente. A Analu, que foi comigo, nos conectava também. Assim como o seu irmão. Lembra como você ficou triste quando a gente se separou? Mas, muito inteligente que era, entendeu muito bem que amor não acaba, só mudam as formas. E como você entendia de amor. Era amor em estado bruto, com uma potência tão grande que só seria capaz de implodir. E tenho profundo amor por essa família que também me constitui. Serei sempre da família sim! E sou grata por tê-los no meu coração. É bom ter várias famílias. É bom ter você como irmã, mais uma! Quanto tempo se passou, não é? Já são quase 18 anos. Você cresceu, “virou mulher”, como dizem por aí, atriz, bailarina, cisne! E cá estamos, agora, vendo esse cisne voar. E ainda dizem que cisnes não voam...

Ontem, nesse dia mais triste, eu também recorri à música. E à dança. Minha mente resistiu um pouco. Eu estava no Theatro Municipal e acontecia o ensaio geral do Lago dos Cisnes. Claro, como não pensar em você, bailarina! Resisti, mas resolvi dedicar a você aquela libertação do cisne. Chorei em silêncio e essa foi a minha oração num templo das artes para a artista iluminada que você foi, e que encheu a vida de todos que te conheceram de uma doçura, uma profundidade e uma delicadeza fora do comum. Tchaikovsky também seria capaz de te entender profundamente... Muitos seriam. O mundo está cheio de pessoas com essa sensibilidade rara como a sua. Mas infelizmente a gente, como corpo social, ainda é muito frágil. Ainda cria para o medo, oprime, sufoca as manifestações de afeto e a espontaneidade em prol do simulacro, da imagem, do ego, das personagens falsas das redes sociais e de uma falsa ideia de segurança. Temos muito medo. Coisa que você não tinha. Pessoas comprometidas com a potência da vida, que sentem a vida como um calafrio na pele o tempo todo, têm que cavar seus espaços com muito esforço no meio dessa cegueira social toda. E nós somos muitos. Alguns resistem e criam, outros decidem não continuar. Não é fácil, não é? Mas é muito bom quando a se gente se encontra e se reconhece.

Sei, Stefania, que a vida é cheia de mistérios. Hoje, depois da despedida derradeira, te vejo como um anjo. O cisne que foi dançar em outra dimensão e que, como anjo que é, vai continuar operando milagres na vida de todos nós. Quem vai saber. Quem é que sabe dos mistérios. Se vivemos em espirais, perdas e ganhos fazem parte do mesmo processo, do mesmo movimento. Tudo é uma coisa só. Movimentos do mesmo universo. Quem sabe o que se está por ganhar diante das perdas, mesmo as mais dolorosas? A vida é uma fita de impermanência, de incertezas, de fins e começos. É assim mesmo. Temos que desenvolver serenidade para aceitar o que não somos capazes de entender. E aceitar inclusive quando algo já acabou, já “deu o que tinha que dar”. Não deixa de ser também uma generosidade. Aceitar o fim é aceitar também a potência da vida. Ela só é potente porque existe esse movimento do ir e vir. Não existe vida sem finais. Ela é tão somente movimento e dele depende! Só existe uma coisa que é permanente e que conecta esse movimento do ir e vir. É o que acredito, pelo menos. Essa força é o amor. E ela está tanto nos começos quanto nos finais, diferente do que nosso medo quer nos fazer acreditar. Você sabia disso. E partiu nos deixando um legado: é preciso apostar no amor. O resto é consequência! Descanse em paz. Voe hoje como voava ainda tão nova (olha você aí embaixo, ainda pequenina). Voe, grande e belo cisne! Cisnes sabem sim voar! E daqui há um tempo, veremos o que o seu voo terá nos trazido!

Com amor,

Vanessa
10/06/2016


23.3.16

Imoral e física

















Sou fagulha de sol
Na direção do improvável
Tudo o que imagino
Realizo
E minha aura radiante paiol
Veste túnicas de cetim sanguíneo

Há que se considerar que,
Afoita,
Jamais manseio
E que, carregada de arpejos,
Não me entrego à qualquer fato
Hoje, avalio ontem
Repenso
Estratégia me faz
O tempo me ensinou a ser selvagem
E a catarse dos momentos
A manter foco em arte

Sou arma de forte na entrada no mar
E pirata que toma os navios da realeza
Não concebo
Moral
Que a alma não aprove
E me debruço à falta dela
Porque me sirvo
Desejo

Há quem se alimente de restos
E se contente com palavras belas
Ou sou diversidade
Aquarela
Ou me recuso a ser esteta

Prefiro a imoralidade da traição
À sensação castrati de viver obrigada
De que adianta alcançar as notas
Sem que o corpo conheça
A dança apaixonada

Há quem pense em agudos
E, só depois, em graves
Eu deslizo por toda a grade

Sou fagulha de nada
Que sabe ser tudo
Não me culpo a arrogância
De me sentir um Deus

Existem ditados
Que dão lições de sentido
Ouço apenas os que traem
Nosso cotidiano cinismo

Há quem se aprofunde nos rasos
Eu, encaro os abismos

13.3.16

Carta a quem interessar

Não me importam as tuas narrativas
Mas o que dizem as entrelinhas
As fotos que publicas
Os poemas que recordas
As músicas que gostas
Não me dizem nada
Não sou fã das aparências
Procuro o que escapa no teu gesto
A significância do que mostras
E o desejo por trás de tuas apostas
Não me interessam
A voz bandida ou de anjo
Se tu te achas do bem
Ou se te achas do mal
Eu me divirto com adjetivos
São apenas possibilidades da linguagem
Julgamentos morais não me atraem
Pois o que realmente te faz
Fica guardado no teu plano mais secreto
Se tu gostas de mim ou não
De nada me interessa
Tua opinião é só mais uma entre sete bilhões
Quero saber o que isso me diz sobre ti
E o que te faria largar o teu ego
O que expressas numa mesa de bar
Interessa à sociologia e ao teu analista
(Como o que expresso, ao meu)
A mim interessa o que existe
Quando estás só e em silêncio
Quando toda a luz já se apagou
E toda a cultura dorme
Quando mostrar-se já não é necessário
E os medos e as dores
Já não podem ser deixados de lado
Quando sofres, me interessa!
O que te alegras a alma sem alarde, me interessa!
O que desejas quando ninguém está por perto,
O que te moves e te feres no peito,
E te fazes todo dia manter-te no caminho...
Isso é o que me interessa de ti!

Oração

Que a poesia me livre 
Das suas prisões
E das minhas e das de todos nós
E me permita, ela,
Sempre a liberdade
Ainda que subjugada
Sob a bandeira da necessidade
Ou a sentimentos presos
Em gargantas ilhadas
E que minhas verdadeiras intenções
Não sejam reveladas 
A quem não merece conhecê-las
E meus desejos mais secretos
Sejam apenas meus e daqueles que escolho
Que o tesão se faça todo dia
Nas brechas dos momentos burocráticos
E através deles
E a ironia sorria para os que mentem a si mesmos
E fingem ser o que não é
De tal forma que se tornam caricaturas ao espelho
E que venham sonhos e nos libertem, todos
E sejam eles os meus guias
Nessa estrada de vidas que se querem poucas
Que minha face mais verdadeira
Seja dada aos momentos de fato sinceros
E as máscaras certas sejam usadas
Nas horas em que só cabe sobrevivermos
Que eu não tenha medo
E ele também não 
E ela também não
E nem eles, nem nós, 
Nem irmãos ou inimigos
E sejamos todos capazes
De ver que nada somos
Para além do nosso umbigo
Para que a poesia de ser nada
Se instaure nas raízes do coração selvagem
E faça brotar uma vida mais leve
Filha da mais profunda viagem

1.12.15

O primeiro dia


Todo dia é sempre
O primeiro dia
Do resto de nossas vidas

Dia de dizer palavras duras
Que já não podiam não ser ditas
E ouvi-las, algumas

De descobrir que o amor se fortalece
Mesmo quando a gente esquece
- Quando se deve esquecer -
E nos dias cinzentos dos afastamentos
Que carregam a esperança
Dos novos e futuros felizes momentos

Todo dia é dia de saber
Que existe amor no sim
Mas também no não
E que não e sim
São como luz e escuridão

Todo dia é dia de jogar coisas fora
Aquelas cartas de anos atrás
Que estavam empilhadas em pastas
Por sua vez empilhadas em armários
Por sua vez empilhados – pesados –
Num excesso de memória

Dia de descobrir que elas
Não servem mais a nada
Que não à história
E é só no coração o seu lugar

Para que guardar tanto objeto
Em um mundo já repleto?
E porque represar energia
Quando deve o novo chegar?
Se o se que passou só existe
Como lembrança e aprendizado
- às vezes como o inventado -
E nem existe ainda o que virá

Sejamos poetas do agora!
Porque todo dia amanhece
Anoitece e retorna a aurora
Sempre na promessa do novo
Sempre na função de um espia
Olhando em direção ao horizonte do mar
Com olhos de quem busca a infinita alegria

Porque todo dia é de basta
Todo dia é de festa
Todo dia é de não dá mais
Todo dia é de promessa
Todo dia é do fim delas
Todo dia é de um santo
Todo dia é de engano
Todo dia é dia de dizer eu te amo!

E de aceitar
O que não se controla
O que não se isola
E deixar voar os pássaros
Que precisam sair das gaiolas

Todo dia é dia de enfrentar
O medo do suspiro derradeiro

E seja ele banhado de paz ou de dor
É sempre o primeiro

26.10.15

Astrolábio

Partiu mais um barco

Levou pro sem rumo da vida
Os barris de rum vazios
Quinquilharias que já não
Faziam sentido

Roupas velhas,
Papagaios mortos
E todas as cartas de um baú
Já carcomido
Onde a craca dos mariscos
Longe d’água
Começou a dar mau cheiro

Partiu mais um barco
E, em mim,
Partiu-se ao meio

Mas eu, pirata que sou,
Roubei outro para mim!

Meu sonho
Nunca é um barco abandonado
Pois é fiel ao destino
De não ficar ancorado
No mínimo,
Somos uma família de exilados
Meus sonhos, o sol, os peixes
E os pássaros
Conversando todas as manhãs
Sob um convés alado

E o que dizer do espelho?
Quando olho pro mar
E me reconheço
Sei que antes
De amar qualquer coisa
Devo sempre
Amar meu próprio zelo

No mais,
Entre uma solidão e outra
Encho os barris
E convoco a artilharia

Agora, ando apenas
Com artilharia pesada
E não há mais desejo em mim
Que passe fome
Pois a arma
Mais forte que encontrei
Foi dar ao barco
O meu próprio nome

Então, carregado o barco
De rum e pólvora de qualidade
Faço festas
E convido outros piratas

Nessas horas,
Abandonado é o coração
De quem não se permite navegar
Meu barco não!

Esse é forte, seguro,
Aguenta as tempestades
Sem renegar
Porque sem elas,
Ele não pode provar
Que é o melhor barco
Que já existiu!

Capaz até mesmo
De suportar a farra
Dos marinheiros que invadem,
Sem convite, o festejo,
Enchem o barco de música e beijo
E, depois,
O acham demasiado

É nesta hora
Que me torno meu próprio
Astrolábio
E me mantenho
Rumo às estrelas
Do mundo desejado

Partiu mais um barco
Roubei outro para mim
E o mar é um círculo

Mas tudo depende
Se paralelas se cruzam no infinito

25.9.15

Liberdade

Perder o que nunca foi seu
Não é perder
Nascemos sem nada
Morreremos igual

E sozinhos

E isto é liberdade

Uma vida humana
Só sabe ela mesma
O resto é sensação
E memória do outro

Então, para que preocupar-se
Com frivolidades?
E porque ter medo?

Estamos aqui para ser!
E o que restará de nós
Ainda será do mundo
(Mas nunca nosso)

E o mundo fará reverências
A quem o deixar regalos

Só construímos verdadeiramente algo
Quando não nos apegamos
Ao que estamos construindo
Mas o deixamos pertencer à vida
Sujeito, assim, às intempéries do tempo

Para ser inteiro
É preciso entregar

Pois deixar um rastro,
Filhos, livros,
Música, a ciência,
Tudo isso é legado apenas
Quando não se trata de vaidade

Não temos nada
Entendendo isso
Podemos tudo

Ao fim de cada rumo
Chega um novo
Súbito vem a primavera
E o que mais importa
Que a liberdade de ter tudo sem ter nada?
De florescer sabendo que mais tarde
O inverno levará as cores...
De pisar como bicho no ciúme, na raiva,
E nos destroços das paixões malditas
Para deixar florescer as bem quistas

As que nos dão potência
As que não aprisionam
As que fazem verão
As que permitem o outono

Não há lei maior
Que a lei da própria vontade
Porque todo ser que é humano
Só segue regras sociais
Por medo, prisão ou necessidade

A vontade é a vida!
Sempre dupla, em si mesma,
E infinita

Única regra que, por fim, dita

A alma humana é livre por natureza!

Todo o resto é somente convenção
E toda convenção
Só pode ser seguida, de fato,
Por tolos
Ou por eles formulada

Os livres escapam

Negociam, mas escapam
Estão nela, mas escapam
Podem até beijá-la...
Podem até ser por ela escravizados...
Mas escapam!
E se reconhecem uns aos outros

Sabendo que regra nenhuma vale
Além daquela da coragem
De olhar a si mesmo para ser
Mundo

Pois títulos não valem nada,
Mas as honras das batalhas!
E conselhos nada legislam
Que não suas próprias pequenezas
Construídas, letra a letra,
Por medo da incerteza

Mas quem disse que a vida é certa?
Quem disse que é a moral que nos regula?
Pergunte aos hormônios
Pergunte a lua
Pergunte ao coração que pulsa
À razão que analisa
À meditação, que silencia
Para abrir a verdadeira escuta

Nascemos sem nada
E morreremos igual
O que fazer neste tempo
Se não realizar em nós
E em nossas obras
O objetivo antitético da vida
Qual seja:
Permanecer se transformando

Por isso, obedecer
Apenas aos desígnios
Da missão que viemos ter
E missão se sabe
E exige coragem
Pois não se brinca
Com a liberdade

Esta pede disciplina
Controle do próprio tempo
Para que não o controle
Mais nada
Instituição
Moral
Legislação
Tudo isso é tão contra a vida
Que nos cabe rir e dançar

Se às coisas que criamos
Não déssemos caráter de eterno
Ou a gravidade do sério –
como alguém que franze as sobrancelhas
para dar bom dia –
Não precisaríamos nos esforçar tanto
Para sermos livres

É preciso sempre lembrar:
A voz que importa é a do silêncio
E não a do legislador
E mestra é a solidão
Para que tenhamos relações livres e potentes
Porque só assim são reais
Sem medo da morte delas mesmas
Concretas na sua incompreensão
E sábias em sua insegurança

E se houver servidão ou apego
Que sejam conscientes
E sejam voluntários
E não se cobre reciprocidade
Como juros de um cartão
E que seja por amor!
Porque não há motivo maior que este –
A resposta para todas as perguntas

Amor antes de tudo à vida e a si
Pois é preciso ser egoísta
Para ser coletivo, do outro e generoso

O verdadeiro egocêntrico
Não é o egoísta
– o que busca olhar-se ao espelho –
Não é o que luta por si
Mas o que luta em nome do outro
Seja egoísta
Não seja herói
Lute pela vida
E não por “algo maior”

Não existe algo maior
A não ser na construção diária
Do desejo compartilhado
Esta é a força real dos encontros
E não a condução por códigos
Juridicamente - ou moralmente - assinados

E se existe um rei a quem servir
Ele está dentro!
Se existe um Deus
Ele vive como eu vivo!
Porque se não nos reconhecemos
Deuses e reis diante do espelho
Jamais seremos capazes de sermos
Servos da vontade – a única justa servidão –
De realizarmos a vida em potência e comunhão
Lembrando ainda que se não soubermos
A verdadeira função de um deus e de um rei
Cometeremos atrocidades
E, o que é pior,
Em nome da liberdade

Deuses e reis
Não deveriam existir que não para servir
O rei que não serve ao seu povo
Assim como o deus que não serve ao seu
Não podem assim ser chamados

Lembremos novamente
Que o egocêntrico
É o que fala pelo outro
E não por si
Quando falamos apenas por nós mesmos
Somos a voz do universo
Porque ele, inteiro,
Reside dentro de nós
- e fala através da gente –
Falar pelo outro
É escravizá-lo
E não reconhecê-lo como igual

Pois a única servidão que vale:
A que é liberdade!
E liberdade, uma vez conquistada,
Não se vende nem se dá a escambos

Compartilha-se e torna-se o caminho!

Boa parte da dor e do sofrimento
Provém da especulação
E não do concreto
Se a mente cria o medo
É a mente que liberta
E nos revela Deus dentro de nós

E se a vida é uma eterna
Roda da fortuna
Melhor mesmo é olhar para dentro
Porque o centro nunca gira

Estar seguro é estar consigo
O resto é dúvida

Então, para que o medo?
Viva tudo o que tiver para viver!
E pergunte a si mesmo:
Qual é o meu centro?

Nascemos sem nada
E morreremos igual
Ao entendermos isto
Passamos a ter tudo!

20.6.15

Trinta e cinco

Blackbird... You were only waiting for this moment to arise


Era tarde e chovia
Como de praxe na revolução do meu sol.
Para criar arco-íris, é fato!
Pois não aceito nada menos que isso: cores!
Meu coração de filha do quase inverno
Inflou de alegria! Fechei os olhos para sentir
O fino da chuva no meu rosto
- Eu estava sentada no sofá do quintal,
Observava as bandeiras do Nepal,
Que me presentearam um dia,
Penduradas, voltadas para o vento,
Carregadas de prece -
Pensei: Sidarta iluminou-se aos trinta e cinco!
Trinta e cinco...
E tanto ainda por viver!
Ainda virão novos sonhos no planeta
E novas florestas serão devastadas
Virão fatos, guerras, dores,
Janelas novas, novos ares,
Cachorro correndo no jardim, outras músicas, outras paisagens
Virá o dinheiro! – Ao menos acredito nisso...
(E se eu não acreditar, ninguém, por mim, o fará)
E virão os filhos! E os livros repletos das pequenas verdades
Sim! Virão as crianças um dia
E as novas poesias
E o amor, finalmente, será
Forma de sonho compartilhado
Transformado em casa construída a maneira que se queira
Calcada em alicerces que se movem, é certo, mas alicerçam
Porque segurança é a maior das ilusões humanas
Porém, tudo resiste ao amor! Aprendi aos trinta e cinco!
Entre uma simples mortal de trinta e cinco anos e Buda
Há algo em comum: sabemos que a vida é transitória!
Mas também sabemos que há aquilo que fica.
Nos próximos trinta e cinco anos, as cidades se transformarão,
Os filhos, meus e seus, nascerão e crescerão
Haverá centenas de novas estradas, carros
Indo e vindo, o sol todo dia irá nascer e se pôr
Mesmo que os homens insistam em esquecer sua humanidade
E quem sabe até lá já não saberemos mais da dobra do universo
Nos próximos trinta e cinco anos...
Mas no meio de tudo isso, como deve ser,
Permanecerão os amigos.
Amigo é que é presente de aniversário!
Se eu contasse os últimos anos e toda a amizade perdida...
Mas na minha solidão lapidei o meu desejo
E ganhei o inesperado
Ficaram os que deveriam ter ficado
Nestes trinta e cinco...
E vieram os novos, radiantes, para iluminar ainda mais o meu cenário
Chegaram trazendo flores coloridas, violino, contrabaixo,
Fotografia, viola, violoncelo, prosecco importado!
Vejam só...
Vieram devidamente trajados!
Juntaram com os produtores, os outros fazedores de arte,
Os locutores, os bailarinos, os insaciáveis
E vieram ainda com um cravo pra o barroco nunca mais sair da minha vida!
Porque me embriago mesmo é com três coisas
- Engana-se vc se acha que é com álcool -
É com palavra, sexo e Vivaldi!
E criaram, todos eles, juntos, os novos e os antigos,
Uma festa nas terras férteis do meu coração
Onde planto as melhores uvas de palavras e afetos
Para colher os vinhos dos amigos certos.
Fizeram lavoura: remexeram na memória
Juntaram o novo com a história
E o que se produziu foi um vinho único de safra nova!
Carrego comigo hoje um livro em branco
Pronto para os próximos trinta e cinco anos
Penso que daqui há um ano, já haverá algumas páginas escritas
E quero eu poder dizer aos trinta e seis:
Era uma vez uma vida que se permitiu ser o máximo que ela podia ser!
Mas dirá o cético: trinta e cinco e o que foi que vc fez?
Duvido ter feito algo que preste...
Eu, como boa oradora que gosta de desafiar, direi:
Ah, eu fiz foi muito!
Mas como boa geminiana, obviamente queria ter feito mais!
Porém, descobri que o insaciável é algo que também transita
Na roda da fortuna da vida
E que é possível estar em paz ao variar no mesmo tema.
As variações são sempre infinitas!
E que no ir e vir de um dia estar no alto e no outro no abismo
Só o que não gira é o centro
Descobri que é no coração que a natureza persiste.
Em meio a todo o ir e vir das belezas e das incertezas
Se tudo gira, o que fica é amor!
Aquele amor incondicional pela vida que pulsa na gente
Para que amemos também o outro incondicionalmente
Com as nossas mazelas, perdas, tristezas
E nos estranhos momentos de certeza.
Aquele amor que amigo sabe que existe
E que vem com a sabedoria da idade,
- muito embora, ela só vem se a gente se abre.
Não nos enganemos!
Descobri aos trinta e cinco
Que mais feio que enganar o outro
É enganar a si mesmo
Deveríamos ouvir mais os poetas
Faz tempo já disseram que viver não é nada preciso
Precisão é coisa de astrolábio e da matemática
A música é precisa! A vida não...
Trinta e cinco...
E penso no cético! Ele poderia estar certo
O que fizemos até aqui? O que deixei de viver até aqui?
O tempo é matéria que transforma tudo
Não perdoa, tanto quanto traz o perdão
E, de repente, quando me dou conta dele
E observo a chuva, as bandeiras do Nepal,
Penso no Buda, medito, encho uma taça.
Quando me dou conta dele e penso no sorriso dos que amo
E nos seus choros, medos, traumas, desejos
Aperta-me a alma saber que os próximos trinta e cinco
Passarão como um cometa
E é nessas horas que melhor que ouvir Bach
É lembrar aquela velha canção da adolescência:
“Hoje, o tempo voa, amor
Escorre pelas mãos
Mesmo sem se sentir que não há tempo que volte...
Vamos viver tudo o que há pra viver!
Vamos nos permitir!”
Porque, de repente, estaremos eu, você, toda a humanidade
Sentados no sofá do fim da vida
E não queremos pensar no que nossos medos impediram,
No que a nossa falta de coragem matou da poesia.
O caminho do risco é sempre o caminho mais bonito
Não se conhece o ouro sem passar pela alquimia!
Aprendi isso aos trinta e cinco!
Idade em que Sidarta descobriu que Deus existe mesmo
É dentro de cada um de nós!
Começo um novo ciclo.
Vem vindo uma revolução e ela é solar!
E é tão cheia de amigos e descobertas
Que eu poderia dizer que sou hoje a pessoa mais rica desse mundo.
Quiçá do universo inteiro!
Já que riqueza de verdade existe mesmo é na amizade
E naquela sensação de olhar no espelho e dizer: é, eu gosto do que eu vejo!

Trinta e cinco
Nem mais nem menos
O meio

O meio do infinito!


Escrito entre 17 e 19 de junho de 2015

13.6.15

Sobre amor e relacionamentos: o eterno retorno!

Escrevi no final do ano passado, mas está valendo!


De vez em quando, para não dizer quase sempre, o assunto “relacionamentos” paira no ar. Na minha vida e na de todos nós. Sou uma profunda interessada na genealogia do tema. Um dos meus projetos de doutorado sempre foi pesquisar consequências sociais e psicológicas da invenção do amor romântico. Sim, invenção! Como diz a psicanalista Regina Navarro Lins, o amor é uma construção social. Fico intrigada com o fato de colocarmos boa parte da nossa felicidade em uma relação especial com alguém. Não em várias pessoas, mas em uma (ainda que várias, mas uma de cada vez). Por mais que tenhamos filhos, que amemos os nossos amigos ou familiares. A busca pela felicidade conjugal é uma constante desde o século XIX. Pois é, se você esperava que fosse antes disso, engana-se. Não que o amor e a paixão não existissem. Mas a ideia de felicidade com uma outra pessoa é bem recente. E no mundo ocidental contemporâneo cada vez mais somos criados para desejarmos a felicidade do nosso eu. E o nosso eu deseja um outro eu para ser plenamente feliz. Parece que a prerrogativa de ter que ser feliz a qualquer custo só se completa na união entre duas pessoas. E por mais que se fale em poliamor por aí, sabemos que culturalmente esta não é a hegemonia e está longe de ser. Fomos educados a buscar a felicidade, senão totalmente em alguém, ao menos em parte. E a maioria deseja assim. Para complexificar as coisas, este alguém ainda precisa se conectar profundamente com a nossa alma ou visão de mundo. Não desejamos menos do que isso. Esse é o legado de uma sociedade livre. Não digo que é bom nem que é ruim. É o que temos e é com isso que temos que lidar.

Junto a isso, a instituição casamento, tão questionada nos últimos anos, parece estar voltando com força. Até pouco tempo, eu e quase todo mundo que eu conhecia questionava o casamento. Hoje, casamento já não parece assustar mais as pessoas. Pelo contrário, acho até que andam casando demais, como se manter um casamento fosse uma coisa tão simples quanto abrir os olhos ao acordar. Fazendo uma análise bem rasa, talvez pela facilidade com que nossa sociedade hoje aceita a condição de divorciado, inclusive para a mulher – que era sempre quem sofria o preconceito –, ou talvez pelo movimento gay, que exige a entrada nesta instituição com energia tal que acredito que foi capaz de dar um gás nela. A maioria dos meus amigos é casada ou deseja casar. E falo de assinar papel, embora amor e casamento sejam coisas bastante diferentes. Mas o amor romântico nunca pareceu tão forte na história e parece que colou de novo ao casamento. Talvez, com mais força do que nunca, considerando as questões lá de cima, sobre a busca da felicidade. Seria uma reação a tempos de tantas incertezas? Quem sabe... Eu sei que eu mudei bastante quanto ao que acho em relação ao casamento. Já tive muito preconceito. Quando casei, eu efetivamente não casei. Uni-me a um homem (no meu caso, foi um homem) porque gostava dele e ele gostava de mim. Ambos abominávamos a ideia de assinar um papel. Nem mesmo filhos era um assunto que fazia parte da relação. Propriedades, menos ainda. Inclusive em relação a nós mesmos. Tivemos uma relação bastante incomum para o padrão. Hoje, depois de já ter me separado, ter ido morar sozinha e ter vivido outro relacionamento, do qual também me separei, e ter voltado a viver sozinha e me apaixonado e encantado algumas vezes, não tenho mais nenhum preconceito com casamentos. Se um dia a instituição me servir, não vejo porque não. Casamento é contrato e se o contrato trouxer vantagens, ou seja, levar a uma condição melhor do que a anterior a ele para ambos, estamos aí! Mas a minha prerrogativa para juntar os trapos com alguém é, antes de tudo, o amor. Sem isso, prefiro continuar sozinha, muito obrigada! Até porque há muitas vantagens na solterice. Sou filha do mundo contemporâneo. Faço parte daquelas pessoas que desejam alguém que as inspire, que cresça junto, que construa junto, que eduque os filhos dentro de uma concepção pessoal de amor, e não dentro de leis, normas ou regras ditadas pelo Estado, por uma religião, pela família ou pelo senso comum. Se uma coisa mudou com relação ao amor, esta coisa talvez seja a maneira mais pessoal com a qual a gente lida com ele. O que faz sentido, considerando a cultura do “eu” que nós vivemos. E é a partir deste ponto que quero fazer a minha reflexão sobre o amor e relacionamentos mais uma vez na minha história de pensadora e ensaísta. Tudo começa com a quantidade de questões em torno dos relacionamentos que sempre me cerca.

Neste ano, convivi com várias separações e reconciliações de pessoas muito próximas, bem como com casados questionando o casamento e solteiros querendo casar. Fui o ouvido de muitos, como de costume em minha trajetória como amiga. Vi grandes amigas engravidarem e estreitarem seus laços com seus companheiros a partir deste acontecimento. E, confesso, isso mexeu comigo mais do que eu poderia imaginar e a ideia de ter filhos, coisa que eu só cogitava como ideia mesmo – quando cogitava –, passou a ganhar espaço no meu coração. Foi um ano e tanto. Além disso, o assunto relacionamentos é sempre um assunto que faz parte de conversas minhas com um alguém que me afeta mais do que eu desejaria que afetasse e bagunça o coreto da minha tranquilidade de meditante e yogini. E me desloca bastante na minha relação com o tema. Não adianta. Eu tento fugir da raia, mas ela parece amarrada no meu pé. Junto a isso e ao meu antigo interesse pela construção do amor romântico – que começou quando eu descobri que fidelidade era um conceito relativo – venho pensando bastante sobre o que faz um relacionamento fracassar. É que apesar de toda a busca pelo amor e todo o frisson diante do casamento, a quantidade de divórcios, separações e queixas de infelicidade é crescente. Na mesma proporção ou talvez maior que aquilo que as antecede.

Para começar, acho que passamos a desejar algo absolutamente irreal. A busca pelo amor total, que completa 100%, inspira e que não pode ser menos que uma dedicação integral a relação criou uma ansiedade imensa, com a qual o ser humano é incapaz de lidar. Passamos a desejar algo que não existe. Acho isso um sintoma evidente de uma sociedade que baseia as suas normas no medo tanto quanto na cultura do sucesso, onde o fracasso é inconcebível. Em todas as áreas da vida temos que ser perfeitos, como a moça da capa da revista ou o ator da novela, cujas olheiras se escondem na maquiagem e nos efeitos da tecnologia. O casamento também tem que ser perfeito. Mas aí, no dia a dia, a gente descobre que a vida não é bem como nos comerciais de margarina. Assim, vamos reproduzindo certos padrões e nem sabemos muito bem por que. Por exemplo, aqueles casais que se ligam e se falam o tempo todo: não sabe se ligam todo dia porque se tornou hábito e todo mundo faz – e se não ligar você pode ouvir coisas como “achei que você não me amava mais” – ou se é porque isso de fato constitui a necessidade daquela relação. Já parou para pensar em quantas coisas fazemos simplesmente porque nos acostumamos a fazer? E, pior para a autonomia, porque ficamos inseguros em ficarmos sozinhos. Em sermos rejeitados. O pessoal acima dos trinta que está solteiro sabe do que estou falando. Sofremos a ditadura do casal. Em pleno ano de 2015, século XXI, Brasil, um país teoricamente livre e laico (eu disse teoricamente), onde questões realmente sérias precisam ser discutidas, quando você chega e diz numa entrevista que é solteiro a pergunta é sempre: mas por quê? Como se fosse um crime! E na família? Sempre tem aquela tia que pergunta quando você vai desencalhar, como se você fosse uma baleia presa na praia (eu poderia fazer aqui uma enorme análise cultural, inclusive de nossas raízes ibéricas, mas ainda assim seria insuficiente. Portanto, me limitarei a dizer que escrevo apenas um ensaio). Muita gente esquece que, em muitos casos, estar solteiro é uma escolha. A pressão social para se ter alguém é tão grande que, fracos que somos, nos agarramos a primeira paixão que nos aparece, achando que aquela é a pessoa da nossa vida. Pode até ser, mas tem grandes chances de não ser. Na busca desenfreada pelo amor total, um afago um pouco maior pode nos levar a investir em um relacionamento sem nem saber se era isso mesmo que a gente queria ou se era mesmo com aquela pessoa que gostaríamos de estar. E aí, quando não é, já é tarde. Lá estamos nós repetindo os padrões. E, muitas vezes, padrões altamente destrutivos da nossa autonomia. Porque sim, eu acredito que devemos buscar nossa autonomia como seres humanos. Não falo de independência, porque todos dependemos uns dos outros. Falo da autonomia em relação ao que acreditamos e sentimos ser verdadeiro. E acredito que devemos defendê-la e buscar viver em conformidade com ela, sem nos trair. Traição, para mim, é antes de tudo, trair a si mesmo. Depois, trair pactos de lealdade. Nada tem a ver com uma transa furtiva numa noite qualquer que, ao meu ver, abala tanto um relacionamento quanto um mosquito num elefante. Mas aí vem a tal da insegurança e a tal da propriedade. Pragas que marcam o “amor” desde quando o capitalismo se fortaleceu e as cidades cresceram.

Não paro de ver casais se cobrando. Fico incomodada com isso, mas tendo a não falar nada, ou quase nada (depende do nível de intimidade que tenho), porque não gosto de sair me metendo na vida dos outros. Mas fico abismada em ver como, mesmo com toda a luta de tantos movimentos sociais, a insegurança prolifera. É que as mudanças psicológicas são sempre mais demoradas que as mudanças sociais. Embora muitas das últimas se iniciem a partir de figuras cuja psique não se ajustou aos padrões. Acho triste e vejo isso o tempo inteiro na minha frente, com os meus amigos e dentro da minha família. E dentro da minha história. E isso tem a ver também com a tal expectativa surreal que colocamos no amor. A pessoa precisa ser tudo, e se ela é só menos do que tudo, a gente entra em parafuso. E acaba cobrando dela que ela seja aquilo que desejamos. E que, muitas vezes, é também uma responsabilidade dela, que aceita o papel em nome da manutenção do relacionamento. Ou, em palavras mais chulas, pra não perder a pessoa logo no começo. Vejo um enorme medo das pessoas se revelarem como são. Um dia desses mesmo eu estava conversando sobre os erros dos começos. A gente se molda ao que o outro deseja – dentro do que conseguimos captar – e esconde certas facetas de nós por medo da rejeição. E assim os relacionamentos começam. Mas amar, minha gente, amar é que são elas. É por isso que muitos relacionamentos fracassam, porque o ciúme, a inveja, o controle se sobrepõem ao amor – claro que não só por isso, mas quero ressaltar este ponto. Amar é outra coisa. Porque, antes de tudo, o amor implica em uma aceitação da diferença do outro. Mesmo que aos trancos e barrancos. E uma aceitação de si mesmo, das nossas limitações. Quando tem amor mesmo, a gente encontra a solução. Longe, bem longe das máscaras e mentiras que contamos a nós mesmos. Não tem mentira pior para mim, as que contamos pra gente sobre a gente. Nesse sentido, meus amigos sempre me perguntam porque não acho a infidelidade necessariamente um problema, mesmo quando o “infiel” não conta pro outro. Minha resposta é: uma necessidade pessoal é sempre uma necessidade pessoal. Em nada tem a ver com o casal. E, em alguns casos, desde que fique claro, ainda que de forma tácita, que um ou os dois são “infiéis”, e se aceite isso, qual é o problema? Aliás, acho que esse é um assunto que deve fazer parte das relações, dentro da medida de cada relacionamento. Mas deve. Muitas vezes, por reprimirmos demais a nós mesmos, é que uma série de problemas – psicológicos, sociais e conjugais – se instauram. E por termos medo de conversar e nos revelar e de tocar em tabus. E passamos a viver grandes mentiras. Mas, este é o ser humano. Frágil que só ele. No que diz respeito ao amor então, às vezes o tempo de uma vida não parece suficiente para conhecermos esse sentimento tão nobre e necessário. Mas basta nos despirmos um pouco de nossas máscaras e tomarmos coragem de olhar na cara dos nossos medos, que descobrimos que uma vida inteira pode se pautar nele. O amor total existe sim, mas ele é infinitamente diferente do amor total que a gente busca movidos por uma ânsia louca por felicidade. Não se consome o amor total. Não se pode consumir o outro. Ainda que o capitalismo tenha se apropriado do amor, ele é algo de fora desta bolha. Está em um nível outro da realidade, que boas doses de silêncio, cuidado com o outro e coragem podem nos revelar. E de solidão. Não dizem que nos conhecemos quando ficamos sós? E disse o poeta que para ser dois antes é preciso ser um. Mas numa cultura que cria medo, cadê a coragem de enfrentar a solidão e descobrir-se?

25.5.15

Rio 450 gestos

Tens um gesto que se desdobra:
Aquele que reconheço no espanto!
Não soltas, nem amarras
Encantas e provocas medo
Mas presa ao medo e ao leme
Tens sorriso curtido de malandro
Sambas o romantismo do tempo dos poetas
E a alvorada dourada da Baía de Guanabara
Corres...
Fugidia e fugindo no lamento
De veias mal tratadas
Mas, ah, és o Rio!
Dos tantos que dormem matutinos pelos trilhos da Central
E aquele do bonde de outrora que atravessa
As minhas saudades mais bonitas de pôr do sol
Trilhos que levam às salas e às senzalas
E tua força reside é nesta gente que escapa
Nos meninos que correm descalços jogando futebol
Nos que deslizam nas ondas
Nas moças de beleza eternizada em música
Que sabem que são mais que uma beleza carimbada
O Rio é de muitas caras e "maracas"!
E, porque não, do terno e da gravata
E dos sinais que atravessam a Presidente Vargas
Mas como choras...
O choro vermelho de almas tão novas
Deveriam ser anjos,
Tão somente crianças a brincar nas tuas areias -
Choras ainda o choro alegre ao qual Villa fez sua reverência
E toda noite um bar também a faz.
Até Madureira chorou!
E tu, Rio, choras em cascatas por tua urbana floresta
E suas quente, cidade sem pudor
Sob o sol dos hoje mais de 40 graus diante de tanto motor
- O Rio 40 graus ficou no século XX e hoje tu ferves uma euforia nova -
E amas! Como tu amas, urbe desordenada!
Num aglomerado de corpos que dançam e passeiam quase nus,
Ainda que vestidos, travestidos e luminosos
A desafiar tuas vizinhas econômicas sem praia
Já disseram que és caos e beleza
E que continuavas linda com o barquinho a deslizar
Mas que hoje só o porto é maravilha.
Porém, vê bem, atenta-te!
Como um rio de amor sobre as avenidas
Que partiram uma cidade arquitetada na loucura,
Até que te saíste bem, por não saber quem te pariu
Foi Dom João quem fez?
Pedro quem fez?
O negro da Praça XI, o cigano perdido,
Um Pereira de passos dúbios e compridos...
Que importa quem te fez
Se é a tua natureza anterior a qualquer Debret
Que se impõe magistral sob os arcos da Lapa
E os navios que todos os dias invadem tuas águas.
Se são as tuas montanhas rindo
Ao pé de quem passa, dizendo:
"Aqui quem manda sou eu!"
Muito embora a deliciosa arrogância carioca
Suavize todo esse esplendor em seres a terra de São Sebastião
Minha alma canta
Estou hoje a celebrar que, Rio, és um rio
Tudo que por ti passa nunca sai o mesmo
Onde toda a dor que se sente
Alivia-se no baile ou nos braços do Redentor
E tem o horizonte do mar para desaguar
(Marinheiro, marinheiro,
Chega ao Rio e logo aprende a nadar...)
Peço licença e paz, com voz
A voz do morro e a do asfalto -
Para o maravilhoso gesto
Do espanto abre-alas
A traduzir arranhas-céus e favelas
Em mistura de funk, samba, bachiana e carnaval!
Para que eu toque então, para ti, Rio de Janeiro
Uma canção de amor
No Theatro Municipal!

Rio de Janeiro, março de 2015.
Escrita para o Prelúdio da Bachiana Brasileira nº 4, de Villa-Lobos, sob encomenda de Felipe Prazeres, para concerto da Johann Sebastian Rio no dia 17 de maio de 2015 com performance de Márcio Sanchez.

20.4.15

"Tudo o que é criado é infinito": uma carta à Gabriel

Querido Gabriel,

se colocássemos o tempo que você está entre nós na escala de tempo do universo, poderíamos dizer que você passou a existir no tempo de dez elevado a menos quarenta e três segundos, ou seja, na menor das unidades de tempo da física. Eu espero que quando você crescer, as escolas já estejam ensinando algo sobre a física quântica... O que quero dizer é o seguinte: você mal chegou ao nosso planeta azul. Mas também faz uma diferença danada! E é isso que você vai descobrir sendo humano. 

Segundo os cientistas, o nosso planeta existe há 4,6 bilhões de anos. O universo onde ele existe e fica girando ao redor de si mesmo e ao redor do sol (o sol vc já conheceu!), existiria há mais ou menos 13,4 bilhões. Tempo que você, como qualquer outro ser humano, jamais será capaz de conceber, porque a gente sempre pensa em termos de “o que eu faria se vivesse 13 bilhões de anos?” Porém, diferente do tempo que se mede, somos capazes de conceber o infinito, sem racionalizar e perguntar o que faríamos. É que o infinito cabe onde a gente menos espera e ele é sentido, não pensado. E essa é uma das maravilhas em ser humano. Além de pensar, refletir, analisar, chegar a conclusões, vc vai descobrir que sente, que existem coisas que as palavras que vc vai aprender nunca vão dar conta e que, mesmo tendo um corpo limitado e fazendo parte do útlimo segundo da história do universo, toda essa história está em você. E vc vai descobrir que essa limitação do corpo foi uma invenção humana que oculta que cada um de nós contém o universo dentro de si. Por que a gente inventou isso só o tempo vai te dizer. Melhor eu não falar nada agora, porque nesse momento sua única preocupação é só ser. Nós podemos sentir o infinito várias vezes durante a vida. Aí, na tentativa de querer exprimir isso ou sentir mais, pode ser que vc descubra a poesia, que é uma forma de libertar a palavra das prisões dos sentidos fixos que damos a elas no dia a dia e dizer este infinito. Ou pode ser que vc descubra a música, e aí vai ser como mergulhar num oceano e se descobrir peixe – descobrir que vc respira no universo do indizível. Pode deixar que a tia Vanessa vai se ocupar de te manter perto das duas! Mas pode ser que vc descubra a poesia da matemática e da ciência. E se torne um grande pensador do cosmos e nos revele se, afinal, existe apenas um universo ou vários (dizem por aí que existem alguns, consegue imaginar?). Ou quem sabe, vc descubra a meditação ou um sentido de espiritualidade que te conecte com esse cosmos pelo seu próprio corpo na sua solidão ou em companhia de outro. Ou tudo ao mesmo tempo. O passar do tempo tem feito a sua tia acreditar que tudo são variações de um mesmo tema. Como toda a vida no planeta também. Um dia vc vai aprender sobre um tal de DNA, uma coisa que vc não enxerga de tão pequena e que está dentro de vc, como um hardware que carrega a programação de um computador (vc vai crescer sabendo o que é isso), e que faz vc ter o cabelo que tem tanto quanto metabolizar o açúcar da forma como vc metaboliza (vc vai estudar o que é metabolismo, não se preocupe com isso agora. Apenas mame.) A maior parte do nosso DNA é igual à de muitos seres vivos: árvore, cachorro, mosquito, barata, coruja, borboleta, flor de lótus e por aí vai. Na base, somos todos poeira de estrela e viemos todos da água. Fascinante isso, não!? E o nosso DNA de ser humano é 99% igual ao dos macacos, um dos bichos mais fantásticos desse planeta. Foi um cara chamado Darwin que descobriu isso. E a Igreja ficou doida, mas hoje já aceitou, porque ela dizia que um ser sozinho criou o mundo de repente e fez o homem a sua imagem e semelhança para dominar os outros seres. É fácil entender isso, não é? Vc vai descobrir o quanto o ser humano é bom de criar histórias. Ah, o que é a Igreja? É uma longa história, mas resumindo, é uma instituição (infelizmente vc vai lidar com essa coisa chamada instituição durante a sua vida) que tenta tomar para si e controlar uma coisa maravilhosa e singular que é uma tal de experiência mística. Mas isso é o que eu acho. Outras pessoas acham outra coisa e pode ser que vc goste ou não da Igreja. Tem gente que se acha nela, tem gente que se acha em Buda (outro dia te conto dele) e tem gente que não se acha em nada. Isso, só pra te contar um pouco do que é o mundo em que vc chegou. Embora uma coisa chamada sociedade tente moldar os seres humanos, nós somos muito diversos em nossas formas de existir, como a natureza é, ou seja, diversos nas formas de amar, de sentir, de entender uma coisa chamada política e de fazer desde planilhas até um bolo de chocolate. Vc vai descobrir como é maravilhoso viver nesse mundo, mesmo e apesar dos muitos problemas com os quais vc também vai se deparar. Mas não tem nada mais incrível que sentir que a vida é infinita, mesmo que a gente não seja. Ah, outra coisa que vc vai descobrir... Um dia, todo mundo vai morrer. Essa tal de morte é uma coisa que dá uma tremenda solidão e é inevitável. Vc vai ter que lidar com ela, faz parte do contrato da vida. Mas, ao mesmo tempo, se vc colocar tudo na escala do universo, vai descobrir que é eterno. 

Essa coisa de sentir o infinito já existe junto de vc desde que vc foi gerado. Aliás, antes até. Vc está aqui porque um dia a sua mãe e o seu pai sentiram isso em algum momento juntos e decidiram que iriam passar adiante essa sensação criando vc – e eles só são capazes de sentir isso porque em algum momento da história do universo, o próprio universo achou por bem se tornar consciente. Foi então que nasceu o ser humano! Para perpetuar esta sensação, algumas pessoas meditam, outras rezam, outras fazem sexo (calma que um dia vc vai saber como é isso!), umas escrevem livros, outras plantam árvores, fazem música, umas têm filhos e outras fazem tudo ao mesmo tempo. O ser humano é fascinante. Vc vai ver quanta música a gente foi capaz de inventar e quantas combinações de cores e estampas, de sons, de palavras, de furos e engrenagens. Você é fruto desse sentir o infinito, sentir o universo e com o tempo vai descobrir que à nossa capacidade de conceber o infinito demos o nome de amor. Seus pais já passam isso pra vc desde o momento em que souberam que vc um dia teria essa carinha curiosa e tão bonita que vc tem agora, com apenas pouco mais de um mês de vida sorridente fora da barriga da mamãe.  

Quando vi sua carinha pela primeira vez eu chorei. Não ria de mim, ok? Façamos um trato. Sua tia Juju riu. Mas vou te dizer uma coisa, nem eu entendi o que houve. Mas agora eu posso dizer que foi a tal sensação de infinito. Ver vc e saber que vc tinha vindo da minha grande amiga Lalá (é assim que eu e tia Juju chamamos sua mãe), foi sentir que a vida é eterna. Ela é eterna assim, quando passamos a frente nossa memória genética e em outro ser a memória inteira do universo. Nosso DNA carrega tudo (olha ele de novo!). Tem gente que deixa versos, tabuletas, notas, melodias, teorias. Isso também é dar eternidade à vida. Eu achava que eu seria um ser humano desses que iria manter a eternidade na criação de coisas. Mas quando eu te vi, algo mudou dentro de mim e exclamou com uma sinceridade que nunca havia existido antes: “acho que sim! Sim, é possível!” Talvez daqui a uns anos vc tenha primos para pegar no colo, porque vc já vai estar grandinho. Quando olhei pra vc, Gabriel, e depois vi os olhos do seu pai e da sua mãe brilhando ainda na maternidade, apesar de todo o cansaço de uma noite pra fazer vc sair do quentinho pra essa luz toda, eu senti profundamente o infinito. E ele cabe nos menores gestos e numa criaturinha tão pequena como vc. Ele estava ali no olhar deles. Ele estava em vc, na sua mãozinha e no seu choro. E ele estava na minha cara esbasbacada com essa vidinha que chegava e que tem um mundo a percorrer ainda.

Com o tempo também vc vai ver que o ser humano é dado a extravagâncias. Adoramos criar grandes coisas: pontes, navios, sinfonias, arranha-céus, odes, filmes de sucesso. Queremos ganhar prêmios, viajar o mundo, comprar terras, carros, casas. Tudo isso é muito legal e foi essa capacidade de ser extravagante que nos fez conquistar coisas incríveis, que deixou obras fascinantes e nos deu a capacidade de conhecer muita coisa. Ela também nos diz o quanto somos a consciência do universo (foi um amigo em comum meu e da sua mãe que me despertou pra isso, um dia vc também vai conhecê-lo). Mas foi tudo isso também que deixou o ser humano doido. Não queria ter que tocar nesse assunto, mas a gente faz uma coisa chamada guerra, Gabriel. Quando a gente cisma de achar que é maior que o universo, a gente perde as estribeiras criando impérios e devastando outros, como grandes galáxias nascem e morrem. E matamos muita gente, como meteoros se colidem ou colidem com planetas. O problema é que tudo na escala do humano é complicado, porque nós somos conscientes. A natureza não é bonitinha, vc vai saber. Ela é também, mas é cheia de coisas bizarras. Só que a grande diferença é que a gente faz e sabe que faz. E, ainda assim, fazemos em grande escala. É que existe uma coisa chamada poder também. Poder que se estabelece sobre o outro, e não sobre si. Vc vai descobrir um dia que nada no mundo é ruim ou bom por si mesmo, como por exemplo, o poder. Poder sobre si é legal e desejável. O poder sobre o outro não é legal não. Torna tudo mais nebuloso, difícil, triste. Mas não vou entrar aqui em uma discussão moral, porque vc está naquela fase que só o que importa é sobreviver e para isso vc só precisa de carinho e leite e não de moral. Depois, quando vc estiver maior, a gente pode conversar sobre uma coisa chamada ética. A tia não é muito fã da moral não, mas gosta bastante da ética. Normalmente as pessoas confundem os dois por aí. Mas é que eu enveredei por uma coisa chamada filosofia, de uns caras que andaram desafiando as regras de sua época. A história está cheia deles e delas. Mas muitos sofreram muito por contrariar as verdades que não eram assim tão verdades. Aliás, essa é uma palavra que vai te dar muito trabalho, já te aviso: verdade! Sabe pequeno, tem outra coisa que eu não queria te dizer, mas preciso. Tem muito preconceito nesse mundo. Na verdade, o problema nem é o preconceito. A gente tem pré-conceitos sobre tudo (sei que vc será inteligente pra saber a diferença). O problema é quando o preconceito machuca a singularidade do outro. Ou seja, quando o que vc não gosta impede o outro de ser livre, de ser quem ele é. É uma relação complicada essa. Outra palavra que vai te dar trabalho: liberdade. Essa já foi motivo de muita confusão. Mas também de poesias lindas. Liga não, esse mundo é confuso assim mesmo, Gabriel. Esse seu olhão curioso ainda vai ver muita coisa que ele não vai entender. Mas, como também diz um poeta, algumas coisas são para serem vividas e não entendidas. Mas seus olhos também serão capazes de ver as coisas mais lindas. Esse mundo é bonito que dói, preciso te dizer, embora a vida seja às vezes muito difícil. Sempre vai ser. Só espero que quando você tenha idade suficiente para ler e compreender esta carta, as pessoas estejam matando menos umas as outras e o planeta. A gente não anda sendo muito legal não. Chato dizer isso, mas é preciso. Mas uma coisa eu sei: vc vai amar. Porque todo mundo ama. Quer dizer, dizem que os psicóticos não. Mas não sei... Duvido de tudo. E é o amor que faz a gente permanecer e aceitar as dificuldades da vida. E é a coisa mais fácil do mundo. Só que ele é tão poderoso que a gente às vezes tem medo. E o amor vai murchando conforme a gente cresce. Não me pergunte agora porque, eu prefiro não explicar. Só posso te dizer que é assim, infelizmente. Aí a gente tem que cortar um dobrado quando está grande pra poder recuperar isso que é tão fácil quando a gente é pequeno. Mas posso te garantir: vale a pena! Porque quando o reencontramos sentimos que o universo inteiro existe dentro de nós. O amor é tão, mas tão grande, que ele cabe num sorriso. Coisa louca isso não é? Mas é que tudo que existe no macro existe no micro, embora regidos por leis diferentes. Se vc olhar uma galáxia e uma célula não vai saber reconhecer a diferença. Juro pra vc! Esse tal de amor existe nos pequenos gestos: num cafuné, numa massagem, num olhar de cumplicidade, num sorriso repentino, num carinho desinteressado, no cheiro do café preparado pra si ou para o outro, quando a gente alonga o corpo, quando a gente sente a respiração, quando ficamos em silêncio e ouvimos o dia, quando nos deixamos tomar pela música e dançamos, quando o cachorro pede colo, quando entramos no mar. Amor é a coisa mais simples e mais fantástica do universo, ele é a própria sensação de infinito. E é por isso que vale a pena viver, mesmo diante de tanta confusão. Na verdade, como um poeta falou (o nome dele é Fernando Pessoa), "tudo o que é criado é infinito". Tem um outro poeta que viveu no Brasil, nascido em Minas Gerais (que vc vai conhecer), que disse que o amor é grande e cabe num breve espaço de beijar. Os poetas sempre sabem como dizer as coisas. E sabe porque a coisa mais simples é também a maior e a mais incrível? Porque não é tamanho que se mede nem tempo que determina a eternidade ou a força de algo. É intensidade. É presente. O passado e o futuro só existem enquanto presente. E o amor é presente em estado puro. Quando estamos nele não queremos estar em mais nada. Sentimos o infinito e descobrimos que somos eternos quando amamos. Pergunta pro seu pai e pra sua mãe.

Então, bem vindo Gabriel, amo vc! E o mundo também, embora o tempo todo vão tentar te convencer que não. Mas não dê ouvidos, já disse: tem coisas que é melhor não entender... Seja quem quiser ser e permita-se amar! O resto vem.