25.6.11

perdidos achados

poemas encontrados perdidos em um caderno. chegam aqui da forma como foram achados, sem lapidação, sem cuidado, frescos como quando vieram ao mundo.



A vida, que sempre me pareceu curta
De repente hoje me pareceu tanto...
Imaginar que chegarei aos 50, 60, 79 anos
São mais 20 ou 30
Mais 40 ou 50 anos?
Posso fazer o que eu quiser!
Quanto mais tenho que esperar?
Trabalhar? Para quê?
Queria estar sempre no topo do mundo,
no alto das montanhas
Os Andes, o Himalaia
E descer todos os mares
Experimentar todas as especiarias
Os sabores das frutas e das folhas
Os molhos, as ervas, os cremes
Beber todos os vinhos
Sentir o cheiro do incenso na Índia e no Nepal
Curtir o mar do meio do oceano
Ouvir a maravilha da gravidade dos sons dos sinos budistas
Correr por castelos, e me integrar nas primaveras doces dos rios todos
Para que tanta política e ciência
Se o que quero é sentir o mundo?
Se assim sou feliz,
Apenas sentindo...
Para que precisamos de política?
Mais precisaremos dela enquanto negarmos nossa liberdade e potência

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Cai uma tarde de outono qualquer
A brisa esfria e é possível ouvir o que não se ouvia antes
Junto daquele cheiro de mato quase queimado do pasto
E a sinfonia de grilos grilando para o céu que se aproxima, estrelado
Cai uma tarde de outono qualquer
E como se não bastasse ser uma tarde de outono
Ela ainda é tão bela que jamais haverá outra igual
A estrelar para mim um futuro que já é presente
Um contexto que já é pretexto
E refazer sentido a todo instante
No mundo que já não quer mais ser
Que só espera a hora de só ser o que se quer
Vida que não mais suporta, só ama, só deseja, só viaja

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sou uma espécie de Cristóvão Colombo contemporâneo
desbravadora e cega diante de todos os nãos
dê-me um barco e navego longe
como fizeram os homens de outrora
sem medo da morte
e assim faço jus a todas as mulheres
que nestes distantes tempos
não puderam se fazer capitães de saias
cientistas com um afeto profundo
desconsideradas pela história vermelha e barbuda
que delas têm medo

porque podemos ser mães de qualquer coisa
de grandes mundos, da anarquia
do amor e do cuidado

espero até fazer jus àquelas que hoje
desconsideram a si mesmas
reproduzindo os papéis que lhe foram dados
tristes que só elas

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um Almodóvar faz falta na vida
quando olhar para o lado cansa de tão cinza
nos olhos, nas roupas, no concreto e na falta de paixões
faz falta o vermelho, uma mistura de rosas com listras no tecido
um cabelo menos certo, uma roupa menos cáqui
e sexo de verdade
porque até mesmo o sexo pode se cinza, enlatado
como a falta de brilho de quem passa do meu lado,
desce do ônibus, reclama da vida e senta no sofá

3.6.11

poema-oceano

o mar sob meu teto
todo dia sinto o cheiro
janela aberta é condição

a onda sempre vai e volta
mas meu barco
faz porto de qualquer lugar
que se apaixone

fica, e deixa que vá e volte só a onda

mas se volta, depende
fato é que ele vai

o mar sob meu sonho...
meu barco já está no mundo
apenas eu que ainda não cheguei

poema-jardinagem



queria hoje uma chuva de flores
a cair sobre meu corpo
retirar-lhe o peso
e transformar-lhe em flor
eu o queria inteiro,
esse corpo cansado, sem chão
para oferecer-lhe cheiro de alfazema no pé,
cor de rosa, violeta, orquídea preta
senti-lo pétala a pétala
como se fosse gérbera vermelha

queria hoje ser um lírio aposentado,
um girassol abandonado,
a compartilhar com ervas daninhas
o gozo de brotar de qualquer jeito

ser um corpo leve e sair por aí como dama da noite
que não pede desculpas ao entrar sem bater
um frangipani enlouquecido!

corpo sem culpa,
eu brotaria dente de leão, flor que voa,
e voaria para sempre até que me esvaísse

quando então eu já seria uma lótus universal
conectando o espaço sem fim de todos os corpos
morando sob suas cabeças
os ajudando a brotar e voar

queria hoje só brotar e voar
e dormir como guirlanda floreada
posta na árvore do jardim