21.12.12

ainda a calma do mundo



no final do ano passado escrevi um poema com os desejos para 2012... em 2012 tudo mudou na minha vida, mas é engraçado perceber como os desejos mais fundamentais permanecem os mesmos... e como esse poema foi, sem dúvida, um poema que expressou desejos profundos e, de alguma forma, um guia desse ano tão intenso. sendo assim, republico o poema. ele já não é mais o mesmo... e, por isso mesmo, faz todo o sentido como um poema-desejo pra 2013!

uma praia
eu, você, o mar
todos nós
sol até se pôr
chuvinha fina no cair da noite
café, biscoito doce
rede para embalar os sonhos
sonhos para se tornarem reais
guitarras, pianos, enganos deixados de lado
cachorro dormindo, bem-te-vi no telhado
planta despertando com a água
água para diluir as dores
calma para as batalhas do mundo
lua, estrela, eternidade em um segundo
energia para as manhãs
suco de frutas, capim limão e pães
castanha para ter crocância
bicicleta para a consciência e a errância
amor em cada canto da casa
no jardim e no banheiro, flores
prancha na varanda desejando onda
menino na onda realizando a prancha
música para um fim de tarde
cigarras, incenso, vela de canela
cervejinha para brindar com amigos
yôga para brindar o corpo
sexo com suor e de verdade
chinelo pra descansar a ansiedade
hortelã, alecrim, manjericão
banana com mel, mel com limão
livros nas escadas abrindo caminhos
uma montanha vista da janela
bolo, vinho, azeite e cominho
tudo na despensa, revelações na adega
pic nic na grama com pai e mãe
irmãos de sangue e coração
vô e vó pra fazer cafuné
criança querendo saber o que é
lótus, fotos, vídeos
um tambor pra começar a dança
luz do próprio universo de dia
penumbra ao lado da cama
manta vermelha, vento lá fora
almofada, sono profundo
amor em cada canto do mundo
corações livres
filhos livres
amores livres
livres, os desejos
energias renovadas, recriadas, vividas
estradas
um barco
o céu
o infinito

e tudo é possível

2.12.12

29.11.12

o primeiro poema


porque eu te amei
(amei?)
e te disse
que te escrevi teu último poema
não quer dizer que eu não os escreva mais

mas esses não entrarão nos compêndios

serão meus
da minha liberdade
de te falar nas entrelinhas
escancaradas, é certo
mas não estão direcionadas
pode abrir sua caixa de emails
não haverá nada

esses poemas de agora
podem ser de quem quiser pegá-los
estão por aí
para serem compartilhados

se quiser fazê-los seus
pode pegar também
é de graça
posso até levar
na porta da sua casa
(eu inseriria um emoticon piscando
...se fosse possível lê-lo)

porque eu te amei
e chorei tanto aquele dia cinza
eu hoje acordei rindo sem palavras

mal saberia eu que voltariam, elas
pode se orgulhar
estou criando obra de arte
com você

mas eu chorei por um motivo nobre
todo mundo há de concordar
faltava seu corpo

que ficou no mês passado
inteiro
que ficou num abraço sábado
meio

mas faltava
ora
às vezes falta mesmo

mas então eu acordei
e havia sol
então eu saí e vi o mar
então eu peguei minha bicicleta
e fui pro vento
daí eu soube
mais uma vez
(porque, parece, a gente esquece)
que depois do choro
sempre vem o riso
e que você, na condição de paixão,
está saindo na vantagem comigo

chorei tão pouco
ri tão mais
sou tão mais feliz
que a matemática
está fechando positiva

que ainda posso confirmar
tudo o que te disse
no teu último poema
e, acrescentar,
um cheiro de perfume de alfazema

pra tomar o ar
com aquela liberdade toda
de te amar sem pressa

minhas palavras não se esgotam
nunca, são rio correndo pro mar,
e vem sempre esse frenesi de ser texto pra ti

37 páginas, sabe o que é isso!?
agora serão mais de 40!
que fez você criatura?
algum trabalho pra santo?
às vezes acho que fez o mal
de escolher as palavras certas...
foi dizer o que não devia
levou o que...
bem, o que eu poderia dizer aqui?

você vai levar isso contigo
se um dia eu for famosa
vai até poder dizer:
olha, aquele foi pra mim
(até parece que você é desses)
até porque nem vai precisar
um dos poemas tem seu nome

longa carta de amor...
li Pessoa e ele disse que todas são ridículas
ah, se ele tivesse lido as minhas
mudaria de opinião na certa
(ridículo não! são palavras lindas)

e essas palavras gostam de brincar
soltas nas linhas
de brincar com você
elas estão aqui pra te provocar
(guarde essa frase)

pra te convidar pra festa
sei lá como
sei lá mesmo
eu poderia passar uma madrugada inteira
com você, bebendo
sem voar em cima do teu corpo
pode apostar
até porque
cairíamos alcoolizados no tapete

mas agora, é isso
minhas palavras querem ser
brincadeira
é o que você pede

a hora é de festejo
que assim seja
e como quiser que seja
em planos
projetos
ou cervejas

se no corpo
que seja também
o meu está sempre presente
nem precisa dizer

não sou de tocar a campainha
e sair correndo

e você deve estar pensando:
essa mulher é louca!
diz coisas lindas, mas ela é louca

não, você não deve estar pensando isso...
porque se a gente fosse pôr a loucura em cima da mesa
meu caro...
podemos passar uma madrugada na disputa
aquela mesma da bebedeira
tá disposto?
a gente tem muito pra conversar ainda
lembra?
pode me chamar
eu não vou te pedir em casamento

eu contaria segredos
se você quisesse ouvi-los
e adoraria saber os seus
se tivesse a coragem de contá-los
tem terapia maior que isso?

mas eu sei
as coisas tem a hora certa
eu entendi
que quando a gente não sabe o nosso lugar
melhor é ficar onde se está

mas eu também entendo
que mesmo onde estamos
existe movimento

porque eu te amei
e te entreguei páginas apaixonadas
só quer dizer que te amo

e você deve estar pensando
que sou alucinada

sabe, acho que você está certo...
se pensar assim

e nesse seu mergulho
de se ver também pelos meus olhos
me diz o que você vê...
será que um dia eu poderei saber?
será que eu poderia te cobrar royalties
por alguma descoberta?
ou estou me achando a rainha da cocada?
até mesmo quando o maior tempo nosso
é o tempo do nada...

vontade de gargalhar
você me dá uma alegria diferente
que desafia
fica quieto
e eu fico querendo te provocar
(de novo)
tentada a dedicar meu livro
pra esses teus olhos flutuantes
pra esse jeito meio lá, meio cá
meio de quem passa
rápido, querendo ir pra algum lugar
que já está em outro mar

mas isso é outro capítulo
dessa louca história

fico pensando
se você não acha
que eu gritaria ao mundo que te quero

vontade tenho
imagina se não!
mulher apaixonada pode até ser livre
mas é mulher apaixonada baby
tudo igual

mas não
eu sei falar nas entrelinhas

e agora me sinto alegre
e posso dizer
que você é que é o rei da cocada

todo bonito assim
fica tirando onda
você pode
sabe que pode
você é só amor

então te peço,
sai de perto não...
se quiser pode ficar aí parado mesmo
só pra eu te olhar
mas fica perto
"fica bem aí
que essa luz comprida
ficou tão bonita
em você daqui"

bonito isso
você quer ficar perto?
responde pra mim...
ah, me lembrei
você já disse que sim

e eu, depois dessas tantas palavras
perdi toda a credibilidade
mas eu já devia saber
me conhecendo como me conheço
que te dizer que te escrevia um último poema
era uma blasfêmia
(não uma mentira, longe de mim)
muito menos lá em cima dizer
que esse é de quem quiser

pode até ser
mas você sabe que é pra você
em cada linha

tem palavras suas
tem seu cheiro rondando por aqui
dentro de um livro
e, claro, também dentro da noite veloz
dessas noites sem dormir

mas sabe, ele está ficando mais doce
o cheiro
e eu estou te querendo agora
brincalhona
engraçada
como dizem por aí que sou

engraçada...
já me disseram isso tantas vezes
que começo a acreditar
talvez porque as pessoas, no geral,
sejam chatas demais

diferentes de você

e eu nem sei porque acho isso
não sei de nada
faz um tempo eu não estou sabendo nada
só estou deixando ser

eu gosto de me divertir
nem sempre sou assim
tá, ok, entendi
mas eu gosto
de sair
pra cair
no samba, no rock
no botequim

me chama pra sair
a gente pode se divertir
aposta?
mais uma...

foi por isso que eu te achei
e caí em cima de você
de repente
num dia em que eu estava voando
o celular tocando, no ônibus
depois de termos decidido um chopp simples
ai, esses que tomamos por aí
pela vida
às vezes, de tão inocentes,
nos levam pro inesperado
eu atendi o celular
e foi uma intimação:
- tá onde?
- no aterro
- desce na marina
- hein!?
você, sempre de poucas palavras
e lá fui eu!

nem vi a hora
não vi nada

e agora aqui estou
sem nenhuma credibilidade
tentando entender os seus começos

ouvindo músicas
que me dizem que o mundo
é tão do tamanho do meu amor
que eu, que te amo tanto sem saber por quê
(é só charme, eu sei sim)
estou amando, na verdade,
esse delírio que é viver

é melhor ser alegre que ser triste


era uma vez um poema alegre
que queria contrastar com um poema triste
então o poema alegre resolveu não ser palavra
e saiu por aí fazendo carnaval

27.11.12

quando chove uma chuva persistente


acordei cinza

a minha contradição
tem o nome tristeza
daquelas que parecem
passageiras
em dias de chuva persistente
mas presentes, o suficiente,
para desmoronar
as fortalezas

daquelas que apertam o peito
diminuem o viço
puxam pro solo abaixo
um corpo cheio de vida
numa hora cheia de alegria

eu deveria
ser mais atenta
na presença do meu corpo

a tristeza me desafia

duvido da própria força
escarro muitas palavras
e me pergunto
para que jorrá-las
se, na verdade,
é tão mais simples

tristeza ou alegria
não existe outra coisa
melancolia?

não, talvez eu tenha me enganado
caí mesmo foi numa tristeza profunda
que não quer se olhar
no espelho
e afunda o corpo
num travesseiro velho

de que adianta dizer
que o sol brilha
se quando chove
a alegria
que se queria
é justamente aquela
que não pode ser?

e desabo

que tanto prazer esse
de brincar com as palavras
de um dia acreditar no amor
e no outro não saber sequer
no que acreditou?

eu que amo tanto...

a minha contradição
tem o nome tristeza
mas sei que mais tarde
volta a ganhar nome de alegria
eu sou o que o tempo pede
um dia sol
um dia sombria

hoje acordei cinza
num dia cinza
em que eu queria
o que não posso ter agora
essa recorrência
de quem caminha
em bamba corda

nessa hora
a saudade se esquiva
o que existe mesmo é falta
aquele vazio terrível
de querer
quando a gente ainda
não atravessou
a linha que separa
o que somos
do que já esboçamos ser

acordei cinza
num dia cinza
acontece
nas almas mais errantes,
e, principalmente,
nas famintas

19.11.12

o poeta inventa viagem, retorno e morre de saudade

saudade deve ser uma herança que carrego dos antepassados portugueses... sinto saudades de tudo, até do futuro. ao menos é o nome que dou a uma certa ansiedade que se mistura a um sorriso bobo de quem gosta do que viveu ou do que vai viver, mesmo sem saber exatamente o que virá ou sem entender o que se passou. acho que só sente saudades de verdade quem tem coragem de se lançar ao inevitável da vida... saudade não é falta... é alegria do vivido, do outro e alegria do que virá. aquela energia nos momentos difíceis, inclusive, e uma dose extra de coragem para viver o presente com toda a intensidade, para se construir grandes narrativas de vida. hoje, ao menos, é assim que sinto. amanhã, sabe-se lá... certo que a saudade produz uma melancolia, mas a melancolia nos ajuda a lidar com a vida. é necessária para entendermos o quanto fazemos parte do universo. deveríamos dar mais atenção a isso. saudade e melancolia tem uma relação siamesa, me parece... e por sua vez, com a liberdade e a felicidade, duas questões na minha vida hoje. elas estão dentro da gente. permitir-se a saudade parece um caminho para esse encontro com a liberdade e a felicidade dentro, na dobra de nós mesmos, o único "lugar" onde acredito que elas possam ser encontradas...

hoje senti uma inusitada saudade de Roma e suas ruínas. Roma foi um dos lugares onde mais me senti bem na vida... e foram só quatro dias. mas o suficiente pra eu me apaixonar pela cidade ou pelo que aquela cidade que tanto já viveu, dizia à minha memória genética, afetiva, social, coletiva. à cultura e à natureza em mim. sinto mais saudades de Roma, por exemplo, inclusive dos novos dias que ainda passarei lá não sei quando, do que da Espanha, onde passei mais tempo na Europa, ou mesmo das cidades onde morei no Brasil. o que me diz que amor é coisa que não precisa de um tempo longo para acontecer. e que saudade e amor também têm uma intrínseca relação. acho que só sentimos saudade do que amamos. não esquecendo que é possível sentir amor também pelas dores vividas, aliás, inclusive, porque o amor também está em nós, e só faz sentido falar em amor quando falamos em aceitação do fluxo da vida. é possível amar a dor quando a dor liberta! sentir amor por algo ou alguém me parece que nada mais é que um reconhecimento, a partir do outro e no outro, do amor-mundo-universal que reside em nós... há conexões que tornam o amor tão evidentes, pela intensidade com que se estabelecem, que passamos a amar o objeto da conexão. uma pessoa, uma cidade, um livro, o mar etc etc etc. na verdade, estamos é expressando a razão de ser da vida. amor. será? lembrando que o amor, pra ser amor, precisa libertar... assim acho. desapego... sem blá blá blá. falo sério. embora, sem peso.

amor, saudade... como tudo isso tem relação com a liberdade? enfim... tudo é insight ainda...

só sei que saudade, pra mim, se tornou coisa boa. e encontrei em Mário Quintana uma boa explicação pra isto que só a língua portuguesa soube sintetizar:

"Para sempre é muito tempo. O tempo não pára! Só a saudade é que faz as coisas pararem no tempo..."

porém, como poeta em processo, me pergunto se não invento a saudade... se na verdade o que me move é inventar tudo que sinto, na poesia, ou quem sabe exagerar... afinal, o poeta é um fingidor. e inventa, como o título do poema de hilda do qual me apropriei, viagem, retorno e morre de saudade... mas, se inventei a saudade ou não, fato é que ela está comigo.

e para quem pretende fazer uma grande viagem daqui há um tempo, e outras muitas pela vida, será bom carregar um pouco desse tempo suspenso, para equilibrar com os momentos de novidade. lembro sempre nessas horas paradoxais [em que convivem uma grande saudade e uma vontade de partir] do grande poeta português, como não poderia deixar de ser, já que fui por ele formada na poesia e na arte de sentir tudo de todas as maneiras e excessivamente... o que já virou um jargão, do poema tão conhecido "mar português", é pra mim tão verdadeiro que é um mantra poderoso: tudo vale a pena, se a alma não é pequena... já pensou no sentido dessa frase? no quanto ela pode ser libertadora se conseguirmos ultrapassar seu conteúdo perigoso e doloroso? seu Bojador?

fiquemos, então, com a grande saudade de Pessoa... e mais a liberdade, o amor e a felicidade. pois quem quer passar além do Bojador, tem que passar além da dor... permita-se a saudade. permita-se o amor. permita-se a liberdade. ouse conversar com si mesmo e abrir espaço para encontrar em si tudo o que talvez estivesse buscando no lugar "errado"... mas com uma atenção, acredito: o fora é dentro, o dentro é fora. só pra confundir rs

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!

Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.

Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

16.11.12

karine aos 25


ela chegou sem pressa
e de surpresa
tinha a calma de quem
parecia saber
que viria para trazer
doçura

e fazer nascer uma canção
de encantamento
e conciliação

ela cresceu iluminada
de cabelos cacheados
dourada

dona de um afeto absurdo
saiu por aí distribuindo beijos
carinhos, afagos que nunca
poderiam ser negados

mas ela é hoje
ainda uma criança
porque na sua beleza
de se tornar gente grande
guardou aquele olhar
curioso, de quem sabe
que o mundo
ainda tem muito
pra dar

ela só cresce
ela é grande de alma
ela é força tamanha
de ser amor-mundo
como se quisesse abraçar
todo esse mundo

ela é essa energia
em ser
só amor
mais nada

porque amor
é tudo

karine aos 25
é mística
misticismo concreto
de ser pura magia

amor-mago
que conquista
e arrasta
pro universo sem fim
das coisas
encantadas dessa vida

8.11.12

do amor, que nunca é demais

quando chega a sua hora
o mundo estoura a placenta
corporifica um jardim
florido
a vida ganha colorido
diferente
derrete a neve
necessária
e vem a primavera
quente
anunciando o verão
fertilidade

é que de repente
tudo se torna possível
potente

amor é força que move 
de todas as formas
em todas as tribos
o mundo
clichê mais caro
da nossa história
raro
ainda assim

e basta um segundo
pra sua aurora se anunciar

é bem como diz Chico
o amor não tem pressa
ele pode esperar

e quando chega a sua hora
a vida
que é demora
se apressa
em ser inteira
festejar
porque amor é só festa
quando ele vem, só nos resta
aquele se entregar

livres

se não liberta 
amor não é
amor
é o que existe
após a espera
de se tornar
ainda maior
e fazer da vida
correnteza
que carrega vento

vento que sopra
pra fazer voar


5.11.12

uma crônica no dia da cultura


escrevo, nesse dia da cultura, uma crônica do meu dia que, desconfio, pode até falar da cultura, mas não tenho tanta certeza. só sei que eu pensei nela o dia inteiro. então pode ser que sim, que eu fale da cultura. meu dia hoje foi marcado, basicamente, por discussões, leituras e escritas. um dia cultural? eu ia comemorar o dia da cultura no samba da pedra do sal. mas desisti. não consegui quem fosse comigo. e, mesmo assim, talvez eu não tivesse ido, porque fui tomada, como às vezes acontece, pela febre da escrita. eu já havia sambado no fim de semana. e dançado bastante. venho dançando há semanas. dancei charme, até meus pés cansarem. estou cogitando virar frequentadora assídua de bailes charme. essa música se conecta comigo de uma forma estranha, fisicamente interessante. inexplicável. mas tudo está tão inexplicável que pouco importa. um garoto que me viu entregue ao charme veio falar comigo que estava encantado com a minha entrega à dança, que percebia que eu não era da galera do charme, mas que a minha entrega era um encanto. bonito isso. exceto o fato de que essa percepção diz que eu errava mais do que acertava rs. e isso é cultura!

então sim, eu vou falar de cultura. pois bem, tenho insistido com os meus alunos desse semestre para irem ao samba da pedra do sal, esse reduto da cultura. mas do que estou falando mesmo? reduto da cultura! o que será que quero dizer com isso? de toda forma, é de grande importância cultural, e eu queria muito ter ido ao samba da pedra do sal. mas vou na próxima segunda. de qualquer jeito. sozinha, com alguém legal ou alguém chato que eu possa esquecer na cadeira enquanto sambo. talvez lá eu tivesse encontrado amigos ou até alguns alunos, mas eu tive que vir pra casa. até pensei em chegar e praticar yoga antes de escrever, já que hoje não fiz pela manhã, mas fui tomada por essas palavras. yoga é cultura? pensei ainda em desistir de tudo isso e ir à meditação budista das segundas-feiras. mas não era mais possível. e toda segunda é esse dilema. escolher entre o samba e Buda... cultura!

tomada então, pelas palavras, cheguei em casa e não fiz o que quase sempre faço primeiro, que é tirar os sapatos, uma ato cultural de conexão imediata com a natureza. eu liguei o computador. mas precisava comer. a natureza gritava. porque, me conhecendo, sei que esse texto seria longo e eu poderia fraquejar olhando a tela e teclando. caminhei tensa pra casa, lembrando que na geladeira parecia não haver nada sólido. foram muitos dias entre minha casa e casas alheias nesse último mês, que fazer compras já nem sei como é. estive nômade. só lembrava de líquidos. um suco do bem de tangerina já aberto, mate caseiro que eu fiz um dia e esqueci de beber e duas garrafinhas de Heineken pra me sentir James Bond, além da água, claro. não poderia ser esse o meu jantar. alguma coisa eu haveria de achar. e agradeci mamãe que me cedeu belas panquecas de espinafre quando até então eu só comia vegetais. isso foi na sexta-feira. santas panquecas que eu trouxe pra casa e me salvaram o jantar da segunda-feira! ponto pra mãe!

pela manhã, discuti com os alunos qual era a contribuição da ideia de economia criativa para a cultura. talvez, no mundo da superespecialização, falar em economia criativa seja criar ainda mais abismos, já que setoriza a criatividade. mas ainda estou pensando sobre isso. de toda forma, a criatividade (para além da economia) é algo a ser discutido em tempos de disputas necessárias. disputa. desde que conheci Marcus Faustini tenho usado esse termo. ele caiu como uma luva ao meu momento de revisão de conceitos. hoje, em pé na espera da barca para Niterói, eu lia as páginas quase finais do seu Guia Afetivo da Periferia. desde que comecei a ler o livro, e desde que conversamos pela primeira vez, tenho me perguntado quais os inventários possíveis da minha vida, e fico com vontade de também escrever uma autobiografia. caótica assim, como um guia, um mapa de afetos. por alguns instantes, acho engraçado, aos 32 anos, querer escrever uma autobiografia. mas talvez a vontade exista porque eu ache que eu já tenha vivido o suficiente pra, ao menos, contar umas histórias engraçadas, e queira povoar o mundo com mais histórias inúteis. que seja então. ou só porque gosto de contar histórias, e minha vida tem algumas. escrever é minha cachaça. e estou disputando a cidade também, o imaginário, o desejo. estou criando meu espaço-tempo, ou os meus espaços-tempos nas relações todas que tive e tenho. fiquei com a impressão de que encontrar a Agência de Redes pra Juventude e o Faustini (que, em nossa conversa, descobri que havia participado do Inter, o projeto mais amoroso que já fiz na vida), nomeou algumas coisas que estavam sem nome pra mim. de toda forma, falarei com ele sobre isso. e estudarei essas produções de inventários, cartografias e abecedários. amanhã, uma terça, passarei o dia na Agência, porque sei que alguma coisa ali tem algo muito forte pra me dizer. tenho me interessado muito em conhecer as formas de viver que as pessoas têm encontrado nas cidades. especialmente, aquelas que disputam espaços com as hegemonias em favor da autonomia. isso talvez seja minha pesquisa de doutorado. é na ação cultural que as pessoas mais tem encontrado as formas de produção de autonomia? pode ser. 

(pausa: nesse momento em que escrevo uma banda começa a tocar na escola do lado da minha casa. uma bateria forte, uma voz feminina cantando "agora só falta você". afinada a menina, bom batera, guitarra consistente. a música acaba e começa uma versão rock and roll de "preciso me encontrar", do Cartola. isso é cultura.)

mas o grande deslocamento desse dia se chama Slavoj Zizek. nunca havia parado para ler um livro de Zizek, somente artigos. mas hoje era meu primeiro dia de férias da UFRJ. eu estava no centro do Rio tentando resolver umas coisas da trevo criativo, a empresa da qual sou sócia consultora e mais o nome bonito de "articuladora de redes". não consegui resolver o que deveria, não por mim, mas pela desorganização alheia. resolvi entrar na livraria porque ainda tinha a esperança de ir pro samba. fui pra Travessa, pedi um café, uma água com gás e abri o computador. escrevi. uma mini autobiografia para o meu blog (estou verborragicamente egocêntrica), porque vou transformar o blog em um espaço para quase tudo que eu crio. então lá haverá um "quem sou eu". pois bem, cansada de escrever, eu desci e fui ver o que as estantes me trariam, já segurando a mão pra não pegar na carteira e comprar mais um monte de livro que vai ficar esperando o dia de ser lido. Zizek me chamou por um título: "órgãos sem corpo"; em uma alusão clara ao corpo sem órgãos de Deleuze. eu, que desde que conheci Deleuze, andei de mãos dadas com ele, fui lançada no vazio. Deleuze como o filósofo do yuppie... Ok, nada tão estranho. Mas ao ler um dos capítulos de "em defesa das causas perdidas" era como se Zizek me olhasse e falasse: "tolinha. você fica acreditando no trabalho em rede achando que isso é uma revolução, e é só mais uma  forma de atualização do capitalismo". tá, tudo bem. até já pensei sobre isso. bastante. mas a forma como ele faz uma crítica à ideia de multidão de Negri, que também muito tem de Deleuze e, por sua vez, de Spinoza, da inteligência geral como o auge do capitalismo, em que este mesmo se extingue, numa perspectiva marxista totalmente tradicional, mas atualizada na revolução do digital, desloca totalmente o ser humano apaixonado. porque me apaixonei por Deleuze. a tal ponto de usar o Mil Platôs (sua fantástica cooperação com Guattari) nas aulas de política cultural, em que sentava à vontade na mesa da sala, abria o livro e jogava para os alunos: e aí, o que tem as máquinas desejantes a ver com a política de cultura?

resisti o quanto pude a comprar o livro. vamos ver o quanto aguento. mas desde que terminei o mestrado eu prometi pra mim mesma que deixaria um pouco a leitura filosófica de lado para me dedicar mais ao corpo, à poesia e a práticas diversas, para diversificar o meu olhar e minha perspectiva e retornar à filosofia depois dessas novas imersões. tenho conseguido. mas Zizek não me sai da cabeça. porque falou diretamente comigo, não só por me provocar, porque essa crítica a Negri eu mesma já fiz. até mesmo ver Deleuze como alguém que fala direto ao jovem empreendedor não é de todo estranho. e de alguma forma, eu sou uma figura que passeia entre o empreendedor e o artista. uma figura-nada. mas a forma como faz Zizek é que me pegou. a forma consistente numa escrita avassaladora. porque tenho essa relação com a escrita, que passa pela estética. a plasticidade, a sonoridade, a construção, elas me encantam. antes de pegar o livro de Zizek estava folheando um livro do Pierre Levy, já conhecido, tentando reencontrar nele o que me fez ter como primeira ideia de monografia e depois de mestrado falar sobre a Internet. mas eu ainda não sabia muito bem o que falaria naquela época, não havia subsídios que me ajudassem naquele ano de 2003. e optei por falar da cultura, querendo vê-la pela ótica da teoria da ecologia profunda e das redes cibernéticas. um trabalho de filosofia. e assim a cultura me persegue desde então. no mestrado lá estava eu, na busca de entender o sentido contemporâneo de cultura, levada por uma metodologia foucaultiana, outra das minhas paixões. essa cantora careca. nunca vi um sadomasoquista escrever tanto... mas também nunca conheci um. não que eu saiba. e aí veio o Zizek com sua cara de garoto problema. preciso lê-lo. se vai ser agora não sei. mas sei que preciso.

me pergunta se isso é cultura!? não sei. e se eu tivesse ido ao samba da pedra do sal chegaria a tal verborragia? talvez essa verborragia seja cultura, e o samba seja natureza pura, porque é ritmo, sensação, batucada, paixão, crônica da rua. espontâneo. mas essa separação cultura e natureza é um dos grandes problemas do mundo. então é melhor parar por aqui, ou farei uma tese. isso é cultura.

sei que, chegando em Niterói, dois casais, por algum motivo, me chamaram a atenção. eu estava com a cabeça cheia. fechei o livro do Faustini e segui andando pensando no filho da puta do Zizek e em como tudo isso havia me dado uma vontade absurda de escrever sobre cultura, mas eu nem sabia por onde começar e a única coisa que me vinha a mente era fazer um texto sobre tudo isso, por que não. comecei a desenhar o texto na cabeça. sem forçar a barra. o texto se esboça sozinho. ao mesmo tempo um diagrama da trevo começou a aparecer na minha cabeça. desenhei na mente esse diagrama pra desenhá-lo no papel, porque agora sei o que a trevo pode ser em potência. mas isso é assunto pra outro momento. no meio de tudo isso, eu aflita na minha sede insaciável da escrita, vivo a seguinte cena. uma garota corre em direção a um garoto que a esperava na saída da barca. os dois se abraçam como se quisessem se fundir um no outro. e choram. aquilo me arrebata de uma tal maneira que paro e fico olhando a beleza daquela cena. eu que estava tão submersa em pensamentos, sou arrastada por isso. paro alguns instantes e meu coração aperta, como se se sentisse sufocado de tanta cultura e quisesse também um abraço dessa intensidade, e só um abraço assim fosse capaz de me aliviar o peso que às vezes querer tanto causa nessa vida. e eu sei, eu queria sim um abraço como aquele. por isso saí com um sorriso no rosto, feliz por eles. aquele abraço já não devia estar aguentando pra ser dado. ufa, me aliviei por eles. quando atravesso a rua um outro casal. sem que eu me desse conta, de repente estava na frente de um jovem casal brigando. o garoto rasgava um papel com fúria. uma carta, um poema? vai saber. aquilo também foi pra mim um gesto que me aliviou. porque às vezes tudo o que a gente quer é rasgar com toda a nossa vontade o que já não faz mais sentido. e eu continuei andando a pensar o que não faz mais sentido na minha vida. e percebi o quanto, nessa hora, difícil é discernir desejo, de intuição, de cultura, de autonomia. mas é preciso fazer esse exercício. e, assim, ia construindo o texto, andando rápido pra chegar logo em casa. nessa febre de andar rápido, passa ao meu lado um garoto num skate. usava blusa verde, all star vermelho e tinha cabelos negros quase até a cintura. me chamou atenção de cara. foi engraçado porque lembrei do Shiryu, meu cavaleiro do zodíaco preferido. a associação foi imediata. Cavaleiros do Zodíaco marcou minha adolescência (tenho todos os episódios no meu computador, e ainda salvos no HD externo), e lembro que imaginava que se o Shiryu fosse de verdade ele seria muito gostoso. pois aconteceu do menino dar uma tropeçada no skate e o seu skate cair na minha frente. e ele veio pegar e me olhou com profundos olhos negros que me fizeram tremer na base. como era bonito a criatura! mas ele só olhou, pegou o skate, não disse nada e foi embora. tanta coisa me distraiu num trajeto que não durou nem 10 minutos, mas elas na verdade alimentaram o meu texto e minha reflexão sobre cultura. assim, pensando nos casais, nos meus inventários, no garoto do skate, no Zizek, no Deleuze e nos desejos todos desse momento da minha vida me pergunto: mas porque um dia da cultura? o que isso quer dizer? porque eu, como produtora cultural, pensadora que faço questão de ser, poeta, professora, palestrante (pode?) não consigo simplesmente escrever nada nesse dia sobre identidade, política, economia, do in antropológico, lei Rouanet e nem mesmo sobre contracultura e aquela alegria toda hippie? nem sobre o meu trabalho?

então eu acho que estou chegando àquele estágio tal de imersão numa questão que tudo parece ser uma coisa só. tântrico isso (talvez porque eu esteja estudando o tantra na sua radicalidade imanente?). e quando começo a pensar sobre cultura não consigo esquecer a natureza. lembro que estou devendo minha dissertação pra um mundo de gente que prometi enviar, e que preciso fazer isso. lá eu falo de cultura até dizer chega, e da natureza. cultura talvez seja a palavra mais presente na minha vida. porque briguei com ela durante muito tempo. a cultura nos afasta (pense só...). mas aí eu entendi que nós, cada um de nós, é que fazemos a cultura, e que ela pode ser o que quisermos. 

a segunda palavra mais presente na minha vida deve ser paixão. dizer que a cultura pode ser o que a gente quiser é uma fala apaixonada! e pra mim, paixão é natureza. eu escrevo, e isso é cultura. mas escrevo porque estou apaixonada por uma ideia, um texto, uma vontade de expor tudo isso. isso é natureza. natureza é aquilo que é espontâneo? se for assim, eu tenho sido mais natureza que cultura. a tal ponto de me contradizer o tempo inteiro, de escrever poemas chamados de últimos mas que não são nem os primeiros. ao ponto de viver o conflito "expor ou não expor", eis a questão. mas sei que meu combustível tem sido a paixão porque estou despudorada. perdi o medo de me expor. posso não me expor por outros motivos mais nobres mas, por medo, de forma alguma. quando fiz uma consulta ayurvédica há um tempo atrás a terapeuta descobriu meus doshas (constituições de todo o universo) dominantes: pitta-vata, com desequilíbrio de vata. isso quer dizer o seguinte, em linhas bem gerais e de forma bastante ordinária. pitta é regido pelo fogo. quem tem predomínio do dosha pitta é movido pela paixão. vata é regido pelo ar. quem tem predomínio do dosha vata gosta de diversidade, pensa muito e quer tudo muito. se está desequilibrado, o que é o meu caso, a pessoa sofre com insônia, dispersão e fica literalmente voando por aí. que combinação, pensei, quando ela me falou. e me passou uma dieta que acalma meu vata e regula meu pitta. mas acho que estou é estimulando pitta sem acalmar vata. há tempos que não me lembro de estar tão apaixonada. tanto que preciso ter o cuidado de não me sabotar em nome daquilo que me arrasta. não falo apenas de estar apaixonada por alguém. falo da paixão de estar vivo, de se descobrir potente, de mudar tudo sem o menor medo do que estar por vir. de fazer revoluções a cada minuto. faz uns quatro meses que minha vida deu uma guinada. foi como se de repente tudo, absolutamente tudo, precisasse ser revisto. e foi doloroso. mas foi necessário. ainda sinto os efeitos. foi como uma tsunami. os estragos estão por toda parte. mas as casas começam a se reerguer. nunca escrevi tanto. escrevi em quatro meses mais do que escrevi no ano passado inteiro. ou não teria conseguido lidar com tanta mudança que eu mesma provoquei, até certo ponto, o que torna tudo mais difícil. mas era preciso. era preciso para que eu não sabotasse o meu desejo. e o desejo só apontava pra um lado: mudança, porque a mudança era o desejo. minha bússola é como aquela do Jack Sparrow, aponta pro desejo. onde fica o norte e onde fica o sul não importa. eles se reconfiguram o tempo inteiro. fico procurando uma imagem que possa sintetizar esse momento de tanta migração. ainda não achei. o mais perto que cheguei, tatuei no meu corpo no mês de agosto. uma gaiola aberta com um pássaro voando. para onde ele está indo não faço ideia. só sei que ele precisa ir. cultura? natureza? só voando longe pra saber...

e foi movida por paixão que eu havia resolvido fazer uma viagem nessas breves férias. pensei nela o dia todo também. porque amanhã, se isso tivesse vingado, eu estaria embarcando pra Patagônia ou pra Bolívia. passei noites pesquisando os lugares, preços de passagem, esperando encontrar passagens mais baratas, vendo albergues, pensando na roupa de frio, e em como o gelo ou os desertos me colocariam num contato profundo comigo mesma. mas, de repente, uma surpresa. mudança de casa. e foi preciso aceitá-la. e se tornou quase insuportável a ideia de viajar sabendo que eu chegaria e voltaria pra minha casa solitária em Niterói, como uma pendência mal resolvida. era como viajar pra esquecer um problema e voltar e encontrar tudo de novo. faltava ainda essa mudança, entendi. porque a casa como existe hoje, nessa cidade, já não faz mais sentido. venho pra casa já em tom de despedida. chego em Niterói já na ânsia dos dias em que a barca será substituída pelo metrô. confesso que isso me angustia um pouco. perderei o mais belo de morar em Niterói, a travessia quase diária pelo mar, para passar por um buraco onde as pessoas desfilam suas caras de cansaço. mas tudo bem, buscarei a poesia do subterrâneo. questão de sobrevivência, questão de vida. Niterói se tornou um marasmo. mas, mais que isso, eu já não me sinto mais parte de Niterói. isso já faz um tempo, e já há algum tempo venho esboçando a mudança para o Rio. mas eu precisava de uma chacoalhada pra isso. e ela aconteceu. vamos eu e dois amigos. três pessoas sedentas por mais movimento. vamos fazer saraus. vamos viver no caos. porque é isso que agora queremos. e se tornou também necessário economizar, aprender a viver com menos. eu que deixarei um emprego no próximo mês... para ter mais tempo pro prioritário, para ser mais leve, para ter mais arte e para viajar mais. e organizar uma pequena volta ao mundo. ir à Índia, finalmente, depois de tantos anos praticando yoga, estudando aquela loucura de país que me atrai e provavelmente vai me deslocar de forma assustadora. tudo isso é cultura? sim, acho que tudo isso é cultura. esse deslocamento sem dúvida será um choque cultural. e falar de mim é falar da cultura. cada um que fala de si fala tanto da cultura quanto da natureza. sendo assim, acho que falei da cultura nesse dia da cultura. eu que tenho lido os poemas eróticos e de amor de Hilda Hilst e escrito também alguns pra mim, e fico pensando em como Foucault foi feliz ao escrever a história da sexualidade como uma história da própria construção do ser humano como sujeito. porque o sexo nos desafia, ao estar na fronteira da cultura e da natureza.

e agora chove lá fora. e isso não é cultura. muito embora meu pai tenha me dito que hoje existem tecnologias de manipulação localizada do clima. medo disso... medo é cultura e natureza. eu sinto uma melancolia gostosa das noites de chuva. bom, isso é cultura? na verdade, eu percebo, que se é cultura ou natureza não interessa, gosto mesmo é de estar nas fronteiras. prefiro a exclamação do tudo pode ser! porque, em suma, tudo pode ser o que quisermos, do jeito que quisermos. basta termos isso no horizonte e disputaremos pelo nosso espaço-tempo. isso é cultura. isso é natureza. isso é ser humano. isso é beleza. 

em Niterói, 05 de novembro de 2012, finalizado às 23h05

4.11.12

o último poema


é chegada a hora do silêncio

uma hora de faxina

muitas caixas
serão necessárias
alguns buracos
algumas estradas
para novas esquinas

é chegada a hora do espia
pra que um dia
o peixe certo venha à rede

é chegada a hora
de pôr em questão
toda melancolia

de esquecer o passado
tanto quanto o futuro
porque é hora
de concentração

pouca noite
muito dia

é chegada a hora

de deixar cair os pesos
de quebrar os totens
já que é tudo pedra mesmo

é tempo de clausura dos desejos
um tempo de meditação
e calma, espinha ereta
para saber o que fica
e o que parte
nessa vida

uma nova casa me espera
uma nova vida já começa
um novo sentido pra existência
precisa ganhar corpo
ainda mais

porque ainda é cartilagem

o que expor
na hora certa
e a hora de calar-se

sabê-los é liberdade

2.11.12

revelação


a poesia é uma vadia
que escancara tudo
poderia ao menos, ela,
ser um pouco mais reservada,
sentar de pernas cruzadas?
mas a poesia é apaixonada
e livre
e de tão livre
não esconde nada

2/4


à doce melancolia do samba
meu coração, que é bamba, não resiste
e canta, como se amanhã
o mundo não mais existisse
canta aquele rio que passou em minha vida
e levou meu coração
que assobia
rio denso, águas turvas
o samba, nesse corpo enluarado,
me alivia

a poesia de outubro

o mar é minha calma
nos dias frios
tão mais meu
no maremoto interno
silábico, de mim

e me ensina
a ser
silêncio

queria saber
como não precisar das palavras
eu que me lambuzo nelas
até engasgar

pois depois de um tempo resistindo a ele,
o silêncio,
ao reencontro com o que desejo
de mais intenso,
a estar só

depois de algum tempo resistindo
a um choro que nunca veio...
eu chorei esse choro

chorei
porque não era possível não chorar
chorei como se chorasse pontos de exclamação

porque sou também aquele humano
demasiado humano
para além das ficções que criei

e minhas personagens me pareceram frágeis
quais ainda me servem? devo perguntar

um mito é em parte verdade
em parte uma grande miragem
e tudo o que eu mais queria agora
eu não diria à ninguém nessa hora

simplesmente porque um dia
ficará escancarado
nas estradas quentes da vida,
que só existe porque pulsa
(e até no gelo, é energia pura)
se assim ficar em mim
e se os pré-conceitos todos
alheios
não vierem impedir
que o muro, esse esteio,
seja derrubado

mas hoje eu quero apenas o silêncio
tão somente porque
amanhã
ele dará lugar ao maior ruído
que já fui capaz de produzir

então, me calo
e me acalmo com massagem
no olho da intuição

me espetam agulhas
e respiro mais lentamente
em busca do equilíbrio ausente

e na consulta do oráculo,
I Ching que me abre a mente,
descubro que, para mim,
está reservada a maior das alegrias

me calo
porque o som haverá de vir
e depois do ruído intermitente
se transformará
saindo da casca monofônica
em bela música polissêmica
para ser flor exuberante
que cresce
justamente
onde não pediram pra crescer


---

tanto nessa vida nos separa

tanto que nem sabemos de onde vem

meios de transporte inexistentes
redes descompensadas
conexões com interferências
línguas com lógicas diferentes

histórias
medos, dogmas
rigidez

tanto nessa vida nos separa
que ao haver o encontro
ela, a vida, deve ser celebrada
e quando ele vem
o cosmos se reorganiza
e faz música para ser dançada

pois não há nada que justifique mais a vida
que o momento em que se reúne os amigos
e todas aquelas pessoas queridas

em que um beijo desejado acontece
em que um abraço conforta
e uma voz amiga é ouvida

em que o mar se anuncia belo
para mergulharmos fundo
e o sol é visto da janela
naquele dia de sair
da casa para o mundo

em que uma chuva fina
embala o sono das crianças
e a penumbra no quarto dos apaixonados
à procura de uma rima

toda casa deveria ter uma mesa redonda
e uma cozinha cheia de gente
de onde sai aquele cheiro de bolo
e onde bebemos uma cerveja gelada

todos deveriam ter também aquele momento
em que se põe uma mochila nas costas
e se vagueia por aí
momento de se deslocar
a encontrar encontros novos

o desencontro lhe parece um padrão
num mundo de desventuras sofridas?

mas já dizia o poeta
a vida é a arte do encontro!
embora haja muitos desencontros pela vida...

pois o encontro
quando se dá
desloca a linha confortável
do que até então
era a nossa verdade iludida

e põe no chão a verdade
para dar lugar à intensidade

da qual não escapamos
queiramos ou não

a vida é a arte do encontro
embora tanto nos separe
nessa vida


---

bebo, em plena segunda-feira,
a música está alta
como eu
sou espaço
imensidão
e nada vai tirar de mim
essa amplidão
eu sou o próprio movimento da vida
a poesia escarrada
na cara do medo
pode vir
eu só tenho cores pra você
pode chegar perto
é isso mesmo que eu quero
eu estou aqui
feliz
curtindo tudo que é tão novo
que me faz
imperatriz
uma carta de tarô
da liberdade
eu escorro pelo céu
eu sou papel que se desfaz
quando encosta na pele
pois derrete
eu sou imã
atraio o improvável
eu sou tesão
de ser
eu mesma
fogo
e todo elemento que se queira
arde tudo ao meu redor
no rádio a canção é só minha
pra que eu multiplique
minha paixão
louca
e alucinada
pelo mundo todo

eu sou o próprio sol que brilha


---

talvez tenha eu, perdido,
os últimos delírios que escrevi pra ti

num pen drive quebrado
ficaram lá guardados
aqueles poemas que nunca serão lidos
muito menos reescritos
porque não existe, nessa vida,
a possibilidade da reescrita

tudo é sempre novidade
até mesmo quando a gente
reescreve
achando, em nossa ignorância
diante do universo,
que as coisas se repetem

o retorno existe
mas não sou Nietzsche
e acredito:
o retorno existe
pra mudar todo ponto de vista
e, assim, insiste

---

26 de outubro

saio em festa
não tenho mais dinheiro
o mês acabou

mesmo assim 
saio em festa

não vou mais viajar
vou me mudar

porque tudo já mudou

colocar no eixo algumas fitas
outras alegrias, deixar descarrilar

sou nesse fim de mês
uma mulher sem nenhum dinheiro
com o coração fisgado
por um aventureiro

o corpo enlouquecendo 
pra tudo que é lado

com negociações pra fazer
projetos para resolver
empréstimo pra pagar
coisas para encaixotar
yoga pra desenvolver
música para retomar
viagem pra organizar
alunos pra dar nota
fim de ano batendo à porta

muito acontece nesse corpo
que dança doido por aí
um samba, um rock, um xaxado
a procura de um açaí
que dê energia pra seguir

mas que importa a multitude
se é justamente nela que me encontro!

é por isso que hoje
quero gritar
que sou, como o louco,
a mais feliz das criaturas

pois a felicidade
descobri ser o clichê, verdade

ela está dentro

ela está em aceitar
o que a vida, sem escolha,
põe no seu caminho para ser seu
seja isso doce, vinho
ou o amargo de um domingo sozinho

ela é a lua em Santa Teresa
vista na descida da ladeira
e a incontrolável força do acaso 
do que tiver que ser

é fim de outubro 
e estou feliz

não sei o que será disso
mas o que for, terá sido 
infinitamente
maravilhoso
ter
vivido

crônica de um fim de semana de um mês já passado


estou trocando a pele nesta noite de domingo.
aguardo, com as unhas cor de vinho,
que meu coração suspenda a ansiedade.
aceito o triunfo da fortuna.
é preciso deixar o universo agir.
foi-se a sexta e sua euforia.
foi-se a sexta de um embate.
interminável reunião.
foi-se a sexta da obrigação.
a sexta que da calmaria passou longe
e me deixou ansiosa de vontade...
foi-se o sábado.
de mais um ano do homem que me deu à luz.
este que me ensinou a lutar,
ainda que sobre isso as palavras nunca venham entre nós.
foi-se o sábado da prosa boa com a avó.
e eu que tanto busquei por uma história pra um romance,
tenho-a agora em minhas mãos.
uma família e cem anos de solidão.
histórias e pessoas que só então eu soube que existiram.
homens e mulheres que viveram noutra época.
alguns que morreram de amor.
foi-se o sábado de reencontros daquela família.
o sábado longo, de sol e de lua.
o sábado da volta tua.
e de uma noite em que era preciso distrair-se.
foi-se o sábado do baile
e do bonito menino de óculos grandes, aniversariante.
foi-se um sábado charmoso em que nossos pés,
embora cansados, agradeceram a alegria.
e, também, o abrigo da amiga.
e já está indo o domingo.
eu, de unhas cor de vinho e escrevendo com fome, quase desisto.
mas a desistência é só um charme.
porque sei que desistir não é meu forte.
e vai o domingo de um telefonema.
o domingo de uma angústia que quer descansar
e um corpo que busca por novos dias de glória.
vai-se o domingo de quem chegou naquela praça
e percebeu que ali existe uma memória, doce.
e dali foi um mundo até o destino,
e a vontade era fazer uma loucura.
músicas no aleatório.
e que aleatório viciado!
arte pra esquecer o cansaço.
Elis no coração.
choro reprimido vindo como rio.
cansaço. desejo de brisa. calmaria.
eu seria qual dos corpos pendurados?
foi-se o domingo onde, na embarcação,
aleatoriamente sentei do outro lado.
e foi o esplendor do sol a tardinha,
quatro cores no céu, mar brilhando de paixão.
um veleiro foi passar justamente àquela hora...
como se o mundo soubesse o que me alivia.
sem horizonte, o que me faria acordar?
é o horizonte que permeia minha arte.
é ele que atiça minha vontade.
permaneço com os olhos voltados para ele.
sem ele, eu talvez desistiria.
porque meu corpo quer tudo,
absolutamente tudo que ele pode ser.
e agora percebo.
que podemos, todos, ser uma só canção de amor.
e como virá o sono depois de tudo isso?
esse que tanto se prejudica com a fome de viver?
de um corpo que tanto quer e não há meditação possível
que o tire a vontade de ser uma explosão...
ele virá. terá que vir. terá que ser.

ele virá.

29.10.12

vanessa


venha vida!
venha com tudo!
mantenha-se no ritmo que está
e continue me trazendo
essas coisas todas
que havia reservado
para que só chegassem agora

passaram-se os anos

foram intensos
foram necessários
foram dolorosos

e então,
eis que é festa o meu coração

ainda tateando...
mas pulsa mais leve
anda de saia
que balança com o vento
se ele sofre?
mas é claro!
porém, hoje, ele ri
hoje, ele respira

então pode vir
que a porta está escancarada
e o que eu era já não mais reconheço
sou agora mais o que eu quero
cheguei em vários pontos
de outros estou perto

sou um desejo incontrolável de viver
porque hoje sei
que tenho a força necessária
para só ser

a borboleta
saiu do casulo
agora voa
e mais nada
sua missão
já estava cravada no nome
desde antes de nascer

essa, cujo nome
foi criado num poema de amor
e, vejam só,
por um escritor

25.10.12

mensagem na garrafa


o que pode,
um encontro de oceanos,
ser capaz de produzir?

nado num mar desconhecido

eu, atlântica
você, pacífico

como escrevi um dia
tomada por uma febre,
também ela, oceânica

pergunto
se será tsunami
sudoeste
ou calmaria

estarão os barcos
à deriva?

cada um de nós
imensidão
tanto ainda desconhecido
lá nas profundezas escuras

cada um de nós
amplidão

mas para alívio do corpo marítimo
o tempo do oceano é longo
e nos recorda que as marés
se renovam no dançar da lua

num piscar de olhos do planeta
de repente, tudo muda

o garoto do 415


reparei em você
calado
em pé num 415 lotado

era bonito
tinha rosto de menino
embora cansado

parecia não ser mais
tão menino assim

eu te olhava
você me viu
acho que gostava
da música que eu ouvia
quando sorriu
lendo meus lábios
ao me ver cantarolar

minhas tatuagens
chamavam seu olhar
e eu cantava despretensiosa
espiava da janela, a noite

eu poderia ter falado com você
e até agora
passado algumas horas
não sei porque não o fiz

nem você, me pergunto

eu não precisaria saber seu nome
você era lindo
você tinha barba
cabelo claro despenteado
e usava óculos

quanta imaginação
se passou dentro de mim, garoto
naquele trajeto longo

quem sabe não era você
quem viria me aliviar
a angústia de uma paixão doida
que me toma o dia

como se eu quisesse deixá-la...
essa paixão que tanto tem a minha estima
porque é pura vontade de viver

mas às vezes
a saudade é física
mesmo que tenham se passado
tão poucos dias

e como manter viva a alegria
sem deixar que tome o gozo
uma melancolia cinza
de querer o outro
na forma concreta do corpo?

quem sabe o seu mundo
não seria capaz de me arrancar do céu

você nem precisaria
dizer seu nome
nome é o que menos importa
nem quereria saber a sua idade
eu queria apenas o seu mundo
suas vaidades

mas não falei com você

desci antes
você seguiu em frente
quem sabe um dia a gente se esbarra
no ônibus ou na rua

eu não sabia de onde você vinha
nem pra onde ia

quem sabe não serei sua vizinha

quem sabe não era você
uma alegria furtiva
de um fim de dia
onde, por alguns instantes,
eu esqueceria
o que nem sei se é preciso esquecer
mas quem vai saber...

21.10.12

into the wild


such is the way of the world
such is the passage of time
too fast to fold

é por isso que minha poesia
fala somente ao que me toca
porque aquilo que me toca
faz a vida cumprir seu desígnio
de ser grande
simplesmente porque é
o que não se pode negar
aquilo para o qual
não é possível fechar os olhos

selvagem

assim, quando falo de mim
falo do mundo
não do ego

sou uma mulher que corre com os lobos
que vê a vida como um grande livro
e não se contenta em ler apenas
as primeiras páginas
que tem medo
mas deu a mão à coragem
que vai
porque ficar é morrer devagar

que se lança ao mar,
à montanha, ao amor,
ao novo e sua violência

porque amor é liberdade

e perto da natureza selvagem
é onde me sinto melhor
onde tem suor
corpo, terra,
água, vento,
música
silêncio

com tudo isso
faço da minha poesia
o maravilhoso do dia a dia
porque faço do dia a dia
o maravilhoso

quis ser cineasta
porque penso em imagens
descobri que faço imagens
melhor com as palavras

é com elas que conto do meu mundo
é por elas que passa o meu desejo
e minha palavra nada tem de estéril
ela é fértil
nada hermética
ela é festa com meu corpo
e meu corpo é festa

se escrevo
e publico
hoje posso ter uma certeza
a de que o medo
não merece minha atenção

o que sinto sou eu
e o que sinto não é mais que vida

agora, por exemplo,
chove
torrencialmente
quase não tenho luz
quase não escuto minha voz
meus dias foram intensos
e a chuva chega em boa hora
vem brindar a novidade que hoje sou

have no fear
for when I'm alone
I'll be better off than I was before

fragmentos de uma carta para ele


do seu olhar escandaloso

alivio um grito
do alto do meu ego destruído

respondo pela calma
em ondas de respiração profunda
(e é preciso ter postura)

por isso durmo
clamando por nada
por um espaço vazio de sentido
em uma existência apaixonada

acreditando no acaso
e também nas suas falhas
de tempo que se esgota
quando o acontecimento
se instaura

e não me farei de morta!
dança, solitário,
um Dionísio nascente na minha porta

porque não existe força que se atente
para essa ausência desmedida
e eu busco as palavras
por falta de algo mais certeiro agora
pra dizer o que eu não diria

ao menos não escondo
um sorriso errático
que busca pelo teu
encantado

sou estrela em combustão
te conto uma história
e deixo transparecer
que quero a aurora de dias mais leves

faço poesia
como quem faz o bolo pra o café
pra que o teu olhar subterrâneo
me desperte essa fome sem tamanho

no fundo desses olhos castanhos

pra que a arrogante palavra
não possa se instaurar
no meio de quereres tão libertos

você, ao meu lado,
um banco de metrô,
coração batendo e respiração
os olhos cansados
quando pega a minha mão
é roda girando nesse mundo inacabado

nada me escapa
de que teu querer estranho,
que não diz nada,
me ocupe a sede, a fome
e faça o corpo estremecer

um abraço poderia fazer
parar o tempo e a máquina
e a roda da fortuna
pela qual nos chocamos
encontrar o passo certo de girar
no embalo do encontro

e produzir som

uma música desconhecida
que a nada se referencia
que não se encaixa em melodias
pré-concebidas

vai saber...

quem sabe ela é tão desconhecida
que desconcerte esses nossos passos errantes
que vagueiam pela vida curiosos
querendo tudo e tantos lugares

solfejaríamos tanta dissonância
que a música jamais ousaria ser a mesma

porque ser livre
é condição de ser inteiro

e nesse te querer tanto,
acaso repentino,
nessa peça que a vida pregou
e que me acalma o espanto
lembro novamente dos seus olhos

de olhar escandaloso

pelos quais sou carregada
a um universo cujas palavras ressentem
porque são incapazes de dizer
tudo o que o corpo sente

nos teus olhos
a vida abre as portas pra intensidade
e a verdade é que
independente do que pode vir a ser tudo
seremos sempre almas inquietas
cujas formas se amoldam ao mundo
e que desejam todo o universo em combustão

todo o universo
profundo

---

de tanto te querer

de tanto desejar a lua
e castelos de areia
a obscena aura do deserto
me levou até você
numa carruagem torta
por um caminho longo

numa caravana nômade
com cheiro de especiaria

no sonho onde beijo sua face
como se beijasse o mundo
e tudo é um mágico
e iluminado segundo
que faz girar a Terra
e é capaz de cessar uma guerra

de tanto desejar o sol
uma aurora avermelhada
me leva sempre até você
onde quer que esteja
esse seu rosto claro
essa maneira certa de ser
uma encantada existência
que é vida potente
como grandes árvores
que não cansam de crescer
e carregam seu sorriso intenso
força errática, denso

de tanto desejar o mar
o azul ultramarino se fez anfitrião
e nos pores de sol diários
quando o róseo se apossa das montanhas
o desejo retorna
não descansa
é aço que derrete no fogo,
porque ama,
e um coração em eterna lembrança
da fome e da aventura

nunca esqueço
que amo nessa vida uma só coisa,
ela mesma

e de tanto te querer
quero tão mais a vida e os paladares...

... que a poesia de repente retornou festeira
fazendo carnaval o tempo todo
e me levando a buscar venturas perigosas
ainda mais sabores
ainda mais delírios
ainda mais seu beijo

e beijos sem fim pelo mundo
carnaval em peso

ainda mais
porque não pode ser de outra maneira
ainda mais
porque só pode ser o corpo
ainda mais porque é sincero
e, por isso, puro
ainda mais porque é pura vontade de existir inteira

de tanto desejar o mundo
no mundo eu dei a volta
e retornei ao ponto inicial de uma memória

muito se passou nas madrugadas desses tantos anos
muito existiu até que fez de ti um novo ponto

e de tanto te desejar um novo ponto,
eu sou alma imoral renascida num deserto branco

o coração vagueia a procurar sentidos tortos
porque sabe, não há sentido possível nessa teia

mas a busca vã não me tira essa alegria
do existente, do imaginado e do presente
ela é carruagem a trazer novas especiarias
caravela para me levar pra Índia
paraquedas para me lançar em queda livre

fundo

ser alma ensandecida
ser um corpo entregue, fecundo

de tanto te querer
hoje eu quero mais

a vida

na poesia de Hilda
na ópera que agora escuto
na montanha de gelo que encontrarei um dia
nessa tessitura
onde eu sou um barco que navega por paixão
e você um nó
de uma rede de afetos que me tomam

eu queria ser agora uma fotografia
para eternizar um sorriso meu que é só seu
porque de tanto te querer, moreno,
hoje eu quero tudo

----

o gato de Alice

eu te olhava
ali
sentado
na minha frente

(bebíamos)

eu te dizia
tudo

(chovia)

eu era clareza
eu era saudade
eu queria
você

eu era

vontade

mais uma vez
sua mão
pegava na minha

na praça
madrugada
eu quase dormia
no seu ombro
mais uma vez
o tempo

pairava no ar
desejo
nessa noite
de outubro

eu iria
eu teria ido
pra casa
não fosse o que me arrasta
pra você
eu iria
pra onde me levasse
e fui

não!?

eu vou
quando quiser

eu só queria
cada pedaço
seu
um pouco
mais

(e que foram meus)

cada pedaço
da sua fala
da sua existência de gato
que aparece e desaparece,
deixa um sorriso
e Alice fica a perguntar:
e agora, o que será?

mas que importa
a vida
é sempre uma surpresa

eu não te perguntei
você não respondeu

estou
leve
estou
sentindo
ao som de guitarras

e eu seria um rock'n'roll

por isto
farei disto
uma música pra você

pra esse sorriso
que fica
no ar...
até desparecer

26.9.12

numa noite de chuva


minha sapatilha vermelha
encharcada da chuva
só desejava vagar

tudo parecia incerto
mas foi certo como poema feito pra chorar

ela buscou os amigos errantes
e foi na sua errância sentar só

pediu uma pizza, uma cerveja e uma alegria
não aceitou a burocracia cinza
da fila e do transporte
daquela gente toda com cara de apatia
tão apegadas às suas casas
que esquecem que existe poesia
apegadas, todas elas, a uma sobrevida

que atravessam o mar todos os dias
e, moribundas, só esperam a hora de chegar na terra

respirou fundo
aquela sapatilha vermelha que foi vagar
mandou mensagens para os queridos e recebeu uma resposta
a resposta certa de uma alma errante
cumprindo deveres que a errância não entende
mas precisa aceitar

mas, nossa, que alma alegre!
eu devia era ter te sequestrado

e essa chuva então...

com o esmalte vermelho paixão
sentei na mesa coberta por um toldo verde
e lembrei também do amigo Juba, meu amor de vento,
das noites que ali passamos em nossas gastronômicas orgias de sabor

pra ti também mandei uma mensagem
e sei que um dia ela será vista e respondida
e você vai ser um grande mensageiro
com as mãos repletas de amor e busca

(posso te encontrar lá na Tijuca dia desses
naquela casa mística do reiki)

pois lá, na nossa mesa, bebi uma Budweiser 600ml
na mesa, abaixo do toldo
aquela alegria toda de poder vivenciar o Rio
parecendo minha terrinha lá na serra
uma chuvinha, uma neblina, um ar noir
só não pedi vinho pra não ficar romântica demais
e a cerveja pareceu cair melhor

e como ela, a poesia,
não haveria de vir?

chovia
eu queria botar pingos nos is
mas descobri que o alfabeto é mais extenso
e esqueci essa história de querer manter a lógica
eu senti, sentei,
chamei o garçom e fiz o meu pedido

chovia
no toldo, o barulhinho bom da vida
a luz, ofuscada,
criava no poste aquela atmosfera de mistério
uma ópera tocava no som
ninguém ao redor
todos fugiam da chuva dentro do salão

e lá estava eu,
unhas vermelhas, vestido de renda preta,
rodado, cintura definida, curto pra mostrar a tatuagem
fazendo pose de "oi, vida, estou aqui", mangas compridas,
perfume de limão e coração tranquilo

como companhia, aquelas edificações antigas
aquela música maravilhosamente invasiva
aquela beleza toda das portas já fechando
e dos cachorros a procura de abrigo

até um professor querido veio fazer parte da memória

e ao fim
eu era uma pluma jazzística
eu era botão de rosa abrindo
eu era a moça que conversa com a garota de programa
eu era uma ajudante de mendigo
eu era a terapeuta do garçom
eu era a estranheza dos casais que passavam
e tinham cara de enterro

eu era Virginia Woolf
e contemplava as horas densas da noite molhada
eu era Gullar na noite veloz da minha cidade apaixonada
e um Maiakóvski ardente querendo desorganizar
(e olha, poeta, que bem falei com teu xará hoje
e, pra variar, divagamos sobre a vida)

mas quando vinha o cheiro de mar...
sempre a recorrência portuguesa...

e ela, a chuva, insistia

e quando eu voltava a ficar só
um sorriso bobo se esboçava
eu sei, eu sou privilegiada

eu tenho um guarda chuva vermelho só pra combinar com as unhas
porque gosto mesmo é de me molhar

e sei,
e compartilho contigo,
doce andarilho,
que esse cenário,
essa poesia,
dariam, sem dúvida,
uma bela fotografia

- e ela seria uma obra de arte -

tudo é uma questão de perspectiva
e quando a perspectiva é extática
tudo o mais também é

lembrei então daquelas meninas
todas elas, amigas

aquelas mulheres fortes e cheias de vida

e pra elas dediquei uma canção

liguei o som no celular
abri o guarda-chuva vermelho pra combinar
e saí na rua a cantarolar os versos da liberdade

chovia
e ainda chove

e eu sou um sol cheio de esperança
de que um dia
tudo vai ser uma memória doce
em tempos concretos de amor

que chova o que tiver que chover,
pois a poesia é indecente o suficiente
pra fazer da chuva
o momento mais bonito do presente

(deixa chover
e vai, mundo,
levar no vento o meu desejo

faz ele chegar onde precisa
e deixe que essa loucura toda do dia a dia
nunca seja maior que a poesia)

chove
e minha sapatilha vermelha
descansa na garupa da bicicleta lá na sala
aguardando novos dias de vagar

chove
pra que o sol volte pleno pra iluminar os caminhos da errância

23.9.12

para ela


te saúdo
primavera
do melhor jeito que sei
com o corpo alongado, música e perfumes
a casa já está repleta de flores

te saúdo
com aquela garrafa de vinho e o coração cheio de amor

para ti plantei um trevo de quatro folhas
em ti renasce minha alma leve
que só deseja movimento

primavera
dessa vez você coincide com a minha própria
e é, de todas, a mais bela que já vi

o mistério do planeta


não há mistério maior no mundo que o silêncio
ele não é o sim nem o não
mas a ausência mais presente do universo

talvez, nessa hora,
a certeza seja precipitar o agora

então, se não pode haver certeza
eu prefiro que fique, silêncio

porque assim, és a possibilidade

não mais que o sim
não menos que o não

mas um pulso permanente
que testa a minha ansiedade
e me enche de multiplicidade

bombas de amor


Concebo, agora, bombas de amor
E elas têm uma força absurda em ser
Concebo agora tudo o que posso ser
E percebo que sou, quando sou o mundo
Nasce, então, uma pesquisa
E ela é vida
Nasce um novo consumo
Uma nova casa
Um incomum trânsito de Saturno
Nasce uma viagem
Nasce uma terapia
Renasce em mim o humano perdido
A ancestralidade
Minha paixão se acalma e transborda
Já não posso mais conter
O amor se multiplica
Sou euforia
Nasce um grupo, um coletivo, afetos rizomizam
Agora escrevo
Agora concebo um novo mundo
Agora medito, agora poetizo
Eu não sou nada mais que ebulição
Prosa, poesia, produção
Diferença, conflito, música, sedução
Movimento
Meu ar e minha terra
Buscam teu fogo e tua água mundo
Meu cérebro é criação subjetiva, amor indecente
Meu cérebro é meu timo e meu coração
Ele vagueia a criar muito e querer tudo concretizar
Emoção desmedida
Em ser tudo o que se pode ser
E receber o que se pode receber
Abrir-se, amar, fluir

20.9.12

#contemporaneoemqualquerlugar


inspirada por "sexo em moscou", de Mano Melo, ofereço meu "sexo contemporâneo em qualquer lugar"

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minha net, doida pelo seu crowd, 
bem funding, 
pede:
enter enter enter
com o seu wi-fi que eu libero a senha

nós 2, web 2
td bem colaborativo
face to face
seu pen drive em mim, baby

ai, essa sua nuvem de tags me deixa louca
pra twittar na sua boca 140 caracteres de puro prazer
e no meu email, ver vc
hackeando meu mundo privado
pirateando as minhas zonas de segurança
creative commons na cama
pro meu software ficar todo livre

e eu digo: i phone que eu gosto, phone!
Mac no meu corpo todo essa máquina
me mostra teu ultrabook
me joga na tela e me chama de wallpaper
conecta esse cabo na minha USB
mouse, assim,
mouse

me faz tua Wikipédia
que eu te faço meu Google
e vem, faz login em mim

depois desse hangout todo
seu aplicativo todinho no meu celular
carrega 100% de suor
sou sms multimídia
e meu whatsapp, se pudesse falar, falaria

nossas configurações se cruzam
e assim, no instagram do fim,
nós 2, web 2
imprimimos
compartilhamos
curtimos

o perigo é que do \o/ pro S2
é um pulo

e penso que melhor é dar um boot
e trocar de usuário

fico offline
mas logo, cancelo
porque sua nuvem de tags
me tira o ar

então, prefiro fazer logoff
e ficar em modo de espera
pra depois
reiniciar


17.9.12

ensaio sobre a nudez

a poesia, hoje, cedeu lugar à prosa.

O que ainda não é, só se faz sob o sol quando abrimos mão da obediência.  Não a obediência em relação ao outro, mas a que impomos a nós mesmos ou a de outros que introjetamos como se fosse nossa.

(Nilton Bonder, A Alma Imoral)

Hoje, domingo, acordei com um pressentimento. Saí de casa e voltei com uma missão. Era preciso escrever. A febre da escrita passou o dia em suspensão. Ela não sabia muito bem o que seria escrito. E, como febre, assim permaneceu. Mas agora as palavras começam a delinear um cenário. E sabe que, pra que o texto nasça, é preciso um ato: despir-me. Escrevi há alguns domingos atrás que domingo é o dia do possível. E resolvi fazer de todo domingo um dia especial. Religiosamente, para começar a semana com a certeza de que a vida, ainda que não seja escolha, não é senão o que acontece quando damos atenção a nós mesmos. Como muitos de meus dias, este não foi, em parte, como eu queria. Mas quantas vezes não é. Imagino que para todos nós seja assim. Porque criamos expectativas a partir de nossos desejos, e a vida quase sempre dá rasteira, porque é o puro e simples espaço da impermanência e da fortuna, em equilíbrio com o que fazemos dela. Hoje começa o ano novo judaico. Na relação íntima que cada um de nós, ocidentais, temos com o judaísmo, arrisco afirmar: hoje começa, para mim, um novo ano.

O dia não foi o que desejei? Melhor assim. Ele foi inteiro para mim. Ele foi uma orgia minha comigo mesma. Ele foi a celebração da novidade. Eu não estive só o tempo todo. Porém, no íntimo, sim. Eu estive naquela profunda e completa solidão de quem viveu o que viveu e sabe o que viveu e vive. Aquela solidão de que só você conhece a sua própria experiência, suas próprias limitações e seus desejos mais profundos. Então, não hesito em sair só. Arrisquei ir só, como tenho arriscado sempre. E neste ir só a gente esbarra em pares. A gente reconhece a solidão, da qual todos compartilhamos, naqueles que arriscam não escondê-la. Duas obras de arte me marcaram neste dia. Neste domingo de um fim de semana tão marcado pela arte. Assisti a um filme e a uma peça. Intocáveis e A Alma Imoral. Não me parece que foi um acaso. De alguma forma eu buscava alguma coisa com a qual pudesse compactuar na minha solidão e nela me confortar ao saber ser, a solidão, uma multidão. Fui ao filme só, - ainda que tenha feito um convite -, movida pelo desejo de ver com os meus olhos e o meu coração o que todos, afinal, comentavam tanto. E lá estava eu, num cinema lotado, às três da tarde, com a sensação de que a vida era estranha, porque coisas estranhas haviam se passado no caminho, e porque ela não é o que a gente quer (como uma criança birrenta), simplesmente. Quando o filme acabou, eu não sabia como reagir. Estava nua. As pessoas levantavam e saíam, algumas comentavam como era incrível, que bela estética, que história sensível. Eu não sabia o que fazer. Tinha vontade de chorar. Mas não chorava. Talvez por medo ou vergonha, porque eu sabia que o choro não seria comedido. Eu tremia. Eu queria dançar. Eu queria cometer uma loucura. Saí. Corri até o banheiro e chorei. Chorei. E como chorei... Eu não sabia como reagir e chorei. Chorava sem explicação (isso que não quero mais, explicação). Era tudo tão lindo e tão potente, e se misturava com tristeza, estagnação, espera, dor, culpa. Tudo ao mesmo tempo. Era lindo e era doloroso. E entendi que estranha não era a melhor palavra para definir a vida, mas sim diferente. Lembrei-me de quando ouvi isso ("não está estranho, está diferente") e como cabia tão bem àquela hora. Tudo estava diferente, e não estranho, porque nada é estranho à vida, especialmente, os acontecimentos. A vida sempre se revela diferente do que nos acostumamos... 

Mas ainda estava por vir o ápice da história, seu fim, que viria a ser, como todo fim, apenas mais um recomeço. Eu fui assistir A Alma Imoral. Encontrei dois amigos, que lá comigo estiveram o tempo todo. Um deles, um par de muitos anos. Tantos anos, que se torna impossível traduzir o que é nossa passagem pelo mundo e o que é o nosso amor. O outro deles, ela, alguém que desejei tanto que nunca chegasse perto e por quem hoje agradeço aos céus por amar, e por amar a sua coragem de amar. Conversei também com umas pessoas na fila, ávidas por essa imoralidade como eu estava. E encontrei um amigo-palhaço, corajoso de se lançar, a quem abracei profundamente por alguns segundos mesmo tendo passado tanto tempo da nossa intimidade, reconhecendo nele um par, uma alma flutuante, dessas inquietas, que querem mudar o mundo e sabem que se começa mudando a si mesma. E o que é essa mudança? Primeiro, buscar-se, sem medo do medo, sem medo do que possa encontrar. 

Amigos de muito tempo, outros de tão pouco, amores eternos, outros que não se sabe... E eis que vem o tempo. Tenho pensado muito sobre o tempo e o quanto ele é relativo de fato. O tempo longo pode ser tão potente quanto o tempo curto. Mas cada um tem a sua potência. A tradição nos faz acreditar que o tempo longo é o único que deve ser respeitado. E ignora o tempo curto, o instante, o inesperado. Tanto ignora que, quando o acontecimento rompe com todo o nosso conforto, a gente se desestabiliza e não consegue esquecê-lo. Se o acontecimento nos causa dor, passamos a odiá-lo. Se causa alegria, passamos a vangloriá-lo. De toda forma, com dor ou alegria, no momento do acontecimento o tempo se suspende. Chronos se ausenta, porque Kairós vem nos dizer que também ele reina sobre a Terra. A suspensão do tempo é aquele estado em que, ou estamos em profundo horror ou em profundo prazer que esquecemos tudo ao nosso redor e o tempo parece não existir, e é puro presente. Puro estado do renascimento, puro estado da iluminação. Porém, fracos, depois que se torna passado, desejamos voltar no tempo para evitá-lo, se em estado de horror; ou, se estamos em profundo prazer, desejamos voltar no tempo para revivê-lo. Das duas formas, é apego. 


Alguns dias atrás revi "O pequeno Buda", e reli o Dharma. Depois de alguns anos retorno a essa história maravilhosa do príncipe Sidarta e sua transformação em Buda. A vida me colocou novamente neste caminho, que eu não solicitei. Ele veio, e só me restou aceitá-lo. Fui a um templo de budismo tibetano. Falei de medo, crise e dor. Meditei em silêncio. Ah, o momento em que Sidarta descobre o sofrimento... Não há momento mais belo na história deste que viria a ser um iluminado. Sempre choro nessa hora, compartilhando com aquela alma imoral a alegria de encontrar, finalmente, o caminho da luz. A descoberta do sofrimento é a descoberta do caminho para a libertação. E ele encontra, tendo a terra como testemunha.

Pois quando o espetáculo começa, eis que lá está o budismo. Clarice Niskier nos conta sobre, sem querer, ter se tornado uma judia-budista. E nos conduz, assim, a uma jornada pela nossa imoralidade. Nada mais belo, nada mais providencial. Era como se cada palavra me dissesse o que eu já sabia. Mas isso revelava ao mesmo tempo a impotência. Saber. De que adianta saber? O que nos "adianta" é a coragem de, sabendo, agir. Mas isso me traz com ainda mais intensidade o que, além do tempo, é minha outra grande questão. Estrutura. Não temos estrutura para lidar com a vida como ela é. Ninguém nos ensinou que a vida era caos. Aprendemos a obedecer a ordem. E quando descobrimos que não controlamos a vida, corremos sérios riscos de entrarmos em estado de choque.

Nossa cultura não nos cria para sermos grandes, potentes e acreditarmos em nós mesmos. Mas a vida ignora a cultura. O desejo ignora a cultura. Porque a transgressão também compõe a realidade. A moral não é soberana. Aliás, nós somos transgressão. É isto que faz o humano ser humano. Clarice nos conta, como no livro de Bonder, que o mar vermelho não se abre antes para que os hebreus passem. Moisés encoraja-os a marcharem, aí sim, Deus, comovido com tamanha coragem, abre caminho no mar para que eles passem, quando já estão quase se afogando. Complementando, assim, essa passagem, ela então conta que certa vez, conversando com o rabino Bonder, comenta que se, quando criança, tivesse sido ensinada a marchar antes do mar abrir, não teria esperado tanto tempo pra fazer alguma coisa. Ao que o rabino lhe diz que não é preciso ensinar isso. As crianças não precisam ser ensinadas a desobedecer. Elas já nascem sabendo. Eis o retorno ao início deste texto, à frase retirada do livro. Se o corpo passou a ser o lugar da moral, é preciso que resgatemos o imoral da nossa alma. Porque a alma humana é essencialmente imoral. É na transgressão que a vida se mantém, porque se ela fosse sempre moral, acabaria. E hoje, num mundo onde até a transgressão parece se tornar uma moral, corremos riscos seríssimos de desaparecermos como espécie. Como singularidades então, nem se fala. A cada dia vejo morrer muitos de nós, humanos. Devagar. Nas filas, nas obrigações, afogados em suas máscaras, diluídos no passado ou num futuro imaginado, tentando cumprir o que esperam de nós. Somos um conglomerado de medrosos. De fracos cheios de si. Não temos estrutura. Nenhuma. Crescemos cheios de certezas, e de repente vem a vida e diz que as nossas certezas não são absolutamente nada no tempo do universo. E o que fazemos nessa hora? Tudo aquilo que já cansamos de ver, de ouvir, de apreciar (!!!), de desejar. somos ódio, medo, ciúme, inveja, orgulho. Tudo isso. Tudo que faz parte do ser humano, mas que é fruto da moral. A alma imoral, nessa hora, coitada, se dilui. Some. Deixamos de nos ver como toda aquela potência desobediente e nos tornamos somente os cordeiros da moral. Não temos estrutura porque crescemos acreditando que a vida está sob nosso controle, talvez porque quiséssemos ser Deus. Mas também aí a gente se engana, porque Deus é tão impermanente, tão contraditório, tão brincalhão. O universo é caos. A ordem é o que inventamos pra lidar com isso de uma forma mais tranquila. O problema da nossa cultura ocidental é que resolvemos, sei lá por quê, dar mais peso pra um dos lados. E aí começou a confusão. Por isso, perder a noção, lançar-se ao novo, passou a ser sinônimo de ser filho da puta. É por isso que fico tentada a celebrar os filhos da puta! Porque são filhos do desconhecido, da transgressão, da desobediência. Mas não confundam. Não façam isso. Não falo dos que querem parecer rebeldes. O rebelde simplesmente é rebelde porque não pode negá-lo. Ele é nômade. Ele é errante. Ele não é rebelde. Rebelde foi o nome dado pela moral. Ele é aquele que não pode negar a si mesmo, e nada mais. Nenhuma outra descrição lhe cabe.

Então, se hoje começa um novo ano, esse ano envolve um esforço de transgressão. O medo precisa dar lugar à loucura. Compartilho com Osho de que enlouquecer de vez em quando faz parte de uma vida equilibrada. Se não o faço, é por medo. O medo que todos temos, e que tantas vezes são máscaras, são muros que erguemos pra nos esconder. Medo: nesse momento, você não é bem-vindo. Deixe a dor se instaurar. A dor de nascer. De sair de um lugar estreito para um lugar amplo. Bonder também nos diz: "quanto esforço fazemos em direção ao nada". E nos conta parábolas de homens santos que olhavam com pesar aqueles que estudavam por obrigação e sorriam para os que, ao invés de estudar, dormiam, entregues ao sono sincero. Preciso ser sincera com o meu desejo. Desejo como potência, como abertura, como errância. Porque a gente confunde esse desejo, essa errância, com a cultura. A gente confunde. E fica lá, confortável, em nosso lugar de confusão, culpando o mundo por nossa fraqueza. Sair do lugar estreito para o lugar amplo é extremamente doloroso, mas é mágico. Se alguém lhe disse alguma vez que não seria desse jeito, lhe enganou. E é aí que percebemos a falta de estrutura. Buscamos o mundo ideal do lado de fora, no outro, no futuro que nunca chega, nos paraísos artificiais, no que já passou. O mundo "ideal" está dentro da gente. E essa dor, é a dor que temos que enfrentar para sermos tudo o que podemos ser. Nada marcou mais a mim neste espetáculo que ouvir: "aquele que não faz uso de todo o potencial de sua vida, de alguma maneira diminui o potencial de todos os demais". Fiquei sem ar esta hora...

No livro, a frase continua da seguinte forma: "se fôssemos todos mais corajosos e temêssemos menos a possibilidade de sermos perversos, este seria um mundo de menos interdições desnecessárias e de melhor qualidade".

Então, não quero mais a tolice do medo, e nem o medo de ser perversa. Ao menos isso é um passo e tanto. E hoje já rio de quem me diz que não tem medos. Afinal, quem de nós é iluminado o suficiente pra não ter medos? Onde estão os nossos budas? O medo é a gaiola que aprisiona a nossa condição de livres. Livres de verdade, e não livres como o rebelde do filme americano. Livres como aqueles todos que não cabem em classificações. Somos oceano. Somos algo de tal profundidade e densidade que assusta. Mas só assusta porque criamos uma série de certos e de errados. Mas às vezes o errado é o certo. Como, às vezes, o certo é o certo, o errado, o errado, e o certo é o errado. Sem hierarquia, sem prioridade. A vida é um constante ajuste, artisticamente um equilíbrio entre o bom e o correto, porque quase sempre eles não se encontram. E não podemos, em nome da justiça, essa que só agora entendo, deixar que a moral seja soberana. Precisamos sempre cultivar o jardim da desobediência, especialmente a de nossas gaiolas. Precisamos abrir as gaiolas. E nos deixar voar. Nesse momento, eu percebo que tenho dado muita atenção à moral. Mas, nossa! Como fui desobediente... Como, sem saber muito bem, deixei que a minha alma imoral fosse tão ela. Eu fui o que eu tive de ser. Eu fui os desejos todos que tive de ser. Mas depois de tanto acontecimento, agora me vejo ouvindo demais a moral. Me vejo aquela que tem medo de mais rupturas, especialmente a maior de todas elas: com a imagem que eu construí de mim mesma e que criou uma personagem. Dói. Dói despir-me desse jeito. Mas é preciso enfrentar que talvez, e muito provavelmente, eu seja tão diferente do que fui que nem sei mais como sou. Eu sou um bebê nascendo. E a memória do corpo não nega. Quando a gente sai de um lugar estreito para um lugar amplo, a gente sofre. Mas, não esqueçamos. O sofrimento é a chance que a vida nos oferece de sermos cada vez mais potentes. E quanto mais a gente amplia, mas sentimos necessidade de ampliar. Por isso, medo é palavra que deve estar presente sem ser soberana. Porque a vida sempre triunfa, e o caos, já nos dizem físicos e místicos faz tempo, é o padrão. E se a vida tiver que extinguir toda a espécie humana para triunfar, ela vai fazer. Mas duvido muito que isso aconteça. Somos grandes, eu sei. Quanto mais a gente amplia, mais queremos ampliar. Basta a coragem de dar passos para a frente e esquecer que os nossos medos tem nomes. Às vezes os damos nomes de coisas que nos parecem eternas e nunca superáveis. Culpa, por exemplo. Às vezes o nome é o do pai, da mãe, do chefe, do marido, da namorada. Às vezes o nome é ódio, às vezes é um palavrão. Mas mesmo que tenha nome, ele é só nosso. Não tem o nome de nada e de ninguém. E, por ser nosso, é que podemos com ele conversar para negociar seu lugar de soberania. Mas pra isso, meu bem, o esforço às vezes é muito grande.

Então hoje, eu, uma mulher, ser este que nunca deveria ter esquecido que é a semente da transgressão, que inclusive é quem planta no homem a desobediência, resolvi parar de ouvir as muitas asneiras que me dizem e guardar só aquelas falas potentes. Resolvi que preciso de mais ferramentas pra ampliar o que preciso ampliar. E que preciso me expressar do jeito que mais sei. Que meu corpo e minha alma são templos. Templos de um amor tão grande, que é capaz de se plasmar no todo e de superar o medo pra se mostrar. Busco as ferramentas, busco as estruturas. Ao menos, não tenho medo de buscá-las. Eu sou uma mulher apaixonada! Pela vida, pelo humano, por si mesma!

Tudo isto me traz uma lembrança. Há sete anos atrás ganhei um DVD de presente, e nele veio escrito como dedicatória: "com o desejo de que sejas o profeta de sua própria história". Fui profundamente tocada pelo filme e pelo livro Lavoura Arcaica, que hoje vejo como nada mais que uma história que fala sobre a tradição e a traição. Clarice, no início da peça, nos convida a um mergulho, desta forma absurda: "não há tradição sem traição, assim como não há traição sem tradição". Encerro, então, com uma reflexão sobre o tempo, de Lavoura Arcaica, porque me volta à memória sua trindade: o pai, o tempo longo, André, o tempo curto que se assusta, e Ana, nômade que desafia qualquer noção de temporalidade. O pai, ao dizer as palavras que seguem, dá a elas um peso que encurva nossos ombros. Como carregamos pesos sobre os ombros... André, se lesse o texto, o leria com a euforia do descobridor de novos mundos, mas que, no entanto, teme ao se deparar com esse novo, e escuta, temeroso, o pai. O pai pondera a fala, André fala demais. Ana simplesmente dança e não fala sequer uma palavra, ignorando qualquer reflexão sobre o tempo. Porque ela não o conhece, ela é a pura espontaneidade, a pura existência da natureza. "Porque a natureza mexe em time que está ganhando". É isso que precisamos aprender, é isso que preciso aprender. A dançar. Sempre. E cada vez mais. Dancemos, como Shiva, como Dionísio, convidando as soberanias de Vishnu e Apolo a se curvarem diante do equilíbrio. Para uma vida equilibrada, é preciso criar o espaço da loucura.

"O tempo é o maior tesouro de que um homem pode dispor. Embora, inconsumível, o tempo é o nosso melhor alimento. Sem medida que eu conheça, o tempo é contudo nosso bem de maior grandeza. Não tem começo, não tem fim. Rico não é o homem que coleciona e se pesa num amontoado de moedas, nem aquele devasso que estende as mãos e braços em terras largas. Rico só é o homem que aprendeu, piedoso e humilde a conviver, com o tempo, aproximando-se dele com ternura. Não se rebelando contra o seu curso. Brindando antes com sabedoria para receber dele os favores e não sua ira. O equilíbrio da vida está essencialmente neste bem supremo. E quem souber com acerto a quantidade de vagar com a de espera que se deve pôr nas coisas, não corre nunca o risco de buscar por elas e defrontar-se com o que não é. Pois só a justa medida do tempo, dá a justa natureza das coisas".