29.6.13

um ano depois...

Escrever é um vicio terrível, daqueles quase incontroláveis, químicos. Dá trabalho, cansa, me faz dormir tarde demais (porque quando começo só consigo parar quando sinto que o texto, como uma gestalt, se fechou...). Mas eu não sei viver sem... Porque é também a minha forma de digerir e processar as coisas. Sempre que o cotidiano fica denso demais, é escrevendo que consigo ficar mais leve. Pois bem, o momento agora é um desses momentos densos. E eu, como de praxe, também uso os textos como confissões e pedidos de ajuda, uma forma de afirmar para o meu ego de ascendente leonino que sou humana demasiado humana e pedir uma ajuda ao universo.

Fico impressionada em perceber como as coisas acontecem rápido na minha vida. Tudo muda o tempo todo. Claro que há os momentos de calmaria, ou eu não aguentaria. E quando falo de mudanças, não se trata de mudanças radicais o tempo inteiro, mas daquele permanente movimento que te faz mudar de perspectiva sobre os fatos por conta de pequenos (e nada triviais) acontecimentos, às vezes em um único dia. É assim que tem sido a minha vida há um ano, mais precisamente. 

2012 foi um ano de rupturas, muitas, e por iniciativa minha, que começaram logo depois do meu aniversário, e se faz sentido a tal da revolução solar, agora estou entrando em um momento completamente novo, de estruturar a vida. As mudanças não cessaram, mas nesse momento são absolutamente diferentes. Essa semana, por exemplo, foi tão cheia de pequenas novidades, de um turbilhão de sentimentos e possibilidades que eu cheguei em casa hoje atônita. Não sabia o que fazer, precisava ficar sozinha. Abri mão de todos os bons programas que eu tinha pra essa sexta-feira a noite, de bar a concerto, pra ficar em casa com minha escrita, minhas músicas e minha seleção de Paulaner de diversos sabores. Aliás, ficar só é uma coisa que tenho feito muito de um tempo pra cá, pois está brabo de dar conta de todo o furacão dentro e fora de mim. E gosto disso, da solidão desejada... me reconheço muito nessa condição, além de me renovar nela. Sempre fiz questão dos momentos de solidão, mas no último ano eles foram meio escassos, e acho que isso me fez um mal danado pra autonomia. 

Parece que, para mim, o ano de 2012 acabou só depois do carnaval, e como de praxe no Brasil, o meu ano de fato começou depois do carnaval. Mas estamos em julho e tanta coisa nova aconteceu de março pra cá que parece que em 3 meses já se passou um ano... Assim como parece que tudo o que se deu de julho do ano passado até fevereiro desse ano foi há, sei lá, cinco anos atrás... 

Há um ano eu vivia uma outra vida. Há exato um ano atrás... e logo depois das rupturas todas que empreendi, eu me perdi num turbilhão. A sensação foi de sair de um ninho, onde eu estava aconchegada e, nos últimos momentos, acomodada, e de repente cair num buraco negro. Foram muitas rupturas ao mesmo tempo, e eu entrei num fluxo de dispersão. Vivi o caos durante esse tempo. Foi apenas em janeiro, quando tirei férias e viajei sozinha pro sul da Bahia, que consegui aquele distanciamento mínimo pra observar o que estava acontecendo e poder me reconectar com os meus desejos mais sinceros. Então, adoeci. Durante uma semana da viagem eu participei de um workshop de astanga yoga e com tudo o que aquela prática mexeu em mim eu caí de febre e dor de garganta, e tinha dores horríveis a noite no corpo todo, e chorava sem parar. Acho que chorei em uma semana o que não chorei em um ano... Porque fui me deixando sentir todas as dores que não me permiti quando estava com o corpo tomando porrada das muitas mudanças. Era preciso resistir. Mas foi só parar que de repente o corpo reagiu... quando voltei da viagem eu estava profundamente grata ao yoga, mas voltei desconectada da astanga, e ainda insisti, forcei uma barra que não deu certo... eu sabia que era preciso mudar isso também, mas ficava numa batalha interna tola, apegada. Enfim, cheguei no Rio e caí direto no carnaval. Foi o meu carnaval mais carnaval em anos. No sentido de me jogar na multidão, coisa não muito fácil pra mim, porque eu preciso me preparar psicologicamente antes pra não entrar em pânico. Mas avalio que eu precisava daquela catarse, como encerramento de um ciclo, de uma Vanessa que se foi pra dar lugar a uma nova Vanessa... Retomo, hoje, coisas que ficaram lá atrás, e que me constituem, onde eu me reconheço, como por exemplo, esses momentos de solidão e silêncio, e a espontaneidade, para afirmar o que for que eu estiver sentindo de verdade. Um eterno retorno, sim... mas, mais deleuziano que nietzschiano. O retorno, porém, diferente. Uma espiral, e não um círculo. Retomo a espontaneidade com muito mais leveza, e com mais clareza do que ela significa...

Mesmo tendo sido uma criança calada, daquelas que a mãe esquecia que estava em casa porque ficava desenhando num cantinho ou lendo ou inventando narrativas, e uma adolescente obscura, cheia de questões difíceis, sempre fui muito espontânea. E foi com a espontaneidade que conquistei muitas coisas incríveis na vida. Mas com o tempo essa espontaneidade foi minando. Mas é claro, bastava beber um pouquinho que ela voltava rapidinho rs. Nunca aceitei que determinassem os rumos do meu desejo. Sempre briguei pela liberdade (até onde ela é possível) de conduzir minha vida do jeito que eu bem entendo. Se existe uma verdade pra mim, é essa. Por isso muitas brigas na adolescência com a família, coisa felizmente superada desde que saí da casa dos meus pais há 10 anos... Nossa, como passou rápido... Bom, as pessoas costumam dizer que eu sou bem espontânea, e devem achar essa minha fala estranha... mas enfim, se soubessem o que se passa aqui dentro... E embora eu escreva muito, há coisas que nunca serão reveladas nos meus textos. E eu sou boba de fazer isso!? (risos) Mas hoje eu entendo muito melhor a espontaneidade que antes, porque eu achava que ela era uma coisa arbitrária, tola, que poderia ferir as pessoas, uma total falta de senso coletivo... Isso há muitos anos atrás... Mas quando voltei a pensar nela, entendi que ser espontâneo é tão simplesmente agir de acordo com o que se acredita, e que isso não exclui a atenção que se deve ter com o outro, seus desejos, suas alegrias e tristezas. É o jogo da convivência! O difícil é fazer isso sempre, quando se vive processos coletivos, porque há aqueles que insistem em te puxar pra baixo, grupos que não conseguem atuar como coletivos valorizando ao mesmo tempo as singularidades, o brilho de cada um. E nem é preciso ir para o âmbito do grupo para perceber isso. Quantas relações a dois diminuem as singularidades, ao invés de ampliá-las, potencializar o que há de melhor em cada uma... Mas a atenção a isso é o desafio também. O que não dá é deixar que a energia medíocre que muitas vezes se instaura num grupo mine nossa capacidade de criação. Pois, eis que veio a palavra! Criação é a palavra da vez pra mim. 

Como pessoa que só sabe viver apaixonada, tenho entendido muito da minha infelicidade com alguns processos e lugares. Minha paixão primeira? Criar! Ou estou num processo criativo ou estou morta. Radical assim. Quando escrevo estou criando, quando canto, produzo realidade, e no trabalho de planejamento e produção o que me alimenta é o processo de reunir informações, pesquisar, trocar ideias e dar vida a um projeto. Coloque-me apenas pra realizar burocracias e verá uma pessoa totalmente amarga... Pois isso é revelador e, desde março, quando voltei do buraco negro onde eu estive perdida por uns bons 6 meses, isso tem determinado a minha vida. E a vida tem me revelado caminhos grandes a partir disso, com perspectivas absolutamente novas, o que implica também em uma responsabilidade muito maior. Eis que agora, aos 33 anos, eu me vejo de frente pra possibilidade de realizar tudo o que eu sempre quis. E estou com um baita frio na barriga... Essas possibilidades? De forma bem geral, trata-se de dar vida a projetos que ficaram por tempos engavetados, porque talvez estivessem esperando a hora certa de aparecer, e de, cada vez mais, ter mais autonomia sobre o meu tempo de trabalho. Qualquer pessoa que verdadeiramente não tem medo de se conhecer, parece ter esse mesmo desejo. Controlar o próprio tempo... Controlar mesmo, sendo bem enfática. Perdi o medo de algumas palavras. Tudo o que está aí, todas as instituições, família, trabalho, escola etc, tem como premissa controlar o tempo de suas ovelhas. Para não entrar nessa só mesmo retomando para si o controle. Quem faz meu tempo, antes de qualquer coisa, sou eu. É primordial essa forma de agir, para que o jogo com a instituição se torne mais justo. Eu sempre me coloquei na frente, levando em consideração esse horizonte, mas só hoje é que começo a colher os frutos mais bonitos dessa plantação. Embora eu respire ainda um pouco tensa, respiro aliviada. O que está colocado pra mim é lindo. Como eu disse, tudo o que eu sempre quis. Resta-me agora ampliar minha força pra lidar com tudo o que vem junto com mais visibilidade e responsabilidade, inclusive a responsabilidade maior sobre o meu próprio tempo. Os desafio mudaram...

Hoje, conversando com uma pessoa muito querida, falamos sobre como a fase dos trinta anos é realmente a fase de meter as caras e brigar pelo que se quer. Você já não é mais jovem como era, também não é velho, já viveu coisas suficientes pra saber o que quer, o que ama, como ama, o que deseja. E começa a querer definir um monte de coisas. Onde de fato vai ficar (tempo e espaço), com o que trabalhar, ter filhos ou não ter (pra quem ainda não teve, como é o meu caso)... E depois dos trinta e poucos vc já passou pelo retorno de Saturno, ou seja, relaxa e goza rs. Pois eu me sinto no momento do possível, e com aquela sensação de que o que eu decidir agora vai definir minha vida pelos próximos anos. Não sei se necessariamente onde vou ficar espacialmente, porque gosto de uma mudança, mas onde vou ficar em termos de desejo, por um bom tempo... Não por toda a vida... Não que isso não seja possível, mas é melhor não pensar assim, vai por mim...

Conversando com um amigo no dia do meu aniversário, ele me contou sobre uma experiência incrível que teve com umas mulheres xamãs em Mauá, e que havia ficado muito ligado em numerologia. Calculamos o meu ano. Somando a data do meu aniversário este ano encontramos o número 4. Quatro, ele me disse, é um ano de estruturar, diferente do ano 3, um ano de rupturas, agitação, novidades (fiquei pasma) e de um ano 5, que será meu próximo aniversário, um ano de transformações (ai, tudo de novo...). Pela numerologia, esse ano que começou no dia 19 de junho será um ano de muito trabalho e de consolidação. Bom, acho que já percebi... Minha revolução solar não diz algo muito diferente também, embora seja mais consistente e complexa. Estou em um ano de leão, ou seja, um ano de dar a cara a tapa, de mostrar a que vim nesse mundo. Já dá pra perceber pelo tom do meu texto, um tanto egocêntrico... Mas há que se fazer justiça a leão, e eu como uma boa geminiana, que tudo analisa, reflete (e mil fatores ao mesmo tempo), digo: leão é o signo do brilho. Quando ele consegue fazer o seu brilho ultrapassar seu ego, ilumina tudo ao ser redor. Vamos ver como vou me sair... Coisas lindas estão na minha mão para que eu aproveite. Novos trabalhos, novos desejos, um controle maior do meu tempo, uma nova yoga, novas atividades, uma nova música, tudo novo de novo! O mundo é meu! E pode ser seu...

É bem como diz a música do Abba (apenas com uma pequena mudança no pronome e na idade)... I can dance, i can jive, having the time of my life... I am the dancing queen... only thirty three!

28.6.13

o corpo nada sabe das palavras
ele apenas vive... como cheiro, gesto, carne
mas escrevo versos para criar realidade
vive, no corpo, a palavra poética
ganha a palavra, no corpo, métrica

23.6.13

novos poemas encontrados num caderno

o estranhamento no espelho nessa hora da madrugada não houve sono posso dizer que não houve nada estranhamento de si... do meu rosto, que tanto reconheço no silêncio e houve tanto barulho essa madrugada... mas que importa o sono que importa o sonho... queria eu apenas o gosto da calmaria no meu coração sem dono mas sou sempre caos e no caos me reconheço? não... eu sou silêncio e na solidão me reconheço no amanhecer do sono pouco, na garrafa de vinho, o gosto... no espelho o questionamento enquanto uns dormem outros festejam sou silêncio e me deparo com o meu tempo e interrogo o meu desejo no fundo, só temos a nós mesmos e por mais alegria que seja toda gente que por minha vida passa e mesmo com o mar onde a conversa nunca é rasa... é por isso que é preciso ir a ele pois é nele que me reconheço é por isso que é preciso degustar o vinho sempre pois no vinho me reconheço presente e no silêncio novamente apenas com a música interior e não aquela dessa noite de sono tão pouco de acordes tão exaustos e gastos não nos rostos cansados daquela gente toda que não sabia o que ali fazia me calo e ninguém me ouve me calo e me perguntam o que houve digo que é nada apenas sono me deixem... entenderiam? nem eu... tenho poesia no corpo e o corpo clama por algo que não sabe e o corpo lembra a cama e os dias que acordou fora de casa e o corpo lembra tudo e esse é o seu mal porque a memória é doce mas também desgosto e o que vale é só o agora nem sequer futuro cala-se, então, meu corpo esse corpo que só canta cala e quer teatro cala e quer a dança cala e quer a novidade cala porque não sabe ainda a nova música cala e quer esperança sabendo que não deveria desejá-la cala e quer a dança dos corpos emaranhados sem cobrança mas atentos e cheios de amor cala e depois canta e derrama a insensata terapia do álcool e descansa da inconstante alegria do ato e chora porque não sabe e cala... em profunda meditação, reage...

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faço ressoar no cosmos
minha íntima imensidão!
como uma insurreição poética,
um levante contra a inércia,
                           a implosão!
faço assim cantar os pássaros,
voas as flores, nadar os gatos...
canto para o universo claro,
como uma revolução!

para que toda a falsa segurança me deixe...

não acredito em hora certa
nem na justa medida, não se queixe

nada se constrói sem boas doses
de insensatez e prazer...

produzir o caos
e fazer, uma estrela, nascer!

20.6.13

filosofia corpórea

eis um mistério:

o que fazer com o corpo
e aquilo que nele nasce
após um acontecimento...

o que fazer com o que fica dentro...

parte nova a integrar o corpo,
que, pelo que se deu, torna-se novo...

o que fazer com o corpo...
tomado ele de torpor e encantamento?
e de tudo que vem com o tempo...

o que fazer com o corpo
depois do acontecido,
e com o volume que lhe toma,
e até então, lhe era desconhecido...

o que fazer com a densidade
de uma nova informação?
e tudo o que não se sabe...
e o que se deseja de um encontro
e toda a densidade do outro
que lhe soprou o outono...

mas muda o corpo a todo instante
posto que é errante...

é preciso acostumar-se ao novo
e ao estômago do mundo...
onde nos lança
cada acontecimento profundo...

15.6.13

carta convite

homem de reticências...
se eu soubesse antes
que aqueles pontos todos na tua escrita
fossem chegar até o meu corpo

e tomá-lo...

teria eu deixado as tuas velas me encantarem?

teu vinho, tua família,
tua loucura, tua alegria...

pois antes disso
nada (ou quase nada) havia

tuas cordas
minha postura
tua música
minhas planilhas
tudo se esbarrava
nada produzia

mas então, eu fiz uma poesia...

soubesse eu que aquele sorriso,
de alguns anos atrás,
viria me encontrar de novo,
reinstalada num cais...

era mês de abril
você, de terno preto,
passou por mim na porta...

imagine só
bateu um calafrio na aorta

pequeno e intenso instante...
lembrar, como vivi,
a primeira vez que te vi

depois esqueci...
simples como o passar do tempo

mas me lembra um velho programa
que naquele distante abril
eu já poderia me envolver na tua trama

quisesse...
e me deixasse levar pelo teu diagrama

quem sabe já te levaria pra cama...
ou você, vai saber...

mas eis que veio
um novo abril
febril
diferente do primeiro
faceiro

e fez do mês de maio
o vento de raio
para eu conhecer teu cheiro

ah... aquele classicismo todo
que tomou o ar de minhas artérias
no apagar das luzes de abril

ao som de Beethoven, saí do eixo...
isso sim é que é se desalinhar com jeito!

soubesse eu que a euforia do meu trabalho
seria atalho para me levar a você...

talvez tivesse corrido
pra não enlouquecer

mas dizem as más línguas
que é justamente disso que eu gosto...

eu,
uma moça com brinco de pérola,
tatuagem envelhecida, música na veia,

um pássaro fugido, recém coração ferido...

soubesse eu que aquele olhar
que me tremeu as pernas na cantina
bateria em todas as minhas quinas...

perdi todo o equilíbrio

deste corpo que jurou ao universo,
inocente...
há tão pouco tempo,
administrar os anseios
que causaram tanto pranto

talvez tivesse tido tempo de fugir
pra não me emaranhar nos teus encantos

mas quando o corpo fala
toda a memória se dilui

toda história é esquecida

e só há o presente
nas gavetas do sentido

justamente nesta hora
é que a sorrateira memória
na junção com o meu desejo
me leva a mais justa forma de festejo: rir!

porque fugir?
de medo?
ora, eu que tanto me lanço no agora...
sem me importar com a forma
que terão as coisas na aurora

porque me ofereço inteira
pra tudo que me move
em qualquer hora

esperar o que?
o tempo certo de viver?
como fazem as senhoras tristes
que nunca gozaram?

já faz tempo descobri que tempo certo
nem relógio sabe encontrar...

você,
homem de reticências,
sabe muito bem o que é capaz de causar...

já eu,
mulher de multiplicidade,
não fui pra ti nem a metade...

não me permitiu, meu signo de ar,
tão conhecido do teu escorpião,
revelar toda a minha canção

eu levaria tempo
pra te mostrar quem sou

como sempre se leva...
não é sempre assim!?

mas meu leão não se importa...
ele quer bater na tua porta!
vestido de preto e com sapato vermelho...

porque temos,
doce escorpião,
ao nosso lado, o universo,
para recitarmos qualquer oração

venha mais um vez
e eu te mostrarei exclamação!

um pouco mais da minha maluquice aérea
que derruba toda a minha postura séria
e se derrete ao te ver abrir teu sorriso de menino,
embora homem tão já feito...
como se fosse apenas um pretexto pra uma rima óbvia

me encantam tuas reticências...
aguardo-as, quem sabe...
novamente reveladas no meu corpo
e espero, sem pressa...
mas à beira,
a tua circularidade em mim,
alheia a todo tempo que não seja
o tempo daquilo que se deseja

9.6.13

blackbird

que nome eu poderia ter agora?
pergunto a mim mesma
diante do espelho das horas

eu...
uma gama de histórias ainda não contadas
poemas guardados que precisam de tempo
para serem revelados...

a multiplicidade do desejo
e um desejo que confunde o que eu vejo
a ansiedade de querer, com os braços,
envolver o mundo inteiro

mas é que agora,
caiu a moldura...
chegou a hora das batalhas mais duras:
as de enfrentar os grandes medos

porém, calma estou
porque já os conheço
e é preciso coragem
para se olhar no espelho

calma estou para iniciar
o que deve ser feito

é preciso foco, ar,
é preciso jeito

disciplina é liberdade...
eu ouvi há muitos anos
e guardei como mantra
na caixa daquilo
que não explicamos

apenas voando
é que sabemos que ela existe,
a liberdade,
e que insiste

sou então, nesta hora,
um pássaro que deixou a gaiola
no eterno retorno de romper
e me reconstruir na aurora

novamente identificando minha delicadeza
que recupero depois de tanta fina dureza
que a vida fez passar por este corpo

e é nesse movimento
que preparo o café como quem massageia o ser amado
e escrevo minha vida
para trocar laços com o que há de mais humano
laços que amo e que são sagrados

sou pássaro negro reaprendendo a voar

a vida inteira,
eu estive esperando
esse momento chegar

7.6.13

canto

fez-se calma
minha ansiedade
que à luz, palpitava

fez-se silêncio, então,
o que sedento pulsava

fez-se o tempo...
aquietou-se o campo
esplendorou-se o vento

atravessei flores

a tomar chá de jasmim, pensava

e busquei, dentro de mim,
a harmonia do mundo que dançava

atravessei pilotis

senti aquecer, o sol, meu rosto

e cruzei imensas estradas
encarando o meu desgosto

havia fome, frio, poço...
havia...

arco para cruzar debaixo
sem saber o que haveria,
oposto

se fundo
ou raso

mas revelou, caminho novo,
o fim da estrada

cheiro de incenso raro

e novos livros foram postos
abrindo segredos nas minhas mãos

novas folhas de papel em branco
novas tintas, novos tons

e veio,
ela,
a voz
luzente
a espalhar semente
que emociona

multiplicando
em cada célula
do meu corpo

o canto

alegria inefável
que cala todo o meu pranto

4.6.13

aceito

aceito
dica de bolo
filosofia pra queimar o miolo
uma taça de vinho
um caliente carinho
banho de chuva
mesmo no frio
loucura na rua
poesia sem rima
aceito um doce
um sonho
um sentido
uma música nova
um novo vestido
flores, festas, cervejas
gente que ama
comida na mesa

projeto de vida
projeto de um dia
criança na praça
domingo preguiça

aceito tristeza
pra lembrar da alegria
mas aceito alegria
pra ganhar o dia

aceito
nesse frio, um cafuné
aquele pé pra esquentar meu pé
um filme qualquer
só pra ficar de bobeira
aceito quem me diga
como se faz uma cadeira...

só porque não sei fazer

sou dessas
aceito viver