21.12.13

feliz-cidade

estranha palavra
felicidade (tente soletrá-la)

que só o tempo
(para alguns?)
é capaz de fazer

b r o t a R

não posso dizer
que hoje sei
dessa tal
F-E-L-I-C-I-D-A-D-E

uma curiosa cidade
difícil de habitar

tão                                                      distante...

não se costuma chegar lá

(estrada looo o o   o   oo  o n g a
e acidentada)

mas algo, em mim, FALA...
e algo em mim

é capaz, hoje, de escutar!

não sei se isto significa
que, finalmente,
depois de tanto espanto
eu descobri o que é

AMAR!

algumas palavras
anunciam na placa: perigo!

mas se sequer me importo
 - visto a novidade que é a falta do espanto - 

então, talvez,

SEJA!

perigo só é perigo
quando a gente, assim
                                               deseja... (perigo!)

porque autômatos
repetimos o que já

sabemos,

pois VEJA

perigo só é perigo
quando não há chance
de tudo ser

diferente

e HOJE eu sei
(EU SEI!)

há alguma coisa em mim que nunca houve...
(guarde isto!)

e um silêncio muito longo
parece pairar sobre o meu sono

(pausa)

talvez seja um
AMOR MAIOR

pela vida que é tão GRANDE

um soneto ainda a ser escrito
mas já esboçado no corpo
onde mal cabe tudo o que

sinto (sintosintosintosintosintosintosinto...)

e talvez seja a descoberta
dessa tal feliz-cidade

não sem DOR
é verdade (perigo?)

a dor

que

                               e s c o r r eeeeeee...

de se olhar no espelho

não
sem
dor

nunca
s e m...

desvelamento do véu de Maya

amém!

então, posso dizer
que FELIZ

ESTOU

e o que brotou dentro de mim
É MAIS

MAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAIIIIIIIIIIIIIIIIIISSSSSSSSSSSSSSSS

muito mais

do que EU poderia

supor...

23.11.13

filme de Almodóvar

chove
e me atravessa um cheiro de café
entonteço...

acendem um cigarro
e o cheiro do café e o trago
me trazem a lembrança daquela viagem

entonteço...

trabalho...
e eu quase poderia ser uma mulher
a beira de um ataque de nervos

chove
tenho fome e penso o óbvio

estou cansada
trabalho, ensaio
entonteço...

queria a carne trêmula
a desvendar a flor do meu segredo

o cheiro do café...
a chuva
a memória

nenhum desespero
mas todo o desejo
entonteço...

trabalho...
o cheiro do café...
o cheiro do cigarro...

está cinza
o vento é frio
por hoje chega
necessito um vermelho

é que chega uma hora
em que o corpo desaba
e a pele que habito pede um basta

tenho fome...

paro e desato
penso o óbvio

abrir um vinho
fazer um macarrão

e no labirinto da minha paixão
me esquecer a ver um filme de Almodóvar

entonteço...

3.11.13

cartas

relendo as cartas que escrevi pra ti
faz tempo

era vento que soprava leve
a angústia dos meus sentidos

aquela luz ecoava tempo incerto
que se foi e, perdido, não é mais
que palavra eternizada no papel

meu véu já não esconde mais teu rosto

foi-se o tempo
em que eu era tua aurora

sou, em tempo,
uma nova espécie de agora


28.10.13

o vento do tempo

faz pouco tempo
um vento, carregando o futuro,
entrou pelo meu quarto

era um vento forte
que fez voar as fotos
e carregava a sorte

vinha de longe
muito mais longe
que do mar e da montanha

vinha do tempo e de suas entranhas

vinha do tempo,
o vento,
do que se anuncia
e já, tão meu,
me enche de alegria

faz pouco tempo,
um vento entrou pelo meu quarto
e, no meu ouvido,
sem tempo,
sussurrou o seu rastro

26.10.13

Felicidade e nada mais

É sexta-feira à noite, e estou em casa, cansada e feliz, alegre por que amanhã, sábado, não terei hora pra acordar, o que não significa que não terei o que fazer... Como tenho! E por isso também me sinto feliz. São coisas que eu escolhi, porque elas me escolheram. Amor! E algumas (menos) que não escolhi, mas que já entendi que é necessário vivê-las porque elas têm algo a me ensinar. E uma coisa me anima nesse instante: escrever sobre a felicidade. Venho refletindo bastante sobre essa coisa que persegue a humanidade, e que perseguimos como um tesouro e, de tanto perseguir obsessivamente, acabamos por encontrar qualquer coisa, menos a tal da felicidade.

Mas hoje estou sentindo algo que se aproxima ao que chamo de felicidade. Então é sobre isso que minha mente inquieta junto aos meus dedos frenéticos a procura das teclas do computador estão querendo escrever. Não realizei nesta vida o que já foi um dos meus sonhos, ser pianista (sonho que talvez nem exista mais, já que outros falam tão mais alto), mas posso me considerar uma pianista das palavras. Gosto de pensar assim. Isso me faz feliz.

Como foucaultiana que sempre fui, acredito que felicidade não é um conceito dado e, a cada época, se reconfigura de acordo com os interesses e relações de poder estabelecidos. Já houve tempo em que a felicidade estava muito longe, na promessa da salvação, no paraíso, num plano etéreo que definitivamente não era a Terra. Mas acho que ela nunca esteve tão longe quanto hoje. Busca-se a felicidade incessantemente, e o que vemos cada vez mais são pessoas infelizes. A felicidade passou a depender de tanta coisa que se tornou um mundo “ideal” que não existe. Colocamos essa coisinha tão longe e demos tanta importância pra isso que ela simplesmente desapareceu. Sempre achei muito curioso como a sociedade ocidental contemporânea foge da dor como o diabo da cruz. O discurso da segurança é nosso discurso mais poderoso. O medo de envelhecer, um dos nossos grandes medos. A “perfeição” do corpo, uma obsessão. A perfeição como figura social também. Não pode fumar, não pode errar, não pode comer fritura, não pode brochar, tem que ter dentes brancos, pele lisinha, cabelos com brilho e sem frizz. Há que ser excelente em tudo: como profissional, amante, amigo, filho, marido, mulher, e o tudo o mais. Conceito de excelência que vem do conceito de eficiência empresarial. Culto da performance, como o nome de um livro excelente anuncia. Que saco... Bem, deixo claro que não estou aqui defendendo a esculhambação, mas falando contra essa doideira coletiva de achar que existe perfeição. 

Perfeição absolutamente não existe. Só posso acreditar na perfeição que considera o seu contrário, o imperfeito. Acho a imperfeição tão perfeita! Assim como me alegra saber quão imperfeita é a perfeição...  Será que é tão difícil entender algo tão óbvio? É! Primeiro, porque a gente cria mundos perfeitos na nossa cabeça. Segundo, e o que torna o primeiro grave, é que os criamos deslocados da realidade. Felicidade, se existe, tem a ver com realidade. Sonho tem a ver com realidade. Sonhar o impossível não é para os fracos (risos). Sonhar o impossível só faz sentido se você põe o impossível no plano do possível, e corre atrás, mas aceita que, em suma, nada controlamos e que o impossível é imperfeito, e que isso é perfeito...

Felicidade, então, para mim, tem a ver com dor. Que mania essa de fugir da dor... Que mania também de alguns de se afundar na dor e querer se tornar mártires. Acho que felicidade tem a ver com a aceitação da dor. Mas, indo mais além, com a aceitação do convite que a dor proporciona: o do autoconhecimento e do contato fundamental com os mistérios da vida. O mistério é tão necessário a nossa saúde mental! A obsessão científica em tudo querer explicar acaba gerando uma angústia que também coloca a felicidade nesse lugar inexistente... Felicidade tem farpa, tem espinho, tem espelho, tem ponto de interrogação. E ponto de interrogação tem maravilhar-se! Felicidade tem aspereza. Felicidade tem a ver com descobrir que, melhor do que as coisas acontecerem do jeito que você imagina, é a surpresa. Aceitar o tempo das coisas, o tempo do outro, o seu tempo, e deslizar nesse universo de tempos sobrepostos e em colisão ou comunhão, é felicidade. É felicidade ainda saber que tudo passa, tanto a tristeza quanto a alegria. Felicidade é ser agradecido tanto pelos momentos em que houve desespero e nada saiu como esperado, quanto por aqueles em que houve só a alegria daquela calma que sentimos nos momentos em que dizemos: eu não queria estar em mais nenhum outro tempo e lugar do mundo, mas exatamente aqui e agora. Felicidade é isso tudo, que é nada. É só viver sabendo que tudo é transitório. Não consigo negar parte da minha formação budista...

Infelizmente, nossa cultura parece não nos ajudar muito a aceitar a vida, que é caos. É uma cultura da culpa, do medo, da diminuição da coragem, da inflação do ego, da ideia de que ter (inclusive pessoas) é que traz felicidade. Uma cultura do “perfeito”... Impossível não lembrar de Nietzsche nessa hora e dos quatro grandes erros de “Crepúsculo dos Ídolos”, que talvez tenham movido Zaratustra a subir e descer a montanha, porque a felicidade se encontra nos dois atos, e na descoberta trágica do eterno retorno. 

Hoje, nesse exato momento, eu digo “estou feliz” e isso me soa sincero. E sabe por quê? Porque eu sofri. E porque eu ri. Porque eu levei mais de dez anos praticando yôga para começar a entendê-la. Porque eu tive coragem de ir pra onde deveria ir e tive coragem de voltar pra onde deveria voltar. Porque eu rompi, mesmo com medo. Porque eu conectei, mesmo com medo. Porque eu olho no espelho. Porque eu errei e aprendi com o erro. Porque eu sei que vou errar mais, diante do novo, e isso não me assusta, porque o novo é absolutamente o que move a vida. Cada dia que passa é um novo dia. E acho que é tudo isso, essa movimentação, que me proporciona experiências e conexões incríveis. O universo se move, tudo no universo se move. Tem um amigo que diz que somos a consciência do universo. Se a gente não se move, o universo nada faz por nós, já que somos uma coisa só. Então, no fundo de tudo o que eu poderia listar como “segredo” da felicidade, talvez esteja esta simples, mas não simplista, ação: movimentar-se! É jogando a bola para o universo que ele joga de novo pra você, como diz um outro amigo. E como diz um outro ainda, quando o desejo é sincero, e não interesseiro, as coisas acontecem. Talvez isso nem seja desejo, mas simplesmente existir conforme o que te move. Ser o próprio universo, simplesmente. O infinito está dentro da gente... Logo, a felicidade também. Tem coisa mais fácil de entender e mais difícil de viver? Óbvio que agora cheguei num ponto daqueles altamente complexos: será que é mesmo só uma questão de movimento? Pois algumas pessoas parecem ter sorte enquanto outras parecem ter um azar danado... Mas sei lá. Isso é mistério, e ainda bem. Se já estivesse tudo resolvido, que graça haveria em continuar? É como aquela música do Moska: “então me diz qual é a graça, de já saber o fim da estrada, quando se parte rumo ao nada...” Nenhuma. O bom da vida é que ela é uma aventura! 

21.10.13

à mulher que se esqueceu

basta
todo jogo pálido
toda cena estúpida

chega desse jogo barato

pareces não saber mais
como se vive...

mostra a cara limpa
e deixe tudo claro

isso é raro?

cansada de toda farsa esquálida
escarro no teu rosto inválido
a fome de viver

escarro em tua alma morta
que esqueceu o que é paixão
o meu tesão bandido em viver

que triste tu és
alma pequena
que sequer consegue
murmurar desejos

tu
que teces fios sórdidos

pensas que não vejo!?

estou de olho na forma como costuras
e tenho pena de ti

tu que sofres e sequer se olhas
tu que levaste da vida porrada ácida agora
e nem assim...

tenho pena de ti

mas esqueço
porque não tens por si
mais nenhum apreço

e grande é meu desejo
de sair por esse mundo
a alimentar música, poesia
e o beijo mais doce e quente
que já conheci um dia

sabe quando um homem te arrepia!?
acho que tu já esqueceste...

talvez haja tempo
que ninguém lhe beije

tenho pena de ti
e digo

a paixão dá sentido

se esqueceste de si mesma
nada mais posso fazer
que ignorar-te

e viver a plenitude da mulher selvagem

porque sou mulher apaixonada
pessoa inflamada de arte
que olha com desprezo o teu mundo burocrata

se ninguém mais te beija
nada posso fazer que prestar-lhe
o meu pesar

mas falo da verdade do beijar

quem se esqueceu
também atrai quem já morreu

nada mais posso fazer
a não ser
desejar-lhe
sem remorso
que seu coração se acalme
e adoce sua alma disforme
para que um dia
possas ter também
a sorte
de ter o beijo do homem
que te refaz da morte

pois, de tão certo,
resignifica teu sexo
e, jubiloso,
sagrado o faz

não entendes o que digo?
muito sinto...

pena não te ver
fazer valer o instinto

quem se perde de si
perde tudo

empobrece o mundo com o medo
e apequena a humanidade...

tanto esforço inútil
por receio
da liberdade

7.10.13

presente

na poesia dos teus gestos
hei de ser, ainda mais,
a beleza do verso

na poesia do teu contra-verso
hei de ser diamante submerso

29.9.13

música nova

se eu fizesse uma música agora
teria, ela, cheiro de futuro
e uma única saudade

a que ainda está por vir...

se eu fizesse uma música agora
seria calma, alta e misteriosa
e voaria sobre os Alpes

seria música nova
incabível no passado
solitária e silenciosa

e não haveria qualquer nota

como se o corpo reconhecesse
apenas pulso nesse instante

se eu fizesse uma música agora...

ela não seria minha,
do que ainda reconheço

mas de quem não sei quem sou

e criaria a própria música
como se fosse a música primeira
que criou os homens

se eu fizesse uma música agora
eu sequer saberia que era minha

ela teria cheiro de começo

e me revelaria
o estranhamento que hoje sou

se eu fizesse uma música agora
seria a própria música cósmica
a voz de Deus a ecoar sobre o vazio

e não apenas seria música nova
que nasceria rasgando, indisfarçável

ela seria, antes,
nesse momento doloroso e mágico,
intocável...

27.9.13

através do espelho

maldito espelho
o outro
maldita palavra alheia
que me revela
e rasga minha veia
saturada de passado

a metamorfose não é bela

pode-se morrer nela
e se perder, para sempre,

lagarta no casulo...

é doloroso fazer nascer um corpo novo
quando já se está tão conformado no existente

no entanto,
há êxtase em perceber onde se conforma
e já, deforma

maldito espelho que é o outro
maravilhoso
que me revela onde falho
tanto quanto onde encaixo

bendito espelho

cristalino

como música barroca
eleva o espírito
e me lança no abismo

maldito espelho
que revela minha fraqueza

bendito seja!

24.9.13

ativa espera

a palavra
me salva

me amarra
a palavra

aperta

o amor
desperta

busco a palavra certa
como busco o amor liberto

e é na sua agudeza
que me embebedo de beleza

como se casco de árvore eu fosse
e escorresse feito seiva doce

e derretesse, amálgama do objeto
e explodisse, expansão do incerto

a palavra pouca
o amor que é verbo

amor que se tem certo
mas parece não ter cumprido ainda
sua caminhada no deserto

ando tateando a procura do verso mais profundo...

e me desloco de encontro, em desejo

quem sabe esteja ele a minha frente
e ainda não vejo

pois sinto uma brisa...
mas não sei ao certo o que ela diz sobre a vida

sei que traz auroras
e me responde certas inquietudes do agora

e, assim, tateando,
talvez encontrem, minhas mãos,
em suave conflito, a textura do infinito

e a palavra certa!
tanto quanto o amor que liberta...

como música exata, ou poesia,
que esperaria o tempo que fosse pra nascer

e nasceria

5.9.13

quando se tem amor

dois poemas de um mesmo dia...

poema alado
na noite de um nascente setembro

lanço flores
para ressaltar a beleza
das rotas dos encontros
e expressar a delicadeza necessária
em tempos cansados do planeta

lanço-as para dar leveza
a pesos desnecessários

a vida é foda
mas é fácil

e me pisca o olho de um deus
na cumplicidade de uma certeza:
o que vem do coração
jamais pode estar errado

o que se faz com amor
é sempre um poema alado

---

na tarde de um nascente setembro

Um trabalho, seco
Sem vida, falho
Faltam-lhe afetos
Falta-lhe apreço raro
Um trabalho, escasso
De vida, de fome
Dos que lhe tratam
Perda de tempo?
Tempo mal gasto

Foi-se agosto
Levando o gosto do aprendizado
E deixando um amargo

E aguarda, o coração, a primavera

A luz de setembro há de brilhar
E retomar sorrisos ternos
Abraços fartos
Leveza do corpo
No único dos trabalhos
Que vale o suor e o osso

Ou se tem amor
Ou se está morto

3.9.13

poemas paulistanos

sequência de poemas escritos em um fim de semana em São Paulo

poema de aeroporto
sexta, aeroporto Santos Dumont

então, fez-se luz!
e, logo depois, verbo!
e Deus criou o homem e a mulher.
e criou o paraíso, onde plantou sonhos, música e delírio.
e fez-se o tempo.
e homem e mulher passaram a ter razão para viver o paraíso ao máximo!
mas o homem inventou o trabalho...
Deus, refletindo o por quê daquele ato,
até achou que alguns trabalhos valiam a pena...
em tempo, não pensou duas vezes:
para ajudar homem e mulher, sendo camarada e gente fina,
eis que Deus criou, então, a cafeína!

poema sinfônico
madrugada de sexta para sábado, após concerto da Osesp na Sala São Paulo

“uma sinfonia deve conter o mundo”
e em cada mundo, a paixão

era cedo

anunciaram, as madeiras,
notas transversais
tomaram o meu corpo
e eu me rendi ao suor do sopro

fosso-oboé do meu desejo
clarineta fálica do meu sexo
meu nexo é levar a vida na flauta
e, em se tratando de paixão,
meu fagote sussurra coisas impronunciáveis

metalizando a fala
minha verdade rara é tomada de torpor
trompas, trompetes, tubas, trombones
quando o mundo se refaz, são eles que anunciam

e, logo depois,
na percussão do universo,
anuncia-se o verbo
um tímpano é capaz de produzir um mundo novo
e a infinidade de tudo o que percute
faz a existência mais certa e menos rude

e então, as cordas...
onde a realidade se estica
para multiplicar o possível
e o impossível do infinito

contrabaixos,
esses mensageiros do profundo
ressoam graves desde o fundo do oceano
e revelam minha insanidade necessária

violoncelos,
mestres da doçura e do experimento
vêm nos ensinar o caminho do meio
meu corpo, deles tomado,
delicia a eterna hora do recreio

violas,
as pontes...
sem elas, a passagem seria dolorosa
minha alma, cansada,
dança com elas a valsa enluarada

e chegamos aos violinos,
tão carregados de história...
eu viveria na melodia dos versos que produzem

e ao me encontrar, de frente pro mistério,
no quase segredo que revelam,
eu morreria, para recriar minha fala,
nas mãos de um spalla

e, então, no ouvido do maestro
renovando o sexo dos deuses
reconstruir-se-ia o mundo
por teus gestos

como poema sinfônico

semeando luz
em todo e qualquer universo

um maestro deve ser deus
cada um de nós, maestros de si mesmo
a reger as sinfonias de nossos desterros

e cada sinfonia deve conter o mundo

sejam quantas forem

nove, dez,
quarenta...

são elas, os cantos da terra
e a vida que se reinventa

espanto
sábado, após visita ao Museu da Língua Portuguesa e uma pequena surpresa

espanto...
o que mais agora, pode,
anunciar meu canto?

fosse a vida mais exata
e seria calma,
mas chata...

espanto...
palavra que ficou da tarde
de tantas palavras

palavra que ficou, precisa,
pela rede social, revelada

palavra que me deixa
sem palavras
querendo, apenas, escutá-las

e ouço o poeta
sussurrar no meu ouvido:

“penetra surdamente no reino das palavras.
lá estão os poemas que esperam ser escritos.”

---

o mundo,
esse ovo curioso e fecundo
a vida,
essa coisa doida varrida

---

no instante seguinte em que lanço a palavra,
dela já me desapego

não a nego

mas ela sai como escarro ou beijo
e assim, lançada no mundo,
de mim, torna-se apenas lampejo

a palavra só tem peso
se a quisermos desejo

a delicadeza do abandono
madrugada de domingo para segunda...

recado está dado
meu samba está leve

te deixo de lado

recado está dado
economizo as palavras

te abandono de mim
para renovar o nosso apreço
e deixar, assim,
surgir um novo começo

recado está dado
mesmo que eu não saiba o que ele diz

aceito o silêncio
com alma de aprendiz

28.8.13

a vida, esse mistério: do desejo e o desapego

Pequenos momentos podem ser grandes momentos, quando capazes de ampliar a vida, de torná-la mais bonita e mais leve. E talvez sejam os pequenos momentos os que mais deem sentido à vida. Um abraço, um cafuné, um bom café, uma boa noite de sexo, encontros, reencontros, olhares, fazer uma comida pra quem se gosta, oferecer e receber ouvido, atenção, colo, flores, ter aquela conversa, beber um vinho, conseguir fechar um trabalho, iniciar um, pegar um avião, saltar do avião, chegar num lugar desconhecido, chegar num lugar que se ama. É no dia a dia que as coisas se consolidam, que a intuição tem espaço, que se constrói e se destrói. É no cotidiano, na necessidade de viver o que a vida nos coloca como nosso, que temos a chance de aplicar conhecimentos, teorias, juntar práticas, organizar, reorganizar, desorganizar. É no dia a dia que dimensões fundamentais da vida ganham espaço, como o cuidado, a atenção, a relação entre o que somos e o que é o outro e o mundo. Os grandes acontecimentos são importantes, como as celebrações ou os ritos de passagens, mas é no dia a dia que os processamos, criamos sentido para eles e, de fato, fazemos a vida acontecer. Infelizmente, quando há um desequilíbrio das forças, a gente perde muito como ser humano. Ao menos, acredito nisso. Observo que vivemos numa sociedade que privilegia o grande acontecimento, a imagem, e suprime um pouco a dimensão do cotidiano. Há pouco tempo, dei uma entrevista sobre indústria da música para o Jornal Valor e falei sobre isso, quando me perguntaram se a valorização da imagem do músico em detrimento da música tinha relação com a cultura. Claro que tem, desde que entendamos a cultura como a expressão de um tempo. Dei a seguinte resposta: 

"Isto é a nossa cultura hegemônica hoje, entendendo cultura como a expressão e produção de um povo, país, grupo ou de um tempo. Neste sentido, tem a ver com cultura sim. Mas quando isso acontece, de fato a arte fica em segundo lugar. Valoriza-se muito mais a casca que o conteúdo. A cantora até estuda pra não ficar mal na fita, mas ela está mais preocupada com a escova no cabelo do que com a voz... A imagem tem um peso enorme hoje em dia, de uma maneira descolada da ética. A estética é uma dimensão fundamental do humano, mas descolada da ética é somente aparência. Acho triste isso como cultura de um tempo. E está presente em tudo. Quantos casamentos infelizes existem por aí, mas que a festa foi incrível, o papel foi assinado, e todos saíram satisfeitos por cumprirem seu dever social? E vamos vivendo histórias de mentira... Assim como amor é uma coisa que se vive no dia a dia, muito mais do que na mise en scene, cultura e arte também. É uma ralação diária pra se fazer uma coisa consistente, para não descolar a estética da ética..."

Nessa imbricação da estética com a ética, para mim, reside uma das questões fundamentais da vida. Mas isso traz uma fatalidade. Não no sentido daquilo que é ruim, mas no sentido do que é inevitável. Ou nos confrontamos com isso ou viveremos pela metade. Em algum momento, a vida vai se encarregar de nos mostrar que ela não é o que a gente desejaria que fosse. E leva-se tempo para aceitar isso. No entanto, quando se aceita, a vida parece se tornar muito mais interessante, porque infinitamente surpreendente. Pois nos deparamos também com a limitação do nosso desejo, e com a limitação do nosso entendimento da vida, sempre pautado pelo que queremos, e isso exclui uma série de possibilidades. A questão é que lidar com isso não é fácil, e parece bem mais fácil fechar os olhos e fingir que está tudo resolvido. Nada está resolvido. A vida é processo. Claro que algumas coisas precisam começar e terminar, ciclos se abrem e devem ser fechados no tempo de fechar. Mas em termos de sentido, da pergunta “quem sou eu, o que faço aqui e o que quero, e o que é a vida”, o processo é permanente. Aqui, entra outro componente fundamental: a relação com o desejo e o apego. 

Primeiro, começa pela confusão com o conceito de desejo, por isso esse é também um componente fundamental. É preciso que entendamos o peso que certas práticas têm na cultura para relativizarmos as coisas e ganharmos leveza. A psicanálise consolidou muito bem um determinado conceito de desejo na cultura ocidental, de tal forma que ele se tornou a verdade sobre esse conceito. Desejo passou a ser aquilo que queremos e do qual nos tornamos escravos, conceito que, depois de algumas décadas de psicanálise, Deleuze e Guattari vieram combater, afirmando que desejo é uma força que, em linhas bem gerais, move o ser humano e qualquer coisa viva. Não vou aqui filosofar sobre o desejo, porque eu precisaria retomar estudos e discussões que estão enferrujadas na minha vida, para relembrar algumas coisas e ganhar mais consistência, mas quero chamar atenção para uma coisa: o desapego como forma de tornar o desejo algo mais leve. Sendo desejo algo que se quer, tendo esse peso que a psicanálise colocou nele, deduzo que uma questão importantíssima para se viver bem é como desejar, se movimentar, em suma, viver, sem depender daquilo que se deseja ou, até mesmo, do desejo que te move. Não sei muito bem a que caminho eu vou chegar com essa especulação, porque isso é mesmo uma especulação. Mas entendi o que para mim significa o desapego, depois de tantos anos intrigada com isso, fazendo meditação, pesquisando o budismo, entre outras práticas. 

Fala-se aos quatro ventos e nas redes sociais da vida que o desapego é fundamental. Sempre que vejo isso me pergunto se as pessoas pensam sobre aquilo que elas falam, e se dispõe algum tempo de suas vidas a tentar entender o que está circulando de fala por aí. Porque o que mais tenho visto são falas apressadas. Não que as coisas não possam acontecer rápido. Acontecem, e eu que o diga. Mas vejo uma necessidade de fala desesperada hoje, uma pressa em querer opinar. Lança-se, assim, a “opinião” de qualquer maneira, e muitas vezes ela é tão somente um desabafo ou a expressão de alguma vontade, ou uma carência, carregada da história da pessoa, suas conquistas e frustrações, lançada sem o menor cuidado nas redes e nos espaços coletivos. A galera está mesmo com pressa hoje em dia. Talvez porque tanta coisa esteja entalada na garganta, claro. Só acho que se precisa ter cuidado, pelo outro e por si. Fica-se vulnerável diante da fala apressada jogada sem parcimônia nestes espaços coletivos, e fazemos, a partir dela, muitos julgamentos pré-conceituosos. Muitas vezes, a fala apressada é também uma defesa e, em alguns casos, uma vontade de aparecer, de mostrar que se tem opinião, de provar alguma coisa qualquer pra sei lá quem. Um medo de ser só mais um, uma fragilidade... Mas cuidado também não é ficar quieto. Um grande amigo vem colocando, nestes espaços coletivos, uma questão importante e que tem me feito pensar muito: menos medo e mais cuidado. Tomei isso pra mim como um mantra, pelo menos por um tempo. Temos muito medo de viver; medo do outro, medo de sair do nosso lugar de conforto, medo de não ter o que dizer, medo de não saber. E o medo, embora um recurso de sobrevivência, quando alimentado, mesmo que de forma subconsciente, paralisa a inteligência plena. E nos jogamos diante do mundo de forma reativa, buscando sempre “culpar” algo ou alguém pelas nossas incapacidades, ou de maneira individualista diante de questões que merecem foco no coletivo, ou de maneira rasa quando precisamos mergulhar em nós mesmos, com medo, talvez, do que vamos encontrar. Mas, enfim, tudo isso pra dizer que o desapego me parece não aquele desapego utópico da supressão do desejo, mas a não dependência daquilo que se deseja. Um cuidado com si mesmo e um cuidado com o outro. Desejar, no sentido de querer, causa uma grande ansiedade, e a ansiedade, quando exagerada, torna os processos confusos e altamente individualistas, e daí surge essa exacerbação do ego que vemos hoje em dia, expressa, inclusive, nas falas apressadas. Fato é que a ansiedade também move, mas como nada na vida é, me deve ser, simplificado, embora simples (e o simples é complexo...), ela também tira a nossa capacidade de relaxar e de observar o outro, para que a troca se torne efetivamente uma troca. 

Sou uma pessoa muito ansiosa, desejo demais. E esse desejar demais me move, o que é ótimo, porque sempre realizo coisas incríveis. Mas quando a ansiedade chega ao ponto de me exaurir, e hoje eu já consigo identificar minimamente esse ponto, eu sei que me entregar a ela é uma cilada das mais terríveis. Por isso, respiro, medito e lanço para o universo. Desapego. Não que eu deixe de me movimentar, mas eu deixo de depender dos resultados do movimento para me sentir em paz. Você poderá se perguntar se eu realmente consigo isso. Bem, muito mais que ontem, e muito menos que amanhã. É um constante aprendizado, puro fluxo e movimento. Nesse sentido, o desapego tem relação direta com o cuidado. É um cuidado de si e um cuidado com o mundo e o outro, na busca de encontrar o ponto onde você não se anula e não sufoca o outro, onde você age com o coração na hora que tem que agir, e onde você recua na hora que tem que recuar. Estar atento é um cuidado. Atento a si, atento ao outro, atento ao que se passa ao seu redor. Isso é cuidar. E o cuidado é fundamental para ampliarmos nossa visão de mundo, da vida e para acalmarmos o coração. Nunca fui uma pessoa muito cuidadosa, mas é impressionante como a gente muda nessa vida. Hoje, o cuidado se tornou uma questão fundamental pra mim, talvez porque, cada vez mais, o desapego também seja.

Acredito que é preciso deixar-se levar pelo desejo e se movimentar, tanto quanto é preciso saber a hora em que somos movimentados. É preciso confiar. Isso é desapego. Isso é cuidado. A gente confia muito pouco na vida e até na nossa própria capacidade quando somos tomados pela ansiedade de querermos que a vida seja de tal ou tal jeito. E confundimos muito essa entrega com ficar parado, simplesmente aceitando as coisas como elas são. Falo justamente do contrário. Assim como Deleuze e Guattari, acredito que o desejo move o mundo, e é o que me move, e é o que deve mover. Mas também, é o apego ao desejo que produz as coisas mais bizarras, como a paixão pelo poder, por exemplo. O poder é um desejo de poder sobre o outro. Apaixonar-se pelo poder é uma cilada e tanto do ego. Eu posso estar fazendo uma confusão com esse conceito de desejo aqui, mas como eu falei, são especulações ainda. E escrevendo eu vou arrumando as pecinhas na cabeça. Assim como, às vezes, o que mais preciso é abandonar as palavras para entender algumas coisas. Tenho tentado equilibrar essas duas formas de conhecimento e construção da realidade...

Mas sei que nesse momento a questão do desapego se tornou uma grande questão. E pensando nessa sociedade apegada, e tão apegada a imagem, que dá tanto mais peso ao espetáculo que ao que se vive e se sente de verdade, não tenho como não pensar em mim, sendo que vivo neste tempo. E vice-versa. Pensando em mim, também penso no mundo.

Ontem, voltei da minha aula de canto muito pensativa. Já era tarde da noite, fazia muito frio, e caía uma garoa. Eu caminhava me sentindo leve, e pensava na vida e nos últimos acontecimentos. Joguei para o universo os meus anseios. Venho num processo de fazer isso já há algum tempo; o processo de me movimentar no cenário entre o meu desejo e o que preciso fazer, e quando confiar e entregar para o mundo. Não sei precisar há quanto tempo, pois sei que é uma questão de anos. Mas de forma mais enfática, como uma questão que realmente faz sentido, faz pouco mais de um ano. Então, eu andava por aquelas ruas arborizadas da Tijuca, cheias de casinhas legais, perto da montanha, sentindo a chuva fina sobre mim, e me veio a memória, totalmente afetiva, de Petrópolis, cidade onde nasci, vivi minha infância e passei boa parte da vida visitando por conta dos meus avós e tios. Acho que aprendi a gostar da Tijuca, especialmente da área onde moro, perto da montanha, por conta dessa sensação que me traz aquele cantinho do bairro. Quando começa a esfriar no Rio, parece que lá é o primeiro lugar a sentir o efeito do frio (no caso do calor vale o mesmo). Vai baixando uma neblina montanha abaixo, e o vento logo fica gelado. Gosto disso. Ou foi o que escolhi para aprender a gostar da Tijuca e fazer do bairro um lar, depois de 12 anos morando colada ao mar, coisa da qual sinto muita falta. Mas nada que um deslocamento rápido não resolva! Pois bem, eu ia passando por aquelas ruas bonitas, cheias de casas, prédios baixos e árvores, ouvindo músicas que ampliam a vida, repleta de uma boa nostalgia, e me sentia certa; muito certa, de que lancei para o universo tudo o que vinha me amarrando em insônia, angústia, e outras coisas que me destroem. Se eu consigo? Como falei, mais que ontem, menos que amanhã. Mas a sensação é de conquista.

O fim de semana foi emocionalmente intenso, me exigiu, e comecei a segunda-feira já com sensação de sexta. Precisei me desligar na segunda, como às vezes eu preciso para recarregar as baterias, e deixar o mundo desabar sem a minha intervenção. Sei que isso, quando se tem compromissos, é algo complicado. Mas como muito do meu tempo está hoje nas minhas mãos, outra conquista fundamental, eu me dei esse luxo, pois eu sabia que poderia resolver tudo a partir de terça. Sumi do trabalho, pois o cansaço, físico e emocional – uma mistura de ressaca, falta de sono e excesso de gente e suas inúmeras questões –, me impedia qualquer discernimento, e ainda havia uma raiva de ter que fazer uma coisa que eu não estou nem um pouco a fim de fazer: uma produção que não fala ao meu desejo e que chegou de forma atropelada, enquanto tantas outras falam e para as quais também preciso dar atenção. Dormi a tarde inteira, com a pressão baixa e, quando acordei, alguma coisa me disse que eu devia me mandar pra São Paulo no fim de semana. Não sei por que razões lógicas, mas eu atendi a esse chamado interno, até porque faz mais de um ano que não vou lá. Eu sequer pensei se eu poderia ir ou se teria dinheiro. Simplesmente acordei, me veio a ideia e eu comprei uma passagem. Vai entender... E nem consegui resolver tudo pra ficar tranquila por lá. Não sei até agora onde vou dormir no sábado, por exemplo, nem o que vou fazer no fim de semana. As únicas coisas que sei são o dia que chego, o dia que volto, e que tenho onde ficar e o que fazer na sexta. De resto, eu ainda vou descobrir. Mas é isso, estou confiando que tudo vai dar certo. Porque sempre dá. Uma amiga disse que sou louca, brincando, claro, porque ela me conhece há 13 anos. Mas pra mim, louco (no sentido, aqui, daquele sem noção do que faz) é quem vai vivendo a vida na mesmice, sem risco e sem movimentação. A vida é curta demais pra se ficar com a bunda no sofá, pra se fazer o que não se quer, para se estar com quem nada tem a ver com você, pra não dormir o tempo que se quer dormir (créditos desse último pra um amigo com quem conversei hoje no almoço). É preciso jogar para o universo e confiar. E jogar para o universo é se movimentar, porque nada cai do céu. Acredito que mesmo que a gente não saiba pra onde ir, devemos escolher um ponto e ir. A vida sempre se encarrega de nos fazer chegar a algum lugar interessante quando a gente se põe em movimento. E nesse caminhar, a gente vai ajustando, avaliando se é isso mesmo e, às vezes, podemos nos desviar completamente do caminho, o que pode ser ótimo, pois é sinal de que alguma coisa falou alto ao nosso desejo, ou pode ser ruim, mas isso vem pra nos fazer crescer. É como aquele verso: não há caminho, o caminho se faz ao caminhar. Portanto, é preciso ir. Aquela metáfora que compara a vida a andar de bicicleta é linda e, para mim, super verdadeira: para se ter equilíbrio é preciso estar em movimento. Então, uma coisa se tornou certa na minha cabeça: movimente-se, mas confie. O apego é um bichinho sedutor, mas completamente traiçoeiro. Por isso, joga pro mundo e vai tranquilo, desapegado! E coisas maravilhosas serão possíveis. Observemos no nosso dia a dia essas questões. É nele que a vida dá pistas de que é incrível!

22.8.13

desabafo apaixonado

este texto foi deletado
para dar lugar a asas de borboleta
agora ele quer voar
para onde a palavra não cresça

20.8.13

o olho do universo

alguns poemas nascem rápido diante da poesia do mundo...

---

estou em prece
largada ao chão a contemplar o que não descrevo

apenas sinto

o chão é gelado
e meu amor é chama consistente

o olho do universo
ilumina minha varanda
observando meus movimentos
como se soubesse o que penso
e como se compartilhasse dos meus anseios
e, cúmplice, atestasse o meu desejo

sobre a minha bicicleta, a lua cheia,
que sabe que dela nunca me canso

o som de um solo de les paul me arrasta pra longe
e eu poderia chegar agora onde jamais estive antes

assim, tão carregada de futuro...

escrevo e o céu é de um negro profundo
que arrepia os sonhos mais bonitos

chega a doer no peito tamanha beleza
e meu silêncio é uma reza em agradecimento

pois a lua cheia no alto do céu
anuncia novos dias

anuncia um despertar

e as nuvens de cores camufladas
que circulam em torno dela
e logo atrás, a montanha, vista da janela
dizem do meu corpo a querer ser pássaro

queria eu, agora, estar lá perto
a olhar bem dentro do olho do universo

é fácil ser feliz
não é preciso nada além de saber pelo que se vive
e viver por isso que se sabe

a lua atesta

o negro profundo do céu celebra

tudo está aqui
nesta noite que amplia o meu coração

e me traz, em tempos tão exaustos,
uma leve e calma respiração...

11.8.13

poesia de família

os poemas dedicados à família!

---

do corpo uno
aos meus pais

vocês,
que me conceberam...

são também o meu corpo!

está no meu sangue o código 
que vem de gerações antigas

do homo sapiens
aos nossos patrícios
seu pereira e sr. vieira cristo
outros de nome desconhecido...

mas são vocês que estão na minha pele!
de que importa o sangue?
importa a relação viscosa 
do amor de pai e mãe

a torcida calorosa na arquibancada da vida
aquele beijo dado no saguão do aeroporto
enchendo de lágrima a despedida
tão “desnecessária” 

porque logo viria o retorno

aquele semblante de cansaço...
e eu chegava com o cheiro de álcool
aquela voz levantada com o medo
aquele frio na espinha quando chegou em mim
o desejo

e então, aquele olhar
aquele que revela uma galáxia 
de quem carrega o coração fora de si

ninguém será capaz de me dizer
que tal sensação valiosa é essa
que nos torna do outro, um só 
com nosso corpo

saberei um dia
quando o meu próprio carregar a vida

por ora, sou filha
por ora, recebo o abraço caloroso
e meu corpo sabe onde pode encontrar repouso

---

mãe-vó
para minha avó Ceny, atriz, dançarina e encantadora

era cedo na minha vida
eu descia as escadas te chamando, mãe-vó

queria tua comida,
teu sorriso, teu cafuné, 

queria tua queijadinha
e os biscoitos amanteigados de Petrópolis

era a tua festa a minha alegria
dos carnavais no quintal
e da hora de acender as luzes da árvore de Natal

o samba, a música que sempre emanou de ti
o quarteto de cordas que carregas dentro do corpo
e o teatro inteiro para lhe receber

ah, quando te vi naquele cartaz...
o vô tão jovem e galã pra te conquistar...
grande atriz, eu quis ser como ti!

e nunca me esqueci
todo o encanto de tantos anos lá na serra
sua voz ecoando pela casa imensa
aquela água gelada que me fazia chorar
e tu, rias, e dizias que ia passar...

depois fazias um chá
senhora que és dos mistérios das plantas

carregas neste corpo a própria divindade
de quem vai floresta adentro porque sabe
que por ela é protegida

carregas em ti, mãe-vó
essa certeza da vida, uma alegria, uma energia 
que me ensinou a tanto lutar pelo desejo

tu podes nem saber, mas me deixou este legado

o da luta
o da arte
o doce sabor da música

e a poesia...
como aquelas que escrevias nos teus cadernos de receita!

---

Karine aos 25
para Karine Rocha em 15 de novembro de 2012

você chegou sem pressa
e de surpresa
tinha a calma de quem
parecia saber
que viria para trazer
doçura

e fazer nascer uma canção
de encantamento
e conciliação

você cresceu iluminada
de cabelos cacheados
dourada

dona de um afeto absurdo
saiu por aí distribuindo beijos
carinhos, afagos que
nunca
poderiam
ser negados

mas é hoje, ainda,
uma criança
porque na sua beleza
de se tornar gente grande
guardou aquele olhar
curioso, de quem sabe
que o mundo
ainda tem muito
pra dar

sensibilidade da água
encarnada num escorpião
pura carne do coração

você só cresce
e é grande de alma
é força tamanha
de ser amor-mundo
como se quisesse abraçar
todo esse mundo

é essa energia
em ser
amor
e mais nada

porque amor
é tudo

Karine aos 25
é mística
misticismo concreto
de ser pura magia

amor-mago
que conquista
e arrasta
para o universo sem fim
das coisas encantadas dessa vida

---

Poema do amor sonoro
presente de casamento para Andressa Rocha e Fábio Lessa

tanto já se falou sobre o amor...
tanto já se compôs na inspiração do amor...
e parece que nunca é o suficiente!

e lhes digo: não mesmo...
porque o mundo todo é amor!
reconheço...
e o mundo é grande!

e se é para falar e compor,
que seja sobre o amor!

assim insistem os amantes!
...e como haveria de ser diferente!?

insistem os músicos!
...e poderiam insistir em outra coisa!?
e os fonoaudiólogos!

pois amor se sente al dente,
e se sabe já no prólogo!

amor não é aquela coisa certa
que busca o casal, com uma lista,
na prateleira de um supermercado

uma lata de leite condensado
ou uma caixa de suco adoçado...

amor é incerto...
vive alternando dissonâncias
em uma sucessão de ritornelos.
às vezes provoca surdez, nos deixa mudos...

quando chega, acelera o coração
e deixa a perna bamba,
como se fosse um contrabaixo
a marcar o pulso.

amor é a doce alegria de viver no não saber!
de se fundir, de se esquecer,
de ser mais que um
e de ser um do tamanho do universo.
puro verbo, puro verso!

amor nem deveria ser dito assim,
com palavras...
pois é tatuagem rara

amor merece mais é música!
merece mais é voz, escuta!

merece uma dança desvairada,
uma cerveja bem gelada,
uma loucura a dois numa praia enluarada!

amor não comporta entendimento algum,
mas sim, uma viagem pra Cancun!

amor pode até rimar com dor,
como dizem por aí.
mas essa é rima pobre...
porque amor rima mesmo
é com alegria!

é por isso que então,
levemos corpo ao amor,
forma de gente!

hoje o amor tem a forma de um homem
cujo grave tom chegou fundo
num agudo coração profundo

e a forma de uma mulher
cujo canto de sereia e ouvido de quem sabe
chegou ao cume do coração
daquele que lhe cabe

hoje amor tem nome!
e assim como amor rima com alegria
rimam Andressa Rocha e Fábio Lessa

e a graça do amor é essa:
rimar as singularidades!

e assim também,
como hoje amor tem nome,
hoje amor é som,
no corpo sonoro de Fábio e Andressa,
para que a gente não esqueça
que a concretude do amor
é o ritmo que reverbera em todos os corpos
e a melodia da existência
que faz vibrar os corações
como cordas de aço e voz
a nos levar para os mais belos portos!

jogo de palavras

errante solidão
do corpo sólido
causa anseio calmo
possível fosse

gloriosa saudação
do etéreo gélido
busco antigo salmo
num caminho doce

quando vem a saudade

saudade é coisa curiosa

ela não pede para entrar
entra, simplesmente
como toda coisa
que foge do nosso trato

e, de repente,
revela o inesperado

ou, quem sabe,
não tão inesperado assim
já vivido como desejado

e é doce como a saudade
nos leva a certificar o que nos arrasta

e é certo como leva a saudade
um pedaço de nós para onde se desejaria estar
novamente...
pois saudade não é reticente

já tão incapaz de caber em si
o que nos faz sentir saudade nova
e já tão grande

saudade é coisa curiosa

vem nos lembrar
que em termos de quereres
caem, certa hora,
todos os nossos poderes
.
.
.
se nada controlo
que dirá, se controle em mim,
a força dos teus prazeres

22.7.13

o pêndulo e o poço

quando inflama um corpo
e a mente reclama, insolente,
divergente...

pra um lado o corpo,
pro outro lado a mente,

o mundo pede calma

mas o que se faz com o que não se alma
e com aquilo que se alma até demais?

quando inflama um corpo, inflama!
e nada mais

a mente tenta anuviar
nubla a memória
dispersa a história

libera palavras que tentam racionalizar

mas quando inflama um corpo, inflama!
e não há como disfarçar

a mente briga com o corpo
e relativiza o tempo
esse que corre,
oferece, tira e devolve...
sem chance pra lamento

tola mente!
porque a memória tem cheiro...

voz, carne, osso
sonhos, desejos

e desespero

e vira e mexe
a memória vira carne de novo
e a memória tem beijo

assim, inflama o corpo
e ri na cara da mente
mas, insolente, lhe olha a mente
e ri do corpo que se alma

mas se mente é a ideia do corpo
mente a mente para o próprio corpo?

apenas sei que inflama, o corpo...
em abraços longos que liberam fagulhas
revelando o que não foi dito
e todo o dito que foi tanto
e que teceu inúmeros fios de futuro

tecem, então, mais um fio, esses abraços...
com os quais se quereria fundir os corpos novamente

a mente...
que pode ela fazer diante do que se sente?

esses fios, só o tempo vai dizendo
como devem ser tecidos...

fios que são como aquela vontade louca
de água no deserto
que une a água e o corpo
como se fossem um só porto

espontânea imanência da vontade
à procura do seu poço

e você sabe que precisa caminhar
para encontrar um oásis

e espera ainda que a chuva caia em tempo,
antes que a sede se transforme
em pesado sofrimento

por isso
cabe ao corpo,
diante do tempo,
colocar-se sempre em frente

na doce alegria do movimento

leve, ainda que sedento

pois, além de equilibrar,
faz, o movimento, um dia,
aquilo que se buscava,
encontrar

ainda que se encontre
uma água totalmente diferente

o que é mais provável
quando perseveramos a procura de um poço

assim, cai o pêndulo,
e fica a água a, finalmente,
alimentar mente e corpo

16.7.13

Pitta

Eu me consumo

Não me importo em morrer

Minha chama é daquelas que renascem
Ave mitológica

Procuro sempre por aquilo que me inflame
Nasci sob a configuração da combustão

15.7.13

O tempo...

O tempo é uma das questões que mais me me tomam tempo nessa vida, como questão prática e simultaneamente filosófica. E a relação com o tempo, é sempre uma relação conflituosa para mim (mas que relação não é conflito, me pergunto... conflito é bom!). Tudo o que faço, ou melhor, tudo o que escolhi para me dedicar (ou que me escolheu) faço com intensidade, e fico sempre com aquela sensação de que me falta tempo, porque, teoricamente, eu precisaria de mais tempo para fazer mais e melhor (neurose minha). Mas essa é uma sensação de quase todo mundo hoje, pois vivemos bombardeados por informações, ofertas e convites. Achar que vamos dar conta de tudo é um erro para o sistema nervoso, e para a consolidação do que deve ser feito. Pois o que não nos falta é tempo. Talvez falte é concentração, foco naquilo que escolhemos como prioritário na vida. No entanto, embora tempo não seja desculpa quando queremos alguma coisa de verdade, não há tempo a perder. Porque a vida passa rapidinho... O ruim é quando sequer sabemos o que queremos, o que desejamos. Aí é assunto pra outro texto. Nesse aqui, vamos supor que já sabemos, ao menos um pouquinho...

Saber que o tempo está passando é uma sensação que às vezes me angustia. É por isso que acredito que manter-se em movimento é extremamente importante e, mais que isso, no movimento do desejo. O quanto deixamos de nos dedicar àquilo que realmente importa pra gente na vida? Essa pergunta deveria ser básica no nosso dia a dia. Acredito que uma sociedade neurótica e violenta é fruto das inúmeras repressões do nosso desejo. Nada novo na psicologia, ok. Mas só para enfatizar que falo de um desejo de ser o que se é, que é o que se quer. De assumir o que é sincero dentro da gente. É assim que nascem os grandes artistas, cientistas e outros istas. Quando a gente faz o que ama, ou algo que passamos a amar porque nos conduz ao que acreditamos, e porque o que a gente ama nos organiza, nos constitui e dá sentido a nossa vida, a gente vive melhor e a vida em sociedade parece fluir melhor. Ao menos, é nisso que acredito. Claro que há uma série de questões sociais aí, mas é por isso que acredito nas políticas (coletivas e individuais) da multiplicidade – papo para outro texto também. E para isso não há tempo a perder, e há tempo para nos dedicarmos. Certo!? Hoje entrei no site da Armazém Cia de Teatro, e ao clicar para ler sobre o espetáculo A Marca da Água, eis que me deparo com a seguinte frase no início do texto de Paulo de Moraes, nesse meu momento em que tanto tenho pensado sobre o tempo: “não há tempo a perder”; e que termina lindamente com a frase “não podemos ter medo de morrer afogados”. Como isso soa familiar pra mim, uma pessoa de mergulhos...

Este mês, me peguei ainda mais interessada pelas questões do tempo, pois tenho tido vários insights sobre a minha vida, como se estivesse vivendo um daqueles momentos em que a gente começa a pensar em se dar alta da terapia. Eu realmente tenho resolvido muita coisa internamente, e atribuo isso a toda a série de movimentos de rupturas que comecei no ano passado, mas, especialmente, aos movimentos de reconstrução que iniciei neste ano. É como na história. Depois da queda, o recomeço. Depois das trevas, a luz. Trevas são necessárias, não nos enganemos achando que a luz deva ser eterna. Mesmo porque sequer sabemos se alguma coisa pode ser eterna, a não ser enquanto dure. Eterno é tanto tempo, que não faz sentido nos preocuparmos em descobrirmos se ele existe. É perda de tempo...

Trevas são necessárias... Tristeza, dor. Tudo isso, além de inevitável, é necessário pra gente dar valor ao que temos e, para mim, principalmente, ao que podemos realizar ainda. Porque na vida tudo está sempre por vir, e tudo o que quisermos pode ser possível. É questão de probabilidade. Se é provável, é possível. Por isso, depois de ter vivido mais uma das minhas trevas na vida, eu comecei a ver a luz de novo (no fim do túnel ela sempre existe, é só sair andando pra frente). E nesse movimento, percebi como eu havia deixado de lado uma série de coisas que me constituíam, me organizavam, me faziam olhar no espelho e dizer: sim, é você Vanessa! Certo, era preciso passar por isso. Sempre é. Mesmo que não seja. E se a gente aceita o tempo do crescimento de cada planta, a colheita é incrível! 

Eu agora estou num momento de replantar minhas plantas favoritas, coisa que o tempo fez por mim. E, de uma vez por todas (expressão dramática para enfatizar), colher aquilo que nasci pra fazer, entendendo que a pessoa é para o que nasce... Mesmo que nada esteja escrito nas estrelas, eu sei que nasci para algumas coisas (eu defini assim por desejo e por paixão). As principais delas consigo descrever da seguinte forma nesse momento: 1. investigar os mistérios do corpo, e suas possibilidades e potencialidades; 2. ajudar pessoas a concretizarem ideias/projetos/sonhos dos quais compartilho, e construir belas ações conjuntas; 3. investigar os mistérios da vida e, em suma, compartilhar a vida. 

Dentre as muitas formas de realizar tudo isso, eu fui escolhida por algumas. Uma delas, a que está mais evidente para os outros e que me ocupa bastante tempo, é a produção cultural. Acho que ela dá conta dos pontos 2 e 3 lindamente, e até hoje continuo nessa porque posso realizar, com pessoas incríveis, coisas incríveis, e estar em contato profundo com o ser humano. Isso me faz feliz, e também me situa nas relações de trabalho. Penso que quando não está bom produzir, é porque estou produzindo a coisa errada e devo mudar o rumo das coisas. Felizmente, tenho sido uma produtora de sorte, ou, que sabe procurar o que produzir... Definitivamente, sou uma produtora que precisa estar envolvida em todo o processo da produção. Desde a criação, entenda-se. Se assim também não for, eu vou buscando a forma de ser, ainda que isso implique em mudar de local de trabalho, abrir uma nova empresa, ir pra fora do país, essas coisas... Ainda bem que no campo da produção podemos sempre estar em movimento. Eu morreria se tivesse que bater ponto em um escritório todo dia fazendo um trabalho mecânico. Sorte? Acaso? Destino? Inteligência? Política? Tudo junto? Sei lá...

Já no campo 1, foi com o yoga e o canto (como pilar de uma performance artística) que mais me realizei. Mas, por um bom tempo, eu os deixei de lado. E essa foi uma das principais questões que me lançaram na reflexão sobre o tempo neste ano. Por que os deixei de lado... Medo da potência? Já tentei de tudo (risos): teatro, piano, bodyboard, natação, corrida, mergulho de apneia. Tudo isso está em mim ainda, e algumas dessas atividades ainda são interesses, mas, de alguma forma, hoje elas se sintetizam no yoga, pela linhagem do tantra, e no canto (as atividades que escolhi para me aprofundar e que são sagradas na minha vida), e vão fazendo parte da construção das minhas performances artísticas, para as quais retornarei em breve. Pensar o retorno ao que me alegra e ao que faço com prazer é uma questão e tanta sobre o tempo na vida... E a elas vão se somando novas, e outras repaginadas. No momento estudo dança também (apenas como um plus na condição de performer, e não para ser bailarina) e, mesmo tendo passado um bom tempo numa relação complicada com a corrida (que já tentei várias vezes emplacar), eis que, por força das circunstâncias, eu a redescobri, embora ainda prefira a bicicleta... Mas preciso liberar adrenalina intensamente (vício de quem faz isso há anos), e correr é algo que posso fazer perto de casa. Andar de bicicleta na Tijuca não é nada divertido... Mas foi preciso resignificar essa atividade. Então, redescobri a corrida como meditação, ou seja, como yoga também. Coisas que só o tempo faz...

Especificamente no campo 3, acho que viajar e escrever é o que mais me faz, embora cantar, quando é para o outro, também seja uma forma de compartilhar a vida. Mas escrever é, sem sombra de dúvida, uma das minhas formas primeiras de investigação da vida (no ato da escrita, para mim, fica claro como razão e emoção se confundem e se misturam) e de compartilhamento (porque eu gosto de ser lida). Não tenho esse papo de que escrevo só pra mim. Escritor que escreve só para si não publica. Já viajar é uma das mais deliciosas formas de se estar em movimento. Gosto, e muito! Além disso, compartilhar é também o motivo de eu gostar tanto de estar com as pessoas em relações profundas, mesmo sendo uma geminiana com Vênus em Gêmeos, o que me faz ser mal interpretada sempre (mais risos). Mas eu tenho um mapa denso em seu conjunto, e gosto mesmo é das relações que se aprofundam. Sou daquelas pessoas que prefere dar festa em casa a sair pra uma festa qualquer. Entende?

Mas porque eu falei tudo isso? Bem, porque também escrevo pra mim (risos de novo). E em um momento da minha vida em que autoconhecimento é prioridade, falar de mim tem sido inevitável nos meus textos. Mas também pra me ajudar a contextualizar a questão do tempo, e relacionar o ser com o fazer. É pensando em tudo isso, que sei que não há tempo a perder para realizar o que preciso realizar. E o que preciso realizar deve ser trabalhado com precisão, como navegar, já que a vida, não é nada precisa. Assim a gente equilibra e faz bonito!

E você, sabe o que te constitui, o que te organiza, o que te faz você? Dizem que não é o que a gente faz que nos torna nós mesmos, mas o que sentimos, ou somos. Eu não tenho esse talento de separar as coisas. Para mim, o que somos é o resultado do que praticamos. E o nosso caminho prático é também o nosso caminho espiritual. Por isso, é bom observarmos o que falamos, e se o que falamos é o que fazemos (na relação com o que temos de mais verdadeiro). Seja o que for, que seja o que tiver que ser. Mas que seja mesmo! Que tenhamos sempre a coragem de viver o que acreditamos. Para isso, deve haver tempo, e não há tempo a perder. Chronos e Kairós...

7.7.13

I Ching - um poema para tempos ruidosos

recolher-se, em si...
aquietar-se...

é tempo de lapidar os diamantes...
na sala escura, dos homens, distante...

para uma luz brilhar
sem ferir os olhos
é necessário um trabalho árduo

sensível, cauteloso
por vezes, solitário...

nada sabemos do que somos
enquanto tudo proclamamos como sábios...

no poço fundo, caem nossas verdades...

para o florescimento
é preciso devoção!

para o renascimento,
a observação...

retirar-se
momentaneamente
para reorganizar-se

é tempo de balanço!
para que seja triunfal
a descida da montanha...

move-se o universo em favor
quando uma estrela se enche de luz
internamente

virá, no exato momento,
do fundo do poço,
do abismo da alma-corpo,
aquela que mata a sede

por isso, o agora
é o tempo da reforma,
da obra de revestir-se
para a transformação íntima...

e não se pode utilizar um poço
enquanto ele está sendo revestido

este trabalho, no entanto, não é em vão
graças a ele, a água permanece límpida...

5.7.13

Está chegando...

Apresentação do livro que está no forno! 

A intimidade revelada pela poesia
Uma carta ao leitor

Rio de Janeiro, inverno de 2013

Querido leitor,

Antes que comece a ler as minhas cartas, vou te contar uma breve história. Não faz muito tempo desde que eu percebi que boa parte do universo da minha produção poética era composto por poemas-cartas, ou cartas-poemas, como assim o fez, certa vez, Manuel Bandeira, e como fizeram, e fazem, muitos poetas, nomeiem desta forma ou não. Mas, desde então, percebi que não importa o nome que tenham; importam sua motivação e seu propósito. São poemas dedicados, escritos sob uma única inspiração: o arrebatamento ou encantamento causado pelo outro. E com um único desejo: o de que este outro saiba disto e, se possível, dê um retorno. Nem sempre as cartas realizam esse desejo, é verdade. Kafka, por exemplo, sequer conseguiu entregar a longa carta que escreveu ao seu pai, quanto mais ousaria esperar por resposta... Uma vez entregue a carta, não significa que a teremos, a reposta. Em alguns casos, sabemos que ela jamais será possível, o que torna ainda mais fascinante este universo, pois revela a entrega daquele que escreve. Independente da resposta, importa escrever e entregar a carta; revelar, pela palavra, o que se passa intimamente.

Assim, seja para um amor, uma paixão, uma irmã, os pais, um casamento, a avó, um amigo, um artista, ou vários deles, os poemas aqui expostos revelam grande intimidade: foram escritos em momentos de profundo encantamento, ou de grande desespero, como uma forma de dar conta, com a palavra, de tudo o que o corpo viveu, ou quereria viver, na relação com o outro, e de traduzir-lhe isto, ou de revelar-lhe como ele foi, por mim, compreendido e, em mim, marcado.

Lembro-me que quando percebi que eu reunia muitos poemas-cartas, outras duas coisas aconteceram junto a esse momento, bastante curiosas pela relação que estabelecem com os poemas e comigo. Primeiro, eu descobri a origem do meu nome.

Vanessa é um nome que até o século XVIII não existia. Ele foi criado pelo escritor irlandês Jonathan Swift, aquele de As Viagens de Gulliver, em um poema dedicado, no ano de 1713, após uma fatídica carta. Pois vejam só! Imaginem a minha cara quando descobri isso, ao buscar a origem do meu nome de forma tão despretensiosa... Como se não bastasse ter sido criado por um escritor, ainda havia sido criado em um poema dedicado... Mas a história não é lá muito feliz. Parece que Vanessa se apaixonou por ele, mas ele não correspondeu. Há também versões que dizem que eles foram amantes, que é, obviamente, a minha versão preferida. Nos dois casos, o final é o mesmo: Vanessa, ao descobrir que Swift nutria um grande afeto por uma mulher chamada Stella desde muito tempo, e que Stella havia se mudado para perto de Swift, envia uma carta a ela falando de um romance entre os dois. Jonathan Swift, quando soube da carta de Vanessa a Stella, decidiu nunca mais ver Vanessa, e escreveu-lhe um poema de despedida, Cadenus e Vanessa, onde os nomes dos dois aparecem ocultados em codinomes. O nome Vanessa foi criado a partir do nome verdadeiro da mulher, Esther Vanhomrigh. E assim, entra para a história da humanidade. Tenho um amigo que sempre diz que o nome é uma missão. Faz tão pouco tempo que descobri a origem do meu nome que ainda não consegui encontrar qual a missão de quem o carrega. Será que é superar pés na bunda? Brincadeiras à parte, o nome Vanessa vem do nome Esther, que significa estrela, e nomeia uma espécie de borboletas, o que dá excelentes pistas. Mas, de toda forma, talvez minha missão primordial como Vanessa seja escrever cartas...

Logo depois, conheci um poema de Mana Bernardes que pareceu traduzir exatamente o que estes meus poemas são para mim. Tomo a liberdade de transcrevê-lo aqui, embora sem o seu outro, o singular trabalho de caligrafia de Mana:

No papel
Não caberia
O que no corpo
Já não cabia
Na poesia caberia

A palavra poética é, para mim, esta forma de fazer caber o que não cabe mais no corpo. Uma das minhas formas mais próprias e apaixonadas de compor a realidade. Algumas vezes, a poesia dedicada é um presente em agradecimento à existência do outro: o meu retrato pessoal deste outro. Em outras, assume a forma de convite. Em alguns casos, a necessidade apenas de relatar e compartilhar minha visão do vivido, diferente de quando é a forma de viver o que não foi possível ter vivido, e desaguá-la na poesia entregue ao outro. Em todos os casos, é a intimidade revelada pela palavra.

Quando, então, surgiu a ideia de reunir estes poemas em um livro, ao mesmo tempo uma questão se colocou: como revelar toda essa intimidade? Como eu suportaria revelá-la? Inicialmente, houve um receio, como se tornar público estes poemas viesse a me fragilizar ou a expor demais aqueles para quem dediquei poemas. Meditei durante um tempo se valia a pena trabalhar, como proposta de um livro, e do projeto de intervenção artística que nasce a partir dele, esta minha intimidade. Afinal, algumas destas cartas são bem explícitas de um sentir; algumas que eu quereria que meu pai não lesse (risos), assim como declarou Alen Ginsberg ao contar que sentiu vergonha em publicar Howl só de imaginar que seu pai leria (embora eu ache que nada aqui se assemelhe a este fantástico poema libertário, pelo menos no tom erótico-político...). Mas o mesmo Ginsberg decidiu publicar, também, por isso, pois o poeta não pode simplesmente não publicar por medo ou vergonha. Santa, ou melhor, maldita inspiração! Outras cartas são lindamente tolas (ridículas cartas de amor), e revelam o meu coração, o meu corpo e o outro pelo meu olhar. O amor, aliás, é uma das grandes fontes de inspiração poética e destas cartas, e não há quem me convença que poemas de amor não digam mais nada na história da poesia e da literatura (pois eu ouvi isso de um famoso escritor que leu os meus poemas...). Dirão, e sempre, porque amor e vida são irmãos gêmeos.

Assim, depois de muito meditar, resolvi arriscar, trabalhando essa minha intimidade, que é também a do outro, sob o horizonte do cuidado. Alguns nomes puderam ser revelados, outros não, assim como nem todo poema dedicado entrou no livro (pois há aqueles que são apenas meus e do outro, e pertencem àquele universo particular das relações). Quis arriscar porque o material era rico para se construir intervenções, inclusive no corpo de novos outros, os leitores, percebendo também que não publicá-los é que talvez fosse a fragilidade. Compartilhar as intimidades nos aproxima. Como, então, manter guardadas estas cartas apenas para mim ou, em alguns casos, para os destinatários, quando boa parte delas expressa tão somente o que todos nós sentimos: prazer, encantamento, dor, alegria, tristeza... Como não compartilhar ainda mais a forma como a vida se revela em mim, se é justamente no ato de compartilhar que reside o que de mais rico a vida pode nos oferecer? Essa percepção foi determinante, inclusive a de que nada do que está aqui será surpreendente, porque o humano demasiado humano é nosso conhecido íntimo. Abrir o baú das minhas cartas nada mais é que essa vontade de compartilhar sentimentos, sensações, o mundo como eu sinto, o que, para mim, é a afirmação da potência da vida. Apaixonar-se, encantar-se, gritar de dor, chorar de saudade, declarar-se, tudo isso é prova de que estamos vivos! Revelar um pouco de como eu sinto tudo isso é, então, uma alegria! E nesse meu revelar, poderá, o leitor, até acompanhar algumas histórias, através de poemas que, juntos, produzem narrativas. E a vida é o material da arte; são, as duas, uma coisa só. Por isso, o livro publicado. Por isso, tudo o que pode ser criado com tal imensidão íntima revelada, para usar uma expressão cara a Gaston Bachelard; a imensidão que surge dentro da alma (também como corpo, em uma unidade) quando do contato profundo com o outro.

Por fim, publicar estes poemas é também uma forma de prestar uma homenagem a cada um dos destinatários destas cartas. Na maioria dos casos (exceto um ou outro em que o destinatário é um grupo genérico ou um ente qualquer), elas são direcionadas a pessoas que passaram pela minha vida ou ainda estão presentes. A elas o meu profundo agradecimento por terem permitido que eu entrasse em suas vidas e, em alguns casos, por se manterem pertinho de mim. Encontros produzem poesia! Na minha vida funciona assim.

Compõe este livro também, um pequeno conjunto que chamo de outras poesias, por falta de nome melhor, confesso, mas também para marcar a diferença: não são cartas, mas poemas que eu gostaria de publicar. Com eles, fecho o livro. E com isto, encerro este texto, antes que a minha mania de escrever demais transforme uma simples apresentação numa tese.

Que venham, então, novos outros, os mesmos renovados e novos poemas-cartas.

Com o desejo de que escrevam também os seus,

Vanessa Rocha

1.7.13

tantra

será, a minha poesia, a chama para queimar
o incenso do mundo

na realidade que construo com a palavra
transformar a pedra em ouro,
o vazio no som primordial
nuvem que atravesso num jato
deixando o meu rastro
como lençol de seda que estendo
para dormir o sono exato do planeta
e acordar inteira carregando, da vida,
no meu ventre, a tua saga

meu corpo é um templo!

encontre nele a tua tessitura, universo
pratique aqui, a tua união, onde pulsa o sexo e mora a divindade
sou folha branca de papel para que escrevas o teu verso

29.6.13

um ano depois...

Escrever é um vicio terrível, daqueles quase incontroláveis, químicos. Dá trabalho, cansa, me faz dormir tarde demais (porque quando começo só consigo parar quando sinto que o texto, como uma gestalt, se fechou...). Mas eu não sei viver sem... Porque é também a minha forma de digerir e processar as coisas. Sempre que o cotidiano fica denso demais, é escrevendo que consigo ficar mais leve. Pois bem, o momento agora é um desses momentos densos. E eu, como de praxe, também uso os textos como confissões e pedidos de ajuda, uma forma de afirmar para o meu ego de ascendente leonino que sou humana demasiado humana e pedir uma ajuda ao universo.

Fico impressionada em perceber como as coisas acontecem rápido na minha vida. Tudo muda o tempo todo. Claro que há os momentos de calmaria, ou eu não aguentaria. E quando falo de mudanças, não se trata de mudanças radicais o tempo inteiro, mas daquele permanente movimento que te faz mudar de perspectiva sobre os fatos por conta de pequenos (e nada triviais) acontecimentos, às vezes em um único dia. É assim que tem sido a minha vida há um ano, mais precisamente. 

2012 foi um ano de rupturas, muitas, e por iniciativa minha, que começaram logo depois do meu aniversário, e se faz sentido a tal da revolução solar, agora estou entrando em um momento completamente novo, de estruturar a vida. As mudanças não cessaram, mas nesse momento são absolutamente diferentes. Essa semana, por exemplo, foi tão cheia de pequenas novidades, de um turbilhão de sentimentos e possibilidades que eu cheguei em casa hoje atônita. Não sabia o que fazer, precisava ficar sozinha. Abri mão de todos os bons programas que eu tinha pra essa sexta-feira a noite, de bar a concerto, pra ficar em casa com minha escrita, minhas músicas e minha seleção de Paulaner de diversos sabores. Aliás, ficar só é uma coisa que tenho feito muito de um tempo pra cá, pois está brabo de dar conta de todo o furacão dentro e fora de mim. E gosto disso, da solidão desejada... me reconheço muito nessa condição, além de me renovar nela. Sempre fiz questão dos momentos de solidão, mas no último ano eles foram meio escassos, e acho que isso me fez um mal danado pra autonomia. 

Parece que, para mim, o ano de 2012 acabou só depois do carnaval, e como de praxe no Brasil, o meu ano de fato começou depois do carnaval. Mas estamos em julho e tanta coisa nova aconteceu de março pra cá que parece que em 3 meses já se passou um ano... Assim como parece que tudo o que se deu de julho do ano passado até fevereiro desse ano foi há, sei lá, cinco anos atrás... 

Há um ano eu vivia uma outra vida. Há exato um ano atrás... e logo depois das rupturas todas que empreendi, eu me perdi num turbilhão. A sensação foi de sair de um ninho, onde eu estava aconchegada e, nos últimos momentos, acomodada, e de repente cair num buraco negro. Foram muitas rupturas ao mesmo tempo, e eu entrei num fluxo de dispersão. Vivi o caos durante esse tempo. Foi apenas em janeiro, quando tirei férias e viajei sozinha pro sul da Bahia, que consegui aquele distanciamento mínimo pra observar o que estava acontecendo e poder me reconectar com os meus desejos mais sinceros. Então, adoeci. Durante uma semana da viagem eu participei de um workshop de astanga yoga e com tudo o que aquela prática mexeu em mim eu caí de febre e dor de garganta, e tinha dores horríveis a noite no corpo todo, e chorava sem parar. Acho que chorei em uma semana o que não chorei em um ano... Porque fui me deixando sentir todas as dores que não me permiti quando estava com o corpo tomando porrada das muitas mudanças. Era preciso resistir. Mas foi só parar que de repente o corpo reagiu... quando voltei da viagem eu estava profundamente grata ao yoga, mas voltei desconectada da astanga, e ainda insisti, forcei uma barra que não deu certo... eu sabia que era preciso mudar isso também, mas ficava numa batalha interna tola, apegada. Enfim, cheguei no Rio e caí direto no carnaval. Foi o meu carnaval mais carnaval em anos. No sentido de me jogar na multidão, coisa não muito fácil pra mim, porque eu preciso me preparar psicologicamente antes pra não entrar em pânico. Mas avalio que eu precisava daquela catarse, como encerramento de um ciclo, de uma Vanessa que se foi pra dar lugar a uma nova Vanessa... Retomo, hoje, coisas que ficaram lá atrás, e que me constituem, onde eu me reconheço, como por exemplo, esses momentos de solidão e silêncio, e a espontaneidade, para afirmar o que for que eu estiver sentindo de verdade. Um eterno retorno, sim... mas, mais deleuziano que nietzschiano. O retorno, porém, diferente. Uma espiral, e não um círculo. Retomo a espontaneidade com muito mais leveza, e com mais clareza do que ela significa...

Mesmo tendo sido uma criança calada, daquelas que a mãe esquecia que estava em casa porque ficava desenhando num cantinho ou lendo ou inventando narrativas, e uma adolescente obscura, cheia de questões difíceis, sempre fui muito espontânea. E foi com a espontaneidade que conquistei muitas coisas incríveis na vida. Mas com o tempo essa espontaneidade foi minando. Mas é claro, bastava beber um pouquinho que ela voltava rapidinho rs. Nunca aceitei que determinassem os rumos do meu desejo. Sempre briguei pela liberdade (até onde ela é possível) de conduzir minha vida do jeito que eu bem entendo. Se existe uma verdade pra mim, é essa. Por isso muitas brigas na adolescência com a família, coisa felizmente superada desde que saí da casa dos meus pais há 10 anos... Nossa, como passou rápido... Bom, as pessoas costumam dizer que eu sou bem espontânea, e devem achar essa minha fala estranha... mas enfim, se soubessem o que se passa aqui dentro... E embora eu escreva muito, há coisas que nunca serão reveladas nos meus textos. E eu sou boba de fazer isso!? (risos) Mas hoje eu entendo muito melhor a espontaneidade que antes, porque eu achava que ela era uma coisa arbitrária, tola, que poderia ferir as pessoas, uma total falta de senso coletivo... Isso há muitos anos atrás... Mas quando voltei a pensar nela, entendi que ser espontâneo é tão simplesmente agir de acordo com o que se acredita, e que isso não exclui a atenção que se deve ter com o outro, seus desejos, suas alegrias e tristezas. É o jogo da convivência! O difícil é fazer isso sempre, quando se vive processos coletivos, porque há aqueles que insistem em te puxar pra baixo, grupos que não conseguem atuar como coletivos valorizando ao mesmo tempo as singularidades, o brilho de cada um. E nem é preciso ir para o âmbito do grupo para perceber isso. Quantas relações a dois diminuem as singularidades, ao invés de ampliá-las, potencializar o que há de melhor em cada uma... Mas a atenção a isso é o desafio também. O que não dá é deixar que a energia medíocre que muitas vezes se instaura num grupo mine nossa capacidade de criação. Pois, eis que veio a palavra! Criação é a palavra da vez pra mim. 

Como pessoa que só sabe viver apaixonada, tenho entendido muito da minha infelicidade com alguns processos e lugares. Minha paixão primeira? Criar! Ou estou num processo criativo ou estou morta. Radical assim. Quando escrevo estou criando, quando canto, produzo realidade, e no trabalho de planejamento e produção o que me alimenta é o processo de reunir informações, pesquisar, trocar ideias e dar vida a um projeto. Coloque-me apenas pra realizar burocracias e verá uma pessoa totalmente amarga... Pois isso é revelador e, desde março, quando voltei do buraco negro onde eu estive perdida por uns bons 6 meses, isso tem determinado a minha vida. E a vida tem me revelado caminhos grandes a partir disso, com perspectivas absolutamente novas, o que implica também em uma responsabilidade muito maior. Eis que agora, aos 33 anos, eu me vejo de frente pra possibilidade de realizar tudo o que eu sempre quis. E estou com um baita frio na barriga... Essas possibilidades? De forma bem geral, trata-se de dar vida a projetos que ficaram por tempos engavetados, porque talvez estivessem esperando a hora certa de aparecer, e de, cada vez mais, ter mais autonomia sobre o meu tempo de trabalho. Qualquer pessoa que verdadeiramente não tem medo de se conhecer, parece ter esse mesmo desejo. Controlar o próprio tempo... Controlar mesmo, sendo bem enfática. Perdi o medo de algumas palavras. Tudo o que está aí, todas as instituições, família, trabalho, escola etc, tem como premissa controlar o tempo de suas ovelhas. Para não entrar nessa só mesmo retomando para si o controle. Quem faz meu tempo, antes de qualquer coisa, sou eu. É primordial essa forma de agir, para que o jogo com a instituição se torne mais justo. Eu sempre me coloquei na frente, levando em consideração esse horizonte, mas só hoje é que começo a colher os frutos mais bonitos dessa plantação. Embora eu respire ainda um pouco tensa, respiro aliviada. O que está colocado pra mim é lindo. Como eu disse, tudo o que eu sempre quis. Resta-me agora ampliar minha força pra lidar com tudo o que vem junto com mais visibilidade e responsabilidade, inclusive a responsabilidade maior sobre o meu próprio tempo. Os desafio mudaram...

Hoje, conversando com uma pessoa muito querida, falamos sobre como a fase dos trinta anos é realmente a fase de meter as caras e brigar pelo que se quer. Você já não é mais jovem como era, também não é velho, já viveu coisas suficientes pra saber o que quer, o que ama, como ama, o que deseja. E começa a querer definir um monte de coisas. Onde de fato vai ficar (tempo e espaço), com o que trabalhar, ter filhos ou não ter (pra quem ainda não teve, como é o meu caso)... E depois dos trinta e poucos vc já passou pelo retorno de Saturno, ou seja, relaxa e goza rs. Pois eu me sinto no momento do possível, e com aquela sensação de que o que eu decidir agora vai definir minha vida pelos próximos anos. Não sei se necessariamente onde vou ficar espacialmente, porque gosto de uma mudança, mas onde vou ficar em termos de desejo, por um bom tempo... Não por toda a vida... Não que isso não seja possível, mas é melhor não pensar assim, vai por mim...

Conversando com um amigo no dia do meu aniversário, ele me contou sobre uma experiência incrível que teve com umas mulheres xamãs em Mauá, e que havia ficado muito ligado em numerologia. Calculamos o meu ano. Somando a data do meu aniversário este ano encontramos o número 4. Quatro, ele me disse, é um ano de estruturar, diferente do ano 3, um ano de rupturas, agitação, novidades (fiquei pasma) e de um ano 5, que será meu próximo aniversário, um ano de transformações (ai, tudo de novo...). Pela numerologia, esse ano que começou no dia 19 de junho será um ano de muito trabalho e de consolidação. Bom, acho que já percebi... Minha revolução solar não diz algo muito diferente também, embora seja mais consistente e complexa. Estou em um ano de leão, ou seja, um ano de dar a cara a tapa, de mostrar a que vim nesse mundo. Já dá pra perceber pelo tom do meu texto, um tanto egocêntrico... Mas há que se fazer justiça a leão, e eu como uma boa geminiana, que tudo analisa, reflete (e mil fatores ao mesmo tempo), digo: leão é o signo do brilho. Quando ele consegue fazer o seu brilho ultrapassar seu ego, ilumina tudo ao ser redor. Vamos ver como vou me sair... Coisas lindas estão na minha mão para que eu aproveite. Novos trabalhos, novos desejos, um controle maior do meu tempo, uma nova yoga, novas atividades, uma nova música, tudo novo de novo! O mundo é meu! E pode ser seu...

É bem como diz a música do Abba (apenas com uma pequena mudança no pronome e na idade)... I can dance, i can jive, having the time of my life... I am the dancing queen... only thirty three!

28.6.13

o corpo nada sabe das palavras
ele apenas vive... como cheiro, gesto, carne
mas escrevo versos para criar realidade
vive, no corpo, a palavra poética
ganha a palavra, no corpo, métrica

23.6.13

novos poemas encontrados num caderno

o estranhamento no espelho nessa hora da madrugada não houve sono posso dizer que não houve nada estranhamento de si... do meu rosto, que tanto reconheço no silêncio e houve tanto barulho essa madrugada... mas que importa o sono que importa o sonho... queria eu apenas o gosto da calmaria no meu coração sem dono mas sou sempre caos e no caos me reconheço? não... eu sou silêncio e na solidão me reconheço no amanhecer do sono pouco, na garrafa de vinho, o gosto... no espelho o questionamento enquanto uns dormem outros festejam sou silêncio e me deparo com o meu tempo e interrogo o meu desejo no fundo, só temos a nós mesmos e por mais alegria que seja toda gente que por minha vida passa e mesmo com o mar onde a conversa nunca é rasa... é por isso que é preciso ir a ele pois é nele que me reconheço é por isso que é preciso degustar o vinho sempre pois no vinho me reconheço presente e no silêncio novamente apenas com a música interior e não aquela dessa noite de sono tão pouco de acordes tão exaustos e gastos não nos rostos cansados daquela gente toda que não sabia o que ali fazia me calo e ninguém me ouve me calo e me perguntam o que houve digo que é nada apenas sono me deixem... entenderiam? nem eu... tenho poesia no corpo e o corpo clama por algo que não sabe e o corpo lembra a cama e os dias que acordou fora de casa e o corpo lembra tudo e esse é o seu mal porque a memória é doce mas também desgosto e o que vale é só o agora nem sequer futuro cala-se, então, meu corpo esse corpo que só canta cala e quer teatro cala e quer a dança cala e quer a novidade cala porque não sabe ainda a nova música cala e quer esperança sabendo que não deveria desejá-la cala e quer a dança dos corpos emaranhados sem cobrança mas atentos e cheios de amor cala e depois canta e derrama a insensata terapia do álcool e descansa da inconstante alegria do ato e chora porque não sabe e cala... em profunda meditação, reage...

---

faço ressoar no cosmos
minha íntima imensidão!
como uma insurreição poética,
um levante contra a inércia,
                           a implosão!
faço assim cantar os pássaros,
voas as flores, nadar os gatos...
canto para o universo claro,
como uma revolução!

para que toda a falsa segurança me deixe...

não acredito em hora certa
nem na justa medida, não se queixe

nada se constrói sem boas doses
de insensatez e prazer...

produzir o caos
e fazer, uma estrela, nascer!

20.6.13

filosofia corpórea

eis um mistério:

o que fazer com o corpo
e aquilo que nele nasce
após um acontecimento...

o que fazer com o que fica dentro...

parte nova a integrar o corpo,
que, pelo que se deu, torna-se novo...

o que fazer com o corpo...
tomado ele de torpor e encantamento?
e de tudo que vem com o tempo...

o que fazer com o corpo
depois do acontecido,
e com o volume que lhe toma,
e até então, lhe era desconhecido...

o que fazer com a densidade
de uma nova informação?
e tudo o que não se sabe...
e o que se deseja de um encontro
e toda a densidade do outro
que lhe soprou o outono...

mas muda o corpo a todo instante
posto que é errante...

é preciso acostumar-se ao novo
e ao estômago do mundo...
onde nos lança
cada acontecimento profundo...