poemas em carta


No dia 4 de dezembro de 2013 lancei meu segundo livro de poesias, poemas em carta e outras poesias, pela Editora Mundo das Ideias. O livro revela um universo íntimo através de 31 poemas dedicados, que chamo de poemas em carta, escritos em momentos de profundo encantamento, dor ou saudade... como um convite, um presente ou mesmo carta de despedida. Uma colagem de cheiros, gestos, Milton, Vivaldi... amor, paixão, família, amizade. A celebração da intimidade! Publiquei ainda outros 13 poemas. A produção editorial e ilustração da capa é de José Antônio de Oliveira, a fotografia de Mariana Pietrobon e a apresentação de Dado Amaral - que reproduzo abaixo.

Para o lançamento, realizado no Colégio Brasileiro de Altos Estudos da UFRJ, um belíssimo casarão histórico de 1922 localizado na Praia do Flamengo, foi montado um espetáculo baseado em 10 dos 31 poemas dedicados, com minha atuação e direção, co-direção e preparação vocal de Analu Paredes e direção musical de Francisco Pellegrini. O trabalho ganhou uma nova versão em 2014 como performance poética e foi apresentado no Centro Cultural Solar do Jambeiro, em Niterói.

Para comprá-lo (preço R$25,00), envie um e-mail para vanessaevanessa@gmail.com. É possível encontrá-lo também na Livraria Cultura do Rio de Janeiro.



uma carta uma brasa através 
por Dado Amaral 
  
O verso de Leminski volta e meia me ecoa na cabeça. Ele dá nome ao livro que reúne cartas do poeta curitibano: uma carta uma brasa através. Além do rico jogo de sons, o verso nos propõe a questão: − Quais brasas atravessarão nossas cartas? A brasa de cada afeto, o calor da lembrança, encontros, saudade. 

Na carta há lugar para o contato íntimo, à distância; o toque remoto da palavra escrita. Através da carta, da fina correspondência, firmam-se amizades de vida inteira, rompem-se antigas relações. Carta de despedida, a derradeira do suicida; a carta da esperança na garrafa do náufrago, lançada ao mar. Uma carta é um gesto, aceno em direção a alguém. Texto pessoal, missiva, recado assinado: cada carta um mapa, tesouro incrustado de pepitas, ouro em brasa. 

Em suas mãos, leitor, Poemas em carta e outras poesias, de Vanessa Rocha. A autora vem do bem alinhavado Novelo, seu livro de estreia. Agora arrisca outra dicção: textos de cunho mais pessoal, confissões e derramamentos que muitos não bancariam imprimir. Correr risco faz parte do ofício de poeta; publicar é se mostrar, revelar-se, dar a cara a tapa. Mas coragem e disponibilidade não são as únicas qualidades do livro. 

O jogo, em Poemas em carta, é o de trazer a intimidade para o campo do poético. Ou o contrário: levar a forma do verso para a correspondência íntima. Às vezes esses deslocamentos surpreendem, geram híbridos, cartas abertas, cartas para um alguém imaginado, para todos e para ninguém. Cartas enviadas ou apenas inventadas, realizadas sob forma de poemas. 

Neles, Vanessa desfila suas obsessões, persegue seus temas: o primeiro talvez seja o corpo, ponto de partida e chegada; o corpo-porto, “o corpo lembra tudo”. Outros temas recorrentes são o amor, a música, barcos, a palavra. Sobre estes assuntos (ou por baixo eles) paira, imenso e profundo, o mar. O mar salgado, tema caro a Fernando Pessoa, poeta que volta e meia ressoa nestes textos. O mar como abertura a todas as possibilidades, o mar recomeço, mar encontro. Mar imensidão, mar sonho, mar que constitui o planeta. Mar no qual a poeta pode ser rede ou peixe, como aqui:

rede 

cheiro de mar 
me arrasta 
sou rede 
pesco o infinito 
o desejo me deságua 
sou peixe 
que não se deixa pescar 
 
Outra referência ao autor português, oceano largo e inesgotável, aparece na introdutória carta ao leitor, quando Vanessa diz ter incluído no livro cartas “lindamente tolas (ridículas cartas de amor)”. É bem conhecido o poema do heterônimo Álvaro de Campos, que começa afirmando: 

Todas as cartas de amor são 
Ridículas. 
Não seriam cartas de amor se não fossem 
Ridículas. 

Muito já se escreveu sobre essa questão, da ridícula ausência de crítica das cartas de amor. Há uma estrofe posterior, entretanto − que contradiz a primeira, em manobra típica de Pessoa −, que com frequência não é lembrada. Ela poderia nortear o conceito, ou servir de mote para este belo livro: 

Mas, afinal, 
Só as criaturas que nunca escreveram 
Cartas de amor 
É que são 
Ridículas. 

O leitor que jamais tiver escrito uma carta de amor ridícula, que atire a primeira pedra. Já o que se deixou derramar, o que trasbordou, se expôs, o que sentiu e escreveu, que colha aqui suas brasas.  



Imagens do espetáculo
Fotografias: Bira Soares
















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