10.12.10

carne

um dia não basta pra que seja carne
a não ser quando a carne se anuncia com pressa
porque também um dia pode mudar a vida
e fazer tatuagem sem pedir permissão

3.11.10

no feriado...

Eu me desperto com a chuva
Tão simples e grande como o meu desejo
Um ré menor num violão reverberado pode ser tão mais que um dia inteiro...
Eu não vivo nas calçadas cheias, vivo nas montanhas
Pelo menos é assim que me vejo
Porque basta um vento pra me deslocar inteira
E algumas palavras de poeta pra me descansar angústias
E um som vindo de longe que de repente está dentro de mim
Porque quero viver nas entrelinhas, nos ritornelos todos do meu mundo
Se não sei como dizer, que posso fazer?
Que posso fazer, eu que não sei como dizer que amo?
Eu que às vezes não sei como abraçar, e quase sempre é só o que quero
Eu que fujo das comemorações
Eu que não sei ouvir as músicas que não quero ouvir
E desejo sempre o silêncio ou um som que conecta
Eu que não sei me conectar sem que seja do meu jeito um tanto calado
Posso eu querer do mundo o mundo, se nem sei como vivê-lo?
Se transbordam de mim estranhas nebulosas circulares
E orquídeas crescem pelos meus pés
Me enovelando toda de paixão pelo que não sei
E corro em direção ao sol como se fosse um bicho saindo da toca
E aquelas flores que se movem toda manhã e todo fim de tarde
Posso assim querer?
Posso assim ter o direito de sofrer por tudo isso e ainda assim querer sempre que tudo isso possa retornar a todo instante?
Desejo que o que não seja isso retorne também?
Quem sabe, porque me fazem ser o que sou
Um corpo que cai no vazio a toda hora e busca sempre o barulho do mar

poesia circular

1
...Porque pairava sobre os meus olhos como estrela reluzente.
Nua estava a vida quando a encarei
E me sorria bem de perto
Tombando aos montes como quem fere e quer vingança.
Porque calava, e isso nada tem de trivial,
Causava e descontornava o sonho
E sempre retornava
Ela, que viajava pelo tempo...

2
Eu disse que sim
Bem sem pensar o por quê
Sem saber do ar
Eu disse que era meu
Mas não era, e eu sabia
Porque nada pode sê-lo
Sempre soube que não se pode ter
Porque tudo é só do mundo, do infinito
E do próprio tudo, si mesmo
Mas, ainda assim...

novas pílulas pra dormir

O tempo mais longo...
é aquele em que precisamos suportar que passe

---

Início da primavera
Comprei um girassol para comemorar
Ele morreu três dias depois...
Eu já deveria saber
Que não se pode prender num vaso a exuberância

---

Pra onde vão todos com tanta pressa?
Será que há algum grande evento e eu não estou sabendo?


---



Vivo uma nuvem!

Uma faca me dilacera por dentro, onde sou
É que, de repente, cansei de ser gente

Medusa



Eu estou fluindo
Sou líquida e fumaça
E a lua me assiste
Aplaudindo minha dança
Mole e lânguida de tartaruga magra

Existe um mundo rosa no céu
Quando giro meu pescoço e vejo a luz
E uma espuma tão branca
A que furam os pássaros
Que passam por elas, entre elas
Pássaros que nadam no céu
Abaixo nuvens quebrando na praia
E eu dançando

Retorcendo de saudade
Fluida intensidade

Com a necessidade de sólido
Mordo a montanha doce
E caio de boca na areia

Saio me esgueirando pelas pedras
E sinto rachar os pés
Sangrar o casco

Sinto mais ainda
Que sou aquilo que não entendo

Porque quero ser marisco
Mas sou medusa que flutua

27.10.10

insônia

lógica aristotélica: fernando pessoa tinha insônia. ele é um grande poeta. eu tenho insônia. logo serei uma grande poeta.

Não durmo, nem espero dormir. 
Nem na morte espero dormir. 
Espera-me uma insônia da largura dos astros, 
E um bocejo inútil do comprimento do mundo.
Não durmo; não posso ler quando acordo de noite, 
Não posso escrever quando acordo de noite, 
Não posso pensar quando acordo de noite — 
Meu Deus, nem posso sonhar quando acordo de noite!
Ah, o ópio de ser outra pessoa qualquer!
Não durmo, jazo, cadáver acordado, sentindo, 
E o meu sentimento é um pensamento vazio. 
Passam por mim, transtornadas, coisas que me sucederam 
— Todas aquelas de que me arrependo e me culpo; 
Passam por mim, transtornadas, coisas que me não sucederam 
— Todas aquelas de que me arrependo e me culpo; 
Passam por mim, transtornadas, coisas que não são nada, 
E até dessas me arrependo, me culpo, e não durmo.
Não tenho força para ter energia para acender um cigarro. 
Fito a parede fronteira do quarto como se fosse o universo. 
Lá fora há o silêncio dessa coisa toda. 
Um grande silêncio apavorante noutra ocasião qualquer, 
Noutra ocasião qualquer em que eu pudesse sentir.
Estou escrevendo versos realmente simpáticos — 
Versos a dizer que não tenho nada que dizer, 
Versos a teimar em dizer isso, 
Versos, versos, versos, versos, versos... 
Tantos versos... 
E a verdade toda, e a vida toda fora deles e de mim!
Tenho sono, não durmo, sinto e não sei em que sentir. 
Sou uma sensação sem pessoa correspondente, 
Uma abstração de autoconsciência sem de quê, 
Salvo o necessário para sentir consciência, 
Salvo — sei lá salvo o quê... Não durmo. Não durmo. Não durmo. 
Que grande sono em toda a cabeça e em cima dos olhos e na alma! 
Que grande sono em tudo exceto no poder dormir!
Ó madrugada, tardas tanto... Vem... 
Vem, inutilmente, 
Trazer-me outro dia igual a este, a ser seguido por outra noite igual a esta... 
Vem trazer-me a alegria dessa esperança triste, 
Porque sempre és alegre, e sempre trazes esperança, 
Segundo a velha literatura das sensações.
Vem, traz a esperança, vem, traz a esperança. 
O meu cansaço entra pelo colchão dentro. 
Doem-me as costas de não estar deitado de lado. 
Se estivesse deitado de lado doíam-me as costas de estar deitado de lado.
Vem, madrugada, chega! Que horas são? Não sei. 
Não tenho energia para estender uma mão para o relógio, 
Não tenho energia para nada, para mais nada... 
Só para estes versos, escritos no dia seguinte. 
Sim, escritos no dia seguinte. 
Todos os versos são sempre escritos no dia seguinte.
Noite absoluta, sossego absoluto, lá fora. 
Paz em toda a Natureza. 
A Humanidade repousa e esquece as suas amarguras. 
Exatamente. 
A Humanidade esquece as suas alegrias e amarguras. 
Costuma dizer-se isto. 
A Humanidade esquece, sim, a Humanidade esquece, 
Mas mesmo acordada a Humanidade esquece. 
Exatamente. Mas não durmo.

21.10.10

manifesto de depilação?

estava eu procurando um novo lugar para me depilar, e encontrei a depyl. ninguém merece o texto abaixo, que eles chamam de manifesto [rs]... isso é uma afronta!


Manifesto Depyl.
Indispensável no seu universo.

O universo feminino é composto por uma série de elementos indispensáveis. Sentimento, beleza, relacionamento e atitude estão interligados como elos de uma corrente. O jeito que só as mulheres têm para conduzir as coisas, é reflexo das relações iniciadas neste mundo tão particular.
A fidelidade de uma amizade, um segredo compartilhado, o assunto que não acaba mais, mesmo entre amigas que se encontram todos os dias. Conversar, ouvir e falar, ser entendida, dar conselhos. É desta forma, que as mulheres se expressam perante o mundo e a sociedade. Elas se relacionam com base nos sentimentos.
Toda mulher deseja se apaixonar e tem paixão por várias coisas.
Toda mulher, desde menina, possui uma intuição inata para dar e receber carinho. Faz parte do universo feminino este interesse sincero pelos outros. Demonstrar sentimentos não é sinal de fraqueza, e sim de sensibilidade.
Que mulher nunca se sentiu deprimida ao abrir o guarda-roupa e não encontrar nada para vestir, mesmo com o armário cheio? Afinal, passar horas se arrumando para uma festa faz parte da natureza feminina.
Ficar linda não basta. É preciso ficar mais linda do que as outras, e de preferência, provocar um pouquinho de inveja. Não por superioridade, mas porque faz bem para o ego e para a vaidade.
Ser admirada é ótimo, admirar o belo nas vitrines do shopping durante horas também. Estar na moda, mudar o guarda-roupa, o corte de cabelo, o livro de cabeceira. Atitudes totalmente femininas.
Como a beleza é um atributo feminino, para ficar bonita vale tudo. Mulher está sempre de dieta, mesmo que não precise. Passa horas na academia para ficar com o corpo sarado. Mas na época da TPM acaba se rendendo ao irrecusável convite do chocolate. Depois vem a culpa, e mais horas de ginástica para se livrar das calorias.
Mulheres de diversas facetas e desejos múltiplos que compartilham entre si a valorização da beleza associada à saúde e bem estar.
De Vênus, de Júpiter ou da Terra, não importa de que planeta você vem, para a Depyl, o importante é fazer você sentir-se mais bela, mais sensual, mais autoconfiante e mais livre para manifestar sua feminilidade.

19.9.10

considerações dominicais nº 231

prefiro acreditar que não sou nada nem ninguém
só assim posso ser tudo!

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tenho muitos a priori
eles precisam morrer

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é preciso amar o tempo para dele
não sermos marionetes
é preciso amar o tempo!
o que foi, o que é, o que será

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me disse Pessoa: para viver a dois, antes é necessário ser um!

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me disse Moska: navegar só se for por paixão!

domingo

domingo de tarde
estou sozinha
como uma macarronada
nada mais simples
bebo um malbec
no som, kevin canta a incompreensão
uma nostalgia latina me invade
penso na verdade, e tão logo ela se dilui
penso em sexo, fico na vontade
penso no amor, me inflo
penso na arte, e me alegra o devir
e o que está por vir
de qualquer forma estou feliz
gosto de domingos
sorrio sozinha
e vou colorir os meus desejos

viver é bom nas curvas da estrada...

A solidão é uma puta velha
Ela chega cheia de ressentimento
Vai contando aquelas histórias mais bizarras
A gente se sente meio constrangido porque ela não tem papas na língua
Fala das dores passadas, das vezes que não queria
Ela gostaria de se vingar
Mas percebe que não há vingança possível
A quem? Ela se pergunta
E começa a contar outras histórias
Talvez elas nunca tenham existido
Mas se não existiram, não são menos reais
Só sei que de ressentidas não têm nada
E são uma celebração da vida, daquela forma mais inusitada
Diferente do comum, daquele comum que criamos como couraças
E o ressentimento vai ficando para trás quando se esquece
Ela vai esquecendo e vai tecendo o novo
Ela vai dizendo da montanha que escalou, do país que conheceu
Do homem que amou, das loucuras que cometeu
Se é verdade não importa,
Já produziu em mim uma alegria torta de viver
Tudo aquilo que posso fazer, todo o mundo inteiro pra sentir
E depois de contar todas as histórias, a puta velha se vai
Um tanto cansada, um tanto maravilhada
E eu fico, um tanto cansada, um tanto maravilhada...

elisa heráclito

ouvi de elisa lucinda:

o eu te amo de ontem, não é o mesmo de hoje. porque a rotina é um problema se cada dia é um dia diferente? se a cada dia somos uma pessoa diferente?

isso me lembra heráclito

não somos, estamos...

Nietzschelícia

caminho de mãos dadas com o bigodudo...


Aforismo 8 de “Os quatro grandes erros” – O crepúsculo dos ídolos – Nietzsche

Qual pode ser a nossa doutrina? – Que ninguém dá ao ser humano suas características, nem Deus, nem a sociedade, nem seus pais e ancestrais, nem ele próprio (...). Ninguém é responsável pelo fato de existir, por ser assim ou assado, por se achar nessas circunstâncias, nesse ambiente. A fatalidade do seu ser não pode ser destrinchada da fatalidade de tudo o que foi e será. Ele não é conseqüência de uma intenção, uma vontade, uma finalidade próprias, com ele não se faz a tentativa de alcançar um “ideal de ser humano” ou “um ideal de felicidade” ou um “ideal de moralidade” – é absurdo querer empurrar o seu ser para uma finalidade qualquer. Nós é que inventamos o conceito de  “finalidade”: na realidade, não se encontra finalidade... Cada um é necessário, é um pedaço de destino, pertence ao todo, está no todo – não há nada que possa julgar, medir, comparar, condenar nosso ser, pois isto significaria julgar, medir, comparar, condenar o todo... Mas não existe nada fora do todo! – O fato de que ninguém mais é feito responsável, de que o modo do ser não pode ser remontado a uma causa prima, de que o mundo não é uma unidade nem como sensorium nem como “espírito”, apenas isto é a grande libertação – somente com isso é novamente estabelecida a inocência do vir-a-ser... O conceito de Deus foi, até agora, a maior objeção à existência... Nós negamos Deus, nós negamos a responsabilidade em Deus: apenas assim, redimimos o mundo.

13.8.10

koyaanisqatsi

em homenagem a todos os dias que passamos em engarrafamentos, nas estações lotadas de barcas, metrôs, trens, amassados dentro de todas elas, e caminhando pelos centros financeiros das grandes cidades respirando o belo ar que nossos carros poluem:


koyaanisqatsi é uma palavra da língua do povo hopis, que vivem na reserva hopi, no arizona, e quer dizer "vida em desequilíbrio", life out of balance.

como eu canto por aí: mora uma cidade em mim...
em todos nós a vida vai sendo concretada...
como viver estando vivo?

"O mundo caquinho de vidro | Tá cego do olho, tá surdo do ouvido | O mundo tá muito doente | O homem que mata, o homem que mente" [André Abujanra]

11.8.10

sobre o amor

eu amo o que amo e quem amo
e isso é o que tenho para lutar!

e tudo e todos que amo
amo porque existem e nada mais
não os quero para mim
quero que queiram o mundo

amo o mundo porque antes de mim
ele já aqui estava,
e depois que eu me for
ele permanecerá

amo amar porque isso é viver
e viver é estar em movimento
amo o movimento
e me consolo ao saber que os dias
se alternam com as noites
todos os dias

amo porque amo
e é isso que tenho para lutar!

eu, o que sou?

"sou uma sombra, venho de outras eras"

"pirata sempre rouba alguma coisa", me disse uma amiga querida

e completou: "vc é pirata que rouba corações"

não sou humilde

mas não confunda alhos com bugalhos...

observadora na grande máquina do mundo

lançadora de projéteis, os quais pretendo que alcancem longas distâncias

frágil ser que se encanta e manda o medo se jogar da prancha do navio

gente que faz...

e desfaz!

shiva nataraja?

para mim "a melhor maneira de viajar é sentir

sentir tudo de todas as maneiras"

"gosto de uivar no vento com os mastros

e de me abrir na brisa com as velas

e há momentos que são quase esquecimento

numa doçura imensa de regresso...

a minha pátria é onde o vento passa"

definitivamente amo...

você, o mar, a música, o tempo, as cores

definitivamente odeio...

mas não quero perder tempo com isso

"uma parte de mim é todo mundo

outra parte é ninguém: fundo sem fundo"

sou o que se conserva e o que morre súbito

nascida sob o signo duplo e que ascende fogo

meu mapa é carregado de muita terra...

e é por isso que um dia, com um chapéu e uma maleta

me mando para o mundo num veleiro, guiada pelas estrelas

leio, escrevo, canto, meu critério é a paixão...

embora evite me apaixonar pelo poder

bem como suscitar em mim um general

meu corpo é símbolo e sangue

tem desenhos e sua desesperadamente

meu mundo tem cores de oceano e selva,

vento de tempestade e maresia

tem cheiro de nostalgia e presente

gosto de vinho, manjericão e baunilha

tem som de pássaro, água de nascente, batuque da áfrica

tem música flamenca, lamento de fado e grito de rock´n roll

tem labrador, tartaruga que viaja e pinguim imperador

tem frio e calor, nem só um nem só outro

e tem amor... de índio, de bicho, de planta, de planeta!

é repleto das pessoas mais lindas que eu poderia conhecer!!!

e com isso me alegro e me pergunto sempre: por quê?

também assim, é um mundo solitário

como é a solidão melancólica do faroleiro...

se acho que tudo isso parece só poesia?

não, é vida.. atenta, sentida, como deve ser

3.6.10

cultura pra quê...

estava eu voltando do rio para niterói na hora do rush numa sexta-feira, e depois em véspera de feriadão. na espera da barca, nos dois dias, eis que surge um grupo de cultura popular com os artistas em perna de pau [pra todo mundo conseguir ver?] tocando e cantando uma música que falava da alegria de viver... ao meu lado escuto uma senhora dizer: "esse povo da barcas tá achando que a gente é idiota?" triste ter que ver os artistas se sujeitarem a isso pra conseguir viver [se é que é esse o caso ou pura ingenuidade ou sei lá o quê...], tendo que entrar no meio da multidão com fome e cansada que só quer chegar em casa, ficar 2 min cantando a mesma música algumas muitas vezes até o horário de pico acabar e ouvir 200 aplausos no meio de 2000 pessoas. vai uma cultura aí pra amenizar a vida dura? estou só colhendo informações pra minha dissertação de mestrado. cultura como um recurso pra salvar o mundo e resolver os problemas sociais e econômicos é o que há baby. voila

13.5.10

eu "é" um outro

quem eu sou...

um grande conglomerado de muitos eus e do outro

uma vontade de não ser só eu nessa limitação que aprendi a acreditar

e nao necessariamente uma questão de escolha

sou o outro sempre, quando sorri e quando chora

e então, não durmo

21.4.10

voemos...

as linhas que se seguem me dizem tanto que tomei a liberdade de publicá-las aqui. pertencem [até onde é possível pertencer] ao querido amigo juba, autor errante do blog rizomarte e da vida que se leva estrategicamente calcada na força, na alegria, no amor...

---

Eles me querem condensado
e eu me quero pior que isto.
eu me quero pior que eles.
porque me quero violento e eles o pacifico.

Escrevo com raiva e penso ainda pior que isto
quero me esmurrar todo pra ver se caibo
na caixa do meu próprio desejo
mas eu escorro, sempre
no fundo e raso
gosto disso.

aos interessados: ainda tenho pena!
só do que não sou eu
vitimizem-se longe de mim.
Não suporto ouvir nem meu próprio choro.
Troco de face feito um gatilho
que da arma cinza e pesada solta uma flor!

aos atrasados: o barco partirá comigo.
As minhas sirenes serão mudas .
As minhas sereias desafinadas, espantalhas de medusas!

Se virem de longe minhas mãos acenando
deêm um banho de mar para acordar suas ingenuidades!
Comemoro a fato de ter tido coragem para mentir as horas.
E, finalmente, ir só'
Forcei um atraso. A hora equivocada era um não-convite.
“-Cheguei tarde! ", um lamentaria..
E parto satisfeito olhando o cais cheio...
Gritaria com voz de lavadeira:
“Para mim tu nunca vieste, porque convidei apenas o teu equivoco!"

aos que me chamam de egoísta:
sou o mais multiplicador que conheço:
por saber pouco.
agora , se é para partilhar
comungem longe de mim
detesto ver a alegria dos outros quando dividem as migalhas entre si e pelo chao
porcos afarinhados!
Alegram-se por essa caridade?
obrigada pela culpa?
enquanto escondem o pão no alto
da vista daqueles que sào suspeitos.
Por que cheiram como vocês!

um egoista suscita -ismos
porque ama o singular

egocêntrico?
orbitando em mim, queimo-me menos
do que guardando a luz do sol nos meus poros
pela frente e depois pelo verso.
Depois ainda quando estou bem negro,
(a coloração indivisivel da noite e do lago)
rodo, danço, dissipo o calor do que há em minhas poeiras-lodo!
Mas os tolos, sempre friolentos
- certa necessidade de abrigo-
oportunamente gostam.
Oportunamente!
Quando descobrem que o quente lhe dá mais
do que esses arrepios chamados de vontade!

Egocentrífugo! E posso sê-lo!
Querem formas> massa!
Querem trabalho> o cio

Aos que brincam com a minha amizade:
estão voces mais vulneraveis ainda.
Estão perto!
Embora as armaçoes sejam tortas
-pois o afeto assim capta o maior abandonado-
as lentes são afiadas. E de grau.

Que raiva essa mais feliz!
Confia e sorri.
Branda densidade magmática!
Uma senhora que era puta
mas nunca prostituta, nunca se prostrava!
Cristalizar essa raiva?
Seria congelar orvalhos e colecioná-los!
Quando a graça é a grama molhada...
O matinal.

Minha raiva é do vespertino tardio
do horror à buzina do pão e do sonho
E se uns temem palhaços,
eu temo pipoqueiros das saídas escolares!


querem dados os tecnonarcisistas>
dardos lhes atiro no espelho

Sorrio, gosto de sorrir
gostando ou não de você
gosto antes daquilo que nos perpassa
Por quê a relação haveria de ser você?
a relação em si me apraz
sou linhas, linhas!
Sorrio, sorrio confortável
a maciez letárgica que dá dor nas costas.

Não irei mas sanear pensamentos
em nome do asséptico
nem desligar meu curto circuito
entre volume e superfície.

Quero as minhas cadeias de pensamento!
Derreter grades e forjar pedestais-plataformas
para voar, voar!