28.3.08

um livro pra não esquecer

dica de livro da semana:

O Relatório Lugano, de Susan George, Ed. Boitempo

uma "ficção" nada fictícia. para entender biopolítica e biopoder sem muitas delongas.

segundo Laymert Garcia dos Santos:
"desentranhando a lógica do extermínio das políticas e das práticas neoliberais contemporâneas, susan george demonstra que não se pode ao mesmo tempo promover o capitalismo no século XXI e tolerar a reprodução de bilhões de seres humanos supérfluos para o sistema".

segundo a orelha do livro:
"o relatório lugano não é exatamente um romance. também não lhe cai bem a denominação de ensaio. talvez a melhor classificação para este livro seja a de que ele é um libelo contra a hipocrisia".

Susan George é doutora em política pela École de des Hautes Estudes en Sciense Sociales (Paris) e dirigente da Attac (Associação pela Taxação das Transações Financeiras em apoio aos Cidadãos)

sempre o mar...


tão grande quanto o mar é a vida de quem ama a vida e por ela se arrisca... mora um mar dentro de cada um de nós...

27.3.08

biopolíticas e micropolíticas

Nesses últimos dias discuti com meus alunos a idéia de biopolítica como a lógica do estado, de que forma aquilo que Guattari chama de produção de subjetividade capitalística atualiza a biopolítica hoje, e como micropolíticas podem ser práticas efetivas de nos colocarmos como criadores e protagonistas, invertendo a lógica de que o macro (Estado, leis, corporações etc) é a voz que define as necessidades e, assim, ações de intervenção, sejam elas no âmbito social, educacional, da saúde, dos julgamentos etc. Cada turma reagiu de uma forma e enriqueceu a discussão. Porém nenhuma passou sem reagir, o que foi ótimo, pois a aula fica mais intensa e interessante para os dois lados. Muitos questionamentos surgiram na minha cabeça, inclusive de um aluno que questionou até que ponto o meu vegetarianismo não foi capturado por essa subjetividade dominante e se coloca reproduzindo velhas hierarquias e vícios que estão enraizados na nossa sociedade. Algo a se pensar. Ele tem razão ao afirmar que essa captura é possível; a própria categoria “vegetariano” é definida no âmbito das instituições, em relação com elas, inserindo-se como mais um nicho de mercado e muitas vezes não como uma postura ético-estética diante do mundo. E é assim com todas as categorias que são definidas por essa biopolítica para enquadrar os que se encontram fora do ideal de normalidade com o qual ela opera: feministas, gays, negros, criminosos, loucos etc etc etc. Uma reflexão boa seria pensarmos até que ponto os movimentos de afirmação ou defesa dessas categorias não estão reproduzindo lógicas hierárquicas, exclusões e segregações? De que forma operarmos com essas categorias para afirmar outros modos de vida possíveis que não o da subjetividade dominante sem nos deixar levar pela estigmatização, sem nos fecharmos cada vez mais nos guetos identitários que servem muito bem como massa de manobra, como rebanhos reprodutores de certos discursos? A reflexão que tenho feito tb com eles é: não há como trabalharmos com cultura sem considerar quais as implicações políticas (no sentido amplo de política) que a idéia de que cultura que trazemos com a gente tem. Sem considerarmos todos os discursos facistas (tanto de estados facistas quanto os pequenos facismos que vivenciamos muitas vezes no cotidiano, com a família, o amigo, as relações amorosas) que se utilizam da idéia de identidade. Onde estão as brechas para que os diferentes modos de vida possam emergir sem que o estado ou as leis delimitem seu campo de atuação? O que é essa idéia de representação que sustenta o Estado e as instituições? O que é o direito, a polícia, a mídia regulando a nossa vida? De que forma abrir espaços para que a discussão sobre o funcionamento e até sobre a necessidade ou não dessas instituições apareçam? Como e onde abrir espaços para a discussão da auto-gestão, do protagonismo, da possibilidade de uma vida mais criativa e reflexiva, especialmente nos países pobres, onde mal se tem o que comer? Tem um exemplo bem legal que gosto de falar que é o de um grupo de permacultura urbana que trabalha em Santa Teresa que recuperou com a comunidade uma área degradada de uma favela e a transformou em uma horta ecológica comunitária, resolvendo ao mesmo tempo problemas como fome, doenças, degradação ambiental, falta de perspectiva e geração de renda. Tudo isso sem passar pela estrutura Estado-Mercado de Trabalho, não buscando promover uma inclusão, mas criando-se um espaço de atuação. Outras questões que permanecem em mim: como transcender os dogmatismos e pré-conceitos que dificultam nossa capacidade crítica e tb de entendimento do outro? Quais as lutas possíveis para além da luta de classe marxista? As lutas são muitas, a de classe é apenas uma delas. Existem as lutas internas, de subjetividades, com os mercados, com a fome, com os desejos do corpo, com as diferenças... como diz Guattari, os proletários hoje são os marginalizados, excluídos, imigrantes. O contexto é complexo, ao mesmo tempo em que se diluem fronteiras outras nascem. Então, voltando a questão lá de cima, não sou vegetariana, produtora, professora, cantora, aspirante a isso ou aquilo. Sou um corpo que deseja, que é atravessado por discursos o tempo todo, que está buscando a sua forma de atuação ético-estética no mundo que, aí sim, passa pelo vegetarianismo, pela arte, pela reflexão da minha atuação como professora e produtora cultural, pelo questionamento do impacto do meu consumo, pelo yoga, pela minha relação com o meio ambiente e o outro. Sou tudo isso e mais aquilo que não consigo listar, pq o tempo todo estamos sendo atravessados por tudo. Assim, não sou alguém que pode ser engavetado e etiquetado. Não sou cidadã, consumidora, eleitora, algo passível de se tornar estatística. Sou uma pessoa, com tudo aquilo que é próprio de ser gente. E vc?

Alguns trechos de alguns pensadores-interventores...

Negri (em Exílio)

“A biopolítica é essa perspectiva dentro da qual os aspectos político-administrativos se juntam às dimensões democráticas, para que o governo das cidades e das nações possa ser apreendido de maneira unitária, reunindo ao mesmo tempo os desenvolvimentos naturais da vida e de sua reprodução, e as estruturas administrativas que a disciplinam (a educação, a assistência, a saúde, os transportes etc). […] uma vez admitida essa definição, é preciso, contudo, ir um pouco mais longe e perguntar-se o que significa biopolítica quando se entra no pós-moderno, ou seja, nessa fase do desenvolvimento capitalista em que triunfa a subordinação real da sociedade como um todo ao capital. […] o biopolítico mudou de cara: torna-se biopolítico produtivo. Isso significa que a relação entre os conjuntos demográficos ativos (a educação, a assistência, a saúde, os transportes etc) e as estruturas administrativas que os percorrem é a expressão direta de uma potência produtiva. […] o conjunto das forças produtivas, dos indivíduos e dos grupos se torna produtivo à medida que os sujeitos sociais se vão reapropriando do conjunto. Nesse âmbito, a produção social é completamente articulada através da produção de subjetividade”.

Guattari (em As três ecologias)

“Convém deixar que se desenvolvam as culturas particulares inventando-se, ao mesmo tempo, outros contatos de cidadania. Convém fazer com que a singularidade, a exceção, a raridade funcionem junto com uma ordem estatal o menos pesada possível. (...) Tal problemática, no fim das contas, é a da produção de existência humana em novos contextos históricos”.

Foucault (Em Defesa da Sociedade)

“A biopolítica lida com a população e a população como problema político, como problema a um só tempo científico e político, como problema biológico e como problema de poder. (...) Não se trata por conseguinte, em absoluto, de considerar o indivíduo no nível do detalhe mas, pelo contrário, mediante mecanismos globais, de agir de tal maneira que se obtenham estados globais de equilíbrio, de regularidade; em resumo, de levar em conta a vida, os processos biológicos do homem-espécie e assegurar-lhes não uma disciplina, mas uma regulamentação”.

Colóquios Cultura, Trabalho e Natureza na Globalização

6.3.08

divagação da semana

Hoje na natação comecei a treinar apnéia para mergulho!!!! Em breve vou comprar meu equipamento. As vezes eu tenho vontade de ir para o mar e ficar pra sempre naquela imensidão azul... Aliás, já viram esse filme? Lindo! do Luc Beson. Enfim, só um momento de divagação. Eu agora estou dando a luz a uma organização que, eu espero, será inovadora (algo que deve me consumir aí um tempão e muito suor, quem sabe até alguns conflitos), dou aula, canto, escrevo... tem casa pra cuidar, contas pra pagar, mil coisas pra fazer. Mas acho que no fundo eu estou apenas preparando o terreno pra sair por aí um dia com meu barco "salvando as baleias". Lá dentro uma vozinha diz que o mundo é a minha casa... Mas eu sei que antes tenho que construir as bases pra isso, ganhar um dinheirinho, porque eu não quero simplesmente sair por aí como turista ou sem noção (já passei dessa); eu quero construir coisas, pesquisar povos, culturas, lançar livros, acabar com o pró-carne, com a Monsanto e quem sabe tb despoluir a baía de guanabara, salvar a Amazônia e os pandas... coisas pequenas...rs. Na verdade, eu acho que já estou fazendo. Não sei muito bem se existe isso de construir agora e colher depois. É simultaneo. Uma outra voz tem dito dentro de mim: você nasceu para coisas grandes. E a Vanessa pequena tem medo. To tentando fazer com que a Vanessa grande coloque a pequena pra hibernar. Todos deviam fazer isso consigo mesmo. Temos que salvar os fortes dos fracos, dizia Nietzsche. Reflitam bem essa frase sem pré-conceitos... Quem são os fortes e quem são os fracos?

um poema para a vida!!!

Poesia ingênua

Basta apenas um sorriso
E meu mundo se abre em flor
Basta um som rasgado
Uma voz apaixonada
Basta um suor de desejo
E um fôlego sem fim
Uma luminosidade cara
Uma insanidade rara

Bastam os acordes
E as harmonias de um dia de sol
As chuvas de verão
Os sonhos de calor
Os filmes que eu não vi
Os beijos que virão

E bastam os abraços
Os corpos que se encontram
Os olhares que aprofundam
As forças que juntas se consomem

E então um grito ecoa no ar
E me diz que na vida
Embora existam as saudades
Tudo tem fim na alegria

Que nos jardins de rosas
Todas as dores se transformam
Em luzes que se espalham pelo céu

Que lá fora há um sol gritando por nós
E um planeta que não se cansa de amar
E uma vida que nasce
Intensamente a todo instante

Como a cada instante nascem e morrem
Astros por todo o universo

Como a cada instante damos a luz
A tudo aquilo que fazemos
E a tudo o que o desejo
Conduz e transforma em concretude

Mafuá Produções

vc já pensou que pode ficar mais simples conseguir realizar seu projeto cultural?

aguarde a versão 2008 da Mafuá Produções: www.mafua.com.br

Adoro fazer mistério!!!! ;)

e já que o assunto é produção

Produção do filme 'Chatô' terá de devolver R$ 36,5 mi
Sáb, 23 Fev, 09h09
O ator Guilherme Fontes e sua sócia na produtora Guilherme Fontes Filme,Yolanda Coeli, terão de devolver mais de R$ 36,5 milhões aos cofres públicos, por determinação da Controladoria-Geral da União (CGU). Em 1995, eles captaram recursos para produzir o filme "Chatô, O Rei do Brasil", mas a obra até hoje não foi concluída. O parecer da CGU deverá ser enviado nos próximos dias ao Ministério da Cultura, que em seguida o encaminhará ao Tribunal de Contas da União. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo

CGU vê quebra de contrato em 'Chatô, o Rei do Brasil'

Para a CGU, a empresa de Guilherme Fontes deve devolver mais de R$ 36 milhões à União.
Esse valor foi atualizado em relação aos R$ 8,6 milhões recebidos em 1995 pelo filme.
Tiago Pariz Do G1, em Brasília
A Controladoria-Geral da União (CGU) concluiu nesta sexta-feira (22) que a produtora do ator Guilherme Fontes deve restituir aos cofres públicos R$ 36,6 milhões, valor atualizado do montante captado para a realização do filme “Chatô, o Rei do Brasil”. A CGU alega que houve quebra de contrato porque a produção nunca foi concluída.

“O parecer da CGU sobre a tomada de contas especial deverá ser enviado nos próximos dias ao Ministério da Cultura para conhecimento do ministro Gilberto Gil, que em seguida o encaminhará ao Tribunal de Contas da União (TCU). O motivo de se decidir pela devolução dos recursos foi o não cumprimento do objeto do contrato”, informou a Controladoria em nota divulgada à imprensa.
Se o TCU acatar a decisão da Controladoria, será emitido um título de cobrança com o valor atualizado do recebido pela produtora em 1995, que agora seria de R$ 36,6 milhões. Caso os donos da produtora se recusem a pagar o devido à União, a cobrança passará a ser feita na Justiça através da Advocacia-Geral da União.

A assessoria de imprensa da CGU informou que o Ministério Público também pode utilizar este parecer para iniciar um processo jurídico antes mesmo da conclusão da análise do TCU.
A reportagem tentou entrar em contato com o ator Guilherme Fontes mas não conseguiu.
Chatô
A produtora Guilherme Fontes Filme captou R$ 8,6 milhões em 1995 para rodar "Chatô". O financiamento foi garantido através da Lei de Incentivo à Cultura e da Lei do Audiovisual.

Em 2002, a produtora solicitou um novo prazo para a conclusão do filme, até 2005, mas o pedido foi negado pelo governo.
Retirado de:

produção cultural

Olá! Alunos lá da Faculdade (pra quem não sabe sou professora substituta de planejamento cultural no curso de produção cultural da UFF) pediram para eu escrever um texto para os calouros e para o manual que eles fizeram sobre o curso. Bem legal isso. Estão voltando as boas iniciativas alunescas lá na procult. Fizemos um debate de ex-alunos essa semana e foi bem legal relembrar um monte de coisas. Reproduzo o texto abaixo. Não sei o que acho dele. As vezes gosto, as vezes não.

Acredito que o ofício de produtor cultural é um dos mais abrangentes, porém um dos mais fascinantes e, ao mesmo tempo, mais perigosos que existem, porque podemos ser criadores e mediadores de desejos e políticas.

Assim, cabe a nós, que nos intitulamos produtores, trilhar os caminhos onde queremos atuar. Aqui vale uma reflexão: até que ponto é um produtor cultural aquele que colabora, hoje, na manutenção de instituições e padrões culturais da megamáquina de produção de subjetividade capitalística, para usar uma expressão muito bem vinda de Guattari. Aliás, esse mesmo pensador chegou a afirmar que cultura seria um conceito reacionário, uma vez que é o motor dessa produção de subjetividade.

Falando assim parece até que não temos alternativas. Trabalhamos com cultura ou, pelo menos, com produções simbólicas, semióticas. E aí? Nos serve ainda Guattari e sua idéia das micropolíticas e revoluções moleculares. Sejamos, então, produtores e mediadores de singularidades em contextos micropolíticos que existam baseados não em regras ou leis das máquinas estatais, empresariais ou qualquer outra megamáquina reguladora, mas que se baseiem em desejos e trabalhem com as multiplicidades e as singularidades (e não dicotomias como as de classe ou de bom e mau); que sejam máquinas de singularização, ou contra-máquinas.

Para beber mais desses pensadores autônomos e errantes, que atuemos nas brechas deleuzianas que se abrem no rizoma da existência, para alterar sempre o fluxo do rizoma, ou que sejamos os mediadores daqueles saberes sujeitados (como nos diz Foucault) em séculos de uma história de opressão e supressão desses saberes, tradicionais ou, simplesmente, não enquadráveis.

Quem sabe assim possamos reinventar a política, a empresa e, por quê não, nossa relação com o mundo e com o outro, para que ela seja mais sustentável e rica em cores, cheiros, cantos, danças e do sentimento de amor à vida.

Ser produtor cultural não é ser o técnico que entende tudo de Lei Rouanet. É, antes de tudo, assumir uma postura frente ao mundo, entendendo que nada está dado e sim, que a realidade é um caldeirão de possibilidades de modos de existir a ser talhada, moldada e desmoldada. Eu poderia aqui enumerar as várias qualidades técnicas que um produtor deve ter, assim como sua postura no trabalho e as possíveis áreas em que ele pode atuar, mas não iria acrescentar em nada, pois há quem faça isso melhor que eu. Prefiro uma reflexão, algo tão pormenorizado hoje em dia.

Acredito, desta forma, que a faculdade pode até instigar essa sensibilidade no pretendente a produtor, mas se não estivermos abertos a ela seremos apenas um técnico. Graduado ou não, o produtor cultural que preza seu ofício é aquele que sente o mundo e quer realizar, criar, fazer a diferença. Entrei na faculdade com esse pensamento, deixei de acreditar nele por um tempo. Mas só mesmo a experiência nos traz certezas. O caminho que trilho hoje me devolveu a certeza nele. Certeza essa que pode um dia ir por água abaixo, pois a vida não é nada precisa. Mas vamos viver o presente trabalhando para que sejamos os poetas do amanhã: arautos, músicos, cantores do amanhã[1]. Que possamos preparar uma canção que faça acordar os homens[2]. E deixar que os desejos, os símbolos, as semióticas com os quais trabalhamos construam os caminhos, as pontes e nossa sustentabilidade como produtores. Esse é o horizonte pra onde navega meu barco...



[1] Walt Whitman. Poetas do amanhã. Em Folhas de relva.

[2] Carlos Drummond de Andrade. Canção amiga. Em Antologia poética.