27.5.13

as veias da cidade

minha poesia tem fome
como fome tem um beijo

e percorre as veias da cidade

tem aura minha poesia
e preenche os espaços vazios
do porto

e do meu silêncio
diante da paisagem

como sangue tem meu corpo
como lua tem hoje
o céu do Rio de Janeiro
eu me beiro

nessa noite clara, de estrelas
nessa noite densa, de sonho
como o sonho de uma noite de verão

mas é outonal o céu carioca,
de lua abissal,
que vejo da janela do carro
como se carro fosse o meu desejo
e pudesse me levar
onde agora festejo...
onde também a lua é vista
e a vista é a pura poesia
do que vejo

tem música essa metrópole,
do alto, do asfalto,
da ladeira que o percurso toma,
dos arcos visíveis do bar
que imprimiu um cheiro

como a minha poesia,
percorre o táxi, as veias da cidade
e um torpor circula pelo meu sangue
e invade as veias porque não pode
senão, invadi-las, e torná-las arte

atravesso a cidade

me atravesso
e atravessa meu corpo
um ar frio carregado de futuro

do cristo à floresta
quereria meu coração
estar sempre em festa

planar pela lagoa
como pássaro altaneiro
a sentir o sol da tarde

do cristo à floresta
o caminho é curto
o parque era alto
o som era a lógica
o asfalto é o trilho

o mar permanece

invade o táxi as veias da cidade
e me deixa em casa
onde encontro o silêncio exato
pra o momento certo

o de construir o presente
no elo entre o que sinto
e aquilo que é urgente

e incerto...

18.5.13

poema distraído


hoje eu acordei desperta!
não havia sol...

...mas havia a clave
no meu corpo ainda

hoje eu acordei um tanto leve
um tanto perdida...
numa música
numa ilha

com nome e sobrenome

hoje acordei sem pressa,
sem trabalho, sem espera,
sem ferida, sem expectativa...

mas com o sangue
reverberando um perfume,
um tato de mãos sonoras
provocadoras de lume

hoje acordei um tanto distraída,
quase sem perceber...

que acordei pensando em você

9.5.13

só mais uma poesia contemporânea


que horas são?
uma da manhã?
que importa...
há luzes tantas
meus olhos mal sabem das estrelas
se esbaldam, eles, no excesso
cegam
te quero, penso
tenho fome,
e é tenso
quero água
já são mais de uma da madrugada
e a madrugada tem refinamento
de luz, afinada
de som, exato e diverso
do ruído do meio dia
descanso
que faria eu pudesse sair agora
do universo das palavras?
diria: me chama pra sair!
ou eu chamaria,
sairia da rede social,
abriria a porta, escancararia o coração
substituiria o teclado pela pele
e meus dedos seriam mais justos com o universo
solidão, pré-condição?
te digo: cuidado!
fica a dica!
#meucoraçãoémaisqueumteclado
o chão brilha
a cidade dorme, em boa parte
restam os homens de boa vontade
que circulam pela noite enluarada.
meus pés cansados procuram abrigo
numa água quente, num pé quente,
no estio, um estilo;
e ouço quem diga: beijo, me liga...
do outro lado da rua uma alma semi nua
comporia bem na casa que decoro
ela diria: adooooro!
e eu encararia com olhar semi nu a perguntar
o quanto adorar com tanto “o” pode significar
mas é curiosa essa contemporaneidade
essa pós-modernidade adocicada
essa gente perdida no meio de si
um encantamento pelo concreto...
enganam-se elas: é metafísico
muitas janelas, todas fechadas,
para os muros, voltadas
espaços da verdade
eu-objeto
meu minimalismo os exalta
exceto os buracos que separam as alegrias
nas paredes dos prédios
eu-dejeto
de que serve um ser humano que não sabe ser máquina?
pergunta o bancário, o banqueiro, o porteiro, o batista
pergunta o político, o cara que não soube ser artista
a moça hipnotizada que espera o príncipe encantado
pergunto eu
mas é por isso que o teclado é instrumento
é por isso que a rede é social por dentro
meu corpo é bandido
o que mais o carrega, é pela tela apenas disparado
nunca sentido
pode ser por ela  provocado,
estudado, pela arte estimulado
mas meu corpo é bandido
se deixa levar mesmo é por um sorriso
e nesse mundo de cheiros e prantos
pergunta ele: como é possível um encontro?
que força faz com que
entre tantos
encontram-se determinados corpos,
certas vertigens,
colidam-se os corações ... !?
sabemos tanto...
sabemos tudo.
temos o Google!
mas esse mundo contemporâneo
com a graça do divino espírito santo
(da diversidade)
não conseguiu resolver o mistério de sempre:
que a vida, esteja ela no tempo passado,
futuro ou presente,
é força estranha, loucura boa,
o inexplicável fascinante do existente

poema dos pequenos gestos


apertar um botão
um aperto de mão
sorrir, simplesmente
partir, de repente
jogar uma semente
uma cerveja que compõe
com o que se sente
uma dobra num papel
retirar um véu
um acorde
não me acorde
a porta quando tu entrares
a sutil conversa dos olhares

5.5.13

o som e o silêncio


é no momento do silêncio,
entre uma nota e outra,
que meu corpo retoma,
na voz, o seu desejo

e deixa nele ecoar
o corpo do outro ...

...e o ensejo

é no momento do silêncio,
quando respiro e sustento,
que meu coração se revela,
e entregue, forasteiro,

ressoa nele
todo o seu intento...

...e vibra inteiro

é no momento do silêncio,
quando as passagens se dão,
que me conecto mais fundo...

ainda que por um segundo,

e este precioso instante
produz meu diamante:

tudo o que carrego
de mais intenso em mim
se lança no universo pela voz
para semear estrelas
e colher amplas ressonâncias
no mundo sem fim
das coisas sonoras

produzindo as reticências
que o meu canto
põe ao fim de cada tempo

para ampliar o espaço
de todo e qualquer lamento

para ampliar o dia
a toda e qualquer alegria

3.5.13

anunciação


anunciou-se um corpo
o meu próprio
relembrou seu ópio

pedi-me atenção

lançada estou
mais uma vez...
no poço sem fundo da alma

essa inexistência exata
que me cala a exata existência

como há um,
dois anos talvez?
quem sabe alguns meses
quem sabe...

quem sabe o que trazemos conosco
e que nos torna nós mesmos?

mas que melhor momento para uma virada!
estes, em que não sabemos nada...

quando o que nos é revelado,
apenas pela intuição
pode ser conquistado

se sei do líquido raso que é meu sangue
tão infame e próprio à densidade alheia
é porque sei da imensa profundidade da pele

e sinto o rombo do corpo sutil
maltratado
o tombo de dentro de mim mesma
deslocada
lá onde só a poesia
é a composição certa de palavras
e irmã dessa poética palavra
a música
é também ela
capaz de reconhecer
a suada alma despedaçada
e com tanto ainda por viver

densidade em ser
por um lado, brisa
por outro, ansiedade

velho e conhecido exercício
o de equilibrá-las

pois nasci numa estação de transição
não sou daquelas pessoas
que possuem as certezas
do inverno ou do verão
sou daquela gente
em mudança permanente
alma-budista
circense

filha do outono
e amiga das almas da primavera!
porque o oposto
é o outro mais próximo de si

muda
folha que cai
ipê que floresce
quase invernal, é certo
mas aquela que fecha
as portas do outono
como se quisesse guardar
a preciosidade do incerto

porque nada é mais exato que a fortuna
que anuncia aquele descampado musical

(ó fortuna! velut luna statu variabilis)

sabe o meu corpo
dessa lógica sutil e encantada
que governa o mundo

mas agora
meu saber está
colocado à prova da existência

uma vez com as ferramentas
a diferença entre aquele que lamenta
e aquele que agradece
é linha tênue

é preciso usá-las
para se viver atento

para sermos observadores de nós mesmos

é preciso reeducar o olhar
e saber ler a si mesmo

e encarar
a mania de afirmar
que se soube tão bem ler o outro

pois como entender o outro
se mal sabemos de nosso próprio corpo?
se todo o vazio do mundo
pode a qualquer momento nos lançar
num campo morto?

nos construímos em espelhamentos sóbrios
como se a cultura desse conta
de dizer quem somos
e decodificar nosso espaço,
nosso sexo, nosso ócio

apenas sei que hoje
tenho as ferramentas
e posso ser marceneira
da minha própria casa

aquela interna

porque tenho com elas
os sonhos
os desejos
a música
as palavras

tenho a mim mesma

e antes de mais nada
é nosso corpo
o nosso primeiro território

pois que assim seja
diariamente
para que ao perder-me
esteja meu corpo presente
e consciente que perdeu-se

e caso ele se perca completamente,
tão completamente que esqueça,
que as ferramentas antes trabalhadas
venham, pelo insight da existência,
relembrá-lo da sua divindade