31.3.14

silêncio


dei-me o desafio do silêncio!

a partir de agora, tenho comigo
uma nova forma de respirar as horas.

mas não para negar a palavra.
sou justa!
ou negaria meu corpo...

mas para deixar que,
a partir de hoje,
e por tempo indeterminado,
fale mais o sentimento.

para que ele não se dilua
na voracidade do verbo
e a política se faça nos meus gestos.

dei-me o desafio do silêncio
para construir uma obra.
e para que a palavra possa
calmamente lapidada,
e, com o tempo, condizente,
encontrar, enfim,
a sua forma mais reluzente!

30.3.14

o poeta é um inventor


escrever é criar o que ainda não existe

quando algo se torna verbo
ganha status de concreto

e o poeta!?
o poeta é um inventor:
exagera!

prosa de um querer

sempre depois que te vejo é como se ficasse um cheio. fica cheio de vida o meu coração e tento transformar também em cheio o vazio que fica quando vou ou quando vais. e o vazio desaparece e fica um cheio tanto que transborda de vida semeando dentro de mim. extasiante. como podes ser tão bonito assim? tua beleza vem de longe, de um mundo subterrâneo que é ao mesmo tempo céu, lá onde nasceu a vida, daquele tempo sem tempo onde as estrelas espalharam poeira e era mesmo a música que mantinha em permanência e caos o universo. uma música das esferas a dar origem ao verbo. às vezes, depois de te ver e te sentir, quando só, eu choro, minutos seguidos, até que paro, sorrio e vou dormir. mas não choro um choro de tristeza. é o choro da falta das palavras. é o choro da primeira mulher que existiu sobre o planeta. às vezes rio. pois só o choro ou só o riso, destes momentos de ficar só após teus gestos e com teu cheiro impregnado em mim pelos abraços e o toque dessas mãos que criam versos, são capazes de dizer. fica algo no estômago, no fígado, no sexo. e pareço não produzir mais que amor ao invés de bile ou toda secreção. choro porque não sei o que fazer com tanta vida que em mim revira, querendo sair por minha vagina enlouquecida de paixão. ou rio, selvagem. e te sorvo, com os meus ossos e o meu sangue acompanhando a tua arte. depois disso, fica é o coração perdido de tão encontrado. e não posso nada mais fazer a não ser correr em sua direção, como criança ensolarada. e fico tateando a procura dos apoios para o tanto que deslocas. e decido por, tão somente, escancarar a verdade. rememorando que conheço teu íntimo e sei que ele sabe como me querer. eu morreria no fundo do teu olhar profundo, para viver ainda mais depois. e faria para ti as oferendas que pedem teu sorriso e teu cheiro ancestral. de um jeito de quem te ama em tuas entranhas. e nos tempos breves que temos para sermos e estarmos. tempos certos. mesmo aquele que bate a porta do espanto: como te olhar nas horas calculadas do trabalho? saberemos. sem temor. e talvez se tornem, minhas palavras, mais cimento que reticências desejando o que ainda não é. e por tudo isto eu retribuo as tuas provocações. das palavras ditas sem pensar, no calor do sentimento. do carinho e do suor que, mesmo em terrenos gélidos e frios, revelam esse íntimo pedregoso e enluarado onde eu me perco para encontrar o cerne da divindade da existência. minhas palavras são meu corpo escorrendo pelo teu e se despedaçando em múltiplos sóis no mundo que existe no entre-nós. nem meu, nem seu, mas nosso. feito de barro, medo, coragem, solidão, das mais belas e dolorosas poesias e da sonoridade nova que contrapõe a profundidade da música dos antigos com a leveza do deslumbramento de uma nova estrela. tu vais e eu fico. renovada. tu vens e é como se eu olhasse no olho de deus, com a certeza de que deus é aquilo que não conseguimos explicar e o que faz a vida se regozijar. tu vens e eu me alegro de dar de cara com o mistério, que faz do meu querer um acelerador de partículas e uma abelha rainha. dá origem a vida e se lança no ar como uma virgem linha .

26.3.14

brevidade

a vida é de uma tal brevidade
que quase parece calculada
para que, apenas pela intensidade,
possamos sorver suas colheradas

23.3.14

o amor do lobo e do cordeiro


um lobo sempre reconhece outro lobo

pelo faro, pelo olho no olho

um lobo sabe que encontrou um outro lobo
quando sente no outro – como um calafrio –
a carne e os ossos de um grande desafio

o da própria existência

quando vê nele a mesma solidão – necessária –
e a liberdade rara de saber que a vida transcorre
em ciclos de início e de morte
que nutrem o amor infinito
que carregam em sua sorte

mas um lobo enfraquecido,
levado para longe de seu alimento,
pode enganar-se por inteiro
e ver um lobo quando encontra um cordeiro

um cordeiro também
sempre reconhece outro cordeiro
nasceram para o rebanho
e do rebanho jamais sairão
regozijam-se nele
e, felizes, mantêm fechados e nada atentos
seus pequenos olhos remelentos

todo cordeiro tem vocação para ditador
não suporta como os lobos se fortalecem de sua própria dor
nem sua calma solidão na estepe
nem como correm juntos como se corressem livres

e abafam com sorrisos falsos
toda a inveja dos olhos abertos das matilhas

mas crianças podem ser facilmente presas de cordeiros
quando enfraquecidas

um cordeiro parece saber muito bem
como enganar um lobo esfomeado de primeira
- parecendo também um lobo -
pois cordeiros são excelentes mentirosos
tanto mentem a si mesmos

e, por isso, é que podemos ver por aí
tantos lobos em peles de cordeiros

esfomeados, alimentam-se da comida alheia
e acabam por acreditar que também
nasceram cordeiros e estão presos em teias

ensinou-nos, a história,
que todo lobo é mau
e, de tanto ser ferido por cordeiros invejosos,
podem vir, os lobos, a acreditar
em tais degredos jocosos

mas lá no seu íntimo,
bem lá onde cordeiro nenhum chega,
sempre há o uivo derradeiro

um dia, mesmo alimentado por cordeiro,
o lobo sente o chamado da lua
e, para ela, uiva em reencontro a sua morada

um lobo sempre reconhece outro lobo
mesmo quando em pele de cordeiro

é assim que, movido por amor,
pacientemente,
desenreda cada fio da falsa pele
no outro e, em si mesmo, sobreposta
e, de olhos bem abertos,
sem medo das mandíbulas que se lhe apresentarão
desnuda o corpo de quatro patas
e põe-se a correr na estepe
a celebrar a madrugada
da qual o cordeiro, cheio de medo,
e por não ver a beleza do grande segredo,
prefere se manter distante,
dançando no estábulo, quadrado,
a dança regrada que lhe foi ensinada

é por isso que lobos e cordeiros
jamais podem ser amantes verdadeiros
mesmo quando o cordeiro assim insiste
e faz de tudo para que o lobo acredite

quando o lobo consegue alimentar-se
e, novamente, faz-se forte,
sua natureza torna insuportável
viver a vida sem encarar de frente a morte

só a morte dá origem ao amor
e só pode haver amor quando se encara o horror

é preciso a cada lobo,
matar em si, o cordeiro que camufla o necessário tremor

22.3.14

Gosto de Manjericão


Inicio, hoje, a série de publicações dos meus contos neste blog. Este é de 2007 e está publicado em meu primeiro livro, Novelo. Em 2011, revi o conto retornando a sua maior inspiração: Nietzsche. Espero que curtam!

Qual pode ser a nossa doutrina? – Que ninguém dá ao ser humano suas características, nem Deus, nem a sociedade, nem seus pais e ancestrais, nem ele próprio (...). Ninguém é responsável pelo fato de existir, por ser assim ou assado, por se achar nessas circunstâncias, nesse ambiente. A fatalidade do seu ser não pode ser destrinchada da fatalidade de tudo o que foi e será. Ele não é conseqüência de uma intenção, uma vontade, uma finalidade próprias, com ele não se faz a tentativa de alcançar um “ideal de ser humano” ou “um ideal de felicidade” ou um “ideal de moralidade” – é absurdo querer empurrar o seu ser para uma finalidade qualquer. Nós é que inventamos o conceito de "finalidade”: na realidade, não se encontra finalidade... Cada um é necessário, é um pedaço de destino, pertence ao todo, está no todo – não há nada que possa julgar, medir, comparar, condenar nosso ser, pois isto significaria julgar, medir, comparar, condenar o todo... Mas não existe nada fora do todo! – O fato de que ninguém mais é feito responsável, de que o modo do ser não pode ser remontado a uma causa prima, de que o mundo não é uma unidade nem como sensorium nem como “espírito”, apenas isto é a grande libertação – somente com isso é novamente estabelecida a inocência do vir-a-ser... O conceito de Deus foi, até agora, a maior objeção à existência... Nós negamos Deus, nós negamos a responsabilidade em Deus: apenas assim, redimimos o mundo.

Aforismo 8 - “Os quatro grandes erros” – O crepúsculo dos ídolos – Nietzsche

Chove na tarde do enterro. Eu não posso suportar tamanha dor que presenciam meus olhos diante dela. Suas mãos seguram o guarda chuva com fragilidade. Seu olhar está distante. Eu de longe a observo, e minha vontade é cair em um choro compulsivo. A chuva aperta. Todos começam a se mover, mas ela se mantém intacta com seu olhar apático e uma languidez de quem vivera uma promessa de amor que se desfez em um segundo. Eu sofro pela morte, mas sofro mais ao vê-la sem a força de vida que me encantou desde o primeiro instante. Aqueles olhos, aquelas mãos, aquele jeito de caminhar pelo jardim, aquele cheiro de alfazema berrante. Agora eu já não posso ouvir a sua voz doce e incisiva nem mesmo contemplar o seu sorriso ao pôr do sol.

Não compreendo. Mal consigo olhar à minha volta. Tão jovem e mal vivi o amor que pensei ter recebido como o maior presente da minha vida. Ele agora não existe mais. Vivo uma angústia do futuro. Estou sozinha. Não há cheiro, não há pele em que possa encostar e me sentir feliz. Quero dormir até o último respiro de vida.

Estamos voltando para a casa. Cuido para que nada possa incomodá-la ainda mais. Abro a porta do carro, subo na frente as escadas para abrir a porta da sala e conduzi-la ao seu quarto. Sei que neste momento a sua única vontade é esquecer de tudo. Não posso demonstrar a ela meus sentimentos mais profundos de afeição. Ela jamais entenderia. Fita-me como quem dá ordens. É essa a sua função. Dar ordens para que eu mantenha a casa também em ordem. Como me dói o peito querer pegar na sua mão e beijá-la com toda a lascívia que meu desejo supõe. Que estremecimento! Que sopro de vida que não pode nascer! Quero tê-la para mim. Agora que é livre... Deus perdoe tamanha obsessão.

Acreditava que, ao chegar, me jogaria na cama com a sensação de perda irreparável, como as formigas que perdem seu formigueiro com a chuva. Ao invés disso, sentei-me na poltrona em frente à janela de onde vejo o jardim florido. Nem sempre flores são alegria. Elas carregam uma morbidez do que se move sem se mover. Sinto cheiro de vazio. Um olfato de passado distante. Mas ao mesmo tempo um cheiro de futuro. Uma promessa. De nada. Simplesmente uma promessa, pois há que se viver. Observo atentamente a janela. Ela revela os segredos desta casa. Lamento que os segredos estejam morrendo. Morreu o homem. A mulher que agora sobrevive não tem seios nem útero. Só um corpo cinza. Mas esses pensamentos me cansam demais. Vagueio. Vejo que lá no fundo do jardim, quase a perder de vista, meu empregado tão fiel cuida com esmero das flores que eu gostaria amar. Agradeço por sua dedicação. Sorrio levemente. Atentamente percebo que seu corpo e sua disposição não parecem refletir a idade que tem. Embora muito mais jovem, me sinto mais velha. Alegro-me, então, com a força dos que têm força. Com a virilidade dos homens sem muitas palavras que se jogam com voracidade às mulheres tão cheias de fome que suas saias abafam todo pecado. E mais uma vez, caio no vazio do que poderia ter sido e não foi.

Já é tarde. Aquela hora em que se escuta apenas o barulho dos grilos. Gosto, nesta hora, de ficar na penumbra da cozinha, apreciando o vinho que sempre me permitiram por acreditarem na sensibilidade humana incondicional. Lembro da tarde de hoje quando ela me olhava através da janela do quarto. Sim, eu percebi. Mas sei de seus olhares de gratidão ao meu cuidadoso trabalho. Só chegamos até este ponto. O ponto fraco, que se resguarda, que não sente, que só se trata por palavras de gentileza e respeito. Mas meu coração diz que, ao mesmo tempo, é um ponto forte, que antecede o momento de um êxtase tão profundo que mal posso esperar. O simples ouvir da voz, o simples observar o movimento das mãos indicando onde deve ser limpo. Tudo é recheio para meus sonhos. O ponto forte...

Não consigo dormir. Preciso de água e um pouco de calor. Vou até a cozinha e o encontro sentado à mesa, envolto em pensamentos. Sinto uma felicidade calma. Sei que posso contar com sua amizade e fidelidade. Sento-me ao seu lado e percebo sua disposição para mim. Conto-lhe minhas angústias. Busco respostas na sua simplicidade. Alegro-me, embora triste, com a sua paciência em me ouvir e tentar me consolar. Como ele tem respostas... São tão simples e carregam uma enorme complexidade que só poderiam ter vindo de alguém que vive na música do mundo. Ele segura minha mão tão docemente... Vou para a cama e durmo silenciosamente.

Que todo o meu sofrimento possa ser recompensado. Ela veio até mim e me confiou seus medos. Como tive que me conter ao vê-la chorar. Ao pegar sua mão sem que ela pudesse perceber minhas intenções. Não chegou a hora ainda. Não sei se um dia chegará. Receio o aumento do som das carruagens na estrada, que indicam a chegada de notícias. Receio, como quem receia abrir uma carta, o futuro dos meus sentimentos que ardem feito febre.

Pela manhã gosto de cheiro de café. E percebi que, mesmo em momentos de tristeza, como agora, esse cheiro traz a mim o sabor da vida. Benditas sejam as frutas. Como sempre, ele prepara o café com toda a sua sensibilidade para com a natureza. E me oferece com pão e bolo de laranja feitos com mãos calejadas de sentimentos pela farinha, a água e o alimentar. Cozinha como nenhuma mulher poderia fazer. Minha mãe sempre dizia que existem muitos segredos na cozinha que pertencem às mulheres, mas que alguns poucos são reservados aos homens, e esses nunca poderemos descobrir, por mais profundo conheçamos os donos das mãos que produzem o alimento. Como com vontade. Sinto-me bem ao seu lado.

Percebo quando come o pão feito por minhas mãos. É como se me beijasse. Tenho me perdido a todo instante em pensamentos por ela. Agora está tomando o café. Como ela gosta. E se delicia vagarosamente para não perder nenhuma sutileza. Mesmo com o marido morto essa mulher tem paladar. Desconfio que pensas em algo que não a morte.

É tão estranho como há muito não tomava um café com um gosto tão visceral, como o cheiro de terra molhada. Uma sensação esplendorosa. Quanta vida pode haver num pequeno gesto, que seja o de segurar a xícara e beber de uma boa bebida fresca. Tenho pensado nas pequenas coisas desde que me levantei com ares de futuro. Observei, assim, que uma borboleta, embora haja tantas flores no jardim, pousou nas margaridas da minha janela. E sucessivamente ouvi com atenção os meus passos, senti a água do chuveiro na minha pele e respirei profundamente o cheiro do perfume tomar conta do ambiente. O dia anterior havia sido cinza e de enorme tristeza para mim, no entanto eu acordei como se minha vida estivesse agora a começar. Embora ainda triste, estou vendo o mundo com olhos de criança.

Que perfume! Toda a casa se alegra quando ela passa exalando madeira com limão. Os móveis brilham mais, os tapetes energizam suas cores e as plantas dançam sensualmente. E que tolo eu sou que desde ontem não consigo me concentrar no meu trabalho. Justamente no que me aproxima dela. Tenho muito a fazer agora. A casa é grande e preciso limpar todos os cômodos antes que cheguem seus parentes; tia, pai e irmãs, para o fim de semana. Eles não puderam vir para o enterro. Levariam dias para chegar até este lugar perdido no mundo. Perdido mas incrivelmente belo. Agradeço a vida por poder partilhar de tal espaço privilegiado, abundante em tudo o que gera de sua terra e, principalmente, em beleza.

Passei o dia a desenhar, pois o ato de criar contornos no papel me conecta ao que poucas vezes consigo me conectar. Eu e a varanda somente, tentando aguardar com paciência o andar dos ponteiros. Tenho estado ansiosa. Minha família chega no sábado, hoje ainda é segunda. Quero abraçá-los, mesmo que poucas vezes eles tenham tomado a iniciativa do abraço. Mas agora só os tenho. Minha esperança de liberdade se foi. Volto assim a ser filha, sobrinha e irmã, não mais esposa. E penso que talvez estas poderiam não ser definitivamente as únicas possibilidades de uma mulher. Há que ser mais que filha, sobrinha, irmã e esposa. Mas não sei exatamente o que é este algo mais. Preparo-me para o jantar.

Cozinhei uma massa como nunca. Dosei com exatidão os temperos para que ela os sinta um por um, assim como os seus efeitos. Dei um toque especial ao manjericão. Esta noite não poupei esforços para fazê-la sentir-se especial. Preparei a mesa com os antigos castiçais de sua mãe e velas vermelhas. Peguei na adega o mais saboroso vinho, aquele que seu marido estava, há um bom tempo, guardando para um momento especial. Senti que era um momento especial. Ela havia passado o dia todo desenhando na varanda com uma expressão tão serena que imaginei estar bem disposta à vida, apesar da morte ter rondado a casa nos últimos meses. Nunca podemos subestimar nossa saúde. Ele me disse um dia. Mas se esqueceu, ele mesmo, de se ouvir. Eu, na minha mais calada ignorância, ouvi palavra por palavra atentamente, com o cuidado de guardá-las bem. Agora, então, estou fazendo não só um agrado a minha saúde como a saúde dela. Assim espero.

Da escada já posso sentir o cheiro do manjericão. Ele sabe o quanto este tempero dos deuses me agrada. Quando chego na sala encontro a mesa arrumada para um dia de festa. Não compreendo muito bem o por quê. Talvez queira me fazer sentir melhor. Mas sei que gosto. As sombras formadas pelas chamas das velas me trazem recordações da infância. Sorrio e me dirijo à mesa. Ele puxa a cadeira. Eu sento e algo se transforma dentro de mim.

Quanto de profunda beleza pode caber em uma só pessoa? A cada dia a vejo mais bela. A cada dia desejo não mais ocupar o quarto dos fundos. E me perco todos os dias em pensamentos libidinosos. O que faria sua família a mim se soubessem do meu desespero? Preciso agir antes que seja tarde. Antes que o sol se ponha. Antes que a esperança deixe de fazer sentido. Antes que a dor sufoque minha respiração. Meu corpo clama pela vida em chamas.

Que sabor! Eu penso silenciosamente. Sinto meu corpo inteiro recebendo cada gota desse sabor. É uma sensação de calor. Mas não o calor dos verões sob o sol, um calor de vida nascendo. E desperto para algo que, mesmo antes, em minha suposta felicidade, eu não conhecia. Tenho medo do que sinto. E penso se não poderia ter sido proposital por parte dele. Meu Deus! Espero não estar sendo injusta. Espero realmente...

Às vezes penso sobre o que poderia acontecer se eu me declarasse. Qual seria sua reação. E temo um afastamento maior. Sua criação foi das mais tradicionais. Onde se ensina que uma vez peixe, para sempre se será peixe, e uma vez pescador, para sempre pescador. Mas minha loucura não me permite pensar em tais inutilezas educacionais. Mas é exatamente nesse ponto que aumenta meu temor.

Procuro esquecer esse calor estranho puxando conversa sobre o seu trabalho. Pergunto-lhe o que o anima e o que o entristece. Não sei muito bem se ele gosta deste assunto, mas é minha solução para abafar latências. Aliás, só agora me dou conta de que há muito convivemos, mas pouco nos conhecemos. Triste situação. O quanto perdemos ao nos separarmos por aquilo que fazemos. Deveríamos simplesmente nos unir pelo fato de sermos todos humanos. Mas desconfio da utopia do meu pensamento e volto à conversa. Percebo uma disposição em responder o que pergunto e em aprofundar a conversa. Ele me conta sua infância e sua educação informal, no campo, através dos pais, irmãos e dos vizinhos, vivida com alegria tamanha de menino que cresce com os pés descalços. Jamais me esquecerei de uma frase: viver é alegrar-se.

Sinto prazer nesta conversa que iniciou. Conto-lhe minha vida e creio que ela gosta de ouvir. Não que eu tenha uma vida de aventuras, mas, ao menos, verdadeira quanto aos meus sentimentos e instintos. É por isso que sofro agora. E penso nisso a todo instante me sentindo um mártir, como se eu pudesse ter esta pretensão. Embora eu não acredite em mártires...

Ouço sua história com profunda alegria, mas já com sono. Parece que começamos a nos conhecer. Ontem lhe confiei meus temores, hoje ele me conta seus caminhos percorridos. É mesmo necessário que façamos isto, afinal, seremos companheiros a partir de então. Pelo menos até que eu decida se realmente fico nesta casa, tão vazia. Despeço-me pedindo-lhe desculpas, mas tenho sono. E durmo profundamente.

Ela se foi mais uma vez. Minha vida parece ter se tornado um eterno esperar o seu retorno. Que aflição quase incontrolável. Busco relaxar observando a lua da janela depois de um gole de uma bebida bem forte. Quantas cores eu desejo colocar na sua vida, compartilhar com ela.

De manhã caminhei pelo jardim observando atentamente as diferenças entre as flores e suas relações de amor com os insetos. Ponho em prática um pouco dos meus conhecimentos de botânica há tempos guardados na gaveta. Um tentar esquivar-se do sonho desta noite. Tenho medo dos meus sentimentos. 

Mais uma vez me pego a observá-la. Uma angústia desta espera não pode mais me deixar em paz. Sei que ela quer se aproximar. Não sei como. Mas sinto. E acredito naquilo que sinto.

Depois de algumas noites sem dormir, envolta em sonhos que jamais imaginei sonhar, quero um gole de veneno. Tenho medo da luz do sol. E dos desejos. Malditos são os desejos que nos tomam a liberdade consciente de escolha. Decido pela indiferença.

Passo as noites em claro. Ando de um lado para o outro impaciente. Sua indiferença me trai profundamente. Seu olhar não mais encontra o meu. Sei de seu desesperador desejo de se jogar em meus braços. De outra forma ela continuaria vindo a mim.

Conto as horas para que todos cheguem e me levem daqui. Não posso mais suportar o cheiro da sua pele. O meu estremecer em sua presença que sufoco como a um filho que não se quer. Suicídio. Mato minha fonte de vida. Por não acreditar que a vida pode ter leveza. Por não ter a coragem de me entregar a uma explosão tamanha de luzes.

Choro em desespero. Grito por Deus. Não creio que me ouça. Vejo as plantas que eu cuidava murcharem. As flores não atraem mais os pássaros. As crianças que corriam atravessando os portões deixaram sua alegria no verão. Um inverno se faz dentro de mim. Daqueles muito frios, quando não se pode sair de casa. Passo o dia sentado na mesa da sala que ela não mais ocupa, pois passa seus dias a fugir da dor. Maldita dor que eu tanto quero. Grito por Deus mas não creio que ele ouça.

Não posso sentir. Não posso ouvir. Não posso respirar. Meu quarto é minha casa. Minha apatia, segurança. Meu olhar se perde na lua que eu tanto amava. Medo... o senhor da santidade. Onde se perderam meus demônios? Quando os deixei partir?

A casa aumenta a cada dia. E, assim, torna-se mais fria. Não a vejo há muitas horas. Nem ao menos ouço seu pulso. Parece estar morta. Por um momento passo a odiá-la. Ódio da sua estupidez. Ódio da sua beleza. Ódio da sua existência. Em cima da mesa está o vidro de manjericão. Ódio do manjericão. Atiro o vidro na parede.

Como se tocasse um alarme acordo com um barulho vindo lá de baixo. Algo se quebra. Meu corpo não quer obedecer meu desejo. Se vida é corpo pode ser que eu esteja morta. Quero descer.

Quero subir. Quebrá-la como ao vidro. Possuí-la para destruir toda a boa educação formal, toda família e toda religião. Quero quebrá-la para quebrar junto o gelo que insistimos em nos tornar diante do outro. Reparo atentamente os degraus da escada. Ouço um grito. Subo com pressa e num impulso de lagarto arrombo a porta. Ela está nua.

Vejo o seu olhar de fome ao me encontrar. Não tenho pensamentos. Deixo que meu corpo fale. O falar do corpo é o que realmente diz. Corpo é vida.

Nos unimos para sempre como animais que somos. Luz e sombra, claro e escuro, masculino e feminino. Não existem mais. Tudo se funde. Tudo agora é um novo e radiante sol. Uma explosão apaixonada de calor. Era ela a minha fome, minha comida e meu estômago. Era ela o meu querer ser Deus. Agora ouço a voz de Deus. Dentro de mim. Como demônio.

Eu perco meus sentidos aos poucos. Vejo-me caminhando em direção a um prazer tão grande que não sabia estar reservado a mim. Reencontro os meus demônios perdidos. Os anjos decaídos que riem dentro de mim. E rio. Alto, muito alto, como nunca havia rido antes. Uma gargalhada de liberdade. Um sopro de luz radiante. Um brinde alucinado à vida que renasce.

Vem o êxtase. 
Ela morre em meus braços. Grito de dor. Outra dor. Só dores me consumiram nos últimos dias. Ela morre. Rindo. Mas morre. Não se pode viver. Viver mata. Mas eu não tenho medo. Vejo novas cores. Viver mata, mas ressuscita...

outono


um poema que nasce na madrugada
de vento forte e chuva desejada,
trazendo o outono

é calor – ou frio – que sobe pela espinha

da noite de tempo longo, inteiramente...
minha?

tempo sem fim,
do que insiste em ser verdade...

do filme, do vinho e de mais nada
talvez, da vaidade

desejos, palavras
silêncio após Beethoven
calma após a estrada

o outono...

sempre revelando a minha fala

mas um outono de abandono e amor
por uma rima que não pode ser falada

14.3.14

saga da autoreferência


broto como flor de cacto
hoje nasço de um mandacaru
planta forte
carregada de espinhos
eu floresço sonhos
concretude
plena sorte
de ser quem sou

mas foi preciso muito
foi preciso que esse espinho
cravasse no meu peito
a tua seiva
e derramasse nela
um ideal fugaz de vida
para que eu pudesse
construir minha fortaleza

devaneio...

mas meu muro
não é muralha
e tem tantas portas
quanto luzes acesas

passei por muitas estradas

naquela juventude já perdida
vi tantos se perderem
para nunca mais voltarem
eu definhei meu corpo novo
em copos e garrafas
vi o êxtase tomar os seres
aquela alegria que se tornaria mágoa
e vi uma dessas alegrias
se tornando pó
até desaparecer
morta
deixando frutos
mas levando sua juventude embora
magra, sofrida
e quão cheio de doçura ele era...
mas teve que partir
carregado pelas pedras

e então, eu ouvi um não
que jamais esqueci
nunca um não me fez tão feliz
e me libertou para que eu me descobrisse
liberta

já faz tanto tempo

eu fui atriz
e me apaixonei

sempre me apaixono

sou flor
que pega fácil
não precisa de muita luz
mas é necessária uma boa rega

e me lembro dos lugares onde fui
eu que andei nômade desde sempre

até hoje, só sei me definir
pelo movimento
nunca soube o que é ter raiz
embora uma terra me pertença
porque muito por lá passei

terra do império
de cheiro do musgo
o frio, a neblina
aquilo me define
também, ainda
poesia que vem de dentro
do meu silêncio
de quem nasceu na serra
e aguardava, criança,
as luzes de natal

e me defino também
carnaval

tio boêmio
mãe baladeira
avó carnavalesca
que fazia festa no quintal
atores, artistas de circo
histórias a dar com o pau

primos
música
irmãs
muita gente, muita fala
mulheres
mulher e família
sinônimos em meu universo
tantas
elas construíram, dia a dia
minha história

e, assim, fui seguindo
eu com eles
eu sem eles
sempre perto
sempre distante

"vanessa?
a gente até esquece dela"...
"não, não sei cadê vanessa"

estava eu, submersa
na água
no livro
no desenho
havia um mundo que era só meu
e nele havia sempre música

cá está ele,
ainda comigo,
e carrega as histórias todas daquela gente
que carrega parte do meu coração

e tenho uma avó com muito para contar agora
e mãe e pai que se preocupam
porque nunca sabem onde estarei na próxima hora
tive um avô
que me ensinou a desenhar

eu gosto mesmo é de fluir
sem rumo
com rumo
ir

tenho irmãs com quem compartilho
uma experiência de amor profundo
e não há nada mais profundo
que amar o que é tão diferente de você

e primos
muitos
histórias diversas
cantávamos juntos
brincávamos
torci a perna

e lembro do cheiro de mato

sempre que uma leve chuva cai
no rio de janeiro
eu me lembro aquela bruma poética
da chuva da serra
o cheiro de terra
eu roubando laranjinhas na fábrica caseira
correndo pela rua quando o tempo
era o tempo longo da brincadeira

há tanto que carrego comigo
e vem, vez em quando,
um certo desespero
de, de repente,
ver que o tempo passa
e já se passou
tanta vida em mim

mas, alguém que gosto tanto,
eu mesma, hoje sou
depois de tanto

sofri,
chorei
perdi
ganhei
o clássico
da vida de todo mundo

tive poucos grandes amores
e quis tanto todos eles

hoje, sei que amar
é essa delícia que vem
e vai
e pode ser, quem sabe,
um dia fique

é o que deseja hoje
minha estirpe

eu
que talvez tenha filhos
ou não,
mas desejo

eu que navegarei

tive grandes amores
e os amei
tive grandes paixões
e quase morri

tive amigos
vários ao andar por aí
tenho grandes amigos
e grandes amigos
também são grandes amores

com eles eu posso ser
delírio

alguns antigos
outros chegaram agora
e já são festa no meu ser
fazem cada medida da vida
valer acordar todos os dias
transformando medidas
em desmedidas

como cada tudo que amo
eu que amo tudo nessa vida

e o mar, este amor que é eterno
com quem jamais me desentendi
fui lançada em correntezas
levada
mas sabia eu que o mar
era imprevisível
por isso o amor veio
eu e o mar somos um
inteiros
amo o que me arrasta
amo tudo que lhe diz respeito

porque não posso conceber
a vida como qualquer coisa óbvia
como se concebe por aí
a vida é tão cheia de possíveis
que posso fazer dela poesia
a toda hora

eu crio a vida
ficções
arrisco
eu mostro tudo que escrevo
eu digo o que sinto
eu concebo
eu falo em palestras
poesia
dou aula como se fizesse festa
não existe seriedade que
me faça
esquecer o que sou

não existe medo
que bloqueie o meu desejo

o existe hoje é força
a me lançar em busca do que ensejo

13.3.14

o amor em tempos de metamorfose


que solidão maior pode haver
que a do sentimento imponderável...

cujas palavras tentam dizer
e se atrapalham
cujo olhar talvez diga
mas não tenha tanto tempo
cujo sorriso e suor revelam
mas cujo silêncio é necessário

que solidão maior a de um sentimento
que é, ao mesmo tempo,
desejo de pele e um respeito que o preze

admiração, cuidado, distância
tesão, desmedida do afeto, errância

capaz do mais profundo entendimento
e até do esquecimento – para renovar-se

à luz do qual eu seria capaz
de loucuras desvairadas
como me deixar solta ao vento
para ser carregada por tais mãos
que me arrepiam
e os olhos que me saltam com brio

solidão do corpo na madrugada, assustado...
acordado por sonhos sucessivos
em noites alternadas
por mãos, janelas, quartos
no escuro que revela
as vozes que escuto não sei de onde
as visões que chegam sem bater na porta
saltando em minha aorta a respiração pesada
da certeza de algo que me revela mais
do que a estrada passada

um sentimento que não basta ser doado

que, cheio de si e de sutis e longas doses,
me torna incapaz de compreensão
nestes tempos de metamorfose

é tão meu este império de sentidos inexatos
que de fato, guardo em mim, o seu cenário mais delirante

amar é mesmo um deserto...

mas há que se resguardar do sol escaldante

a sedução da letra


a palavra
me seduz a todo instante
e insiste no torpor
da madrugada errante

corpo inflamado de amor
sigo obedecendo seu chamado

a palavra me alivia
os gritos dos sonhos sucessivos
e meus gestos de entrega, alados
o aperto do peito de lascívia
o desejo de um dia, a calmaria...

a palavra comunica meu afeto
e minha angústia
e com ferro e simpatia
vai tecendo, como linha,
o bordado do meu dia a dia

quisera tão somente a música...
mas é a palavra que dita minha física

minha palavra é beira e caminho
linha e linho

e, ríspida, tece a correnteza
da mais incerta das certezas

quisera tão somente
o silêncio da grande beleza...

mas a palavra é minha vida
e é nela que faço a minha lida

7.3.14

A conquista do paraíso!


Sexta-feira à noite minha gente! Normalmente, isso pra mim não faz a menor diferença. Mas hoje eu estou naquele pique de sexta, quando as pessoas ficam postando bonequinhos felizes no Facebook ou mandando mensagens chamando para festas loucas ou encontros divertidos. Hoje, o clima é de comemoração! Por isso, espero não ficar muito tempo escrevendo este texto. Mas eu não vou a uma festa louca. Amanhã tenho que acordar cedo. Vou é curtir a casa pós-faxina e o menu da noite, comida asiática. Adoro quando a casa está limpinha. Deve ser coisa de lua em virgem... Saio acendendo velas, curto aquela música boa, deixo o vento entrar pela janela. Delícia! Hoje, então, a curtição está ainda mais rara. Dá aquela vontade de deitar no sofá ao som de Miles Davis, abrir um vinho, ligar para aquela pessoa especial e falar: vem! Tenho cama (grande), comida (bebida também) e (pouca) roupa lavada – no corpo, obviamente...

Tem coisas na vida que a gente leva tempo para conquistar. E cada um com a sua história... No meu caso, a sensação que estou vivendo hoje é bem nova. Sempre fui uma pessoa com dificuldades de viver o presente. Minha mãe diz que a minha música é aquela do Balão Mágico que diz “eu vivo sempre no mundo da lua”. Mas mãe, tenho uma novidade pra vc: as coisas estão mudando. E eu estou começando a entender o por quê. A sensação? A de ter conquistado algo muito precioso, porque muito desejado. Estou me sentindo o próprio Cristóvão Colombo – essa figura que sempre me fascinou – na conquista do Paraíso.

A conquista? Uma enorme felicidade por estar vivendo exatamente o que eu estou vivendo neste momento da vida, nem mais nem menos. Se eu já senti isso alguma vez, não me lembro. Por isso, acho que não. E considerando o fato de que eu vivia sempre em algum outro lugar que não era aonde eu me encontrava, tenho quase certeza que não. Claro, já vivi momentos em que essa sensação esteve presente. Alguns. Mas a felicidade por absolutamente tudo, sem tirar nem pôr, é algo completamente novo. Meus últimos dias foram bem especiais... Acontecimentos estão começando a me mostrar que todos os esforços e investimentos malucos que fiz no ano passado, bem como tudo onde me joguei por pura intuição e paixão, parecem ser de fato o meu caminho de realização na vida. Começo a ver os resultados deste meu investimento. Soma-se a isso um trabalho interno de depuração de traumas e dores, que venho fazendo há um tempo, e o fato de que processo com muita rapidez as coisas dentro de mim a partir dos acontecimentos que me impactam, a ponto de, de uma hora pra outra, virar o jogo. Resultado: estou me sentindo como num clipe, andando pelas ruas de Nova Iorque com os cabelos ao vento, de salto alto e cantando "I got the power". Como quem toma uma droga incrível pela primeira vez ou alcança o nirvana na meditação!

Isso só me diz uma coisa: que estou mais inteira e num caminho mais condizente com o que eu acredito, amo e quero pra vida. Entendeu mãe? Era por isso que eu vivia no mundo da lua, sofrendo. Eu não estava inteira, completa, eu não estava aonde eu queria estar, eu não tinha a minha base... Ainda tinha que comer muito feijão com arroz até isso aparecer, até eu entender algumas coisas e mudar. Agora, a lua chegou perto e eu já começo a comê-la como um pedaço de queijo Gruyère! Parece até papo de autoajuda isso tudo... Mas se sentir feliz assim por estar vivendo tudo o que se está vivendo, não apenas as coisas boas e deliciosas, mas inclusive tudo que há de difícil, complexo ou, possivelmente, chato, doloroso entre outras coisas complicadas, é uma conquista e tanto. Merecia até um brinde com Veuve Clicquot, se eu pudesse comprar uma agora...

Enfim, não tenho muito mais pra dizer hoje não. Embora eu precisasse registrar isso, porque é um acontecimento e tanto e eu preciso sempre verbalizar e transformar a vida em texto. Acontecimento que me diz que eu acertei em cheio no alvo da vida. Bastou seguir a intuição (que eu descobri ser poderosíssima), como o arqueiro zen, que consegue a perfeição no arco e flecha somente quando se desprende de querer alcançá-la. E, assim, a vida também está me retribuindo a confiança. E isso nada mais é que física! A mais pura - e misteriosa - física quântica... 

Então, pra finalizar, eu desejo é que todo mundo sinta o mesmo na vida um dia: a sensação de conquista do Paraíso. Mas olha, fica a dica, o paraíso está dentro e, não, fora. E fiquemos atentos, presentes, porque é muito fácil de repente se tornar um anjo decaído... O paraíso, uma vez conquistado, não necessariamente será o nosso pouso diário. Porém, uma vez conhecido, ele poderá sempre ser revisitado. Por isso, temos mais é que comemorar momentos assim. Porque é muito mais fácil se lembrar de coisas tristes e lamentar. Vai entender o ser humano... Damos tanta atenção à tristeza que quando estamos alegres às vezes nem parece. A gente vai e liga a TV como se nada estivesse acontecendo. Não, tem é que comemorar sim! Então, boa sexta e bom fim de semana! Porque eu, fui...

3.3.14

Entre medianeras e amores líquidos, é carnaval!


É noite de domingo. Um domingo de carnaval e Oscar. Resolvi escrever sobre relacionamentos. Nada a ver? Tudo a ver! É um bom tema para o carnaval. E também para o cinema. De fato, este é um bom tema para um texto a qualquer hora. Garante leitores e boas tiradas! Mas, diria uma amiga ligada nos 220 volts: nada a ver é escrever no carnaval...

Brincadeiras a parte, a vontade de escrever esse texto surgiu quando eu estava assistindo ao filme Medianeras, há algumas horas atrás. E, claro, juntou-se à importância que tem essa palavrinha na vida de todo mundo, inclusive na minha, e que sempre tira o sono da galera: relacionamentos!

Desde que o filme foi lançado no cinema eu quis assisti-lo. Mas as oportunidades não apareceram. Até hoje, quando liguei minha smartv, acessei o tal do Netflix e lá estava o filme entre as sugestões. E veio muito bem a calhar. Permita-me um prelúdio: na sexta-feira, decidida a não querer ver carnaval na minha frente, eu arrumei uma mala e parti para Niterói, disposta a ir ao Rio apenas em um dia deste carnaval, e para um único motivo somente. Nesta mesma sexta, a noite, tive uma crise nervosa e não parava de tossir. Graças a uma irmã que estuda acupuntura, dormi em paz e acordei outra pessoa. Isto não é muito difícil de acontecer em se tratando desta que vos escreve, mas eu acordei – pasmem – com vontade de brincar o carnaval! Então, ontem à noite, peguei a mala que mal desfiz e voltei para o Rio, enfrentando um engarrafamento enorme e levando algumas horas para chegar em casa. Meus amigos sempre me dizem: só você, Vanessa! Quantas vezes já cheguei em festas e quis voltar... Quantas vezes eu já disse "não vou" e logo depois eu mudei de ideia. Penso: isto é péssimo quando se tem um relacionamento. Ou não! Diria um amigo: até que se encontre alguém como você. Digo eu para ele: desde que esta pessoa entenda que o mesmo direito dela é direito do outro. E por aí vai... Realmente, relacionar-se não é nada fácil. Mas quem foi que disse que a vida é fácil, certo? A vida é a vida. Somos o que somos. E para tornar tudo mais leve e fácil, primeiro a gente deveria se aceitar um pouco mais e, depois, aprender a ser menos dono do outro. Fora a carência, ansiedade etc etc etc etc. Só que tudo isto é vida, e eu poderia parar esse texto por aqui. Mas vamos lá, posso fazer melhor, eu acho...

De volta ao Rio de Janeiro, sendo motivo de piada de todos os amigos que não acreditaram que eu ia fugir do carnaval (isso porque não tive carnaval a maior parte da minha vida, mas a memória das pessoas é sempre curta... desculpem amigos, sofro do mal de ser sincera...), eu tive que improvisar uma fantasia de última hora. Afinal, carnaval sem fantasia não tem a menor graça. Já era bem tarde e o bloco seria pela manhã, mas eu abri o armário, fui experimentando o que eu tinha e, voilà, o momento poético-musical de uma recém-chegada de Viena definiu: eu seria a amada imortal de Beethoven. Catei um vestido branco, colares de pérola, uma flor preta e sóbria para adornar os cabelos, peguei o livro com as cartas de Beethoven e fiz uma cópia das páginas da carta para a amada imortal. Tema da minha fantasia: o amor! Nada mais clichê... Domingo de manhã, lá fui eu, entre amigos super empolgados e outros nem tanto. Se a brincadeira durou cinco horas, foi muito. Cheguei, chapei, cansei e parti. Encontrei uma amiga no metrô, fomos almoçar, falamos da vida. Assunto? Dou um doce se você adivinhar. Assunto principal nos bares e no WhatsApp nos últimos meses? Dou mais um doce se você adivinhar. Assunto quente no WhatsApp hoje no grupo das amigas? Muito bem! Bingo! 

Estou rodeada de amigos casados, descasando, em crise no casamento, terminando namoros de longa data. Parece que todo mundo resolveu entrar em crise ao mesmo tempo. Eu, a amiga solteira, que já dividiu as escovas de dentes por um bom tempo, teve paixões intensas e passou por poucas e boas até decidir que iria parar de sofrer, fico fazendo aquele papel de ouvido e de conselheira. Este último, às vezes, é risível. Mas, comecei cedo no assunto vida a dois, após uma adolescência complicada... Depois perdi a linha. Aí voltei para a vida a dois. E vi que não era para ser. E me apaixonei. E vi que não era para ser. E resolvi ficar sozinha. Aí me apaixonei de novo. E morri de medo de sofrer tudo de novo. E me atrapalhei por conta da minha ansiedade. Até me dar conta de que eu tinha comigo algo muito mais precioso e que merecia cuidado. Assim, já mais envelhecida em barris de carvalho, comecei a me acalmar. Não vou dizer que estou tirando nota dez nos quesitos harmonia e evolução, mas o júri está ligado que as coisas mudaram e que estou muito mais inteira. É que, finalmente, descobri que posso ser feliz sozinha. Claro que para um ansioso do signo de gêmeos, isso não basta. Porque eu quero ser feliz sozinha, com o outro, com os amigos, em todas as cidades que amo, comendo todas as comidas que gosto, bebendo todos os vinhos. Mas eu descobri também que a minha ansiedade já deu o que tinha que dar e que é chegada a hora de dar um chega pra lá definitivo nessa história. Ansiedade crônica é um dos grandes entraves ao bom fluir dos relacionamentos. Este conselho eu posso dar para os amigos em crise!

Relacionar-se é mesmo algo complicado. Mas não deveria ser, afinal, somos seres relacionais. A gente sempre diz que não deveria ser... É ou não é? Acredito que complicamos porque temos dificuldades de realmente aceitar o outro como outro, porque nossos traumas fazem das relações situações em que acabamos repetindo padrões, porque dá trabalho mudar e assusta se revelar (e relações sempre nos transformam e nos revelam), porque queremos que o outro seja nosso e seja como gostaríamos que fosse... Enfim, motivo não falta. Complicar é uma especialidade humana! Mas descomplicar também! Amém! E parece que quando a gente ama, queremos nos fundir no outro. Reconheço que esta é uma sensação maravilhosa. Mas, alto lá minha gente, o outro será sempre o outro, um grande mistério. Às vezes, nós mesmos somos um grande mistério pra gente, que dirá o outro... Querer se fundir no outro deveria vir separado de querer controlar o outro. Façamos essa gentileza ao planeta! Eu, você e todos. Além disso, essa sensação também traz toda a carga das experiências passadas, e a gente inevitavelmente associa uma coisa à outra e tende à repetição de padrões. Quando o padrão não se repete, a gente chega a estranhar. Outro dia mesmo eu vivi uma situação dessas. Eu estava super achando que ia sofrer (e sem muitos motivos, devo confessar a mim e a outra parte da história) e, como não me vi sofrendo, a primeira reação foi: tem alguma coisa errada. Depois eu percebi que tinha, na verdade, alguma coisa muito certa.

Medianeras é um filme que fala sobre os relacionamentos no mundo contemporâneo. Um mundo altamente conectado e, ao mesmo tempo, um mundo onde se multiplicam solitários. Zygmunt Bauman diz que vivemos a era do amor líquido, das relações rasas e mediadas. Bauman poderia ter escrito o roteiro do filme. Outro dia, estava eu na casa de um amigo muito especial. Alguém com quem é inevitável não tocar no assunto relacionamentos. Era madrugada, ele dormia e eu tinha perdido o sono. Havia um silêncio profundo. Eu estava sentada com o olho arregalado olhando para as paredes, os quadros e a fresta na janela por onde entravam os primeiros sinais de claridade. Olhei para o lado, sem muita emoção e um pouco de enjoo e vi um livro: Amor Líquido. No auge da minha insônia eu me pus a pensar sobre o livro, sobre as relações, cheguei a algumas conclusões, depois desfiz, depois cheguei a outras, o dia clareou e eu estava confusa. Este foi o primeiro livro do Bauman que eu li. Na época, discordei. Até concordei, mas sempre achei o Bauman um alarmista e, grosso modo, achava que ele estava exagerando. Hoje, já não penso mais assim e não sei muito bem de mais nada. Só sei de uma coisa: que eu acredito no amor. A forma como o vivemos é que parece ter mudado muito. Se existem relações rasas? Muitas. Como sempre existiram, embora eu concorde que a tecnologia facilite a multiplicação de relações superficiais e produza muitas inseguranças. A questão é: isto é um problema, como Bauman coloca? Talvez, pensando no sentido de comunidade que, segundo ele, se perde na modernidade líquida. Mas talvez seja cedo para dizer. Talvez seja romântico dizer que sim. Talvez seja frio dizer que não. Mas, se é problema, a pergunta traz outras perguntas mais importantes, genealógicas. Problema por quê? Para quê? O que o torna um problema? E trazendo para o âmbito da pessoa: é um problema para mim? Por quê? 

Não vou desenvolver este assunto em um texto de carnaval, mas minha pseudofilosofia não me deixa outra alternativa a não ser refletir um pouco mais. Parece-me interessante pensar sobre isso a partir do ponto de vista da expectativa. Em tudo na vida a gente põe expectativa. Disto é difícil fugir quando não se é monge budista. Na carreira, nos filhos, na repercussão de um trabalho ou estudo, nas amizades e, claro, nos amores. Conheci um gerente de marketing que disse uma vez que a vida se tornava mais fácil quando a gente gerenciava as expectativas. Na hora eu ri por dentro e minha vontade foi perguntar para ele se ele tinha tesão ou se ele sabia o que era se arrepiar ao ouvir uma música. Hoje eu prefiro dizer que ele não está certo, mas também não está errado. Não sei se é bem uma questão de gerenciar expectativas, mas sei que precisamos aprender a nos desapegar das grandes expectativas que criamos. E quando o assunto é relacionamentos, elas podem por tudo por água abaixo ou criar aqueles malditos duplos vínculos. Este sim me parece um aprendizado para nos tornamos seres menos neuróticos. Nossas neuroses e psicoses matam as relações. E, com elas, é muito fácil ficarmos presos em emaranhados que nada mais são que suas construções, que vamos desenvolvendo conforme o tempo vai passando, conforme vamos nos amoldando à cultura – sempre achei o melhor texto de Freud O mal estar na civilização... Acho que a maior parte do que a gente acredita, imagina e tem convicção é pura invenção. Nossa vida é nossa maior ficção. Mas posso estar enganada...

Pois bem, o carnaval está aí, época em que muitos relacionamentos começam, muitos terminam e multiplicam-se as relações rasas. Mas relações rasas podem gerar impactos profundos... Porém, eu sou uma moça que gosta mesmo é de relações que se aprofundam. As rasas têm o seu valor, mas acredito que só vivemos plenamente o humano e a vida quando vivemos relações profundas, inclusive com nós mesmos, porque é no mergulho que a gente se conhece mais e consegue ter mais vivência, mais contato com os mistérios e as maravilhas da vida. Claro que o conceito de profundo também é um problema, e não é com todo mundo que a gente consegue manter relações profundas. Profundas mesmo acho que dá para contar nos dedos. Mas, dizia Paul Valéry que "o mais profundo é a pele". Para Deleuze e Guattari, deslizar na superfície, multiplicar-se, é que tem uma conexão com a plenitude, e o conceito de profundo muda de figura quando o espaço liso, a superfície, ganha importância. Porém, acredito que o profundo não necessariamente é uma descida. Pode-se mergulhar para cima e para os lados. O profundo me parece mais uma abertura a se deixar tocar e modificar. De toda forma, rasa ou profunda, que seja uma relação sincera e desejada por todas as partes envolvidas, é o que eu desejaria. Talvez esta seja a questão mais importante. E, em sendo uma relação profunda, que não precise ser uma relação pesada. Parece que a gente andou por alguns séculos associando uma coisa com a outra. Culpa dos românticos? Não sei. Eu não sou romântica, embora eu seja a amada imortal de Beethoven, e serei para sempre. Eu também acredito em para sempre, assim como acredito no amor. Enquanto a gente está vivo, a vida é eterna e tudo o que sentimos também pode ser. O para sempre é circunstancial... Mas nem por isso deixa de ser o que é e de ter a força e a potência que tem de unir pessoas e criar mundos. Complicado? Quero acreditar que pode ser diferente. Afinal, é sempre isso que move os corações, acreditar que pode ser diferente. E pode! Enquanto estivermos vivos e houver desejo de diferença, sempre poderá ser diferente. Basta estarmos dispostos. 

Assim, vou chegando ao fim deste texto, feliz por ter um relacionamento sério com a palavra. Está aí o que é a minha grande companhia! E feliz por ter conseguido escrever em pleno carnaval. Eu que desisti dele, voltei atrás e desisti de novo, cá estou: vidrada no computador há algumas horas, este que se tornou uma extensão de mim, rodeada por uma purpurina que não deveria estar aqui, um copo de cerveja vazio, uma cama grande, livros, música e um espelho. Olhei nele agora, vi minhas olheiras, percebi que é preciso trocar o piercing porque o meu está abrindo toda hora e lembrei o quanto eu preciso voltar a cuidar da minha ansiedade, e que já sei o que devo fazer pra isso, basta apenas começar... Olhei também para a cama e constatei o quanto ela é grande e pensei que, grande desse jeito, merecia ter alguém sempre ali com quem eu pudesse "disputar o espaço". Mas penso também que o amor acontece quando tem que acontecer e que a cama voltará a ser compartilhada na hora certa. E lembro o quanto eu gosto de me esparramar nela sozinha, tanto quanto eu gosto de ter alguém do lado. Mesmo que eu não saiba dormir de conchinha - embora eu tente, mas dura poucos minutos. Gostaria era de dormir com mais facilidade, mas eu também já sei o que fazer para isso. E não é tomar Rivotril... Bem, mas como concluir um texto sobre algo que não dá para se chegar a nenhuma conclusão num ensaio, no carnaval, quiçá, na vida? Vamos lá, vou tentar.

Acho que bom mesmo é acordar, se olhar no espelho e cantar para si mesmo o refrão delicioso do Ultraje a Rigor: “eu me amo, eu me amo, não posso mais viver sem mim”. Mas, tão bom quanto é ter também para quem cantar Fogo e Paixão do Wando. Dure o amor uma semana, um mês, um ano ou a vida inteira. Comece rápido, devagar, de forma fácil ou aos solavancos. O que importa é que ele exista e que nos deixemos tocar por ele. E aceitemos que tudo dura o tempo que tem que durar. É fácil. Só é complexo. Mas a vida não teria a menor graça se não fosse assim. É o que a gente sempre diz também...