30.4.11

cicatriz

tenho em mim uma cicatriz da Maromba
com que me presenteou o Escorrega
acima da flor de lótus residirá eterna como a tatuagem

a alegria de repente ganha forma no meu corpo
porque aquele lugar também é meu corpo
e meu corpo é a pedra e o rio Preto

meu sangue correu por ele, já deve ter chegado ao mar faz tempo
meu sangue e o mar são agora um

assim também meu corpo, toda Mauá, o rio, as pedras,
a mata, os entes, as estrelas
somos todos um único corpo
modos da substância tão bela quanto mais indiferente consigo concebê-la

e a flor residirá a expelir a cicatriz para sempre
enquanto meu corpo resistir a entrega final

e meu sangue estará lá, no rio, no mar,
na chuva que cairá após os dias quentes de sol
para voltar à terra e fazê-la mãe de uma árvore frutífera

1.4.11

oops

já acordo em sobressaltos
meus múltiplos fluxos não deixam barato vapor
reagir pra quê?
melhor é ir de mãos dadas
parar de forma alguma
ligar a TV jamais
usá-la como móvel para suportar flores e um gnomo
palavras, projetos
starta tudo ao mesmo tempo
a vida escorre como aventura perigosa
que dá fome e faz neblina
e quando tudo se aquieta
medito e alongo o corpo desejoso
paro sem parar
paro sem estagnar o olhar
paro para não ouvir as vozes rabugentas
e os pensamentos secretos do âncora do jornal
pego a vassoura e o enxoto como bicho que não se quer
músicas, só as que desejo
aquelas músicas!
sons? do vento, das vozes amigas, do pensamento que persiste
calor? dos corpos, do sol e da arte
o das luzes artificiais que fique para os cegos
água pra todos os lados
para lavar com os meus santos os alheios
velas para criar penumbra, incensos para remeter
mato, muito mato, e chuva fina no telhado
bora correr na rua?
pintar o hidrante e fazer arte como processo
e deixar que o tempo a leve depois
e que outros desejos a transformem
saturem os que já não cabem
permitam a novidade do tempo
sejamos luz em movimento!
tomemos banho quando o banho vem...

novos fragmentos

há poetas que só falam do povo
outros que só falam de si mesmos
os que falam do povo argumentam
que a verdade do artista está em ser a voz do povo
os que falam de si mesmos argumentam
que a verdade está em ouvir a voz interior
mas desconfio que cada um de nós é o universo inteiro e todas as verdades
e que falar do povo é sempre falar de si mesmo

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deixei abertas todas as janelas
que importa a poeira?
me importa o vento
poeira faz parte do vento