23.11.13

filme de Almodóvar

chove
e me atravessa um cheiro de café
entonteço...

acendem um cigarro
e o cheiro do café e o trago
me trazem a lembrança daquela viagem

entonteço...

trabalho...
e eu quase poderia ser uma mulher
a beira de um ataque de nervos

chove
tenho fome e penso o óbvio

estou cansada
trabalho, ensaio
entonteço...

queria a carne trêmula
a desvendar a flor do meu segredo

o cheiro do café...
a chuva
a memória

nenhum desespero
mas todo o desejo
entonteço...

trabalho...
o cheiro do café...
o cheiro do cigarro...

está cinza
o vento é frio
por hoje chega
necessito um vermelho

é que chega uma hora
em que o corpo desaba
e a pele que habito pede um basta

tenho fome...

paro e desato
penso o óbvio

abrir um vinho
fazer um macarrão

e no labirinto da minha paixão
me esquecer a ver um filme de Almodóvar

entonteço...

3.11.13

cartas

relendo as cartas que escrevi pra ti
faz tempo

era vento que soprava leve
a angústia dos meus sentidos

aquela luz ecoava tempo incerto
que se foi e, perdido, não é mais
que palavra eternizada no papel

meu véu já não esconde mais teu rosto

foi-se o tempo
em que eu era tua aurora

sou, em tempo,
uma nova espécie de agora