1.12.15

O primeiro dia


Todo dia é sempre
O primeiro dia
Do resto de nossas vidas

Dia de dizer palavras duras
Que já não podiam não ser ditas
E ouvi-las, algumas

De descobrir que o amor se fortalece
Mesmo quando a gente esquece
- Quando se deve esquecer -
E nos dias cinzentos dos afastamentos
Que carregam a esperança
Dos novos e futuros felizes momentos

Todo dia é dia de saber
Que existe amor no sim
Mas também no não
E que não e sim
São como luz e escuridão

Todo dia é dia de jogar coisas fora
Aquelas cartas de anos atrás
Que estavam empilhadas em pastas
Por sua vez empilhadas em armários
Por sua vez empilhados – pesados –
Num excesso de memória

Dia de descobrir que elas
Não servem mais a nada
Que não à história
E é só no coração o seu lugar

Para que guardar tanto objeto
Em um mundo já repleto?
E porque represar energia
Quando deve o novo chegar?
Se o se que passou só existe
Como lembrança e aprendizado
- às vezes como o inventado -
E nem existe ainda o que virá

Sejamos poetas do agora!
Porque todo dia amanhece
Anoitece e retorna a aurora
Sempre na promessa do novo
Sempre na função de um espia
Olhando em direção ao horizonte do mar
Com olhos de quem busca a infinita alegria

Porque todo dia é de basta
Todo dia é de festa
Todo dia é de não dá mais
Todo dia é de promessa
Todo dia é do fim delas
Todo dia é de um santo
Todo dia é de engano
Todo dia é dia de dizer eu te amo!

E de aceitar
O que não se controla
O que não se isola
E deixar voar os pássaros
Que precisam sair das gaiolas

Todo dia é dia de enfrentar
O medo do suspiro derradeiro

E seja ele banhado de paz ou de dor
É sempre o primeiro

26.10.15

Astrolábio

Partiu mais um barco

Levou pro sem rumo da vida
Os barris de rum vazios
Quinquilharias que já não
Faziam sentido

Roupas velhas,
Papagaios mortos
E todas as cartas de um baú
Já carcomido
Onde a craca dos mariscos
Longe d’água
Começou a dar mau cheiro

Partiu mais um barco
E, em mim,
Partiu-se ao meio

Mas eu, pirata que sou,
Roubei outro para mim!

Meu sonho
Nunca é um barco abandonado
Pois é fiel ao destino
De não ficar ancorado
No mínimo,
Somos uma família de exilados
Meus sonhos, o sol, os peixes
E os pássaros
Conversando todas as manhãs
Sob um convés alado

E o que dizer do espelho?
Quando olho pro mar
E me reconheço
Sei que antes
De amar qualquer coisa
Devo sempre
Amar meu próprio zelo

No mais,
Entre uma solidão e outra
Encho os barris
E convoco a artilharia

Agora, ando apenas
Com artilharia pesada
E não há mais desejo em mim
Que passe fome
Pois a arma
Mais forte que encontrei
Foi dar ao barco
O meu próprio nome

Então, carregado o barco
De rum e pólvora de qualidade
Faço festas
E convido outros piratas

Nessas horas,
Abandonado é o coração
De quem não se permite navegar
Meu barco não!

Esse é forte, seguro,
Aguenta as tempestades
Sem renegar
Porque sem elas,
Ele não pode provar
Que é o melhor barco
Que já existiu!

Capaz até mesmo
De suportar a farra
Dos marinheiros que invadem,
Sem convite, o festejo,
Enchem o barco de música e beijo
E, depois,
O acham demasiado

É nesta hora
Que me torno meu próprio
Astrolábio
E me mantenho
Rumo às estrelas
Do mundo desejado

Partiu mais um barco
Roubei outro para mim
E o mar é um círculo

Mas tudo depende
Se paralelas se cruzam no infinito

25.9.15

Liberdade

Perder o que nunca foi seu
Não é perder
Nascemos sem nada
Morreremos igual

E sozinhos

E isto é liberdade

Uma vida humana
Só sabe ela mesma
O resto é sensação
E memória do outro

Então, para que preocupar-se
Com frivolidades?
E porque ter medo?

Estamos aqui para ser!
E o que restará de nós
Ainda será do mundo
(Mas nunca nosso)

E o mundo fará reverências
A quem o deixar regalos

Só construímos verdadeiramente algo
Quando não nos apegamos
Ao que estamos construindo
Mas o deixamos pertencer à vida
Sujeito, assim, às intempéries do tempo

Para ser inteiro
É preciso entregar

Pois deixar um rastro,
Filhos, livros,
Música, a ciência,
Tudo isso é legado apenas
Quando não se trata de vaidade

Não temos nada
Entendendo isso
Podemos tudo

Ao fim de cada rumo
Chega um novo
Súbito vem a primavera
E o que mais importa
Que a liberdade de ter tudo sem ter nada?
De florescer sabendo que mais tarde
O inverno levará as cores...
De pisar como bicho no ciúme, na raiva,
E nos destroços das paixões malditas
Para deixar florescer as bem quistas

As que nos dão potência
As que não aprisionam
As que fazem verão
As que permitem o outono

Não há lei maior
Que a lei da própria vontade
Porque todo ser que é humano
Só segue regras sociais
Por medo, prisão ou necessidade

A vontade é a vida!
Sempre dupla, em si mesma,
E infinita

Única regra que, por fim, dita

A alma humana é livre por natureza!

Todo o resto é somente convenção
E toda convenção
Só pode ser seguida, de fato,
Por tolos
Ou por eles formulada

Os livres escapam

Negociam, mas escapam
Estão nela, mas escapam
Podem até beijá-la...
Podem até ser por ela escravizados...
Mas escapam!
E se reconhecem uns aos outros

Sabendo que regra nenhuma vale
Além daquela da coragem
De olhar a si mesmo para ser
Mundo

Pois títulos não valem nada,
Mas as honras das batalhas!
E conselhos nada legislam
Que não suas próprias pequenezas
Construídas, letra a letra,
Por medo da incerteza

Mas quem disse que a vida é certa?
Quem disse que é a moral que nos regula?
Pergunte aos hormônios
Pergunte a lua
Pergunte ao coração que pulsa
À razão que analisa
À meditação, que silencia
Para abrir a verdadeira escuta

Nascemos sem nada
E morreremos igual
O que fazer neste tempo
Se não realizar em nós
E em nossas obras
O objetivo antitético da vida
Qual seja:
Permanecer se transformando

Por isso, obedecer
Apenas aos desígnios
Da missão que viemos ter
E missão se sabe
E exige coragem
Pois não se brinca
Com a liberdade

Esta pede disciplina
Controle do próprio tempo
Para que não o controle
Mais nada
Instituição
Moral
Legislação
Tudo isso é tão contra a vida
Que nos cabe rir e dançar

Se às coisas que criamos
Não déssemos caráter de eterno
Ou a gravidade do sério –
como alguém que franze as sobrancelhas
para dar bom dia –
Não precisaríamos nos esforçar tanto
Para sermos livres

É preciso sempre lembrar:
A voz que importa é a do silêncio
E não a do legislador
E mestra é a solidão
Para que tenhamos relações livres e potentes
Porque só assim são reais
Sem medo da morte delas mesmas
Concretas na sua incompreensão
E sábias em sua insegurança

E se houver servidão ou apego
Que sejam conscientes
E sejam voluntários
E não se cobre reciprocidade
Como juros de um cartão
E que seja por amor!
Porque não há motivo maior que este –
A resposta para todas as perguntas

Amor antes de tudo à vida e a si
Pois é preciso ser egoísta
Para ser coletivo, do outro e generoso

O verdadeiro egocêntrico
Não é o egoísta
– o que busca olhar-se ao espelho –
Não é o que luta por si
Mas o que luta em nome do outro
Seja egoísta
Não seja herói
Lute pela vida
E não por “algo maior”

Não existe algo maior
A não ser na construção diária
Do desejo compartilhado
Esta é a força real dos encontros
E não a condução por códigos
Juridicamente - ou moralmente - assinados

E se existe um rei a quem servir
Ele está dentro!
Se existe um Deus
Ele vive como eu vivo!
Porque se não nos reconhecemos
Deuses e reis diante do espelho
Jamais seremos capazes de sermos
Servos da vontade – a única justa servidão –
De realizarmos a vida em potência e comunhão
Lembrando ainda que se não soubermos
A verdadeira função de um deus e de um rei
Cometeremos atrocidades
E, o que é pior,
Em nome da liberdade

Deuses e reis
Não deveriam existir que não para servir
O rei que não serve ao seu povo
Assim como o deus que não serve ao seu
Não podem assim ser chamados

Lembremos novamente
Que o egocêntrico
É o que fala pelo outro
E não por si
Quando falamos apenas por nós mesmos
Somos a voz do universo
Porque ele, inteiro,
Reside dentro de nós
- e fala através da gente –
Falar pelo outro
É escravizá-lo
E não reconhecê-lo como igual

Pois a única servidão que vale:
A que é liberdade!
E liberdade, uma vez conquistada,
Não se vende nem se dá a escambos

Compartilha-se e torna-se o caminho!

Boa parte da dor e do sofrimento
Provém da especulação
E não do concreto
Se a mente cria o medo
É a mente que liberta
E nos revela Deus dentro de nós

E se a vida é uma eterna
Roda da fortuna
Melhor mesmo é olhar para dentro
Porque o centro nunca gira

Estar seguro é estar consigo
O resto é dúvida

Então, para que o medo?
Viva tudo o que tiver para viver!
E pergunte a si mesmo:
Qual é o meu centro?

Nascemos sem nada
E morreremos igual
Ao entendermos isto
Passamos a ter tudo!

20.6.15

Trinta e cinco

Blackbird... You were only waiting for this moment to arise


Era tarde e chovia
Como de praxe na revolução do meu sol.
Para criar arco-íris, é fato!
Pois não aceito nada menos que isso: cores!
Meu coração de filha do quase inverno
Inflou de alegria! Fechei os olhos para sentir
O fino da chuva no meu rosto
- Eu estava sentada no sofá do quintal,
Observava as bandeiras do Nepal,
Que me presentearam um dia,
Penduradas, voltadas para o vento,
Carregadas de prece -
Pensei: Sidarta iluminou-se aos trinta e cinco!
Trinta e cinco...
E tanto ainda por viver!
Ainda virão novos sonhos no planeta
E novas florestas serão devastadas
Virão fatos, guerras, dores,
Janelas novas, novos ares,
Cachorro correndo no jardim, outras músicas, outras paisagens
Virá o dinheiro! – Ao menos acredito nisso...
(E se eu não acreditar, ninguém, por mim, o fará)
E virão os filhos! E os livros repletos das pequenas verdades
Sim! Virão as crianças um dia
E as novas poesias
E o amor, finalmente, será
Forma de sonho compartilhado
Transformado em casa construída a maneira que se queira
Calcada em alicerces que se movem, é certo, mas alicerçam
Porque segurança é a maior das ilusões humanas
Porém, tudo resiste ao amor! Aprendi aos trinta e cinco!
Entre uma simples mortal de trinta e cinco anos e Buda
Há algo em comum: sabemos que a vida é transitória!
Mas também sabemos que há aquilo que fica.
Nos próximos trinta e cinco anos, as cidades se transformarão,
Os filhos, meus e seus, nascerão e crescerão
Haverá centenas de novas estradas, carros
Indo e vindo, o sol todo dia irá nascer e se pôr
Mesmo que os homens insistam em esquecer sua humanidade
E quem sabe até lá já não saberemos mais da dobra do universo
Nos próximos trinta e cinco anos...
Mas no meio de tudo isso, como deve ser,
Permanecerão os amigos.
Amigo é que é presente de aniversário!
Se eu contasse os últimos anos e toda a amizade perdida...
Mas na minha solidão lapidei o meu desejo
E ganhei o inesperado
Ficaram os que deveriam ter ficado
Nestes trinta e cinco...
E vieram os novos, radiantes, para iluminar ainda mais o meu cenário
Chegaram trazendo flores coloridas, violino, contrabaixo,
Fotografia, viola, violoncelo, prosecco importado!
Vejam só...
Vieram devidamente trajados!
Juntaram com os produtores, os outros fazedores de arte,
Os locutores, os bailarinos, os insaciáveis
E vieram ainda com um cravo pra o barroco nunca mais sair da minha vida!
Porque me embriago mesmo é com três coisas
- Engana-se vc se acha que é com álcool -
É com palavra, sexo e Vivaldi!
E criaram, todos eles, juntos, os novos e os antigos,
Uma festa nas terras férteis do meu coração
Onde planto as melhores uvas de palavras e afetos
Para colher os vinhos dos amigos certos.
Fizeram lavoura: remexeram na memória
Juntaram o novo com a história
E o que se produziu foi um vinho único de safra nova!
Carrego comigo hoje um livro em branco
Pronto para os próximos trinta e cinco anos
Penso que daqui há um ano, já haverá algumas páginas escritas
E quero eu poder dizer aos trinta e seis:
Era uma vez uma vida que se permitiu ser o máximo que ela podia ser!
Mas dirá o cético: trinta e cinco e o que foi que vc fez?
Duvido ter feito algo que preste...
Eu, como boa oradora que gosta de desafiar, direi:
Ah, eu fiz foi muito!
Mas como boa geminiana, obviamente queria ter feito mais!
Porém, descobri que o insaciável é algo que também transita
Na roda da fortuna da vida
E que é possível estar em paz ao variar no mesmo tema.
As variações são sempre infinitas!
E que no ir e vir de um dia estar no alto e no outro no abismo
Só o que não gira é o centro
Descobri que é no coração que a natureza persiste.
Em meio a todo o ir e vir das belezas e das incertezas
Se tudo gira, o que fica é amor!
Aquele amor incondicional pela vida que pulsa na gente
Para que amemos também o outro incondicionalmente
Com as nossas mazelas, perdas, tristezas
E nos estranhos momentos de certeza.
Aquele amor que amigo sabe que existe
E que vem com a sabedoria da idade,
- muito embora, ela só vem se a gente se abre.
Não nos enganemos!
Descobri aos trinta e cinco
Que mais feio que enganar o outro
É enganar a si mesmo
Deveríamos ouvir mais os poetas
Faz tempo já disseram que viver não é nada preciso
Precisão é coisa de astrolábio e da matemática
A música é precisa! A vida não...
Trinta e cinco...
E penso no cético! Ele poderia estar certo
O que fizemos até aqui? O que deixei de viver até aqui?
O tempo é matéria que transforma tudo
Não perdoa, tanto quanto traz o perdão
E, de repente, quando me dou conta dele
E observo a chuva, as bandeiras do Nepal,
Penso no Buda, medito, encho uma taça.
Quando me dou conta dele e penso no sorriso dos que amo
E nos seus choros, medos, traumas, desejos
Aperta-me a alma saber que os próximos trinta e cinco
Passarão como um cometa
E é nessas horas que melhor que ouvir Bach
É lembrar aquela velha canção da adolescência:
“Hoje, o tempo voa, amor
Escorre pelas mãos
Mesmo sem se sentir que não há tempo que volte...
Vamos viver tudo o que há pra viver!
Vamos nos permitir!”
Porque, de repente, estaremos eu, você, toda a humanidade
Sentados no sofá do fim da vida
E não queremos pensar no que nossos medos impediram,
No que a nossa falta de coragem matou da poesia.
O caminho do risco é sempre o caminho mais bonito
Não se conhece o ouro sem passar pela alquimia!
Aprendi isso aos trinta e cinco!
Idade em que Sidarta descobriu que Deus existe mesmo
É dentro de cada um de nós!
Começo um novo ciclo.
Vem vindo uma revolução e ela é solar!
E é tão cheia de amigos e descobertas
Que eu poderia dizer que sou hoje a pessoa mais rica desse mundo.
Quiçá do universo inteiro!
Já que riqueza de verdade existe mesmo é na amizade
E naquela sensação de olhar no espelho e dizer: é, eu gosto do que eu vejo!

Trinta e cinco
Nem mais nem menos
O meio

O meio do infinito!


Escrito entre 17 e 19 de junho de 2015

25.5.15

Rio 450 gestos

Tens um gesto que se desdobra:
Aquele que reconheço no espanto!
Não soltas, nem amarras
Encantas e provocas medo
Mas presa ao medo e ao leme
Tens sorriso curtido de malandro
Sambas o romantismo do tempo dos poetas
E a alvorada dourada da Baía de Guanabara
Corres...
Fugidia e fugindo no lamento
De veias mal tratadas
Mas, ah, és o Rio!
Dos tantos que dormem matutinos pelos trilhos da Central
E aquele do bonde de outrora que atravessa
As minhas saudades mais bonitas de pôr do sol
Trilhos que levam às salas e às senzalas
E tua força reside é nesta gente que escapa
Nos meninos que correm descalços jogando futebol
Nos que deslizam nas ondas
Nas moças de beleza eternizada em música
Que sabem que são mais que uma beleza carimbada
O Rio é de muitas caras e "maracas"!
E, porque não, do terno e da gravata
E dos sinais que atravessam a Presidente Vargas
Mas como choras...
O choro vermelho de almas tão novas
Deveriam ser anjos,
Tão somente crianças a brincar nas tuas areias -
Choras ainda o choro alegre ao qual Villa fez sua reverência
E toda noite um bar também a faz.
Até Madureira chorou!
E tu, Rio, choras em cascatas por tua urbana floresta
E suas quente, cidade sem pudor
Sob o sol dos hoje mais de 40 graus diante de tanto motor
- O Rio 40 graus ficou no século XX e hoje tu ferves uma euforia nova -
E amas! Como tu amas, urbe desordenada!
Num aglomerado de corpos que dançam e passeiam quase nus,
Ainda que vestidos, travestidos e luminosos
A desafiar tuas vizinhas econômicas sem praia
Já disseram que és caos e beleza
E que continuavas linda com o barquinho a deslizar
Mas que hoje só o porto é maravilha.
Porém, vê bem, atenta-te!
Como um rio de amor sobre as avenidas
Que partiram uma cidade arquitetada na loucura,
Até que te saíste bem, por não saber quem te pariu
Foi Dom João quem fez?
Pedro quem fez?
O negro da Praça XI, o cigano perdido,
Um Pereira de passos dúbios e compridos...
Que importa quem te fez
Se é a tua natureza anterior a qualquer Debret
Que se impõe magistral sob os arcos da Lapa
E os navios que todos os dias invadem tuas águas.
Se são as tuas montanhas rindo
Ao pé de quem passa, dizendo:
"Aqui quem manda sou eu!"
Muito embora a deliciosa arrogância carioca
Suavize todo esse esplendor em seres a terra de São Sebastião
Minha alma canta
Estou hoje a celebrar que, Rio, és um rio
Tudo que por ti passa nunca sai o mesmo
Onde toda a dor que se sente
Alivia-se no baile ou nos braços do Redentor
E tem o horizonte do mar para desaguar
(Marinheiro, marinheiro,
Chega ao Rio e logo aprende a nadar...)
Peço licença e paz, com voz
A voz do morro e a do asfalto -
Para o maravilhoso gesto
Do espanto abre-alas
A traduzir arranhas-céus e favelas
Em mistura de funk, samba, bachiana e carnaval!
Para que eu toque então, para ti, Rio de Janeiro
Uma canção de amor
No Theatro Municipal!

Rio de Janeiro, março de 2015.
Escrita para o Prelúdio da Bachiana Brasileira nº 4, de Villa-Lobos, sob encomenda de Felipe Prazeres, para concerto da Johann Sebastian Rio no dia 17 de maio de 2015 com performance de Márcio Sanchez.

20.4.15

"Tudo o que é criado é infinito": uma carta à Gabriel

Querido Gabriel,

se colocássemos o tempo que você está entre nós na escala de tempo do universo, poderíamos dizer que você passou a existir no tempo de dez elevado a menos quarenta e três segundos, ou seja, na menor das unidades de tempo da física. Eu espero que quando você crescer, as escolas já estejam ensinando algo sobre a física quântica... O que quero dizer é o seguinte: você mal chegou ao nosso planeta azul. Mas também faz uma diferença danada! E é isso que você vai descobrir sendo humano. 

Segundo os cientistas, o nosso planeta existe há 4,6 bilhões de anos. O universo onde ele existe e fica girando ao redor de si mesmo e ao redor do sol (o sol vc já conheceu!), existiria há mais ou menos 13,4 bilhões. Tempo que você, como qualquer outro ser humano, jamais será capaz de conceber, porque a gente sempre pensa em termos de “o que eu faria se vivesse 13 bilhões de anos?” Porém, diferente do tempo que se mede, somos capazes de conceber o infinito, sem racionalizar e perguntar o que faríamos. É que o infinito cabe onde a gente menos espera e ele é sentido, não pensado. E essa é uma das maravilhas em ser humano. Além de pensar, refletir, analisar, chegar a conclusões, vc vai descobrir que sente, que existem coisas que as palavras que vc vai aprender nunca vão dar conta e que, mesmo tendo um corpo limitado e fazendo parte do útlimo segundo da história do universo, toda essa história está em você. E vc vai descobrir que essa limitação do corpo foi uma invenção humana que oculta que cada um de nós contém o universo dentro de si. Por que a gente inventou isso só o tempo vai te dizer. Melhor eu não falar nada agora, porque nesse momento sua única preocupação é só ser. Nós podemos sentir o infinito várias vezes durante a vida. Aí, na tentativa de querer exprimir isso ou sentir mais, pode ser que vc descubra a poesia, que é uma forma de libertar a palavra das prisões dos sentidos fixos que damos a elas no dia a dia e dizer este infinito. Ou pode ser que vc descubra a música, e aí vai ser como mergulhar num oceano e se descobrir peixe – descobrir que vc respira no universo do indizível. Pode deixar que a tia Vanessa vai se ocupar de te manter perto das duas! Mas pode ser que vc descubra a poesia da matemática e da ciência. E se torne um grande pensador do cosmos e nos revele se, afinal, existe apenas um universo ou vários (dizem por aí que existem alguns, consegue imaginar?). Ou quem sabe, vc descubra a meditação ou um sentido de espiritualidade que te conecte com esse cosmos pelo seu próprio corpo na sua solidão ou em companhia de outro. Ou tudo ao mesmo tempo. O passar do tempo tem feito a sua tia acreditar que tudo são variações de um mesmo tema. Como toda a vida no planeta também. Um dia vc vai aprender sobre um tal de DNA, uma coisa que vc não enxerga de tão pequena e que está dentro de vc, como um hardware que carrega a programação de um computador (vc vai crescer sabendo o que é isso), e que faz vc ter o cabelo que tem tanto quanto metabolizar o açúcar da forma como vc metaboliza (vc vai estudar o que é metabolismo, não se preocupe com isso agora. Apenas mame.) A maior parte do nosso DNA é igual à de muitos seres vivos: árvore, cachorro, mosquito, barata, coruja, borboleta, flor de lótus e por aí vai. Na base, somos todos poeira de estrela e viemos todos da água. Fascinante isso, não!? E o nosso DNA de ser humano é 99% igual ao dos macacos, um dos bichos mais fantásticos desse planeta. Foi um cara chamado Darwin que descobriu isso. E a Igreja ficou doida, mas hoje já aceitou, porque ela dizia que um ser sozinho criou o mundo de repente e fez o homem a sua imagem e semelhança para dominar os outros seres. É fácil entender isso, não é? Vc vai descobrir o quanto o ser humano é bom de criar histórias. Ah, o que é a Igreja? É uma longa história, mas resumindo, é uma instituição (infelizmente vc vai lidar com essa coisa chamada instituição durante a sua vida) que tenta tomar para si e controlar uma coisa maravilhosa e singular que é uma tal de experiência mística. Mas isso é o que eu acho. Outras pessoas acham outra coisa e pode ser que vc goste ou não da Igreja. Tem gente que se acha nela, tem gente que se acha em Buda (outro dia te conto dele) e tem gente que não se acha em nada. Isso, só pra te contar um pouco do que é o mundo em que vc chegou. Embora uma coisa chamada sociedade tente moldar os seres humanos, nós somos muito diversos em nossas formas de existir, como a natureza é, ou seja, diversos nas formas de amar, de sentir, de entender uma coisa chamada política e de fazer desde planilhas até um bolo de chocolate. Vc vai descobrir como é maravilhoso viver nesse mundo, mesmo e apesar dos muitos problemas com os quais vc também vai se deparar. Mas não tem nada mais incrível que sentir que a vida é infinita, mesmo que a gente não seja. Ah, outra coisa que vc vai descobrir... Um dia, todo mundo vai morrer. Essa tal de morte é uma coisa que dá uma tremenda solidão e é inevitável. Vc vai ter que lidar com ela, faz parte do contrato da vida. Mas, ao mesmo tempo, se vc colocar tudo na escala do universo, vai descobrir que é eterno. 

Essa coisa de sentir o infinito já existe junto de vc desde que vc foi gerado. Aliás, antes até. Vc está aqui porque um dia a sua mãe e o seu pai sentiram isso em algum momento juntos e decidiram que iriam passar adiante essa sensação criando vc – e eles só são capazes de sentir isso porque em algum momento da história do universo, o próprio universo achou por bem se tornar consciente. Foi então que nasceu o ser humano! Para perpetuar esta sensação, algumas pessoas meditam, outras rezam, outras fazem sexo (calma que um dia vc vai saber como é isso!), umas escrevem livros, outras plantam árvores, fazem música, umas têm filhos e outras fazem tudo ao mesmo tempo. O ser humano é fascinante. Vc vai ver quanta música a gente foi capaz de inventar e quantas combinações de cores e estampas, de sons, de palavras, de furos e engrenagens. Você é fruto desse sentir o infinito, sentir o universo e com o tempo vai descobrir que à nossa capacidade de conceber o infinito demos o nome de amor. Seus pais já passam isso pra vc desde o momento em que souberam que vc um dia teria essa carinha curiosa e tão bonita que vc tem agora, com apenas pouco mais de um mês de vida sorridente fora da barriga da mamãe.  

Quando vi sua carinha pela primeira vez eu chorei. Não ria de mim, ok? Façamos um trato. Sua tia Juju riu. Mas vou te dizer uma coisa, nem eu entendi o que houve. Mas agora eu posso dizer que foi a tal sensação de infinito. Ver vc e saber que vc tinha vindo da minha grande amiga Lalá (é assim que eu e tia Juju chamamos sua mãe), foi sentir que a vida é eterna. Ela é eterna assim, quando passamos a frente nossa memória genética e em outro ser a memória inteira do universo. Nosso DNA carrega tudo (olha ele de novo!). Tem gente que deixa versos, tabuletas, notas, melodias, teorias. Isso também é dar eternidade à vida. Eu achava que eu seria um ser humano desses que iria manter a eternidade na criação de coisas. Mas quando eu te vi, algo mudou dentro de mim e exclamou com uma sinceridade que nunca havia existido antes: “acho que sim! Sim, é possível!” Talvez daqui a uns anos vc tenha primos para pegar no colo, porque vc já vai estar grandinho. Quando olhei pra vc, Gabriel, e depois vi os olhos do seu pai e da sua mãe brilhando ainda na maternidade, apesar de todo o cansaço de uma noite pra fazer vc sair do quentinho pra essa luz toda, eu senti profundamente o infinito. E ele cabe nos menores gestos e numa criaturinha tão pequena como vc. Ele estava ali no olhar deles. Ele estava em vc, na sua mãozinha e no seu choro. E ele estava na minha cara esbasbacada com essa vidinha que chegava e que tem um mundo a percorrer ainda.

Com o tempo também vc vai ver que o ser humano é dado a extravagâncias. Adoramos criar grandes coisas: pontes, navios, sinfonias, arranha-céus, odes, filmes de sucesso. Queremos ganhar prêmios, viajar o mundo, comprar terras, carros, casas. Tudo isso é muito legal e foi essa capacidade de ser extravagante que nos fez conquistar coisas incríveis, que deixou obras fascinantes e nos deu a capacidade de conhecer muita coisa. Ela também nos diz o quanto somos a consciência do universo (foi um amigo em comum meu e da sua mãe que me despertou pra isso, um dia vc também vai conhecê-lo). Mas foi tudo isso também que deixou o ser humano doido. Não queria ter que tocar nesse assunto, mas a gente faz uma coisa chamada guerra, Gabriel. Quando a gente cisma de achar que é maior que o universo, a gente perde as estribeiras criando impérios e devastando outros, como grandes galáxias nascem e morrem. E matamos muita gente, como meteoros se colidem ou colidem com planetas. O problema é que tudo na escala do humano é complicado, porque nós somos conscientes. A natureza não é bonitinha, vc vai saber. Ela é também, mas é cheia de coisas bizarras. Só que a grande diferença é que a gente faz e sabe que faz. E, ainda assim, fazemos em grande escala. É que existe uma coisa chamada poder também. Poder que se estabelece sobre o outro, e não sobre si. Vc vai descobrir um dia que nada no mundo é ruim ou bom por si mesmo, como por exemplo, o poder. Poder sobre si é legal e desejável. O poder sobre o outro não é legal não. Torna tudo mais nebuloso, difícil, triste. Mas não vou entrar aqui em uma discussão moral, porque vc está naquela fase que só o que importa é sobreviver e para isso vc só precisa de carinho e leite e não de moral. Depois, quando vc estiver maior, a gente pode conversar sobre uma coisa chamada ética. A tia não é muito fã da moral não, mas gosta bastante da ética. Normalmente as pessoas confundem os dois por aí. Mas é que eu enveredei por uma coisa chamada filosofia, de uns caras que andaram desafiando as regras de sua época. A história está cheia deles e delas. Mas muitos sofreram muito por contrariar as verdades que não eram assim tão verdades. Aliás, essa é uma palavra que vai te dar muito trabalho, já te aviso: verdade! Sabe pequeno, tem outra coisa que eu não queria te dizer, mas preciso. Tem muito preconceito nesse mundo. Na verdade, o problema nem é o preconceito. A gente tem pré-conceitos sobre tudo (sei que vc será inteligente pra saber a diferença). O problema é quando o preconceito machuca a singularidade do outro. Ou seja, quando o que vc não gosta impede o outro de ser livre, de ser quem ele é. É uma relação complicada essa. Outra palavra que vai te dar trabalho: liberdade. Essa já foi motivo de muita confusão. Mas também de poesias lindas. Liga não, esse mundo é confuso assim mesmo, Gabriel. Esse seu olhão curioso ainda vai ver muita coisa que ele não vai entender. Mas, como também diz um poeta, algumas coisas são para serem vividas e não entendidas. Mas seus olhos também serão capazes de ver as coisas mais lindas. Esse mundo é bonito que dói, preciso te dizer, embora a vida seja às vezes muito difícil. Sempre vai ser. Só espero que quando você tenha idade suficiente para ler e compreender esta carta, as pessoas estejam matando menos umas as outras e o planeta. A gente não anda sendo muito legal não. Chato dizer isso, mas é preciso. Mas uma coisa eu sei: vc vai amar. Porque todo mundo ama. Quer dizer, dizem que os psicóticos não. Mas não sei... Duvido de tudo. E é o amor que faz a gente permanecer e aceitar as dificuldades da vida. E é a coisa mais fácil do mundo. Só que ele é tão poderoso que a gente às vezes tem medo. E o amor vai murchando conforme a gente cresce. Não me pergunte agora porque, eu prefiro não explicar. Só posso te dizer que é assim, infelizmente. Aí a gente tem que cortar um dobrado quando está grande pra poder recuperar isso que é tão fácil quando a gente é pequeno. Mas posso te garantir: vale a pena! Porque quando o reencontramos sentimos que o universo inteiro existe dentro de nós. O amor é tão, mas tão grande, que ele cabe num sorriso. Coisa louca isso não é? Mas é que tudo que existe no macro existe no micro, embora regidos por leis diferentes. Se vc olhar uma galáxia e uma célula não vai saber reconhecer a diferença. Juro pra vc! Esse tal de amor existe nos pequenos gestos: num cafuné, numa massagem, num olhar de cumplicidade, num sorriso repentino, num carinho desinteressado, no cheiro do café preparado pra si ou para o outro, quando a gente alonga o corpo, quando a gente sente a respiração, quando ficamos em silêncio e ouvimos o dia, quando nos deixamos tomar pela música e dançamos, quando o cachorro pede colo, quando entramos no mar. Amor é a coisa mais simples e mais fantástica do universo, ele é a própria sensação de infinito. E é por isso que vale a pena viver, mesmo diante de tanta confusão. Na verdade, como um poeta falou (o nome dele é Fernando Pessoa), "tudo o que é criado é infinito". Tem um outro poeta que viveu no Brasil, nascido em Minas Gerais (que vc vai conhecer), que disse que o amor é grande e cabe num breve espaço de beijar. Os poetas sempre sabem como dizer as coisas. E sabe porque a coisa mais simples é também a maior e a mais incrível? Porque não é tamanho que se mede nem tempo que determina a eternidade ou a força de algo. É intensidade. É presente. O passado e o futuro só existem enquanto presente. E o amor é presente em estado puro. Quando estamos nele não queremos estar em mais nada. Sentimos o infinito e descobrimos que somos eternos quando amamos. Pergunta pro seu pai e pra sua mãe.

Então, bem vindo Gabriel, amo vc! E o mundo também, embora o tempo todo vão tentar te convencer que não. Mas não dê ouvidos, já disse: tem coisas que é melhor não entender... Seja quem quiser ser e permita-se amar! O resto vem.



15.4.15

Lar

Nunca ser de nada
Ou de nenhum lugar
Que não seja si mesmo
Nenhuma cidade, nenhum país
Ou território além do corpo
Sem medo de ir ou de ficar
E viver na liberdade
De poder criar raízes
Onde o amor brotar

22.3.15

máquina

uma poetisa que assim se nega
embora seja tão dona das palavras
então me disse:
encare o coração como uma máquina
se ele não está funcionando direito
é porque está sobrando ou faltando alguma peça
lembre-se do nosso engenheiro sensacionista

e é a ele que dedico a minha prece:
ó grande senhor da poesia
amado mestre
que ama os navios e as engrenagens
porque eles funcionam
conceda-me, mestre, a dádiva de também amar assim
apenas aquilo que funciona como tem que funcionar
porque hoje, que se dane a poesia, o abraço
e a chuva que cai lá fora pedindo aquele corpo do meu lado
eu morreria mesmo é triturada por um motor
e não por sua rima

21.3.15

arte de viver

era um delírio quente
que me ardia a madrugada
de seiva bruta açucarada
escorria na água do chuveiro
como engrenagem tátil
encaixada no corpo retrátil
da celulose que se tramava
para escrever um novo livro

a tinta era de vinho
e diziam, tinha até sangue
aquele cheiro tórrido da última noite de verão...
tinha alfazema e lírio
tinha o delírio do suco de desejo enrolado no edredom
e o ar frio que já começa a querer deixar seu rastro
e aproximar os corpos

e era mórbido...
porque havia morte também
e nascia um elemento estranho
como que fazendo graça na minha frente
pra dizer: esquece
faz tempo a tua aurora tem mais coragem
que a coragem vazia de quem ama as tempestades
apenas nas pinturas das paredes

a arte é pra quem vive

12.2.15

Meu mar português

Disseram-me em poesia
Que já sei o suficiente para não resolver
E que tenho o cronograma perfeito para o plano não traçado
Com o conselho amigo de navegar no barco dos meus sonhos
Abaixo, ao mar...
E deixar no alto o que é para estar no alto e lá morrer
Como luz de farol
Lugar que não faz parte do real
Apenas guia

E eu que me achava mergulhadora sábia...
Hoje cometo o excesso de me afogar num mar imprevisível
Eu não sabia era nada do fundo das águas
Eu não sabia era nada sobre a forma do desconhecido
Essa maleabilidade do amor líquido

Tantos anos a treinar meus pulmões
Para, na descida ao abismo, descobrir
Que ele é muito mais escuro que eu supunha
E que a água é muito mais fria
E tudo é tão lento e largo
Que o ar não cessa
Ele silencia...

Dizem que mergulhar fundo traz sabedoria
Eu rio sempre dos axiomas tortos que derramam
As bocas que não conseguem ficar quietas
Mergulhar fundo asfixia

Mas depois que o ar se acalma nos pulmões exaustos
Não é sabedoria o que encontramos
Encontramos a nós mesmos no abismo
Como aforismo nietzschiano

Meu mar salgado é mistura de lágrima e suor
E já faz tempo me lancei além do Bojador
Mas não fui só, que só seria morte certa
Carreguei comigo as correntes burocráticas
Desejadas por lucidez – nos agarramos a tudo pela sensatez...
E vesti uma roupa nova, de espessura mais grossa
Porque eu sabia que a descida não seria passageira

E agora?
Dizem que vale a pena
Se a alma não é pequena
Por isso eu sigo navegando e mergulhando
Pois meu mar português ainda tem muito a me ensinar
Como eu tenho a ensinar a ele como navegante

Ele vem com a onda, eu venho com o leme
Ele vem com a calmaria, eu deito no convés
À noite repleta de estrelas eu grito “eu te amo”
Ao dia de tempestade, eu danço
Às vezes, quando iço a vela
Ele faz que não tem vento
Mas depois, chega com brisa e toca o barco
Para o necessário momento
Tem dias que olho para o horizonte
E lhe desafio a acordar Netuno
E seguimos assim, no cronograma incerto do futuro

Onde noivas ficarão sempre por casar...
E mães deverão chorar...
É sua sina!
Um filho já nasceu e a reza é vã
Sua estrada é luminosa
Mas entregue aos desígnios do acaso

Deus joga dados o tempo inteiro...
Mas é preciso reconhecer:
No mar, ao espelhar o céu,
Foi certeiro!

3.2.15

Para amar de verdade


para amar de verdade
é preciso antes, amar-se
nenhum mistério no que escrevo
já disse algum poeta em manuscrito
para amar de verdade
é preciso localizar o desejo
e observá-lo como a um bicho
que atravessa a estrada
na frente do nosso carro
e é preciso deixar de lado
o ciúme, o desespero
e dialogar com o apego
fazer planos pra si mesmo
e somente para si
entregar-se a deleites solitários
é preciso abandonar a memória
das promessas não cumpridas
das coisas ditas e não ditas
e as boas lembranças de cheiro
as de muito tempo e as de ontem também
abandonar até a quem se ama
deixá-lo só e por um tempo esquecê-lo
e fazer das memórias de dor
substância de renascimento do amor
porque sempre serão rima um com o outro
porque amar exige esforço
de enfrentamento do que é mais grandioso
para amar de verdade
é preciso estar disposto
a encarar os próprios medos
e se olhar no infinito do espelho
é preciso querer encontrar dentro de si
a liberdade de descobrir
que a vida só se dá a quem se entrega
a liberdade de então perceber
que um amor pode até morrer
e nos matar...
mas o amor permanece
para amar de verdade
é preciso viver a vida em prece
e de mãos dadas com o contentamento
abandonar a fama, a fome,
o orgulho, o preconceito, o lamento
e esquecer que um dia o amor feriu
porque fere mesmo, e a vida fere sempre
mesmo sem amor
e é pior sem ele...
para amar de verdade
há que se cuidar da cumplicidade
mais do que da fúria dos hormônios
e há que se atentar para a lealdade

para amar de verdade
é preciso antes entregar-se
a delícia do aconchego

daqueles do tipo
que provocam

medo