12.2.15

Meu mar português

Disseram-me em poesia
Que já sei o suficiente para não resolver
E que tenho o cronograma perfeito para o plano não traçado
Com o conselho amigo de navegar no barco dos meus sonhos
Abaixo, ao mar...
E deixar no alto o que é para estar no alto e lá morrer
Como luz de farol
Lugar que não faz parte do real
Apenas guia

E eu que me achava mergulhadora sábia...
Hoje cometo o excesso de me afogar num mar imprevisível
Eu não sabia era nada do fundo das águas
Eu não sabia era nada sobre a forma do desconhecido
Essa maleabilidade do amor líquido

Tantos anos a treinar meus pulmões
Para, na descida ao abismo, descobrir
Que ele é muito mais escuro que eu supunha
E que a água é muito mais fria
E tudo é tão lento e largo
Que o ar não cessa
Ele silencia...

Dizem que mergulhar fundo traz sabedoria
Eu rio sempre dos axiomas tortos que derramam
As bocas que não conseguem ficar quietas
Mergulhar fundo asfixia

Mas depois que o ar se acalma nos pulmões exaustos
Não é sabedoria o que encontramos
Encontramos a nós mesmos no abismo
Como aforismo nietzschiano

Meu mar salgado é mistura de lágrima e suor
E já faz tempo me lancei além do Bojador
Mas não fui só, que só seria morte certa
Carreguei comigo as correntes burocráticas
Desejadas por lucidez – nos agarramos a tudo pela sensatez...
E vesti uma roupa nova, de espessura mais grossa
Porque eu sabia que a descida não seria passageira

E agora?
Dizem que vale a pena
Se a alma não é pequena
Por isso eu sigo navegando e mergulhando
Pois meu mar português ainda tem muito a me ensinar
Como eu tenho a ensinar a ele como navegante

Ele vem com a onda, eu venho com o leme
Ele vem com a calmaria, eu deito no convés
À noite repleta de estrelas eu grito “eu te amo”
Ao dia de tempestade, eu danço
Às vezes, quando iço a vela
Ele faz que não tem vento
Mas depois, chega com brisa e toca o barco
Para o necessário momento
Tem dias que olho para o horizonte
E lhe desafio a acordar Netuno
E seguimos assim, no cronograma incerto do futuro

Onde noivas ficarão sempre por casar...
E mães deverão chorar...
É sua sina!
Um filho já nasceu e a reza é vã
Sua estrada é luminosa
Mas entregue aos desígnios do acaso

Deus joga dados o tempo inteiro...
Mas é preciso reconhecer:
No mar, ao espelhar o céu,
Foi certeiro!

3.2.15

Para amar de verdade


para amar de verdade
é preciso antes, amar-se
nenhum mistério no que escrevo
já disse algum poeta em manuscrito
para amar de verdade
é preciso localizar o desejo
e observá-lo como a um bicho
que atravessa a estrada
na frente do nosso carro
e é preciso deixar de lado
o ciúme, o desespero
e dialogar com o apego
fazer planos pra si mesmo
e somente para si
entregar-se a deleites solitários
é preciso abandonar a memória
das promessas não cumpridas
das coisas ditas e não ditas
e as boas lembranças de cheiro
as de muito tempo e as de ontem também
abandonar até a quem se ama
deixá-lo só e por um tempo esquecê-lo
e fazer das memórias de dor
substância de renascimento do amor
porque sempre serão rima um com o outro
porque amar exige esforço
de enfrentamento do que é mais grandioso
para amar de verdade
é preciso estar disposto
a encarar os próprios medos
e se olhar no infinito do espelho
é preciso querer encontrar dentro de si
a liberdade de descobrir
que a vida só se dá a quem se entrega
a liberdade de então perceber
que um amor pode até morrer
e nos matar...
mas o amor permanece
para amar de verdade
é preciso viver a vida em prece
e de mãos dadas com o contentamento
abandonar a fama, a fome,
o orgulho, o preconceito, o lamento
e esquecer que um dia o amor feriu
porque fere mesmo, e a vida fere sempre
mesmo sem amor
e é pior sem ele...
para amar de verdade
há que se cuidar da cumplicidade
mais do que da fúria dos hormônios
e há que se atentar para a lealdade

para amar de verdade
é preciso antes entregar-se
a delícia do aconchego

daqueles do tipo
que provocam

medo