22.3.15

máquina

uma poetisa que assim se nega
embora seja tão dona das palavras
então me disse:
encare o coração como uma máquina
se ele não está funcionando direito
é porque está sobrando ou faltando alguma peça
lembre-se do nosso engenheiro sensacionista

e é a ele que dedico a minha prece:
ó grande senhor da poesia
amado mestre
que ama os navios e as engrenagens
porque eles funcionam
conceda-me, mestre, a dádiva de também amar assim
apenas aquilo que funciona como tem que funcionar
porque hoje, que se dane a poesia, o abraço
e a chuva que cai lá fora pedindo aquele corpo do meu lado
eu morreria mesmo é triturada por um motor
e não por sua rima

21.3.15

arte de viver

era um delírio quente
que me ardia a madrugada
de seiva bruta açucarada
escorria na água do chuveiro
como engrenagem tátil
encaixada no corpo retrátil
da celulose que se tramava
para escrever um novo livro

a tinta era de vinho
e diziam, tinha até sangue
aquele cheiro tórrido da última noite de verão...
tinha alfazema e lírio
tinha o delírio do suco de desejo enrolado no edredom
e o ar frio que já começa a querer deixar seu rastro
e aproximar os corpos

e era mórbido...
porque havia morte também
e nascia um elemento estranho
como que fazendo graça na minha frente
pra dizer: esquece
faz tempo a tua aurora tem mais coragem
que a coragem vazia de quem ama as tempestades
apenas nas pinturas das paredes

a arte é pra quem vive