14.2.12

poema sensorial ou da sensualidade universal


um suspiro

e eu derreto como relógio de dali

lentamente vem chegando com o ar quente
cheiro de musgo a tocar minhas narinas
como se fosse a mais bela das criaturas da natureza
e com que sensualidade a água bate na rocha
à beira da praia
em dia de profundo silêncio
esse que toca dentro de mim uma melodia doce
e um ritmo cruel
mesmo lá onde homens e mulheres ainda não estiveram
lá também o calor faz os corpos se tocarem
como calor quântico e multidimensional
sem o qual nem o cosmo nem a vida seriam possíveis
e que empresta sua bossa à valsa vascular
trazida ao ar pelo violoncelista
cujos dedos tocam as cordas
como se tocassem uma mulher de pele macia
brilhando ao sol, em dia de brisa e verão
ela, que com seus beijos não hesitaria em lançá-lo
àquele prazer profundo
que só as madrugadas permitem perceber
suave e intenso, o óbvio do mundo
como o odor do carvalho, o gosto do pão, o tanino da bebida
com seus dedos a desenhá-lo parte a parte
a deslizar sob as costas fortes e os cabelos densos
um presente sem fim e sem início
tal qual orvalho que, voluptuosamente,
escorrega pela folha ao amanhecer
e como bichos que são se amam ao sol
até que a chuva venha refrescar-lhes os corpos saciados
que poderão, então, se tornarem flor
brotar da terra molhada como fungo
e explodir em cor numa dança ao mistério do mundo
flor pólen da abelha
flor alimento do pássaro
que se deliciam e batem suas asas
para fazer valer o vento
e fazer valer a luz que a tudo penetra
essa insaciável luz que se deita à noite com o infinito
para gerar os filhos-estrelas, meteoros em colisão
choque de corpos celestes
a produzir o universo pelo tesão
lá onde a lua atiça os lobos
que uivam e copulam na floresta ardente
de pântanos quentes, cachoeiras volumosas
homens sem roupas que amam as árvores
rios que desejam ardentemente o mar
esse que reina soberano sobre a Terra
e que carregamos no DNA
casa de mamíferos libertos e seres
indecentemente coloridos
que mexe, revira, faz onda
e entra pelo nosso corpo
temperando nossa casca sensível carregada de pêlos
lambendo nossos pés na aspereza da areia
que tanto deseja nossos pés
estes que caminham
que já pequenos caminhavam
e lá dançavam com a sensualidade primeira dos humanos
e os devires sensuais todos do universo carregados em um só corpo
do verme, da lama, da folha, do bicho, da seiva, do rizoma,
da luz que cai atrás da montanha
livres
eternos
primitivos
atemporais
quando corpo era mente
e mente era desejo do corpo
e não havia o que pudesse ser negado
quando se tratava de alegria
naquele tempo sem tempo
a Terra celebrava a incrível simbiose de suas criações
e chorar não era venenoso para ela
tempo sem tempo que vive dentro de mim
onde, liberta da dor, posso estar sem necessidade de ar
sensualidade do tempo
esse, que nos seduz para o seu jogo
e torna tudo uma grande aventura dos sentidos
meditação sensória
nem apego, nem renúncia
corpo inteiro, sutil, físico, desejoso
um e diverso

2 comentários:

  1. Voce escreve como quem respira...

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  2. Que texto maravilhoso , me fez olhar para a vida em sua totalidade... gratidao.

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