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Depois das ruínas

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Sobre adentrar recônditos escuros, Espera-me, amor, Que as ruínas são nossas Para compartilharmos Da sede da reconstrução. Há um gosto amargo Lançado ao chão? Eu só vejo luminância Neste castelo repleto De teias de aranha. Cada pedaço de madeira Que despenca na dormência Dos nossos corações É o fogo-fátuo que nos desperta De uma sombria hipnose. Faz-se um clarão ao longe, No subterrâneo, E há sempre um corpo que jaz Submerso aos pedaços de ferro. Mas a luz observa à espreita. As ruínas oferecem redenção. Aprecio-as porque desbancam vaidades. Espera-me, amor! Vamos recriar a liberdade!

Não analise, celebre!

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Após o lançamento do documentário Wild Wild Country , Osho virou um dos assuntos mais comentados entre os viciados em séries da Netflix. E também nas redes sociais. Quanto a ele, as questões que fazem com que agora, de uma hora pra outra, estejam pipocando críticos ferrenhos em grau máximo de ódio, são as mesmas que motivam as brigas políticas no país, com um querendo provar estar mais certo e mais correto que o outro, enquanto a vida passa e o sistema político permanece o mesmo. Se tem uma coisa que aprendi com tudo o que cresceu em torno de Osho foi sobre o poder do coletivo para além de toda e qualquer polaridade. E muito mais. Apesar de não o defender como guru iluminado, sem dúvida, aprendi muito quando conheci sua obra e até mesmo com a sua vida totalmente disparatada. Osho é um mito contemporâneo. Foi uma das figuras mais controversas do século XX, amado e odiado no mesmo grau. Considerado um falso guru por uns, verdadeiro e iluminado para outros, desde criança manifestava in...

Se há cansaço

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Se há cansaço E uma vez vivo, haverá Há também a casa Pedaço imenso de conforto Singular Que descansa O que a lida cansa E nos convida a recuar Nessas horas pesarosas Pouca coisa importa O essencial se porta Horizonte em nobre cena Sob as folhas que balançam Plenas de sua fotossíntese Ao céu estrelado Fragmento do óbvio Que atrai o homo sapiens Desde o seu primeiro espasmo E o silêncio inquebrantável Do abraço que se ama Confortável Ruídos de grilo Ecoando na montanha Café e cama Um vinhedo antigo Lembra que o tempo É o rei soberano Se há cansaço E uma vez vivo, haverá Há também um oceano De calma e certeza De onde é preciso estar

Babel

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Minha missão É “incorrer em tautologias” Nasci errada Uso mantras diariamente Por necessidade e prazer Não sei olhar no espelho Que não seja para ver as rugas Que escalam os fossos do cérebro O azul me enerva Posto que é cor que não se soube Por muito tempo Se uso óculos Não é para melhorar a visão Toda a gente já nasce enxergando Mas esquece Minhas mãos não me entregam verdades Meu rosto menos ainda Tudo o que sei Coloco em palavras E elas não são Absolutamente nada Para ver de fato É preciso abandonar A seriedade Gosto de descascar as sombras...

Catedral

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Há tempos atrás Sonhei para nós dois Uma gótica catedral De pedras firmes E torres bem altas Para delirarmos A ilusão da eternidade Mas ervas daninhas Proliferaram  nas cabeças Dos gárgulas E no fim dos tempos O que restou Foi nada Até nos esbarrarmos Na velha cidade Sob o leito Da madrugada

Apenas de poesia

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Se eu pudesse Viveria só de poesia Encarnada na beleza E na crueldade do sutil Largaria os delírios errados As planilhas sem vida Os contratos que amarram A burocracia construída Pois amanheci desejando mergulhar No que revelam aqueles olhos Foi por pouco que não te disse, Não sei bem de que maneira, Que devias ser meu, por que não Amanheci querendo o brilho dos girassóis Dos quadros de Van Gogh na minha janela E quando eu olhasse a vida lá fora Não veria apenas os carros que passam Amanheci querendo mais a prosa de ontem O riso amigo talhado em reencontros criativos O prosecco providencial de uma noite sem fim Poética dos tempos sem tempo da paixão Amanheci querendo diluir minha alma No andantino da quarta de Tchaikovsky Ainda que o russo não rime com o português Mas amanheci e já tocava o telefone E me lembrei da moral E já era tarde para o capital Pois que lugar pode ter a poesia no tempo do trabalho Pois que lugar pode ter a poesia no tempo das conv...

As quatro estações cariocas

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A Primavera Chegada é a Primavera Se uirapuru ou sabiá que a saúda, que importa Correntezas aninham-se aos ventos que celebram pássaros E as águas correm aliviando o doce calor carioca Uma tempestade se anuncia no horizonte marítimo Trovões levantam as ondas e alegram meninos Ao seu fim, retornam as andorinhas ao Arpoador E distribuem hipnóticos cantos sob o céu azul Neste cenário de luz entre o mar e o bairro alto Ao balançar das árvores e às buzinas de carro Dorme o mendigo com um buquê de flores e o seu cão ao lado Do pastoral subúrbio ao centro festejante Dançaria Vivaldi um samba ao seu próprio furor e abrigo amado Da primavera, cuja aparência de quase verão é brilhante e austera   O verão Sob a dura estação pelo sol incendiada Lânguidos homem e cachorro, arde o meio dia Libertam as maritacas seu canto estridente Cantores correm para os teatros à refrescar a poesia Um doce vento norte se vai, e uma disputa É improvisada pelo sudoeste das viradas na ...